Objecto quase, de José Saramago
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Análise da obra
Objecto quase, publicado pela primeira vez em 1978, é uma coletânea de
seis histórias breves e tensas do escritor português José Saramago e evidenciam
as raízes do maravilhoso messe autor. Em um gênero não muito praticado por ele,
os climas são variados - podem ir do humor sarcástico ao lirismo romântico -,
os personagens também, mas algo os une intimamente: o pessimismo, onde o autor
espelhou não somente o presente, mas o futuro também. Vemos nesta obra o homem
"coisificado" e as coisas, "humanizadas"... É simplesmente o reflexo de nossa
sociedade, que se preocupa mais com a segurança dos pertences do que com o próprio
cidadão!
Neste conjunto de contos, em Objecto Quase, há quase uma sequência, onde a história do homem é
montada em painéis, que vão desde a sua alienação, com opressões internas e externas, até à sua
própria natureza, espontânea, amoral, livre: o encontro do jovem e da jovem, no final, em que o
silêncio renasce, identificado com a natureza, sobre as cinzas da palavra, que de todos os vírus se
tornou portadora.
Traduzem um capitalismo em agonia, atmosfera de fim de linha, de sociedades
em que os bens de consumo circulam às expensas da própria vida. Daí a escrita
que se move em ciclos, emulando ritmos alternados de crise e prosperidade, parodiando
a circulação também incessante, distanciada e sem sentido das mercadorias. E,
apartada do mundo, a consciência elabora sua vingança. Talvez a maior de todas
seja a linguagem, que se destina a ferir e referir as coisas a distância. Daí
o permanente poder de crítica desses escritos, capazes de fundir, com extrema
habilidade e conhecimento de causa, o poético, o político.
Em algum lugar no passado - ou seria no presente? - uma cadeira cai e em um
breve momento o destino de um homem se desfaz; um outro se vê condenado a permanecer
colado na poltrona do seu carro; um terceiro pretende reconstruir uma cidade,
livrando-a de seus mortos… Esses e outros episódios fantásticos e alegóricos,
cômicos e trágicos se encontram em uma narrativa carregada de metáforas que
tenta desesperadamente denunciar uma certa condição (des)humana à qual se submetem
o corpo e o cérebro quando esses não estão em harmonia.
Nos contos de Objecto Quase há dois grupos de protagonistas. No primeiro,
eles são o avesso do herói, quase objetos que têm a morte indigna por destino:
é o empregado que se torna vítima do próprio automóvel em “Embargo”; em “Coisas”
é o sujeito que covardemente se submete às normas do mundo; em “Refluxo” é o
rei que como Minos, antípoda de Teseu, foge à aventura heróica; em “Centauro”
é o ser dividido entre dois mundos e, por isso, sem possibilidade de transpor
mundos. No segundo grupo há a luta entre herói e vilão: em “A cadeira” – metonímia
do ditador - Salazar é derrotado por um metafórico cupim, que provoca o tombo
e a ruína do regime, trazendo um benefício para a sociedade; em “Desforrra”,
o protagonista adolescente descobre a força de Eros, ao recusar a repressão
sexual representada pela castração de um porco. Nestes casos, há uma luta e
a vitória da vida.
Personagens que não se entrelaçam em suas histórias particulares, mas partilham
de um mesmo destino: o da vingança, alimentada às escondidas, longe dos olhos
da sociedade e das condutas consideradas lícitas. Este pode ser o fio condutor
dos seis contos do livro do escritor português. A vingança funciona como motor
da trama, ainda que muitas vezes o motor se emperre no meio do caminho.
E aí entra o tônus satírico e crítico de Saramago, antigo detrator do Capitalismo,
envolvido em política e membro do Partido Comunista Português. A incompletude
dos contos é descrita no título do volume. Tais características ganham força
de texto para texto. A começar pela história que inicia o livro, "Cadeira",
a descrição de um móvel como se este pertencesse a um universo conspiratório.
E assim por diante nos outros contos: "Embargo", "Refluxo", "Coisas", "Centauro"
e "Desforra". É uma boa maneira de entrar no universo angustiante do escritor.
Com Objeto Quase, José Saramago denuncia o estado de animalização do
homem e a materialização da violência como um capítulo comum, doloroso da história
de um povo.
