A senhorita Simpson (Conto), de Sérgio Sant'Anna
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A narrativa A Senhorita Simpson, de Sérgio Sant'Anna, foi publicada
em 1989. A obra serviu de inspiração para o cineasta Bruno Barreto
produzir "Bossa Nova", filme lançado em 2000.
O assunto deste conto envolve o choque de valores que se dá entre a