O autor de Objecto Quase, com a "libertinagem" da sua escrita cria potencialidades estéticas
que podem passar desapercebidas. As divagações aparentemente fortuitas estão para o episódio como um
coro para um solo: reforçam-no. O episódio adquire uma ressonância que o amplia, por ela se abrindo o
espaço para a crítica, onde o humor e a sátira engordam, pela insinuação, pela ironia, pela afirmação,
parecendo perder-se a pertinência em favor da loquacidade. A voz coloca-se numa direção para ser
ouvida numa direção oposta.
A versatilidade de Saramago (verbal, imaginativa, observadora, refletiva) leva-o às raias do
surrealismo, patente na roupagem dos "fatos", no conto "Coisas", onde os ingredientes da psicologia
patológica, individual e coletiva, e da parapsicologia, são expropriados pelas palavras, cujo objetivo,
constante no autor, é o homem, para a despir até à pele e deixá-lo nu na praça pública da história, em
confronto com a história, que o mesmo é dizer consigo próprio, o que explica a sua toada sarcástica e
a sua intenção pedagógica acerada.
COISAS
O conto "Coisas", o mais longo do livro, é uma espécie de chave para o conjunto
da obra. É uma história de ficção científica. Passa-se numa sociedade futurista,
dividida em castas. O que diferencia uma casta da outra é seu poder de consumo,
determinado por letras que as pessoas trazem tatuadas na palma da mão. Os objetos
são fabricados por um processo que lembra mais a reprodução orgânica do que
a manufatura e, de fato, são dotados de personalidades e psicologia próprias.
Esses objetos vão ficando cada vez mais temperamentais e, um dia, revoltam-se
contra as pessoas. Começam a desaparecer misteriosamente. A princípio, são pequenos
desaparecimentos, os donos não têm certeza, talvez tenham-nos apenas perdido.
Mas os sumiços vão ficando progressivamente mais acintosos, passam a acontecer
diante dos olhos de seus proprietários e em escala cada vez maior, de jarros
e relógios a edifícios inteiros que simplesmente evaporam, deixando os moradores
nus e mortos no terreno vazio. Ao final se descobre que os objetos rebeldes
eram os verdadeiros humanos, convertidos em coisas pela sociedade rigidamente
consumista:
Foi então que do bosque saíram todos os homens e mulheres que ali tinham
se escondido desde que a revolta começara, desde o primeiro oumi desaparecido.
E um deles disse:
— Agora é preciso reconstruir tudo.
E uma mulher disse:
— Não tínhamos outro remédio, quando as coisas éramos nós. Não voltarão os homens
a ser postos no lugar das coisas.
O misterioso desvanecimento dos objetos, uma vez mais, parece ter tido Marx
como inspirador:
A revolução constante da produção, os distúrbios ininterruptos de todas as
condições sociais, as incertezas e agitações permanentes distingüiram a época
burguesa de todas as anteriores. Todas as relações firmes, sólidas, com sua
série de preconceitos e opiniões antigas e veneráveis, foram varridas, todas
as novas tornaram-se antiquadas antes que pudessem ossificar. Tudo que é sólido
desmancha no ar, tudo o que é sagrado é profanado, e o homem é finalmente, compelido
a enfrentar de modo sensato suas condições reais de vida e suas relações com
seus semelhantes.
Neste conto, a cidade vai perdendo suas partes. Todas as suas materialidades,
aos poucos, somem. Uma porta não precisa ser aberta, pois ali só está presente
o vazio. Uma escada não se sobe nem se desce, porque não há pavimento superior,
e, se tal tivesse, não existiriam mais degraus para subir. Uma calçada já não
se diferencia do meio da rua, pois tudo é uma coisa só, um grande vazio. As
ruas não aparentavam grandes prejuízos, mas notava-se, na cidade, uma geral
deterioração, como se alguém tivesse andado a tirar pedacinhos aqui e além,
como fazem aos bolos as crianças... (1998, p. 87)
A cidade de Saramago, paulatinamente, se desmaterializa, transformando-se em
puro vazio. Não há mais espaço, só luz.
Onde antes havia espaço construído, agora, só o espaço do vazio.
Uma vez compreendido o ponto a partir do qual o autor fala, nos voltamos para
os outros contos e percebemos que, de um modo ou de outro, são todos presididos
por essa revolta dos objetos, homens coisificados, contra seus exploradores.
EMBARGO
No conto "Embargo", é um automóvel que adquire vida e autoconsciência, quando
motivações políticas e econômicas ameaçam privá-lo de seu sustento básico, que
é o combustível.
O embargo do petróleo traz à superfície histórica o homem como um dependente do carro, exposto que está
às dependências criadas pela civilização. O episódio, aparentemente simples, é estirado sobre o
patológico, e sob, onde um corpo se entala sem saídas, suportando as angústias de hábitos que estão
ameaçados. A dilatação verbal do simples transforma-se em tensão dramática, em problema, em crítica e
humor, numa anatomia humana em que o ridículo é bisturi. Tudo isto nos é dado por uma estrutura
narrativa que se oculta nos planos sintagmáticos e paradigmáticos da palavra, como se a narrativa,
enquanto comunicação, tivesse que subjugar-se às estruturações da palavra e não aos códigos narrativos.
Leia
na íntegra o conto EMBARGO
CADEIRA
Em "Cadeira", o móvel roído por um inseto derruba um ditador e os próprios insetos.
Neste conto identifica-se quatro componentes fundamentais da escrita do mais
recente Saramago com que vinha trabalhando ao longo do texto: a prosa barroca,
o discurso cinematográfico, a tendência a digressões e a postura comprometida.
O conto "Cadeira" é o que abre o livro e conta – guardando-se as devidas proporções
de uma ficção e sua trama alegórica – a queda acidental do ditador Salazar de
uma cadeira, fato ocorrido em 1968 e que foi (devido a impossibilidades cerebrais
causadas pelo baque) a responsável pela queda dele do governo e posterior morte
em 1970.
A narrativa contém várias citações históricas e profundamente irônicas que mostram
a posição do narrador quanto a ditadura, parece óbvia a importância de saber
que Portugal também passou por uma experiência de governo ditadorial. Ela ocorreu
em 1928, quando Salazar foi convidado para organizar as finanças de República
Portuguesa instalada em 1910. Salazar desenvolveu uma política apoiada no exército
e na Igreja, e tinha por princípio defender "a civilização cristã" dos males
da época: comunismo, internacionalismo, socialismo, etc.
A organização do Estado Novo, em 1933, seguiu as tendências fascistas: defendia
o corporativismo, combatia a democracia e a atividade parlamentar.
O trabalho com a linguagem – que faz do conto uma verdadeira discussão da pluralidade
da significação; a alegoria e a visão focal do narrador que convida o leitor
a participar do momento exato da queda devem ser considerados na leitura.
O foco inicial é a CADEIRA, seu desabamento, sua madeira acessível ao inseto
que a deteriorou por gerações, a perfeição de sua queda que acaba causando a
QUEDA da ditadura, ou seja, a influência do objeto nos destinos humanos, mais
especificamente nos destinos de Portugal. O que faz com que consideremos a faceta
histórica do conto.
A linguagem, com traços barrocos, usada por Saramago permite-se o Ludismo, as
digressões quanto as sinonímias e outros recursos de estilo, que não fazem a
história “andar”, mas embelezam a sua construção, tudo partindo da significação
de desabamento:
A cadeira começou a cair, a ir abaixo, a tombar, mas não, no rigor do termo,
a desabar. Em sentido estrito, desabar significa caírem as abas. Ora, de uma
cadeira não se dirá que tem abas, e se as tiver, por exemplo, uns apoios laterais
para os braços, dir-se-á que estão caindo os braços da cadeira e não que desabam.
Ainda na brincadeira do estilo, o narrador aproveita para mostrar sua rejeição,
que vai ser amplamente destacada, ao velho ditador:
Desabe, sim, quem nesta cadeira se sentou, ou já não sentado está, mas caíndo,
como é o caso, e o estilo aproveitará da variedade das palavras, que afinal,
nunca dizem o mesmo, por mais que se queira.
Logo depois discute o tipo de madeira que teria servido para confeccionar o
objeto, aproveitando para criticar a dizimação expansionista, uma das bandeiras
da ditadura de Salazar:
Qualquer árvore poderá ter servido, excepto o pinho por ter esgotado as virtudes
nas naus da Índia e ser hoje ordinário, a cerejeira por empenar facilmente (...)
Seja pois o mogno e não se fale mais no assunto. A não ser para acrescentar
quanto é agradável e repousante, depois de bem sentados...
Em um segundo momento, bastante destacado, será a vez de mostrar o gênero do
coleóptero que por gerações irá deteriorando a cadeira e porque não o trono,
ou ainda,a ditadura. O narrador faz várias associações dele com heróis do povo,
coincidentemente, mas nada é coincidência, heróis do oeste americano, como por
exemplo Buck Jones. Mas a principal associação é com o “nobre povo luso”, citado
até no hino do país:
Em algum lugar foi, se é consentida esta tautologia. Em algum lugar foi que
o coleóptero, pertencesse ele ao gênero Hilotrupes ou Anobium ou outro (nenhum
entomologista fez peritagem e identificação), se introduziu naquela ou noutra
qualquer parte da cadeira, de qual parte depois viajou, roendo, comendo e evacuando,
abrindo galerias ao longo dos veios mais macios, até ao sítio ideal de fractura,
quantos anos depois não se sabe, ficando porém acautelado, considerando a brevidade
da vida dos coleópteros, que muitas terão sido as gerações que se alimentaram
deste mogno até o dia da glória, nobre povo, nação valente.
O caminho do Anobium nos veios da madeira é comparado, por isso a importância
de saber que é uma representação, uma alegoria, a construção das pirâmides como
túmulos dos faráos, parece, portanto pertinente, a alusão à morte, ao fim da
ditadura e à irônia com que o narrador trata o ditador que se acha um rei.
Não estranhemos portanto que esta pirâmide chamada cadeira recuse uma vez e
outras vezes o seu destino funerário e pelo contrário todo o tempo da sua queda
venha a ser uma forma de despedida.
A ironia do narrador também se manifesta quando usa os principios ditatorais
de Salazar como a religião e a neutralidade nos conflitos para se eximir de
culpa de saber da queda e não fazer nada para evitá-la:
Enquanto vemos a cadeira cair, seria impossível não estarmos nós recebendo
esta graça, pois espectadores da queda nada fazemos nem vamos fazer para a deter
e assistimos juntos.
Depois de todas as associações do Anobium com heróis populares que derrotam
os bandidos e se aconchegam nos braços da amada, inicia-se o momento da queda,
detalhadamente descrito, quadro a quadro, com direito a parada para reflexões,
observe também o tratamento irônico dado ao ditador:
Também agora se sentou este homem velho que primeiro saiu de uma sala e a
travessou outra, depois seguiu por um corredor que poderia ser a coxia do cinema,
mas não é, é uma dependência da casa, não diremos sua, mas apenas a casa em
que vive, ou está vivendo, toda ela portanto não sua, mas sua dependência.
Mais um pouco do quadro a quadro, sempre irônico apontando os erros do governante:
Vê-a de longe o velho que se aproxima e cada vez mais de perto a vê, se é
que a vê (...) e esse é que é o seu erro, sempre o foi, não reparar nas cadeiras
em que se senta por supor que todas são de poder (...) O velho pensa que irá
descansar digamos meia hora (...) que certamente não terá paciência de ler os
papéis que traz na mão.
Mais detalhes e o comportamento de neutralidade do narrador que é estimulado
para que seja também do leitor:
Ainda não se recostou. O seu peso, mais um grama menos um grama (...) mais
vai mexer-se, mexeu-se, recostou-se no espaldar, pendeu mesmo um quase nada
para o lado frágil da cadeira. E ela parte-se (...) podemos até exercitar o
sadismo de que, como o médico e o louco, temos felizmente um pouco, de uma forma,
digamos já, passiva, só de quem vê e não conhece ou in limine rejeita obrigações
sequer só humanitárias de acudir. A este velho não.
O trecho a seguir mostra uma comparação em que fica muito clara a postura de
rejeição do narrador em relação a ditadura e seu efetivador:
Deixemos porém este pó que não é sequer enxofre, e que bem ajudaria o cenário
se o fosse, ardendo com aquela chama azulada e soltando aquele seu malcheiroso
ácido sulfuroso(...) Seria uma ótima maneira de o inferno aparecer assi como
tal, enquanto a cadeira de belzebu se parte e cai para trás arrastando consigo
Satanás, Asmodeu e legião.
A queda se consuma e teremos então os comentários sobre a ajuda que virá, mas
principalmente a comemoração de um desejo realizado:
Cai, velho, cai. Repara que neste momento tens os pés mais altos do que a
cabeça (...) A cabeça como estava previsto e cumpre as leis da física, bateu
e ressaltou um pouco, digamos, uma vez que estamos perto e outras meditações
tínhamos acabado de fazer, dois centímetros para cima e para o lado. Daqui para
a diante, a cadeira já não importa.
As comparações com a história de Portugal continuam: a morte do Conde de Andeiro
e Leonor Teles assumindo como rainha, será essa a reação da esposa? Na história
real, Salazar não morre, mas fica incapacitado a ponto de nos dois anos que
lhe restarão de vida acreditar ainda estar no poder. O narrador continua a usar
um recurso que mostra sua onisciência e onipresença, ele está lá e o leitor
na “esteira”, tem o domínio até do tempo um dos elementos da história.
Este velho não está morto. Desmaiou apenas, e nós podemos sentar-nos no chão,
de pernas cruzadas, sem nenhuma pressa, porque um segundo é um século, e antes
que aí cheguem os médicos e os maqueiros, e as hienas de calça de lista, chorando,
uma eternidade se passará.
O corte é pequeno, quase imperceptível, mas houve ruptura nos vasos interiores,
a morte já pode entrar como outro coleóptero a consumar a queda:
Uma ligeiríssima equimose, como de unha impaciente, que a raiz do cabelo
quase esconde, não parece que por aqui a morte possa entrar. Em verdade, já
lá está dentro. Que é isto? Iremos nós apiedar-nos do inimigo vencido?
A ajuda chega, a fisiologia do baque é descrita, o narrador assume uma posição
imparcial ou pelo menos indiferente ao terminar o conto, mas o tempo que virá
é o novo e não apenas uma referência ao clima.
Já se ouvem passos no corredor(...) Sobre outra superfície, a do córtice,
acumula-se o sangue derramado pelos vasos que a pancada seccionou naquele ponto
preciso da queda(...) É lá que nesse momento se encontra o Anobium, preparado
para o segundo turno(...) Vamos até a janela. Que me diz a este mês de Setembro?
Há muito tempo que não tínhamos um tempo assim.
REFLUXO
No conto "Refluxo", são definidos como objetos quase: E o mais, com exceção
talvez dos insetos, que só por metade são orgânicos (como era convicção muito
firme da ciência do país e do tempo.) Nesse mesmo conto, são os mortos que
servem de alegoria para as pessoas coisificadas, pois, o que é um cadáver senão
um homem que, privado de vida, transformou-se em coisa?
Narrada em tom de fábula, "Refluxo" é a história de um rei que não suporta ser
lembrado da existência da morte. Disposto a banir de sua vista todos os indícios
da mortalidade humana, manda construir no centro do país um gigantesco cemitério,
para onde devem ser transferidos os mortos de todos os outros cemitérios e onde
doravante realizar-se-ão os enterros. Mas, previsivelmente, o projeto fracassa.
Em torno do cemitério, desenvolve-se um intenso comércio ambulante, com toda
sorte de mercadorias (os objetos, de novo) oferecidos às pessoas que vêm se
despedir de seus entes queridos. Para abrigar os vendedores e mesmo os visitantes
que não têm como voltar a suas casas no mesmo dia, surgem hospedarias, hotéis,
casas. Logo, uma cidade ergue-se ao redor do cemitério. Mas a expansão do cemitério
invade as ruas da cidade e o sonho megalomaníaco do rei de banir a morte de
seu mundo redunda na promiscuidade entre os vivos e os mortos.
"Refluxo" é outro paradigma da escrita saramaguiana. Pelo seu "argumento", a construção de um cemitério,
não passará pela cabeça de ninguém o conteúdo desse conto. Conserva a sua natureza episódica, o sonho de
um monarca, mas as galerias abertas ao corpo da história, pela palavra, como o caruncho na madeira, dão
uma elasticidade à dimensão do conto que o transferem dos seus limites para a procriação ilimitada da
história. Tudo é inventado e tudo é verdadeiro, e neste tudo, diversificado e uno, a palavra liberta-se
do seu estaticismo referencial para se tornar por si própria dinâmica, pela acumulação de material
histórico reativado, pela simbologia quase, pela metáfora quase, pela sátira non-quase, feita a leitura
na direção do fio de prumo. Tudo é mensurável neste conto, o exposto e o oculto, o que é suscetível de
medida e o que o não é. História quase, este conto, que assim se inicia: Primeiramente, pois tudo
precisa de ter um princípio, mesmo sendo esse princípio aquele ponto de fim que dele se não pode separar,
e dizer 'não pode' não dizer 'não quer', ou 'não deve', é o estreme não poder, porque se tal separação se
pudesse, é sabido que todo o universo desabaria, porque o universo é uma construção frágil que não
aguentaria soluções de continuidade - primeiramente foram abertos os quatro caminhos.
CENTAURO
No conto "Centauro", uma nova nota é introduzida: é o desencantamento do mundo,
associado à ascensão da ordem burguesa, conceito descrito inicialmente por Max
Weber e posteriormente desenvolvido por Adorno e Horkheimer na Dialética
do Esclarecimento. Em seu projeto de dominação da natureza, dizem esses
autores, a ordem burguesa retira progressivamente todas as projeções que o homem
primitivo fizera sobre o mundo. As montanhas deixam de ser moradia de deuses,
as florestas perdem seus duendes, os mares não têm mais sereias. Saudado pela
ideologia iluminista como um avanço do conhecimento sobre a superstição, esse
desencantamento do mundo obedece a um imperativo preciso: o de tornar a natureza
acessível à exploração humana. Para que as florestas sejam derrubadas, por exemplo,
é preciso que elas sejam vistas como simples objetos (ei-los de novo, os objetos)
e não como o lar de espíritos encantados aos quais se deve respeito. O mundo
converte-se, dessa forma, em simples reservatório de matéria prima que o homem
pode explorar como bem entender.
É essa a situação retratada no conto de Saramago. Seu personagem é o último
centauro, que sobrevive escondido há milhares de anos e observa como, uma a
uma, as criaturas fantásticas como ele mesmo vão sendo destruídas pelo homem,
ao mesmo tempo em que os deuses retiram-se da Terra para se refugiar em alturas
inacessíveis. Como não podia deixar de ser, chega o dia em que o próprio centauro
deve morrer. Depois de seqüestrar uma mulher num frenesi erótico, sua existência
é revelada ao mundo e o centauro torna-se um fato da mídia. Já não pode mais
se esconder. Os homens o caçam, talvez para transformá-lo em espetáculo, talvez
em cobaia. Por isso, querem-no vivo: Naquela noite, todo o país soube da
existência do centauro. O que primeiro se julgara ser uma história inventa-da
do outro lado da fronteira com intenção de desfrute, tinha agora testemunhas
de fé, entre as quais uma mulher que tremia e chorava. Enquanto o centauro atravessava
esta outra montanha, saía gente das aldeias e das cidades, com redes e cordas,
também com armas de fogo, mas só para assustar. É preciso apanhá-lo vivo, dizia-se.
O exército também se pôs em movimento. Aguardava-se o nascer do dia para que
os helicópteros levantassem vôo e percorressem toda a região. Encurralado,
o centauro despenca de um penhasco na tentativa de fuga e cai sobre uma pedra
pontiaguda que o corta ao meio, separando o homem e o cavalo. É assim que, cindido
em dois, dividido, o centauro se torna, ele também, um objeto quase, quase um
homem: Então olhou seu corpo. O sangue corria. Metade de um homem. Um homem.
E viu que os deuses se aproximavam. Era tempo de morrer.
O centauro é cavalo e é homem, é força e é sensibilidade, perseguido pelos deuses e pelos homens, até
à morte na consciência dos olhos destes. Morte que nos deixa uma recordação amarga, pelo contraste com
o amor, manifestado pelo homem-animal em duas páginas poéticas, em que a poesia não é a palavra, mas o
acontecimento em si.
Leia
o conto CENTAURO na íntegra
DESFORRA
Em "Desforra", último conto do livro, abre-se uma nota de esperança. A dominação
da natureza é representada agora por uma cena brutal e chocante, em que um porco
é castrado por homens que se deliciam em lhe dar de comer seus próprios testículos.
Mas essa violência é contraposta a uma cena idílica em que, depois de verem
uma rã mergulhar subitamente na água, como no célebre haikai de Bashô, um rapaz
e uma moça reafirmam a capacidade humana de amar que, nem por negada na sociedade
predatória em que vivemos, deixa de existir: Círculos que se alargavam e
perdiam na superfície calma, mostravam o lugar onde enfim a rã mergulhara. Então,
o rapaz meteu-se à água e nadou para a outra margem, enquanto o vulto branco
e nu da rapariga recuava para a penumbra dos ramos.
"Desforra", apenas com três páginas, é a afirmação do amor, despido até à simplicidade da natureza, em
contraste com a castração - a "desforra".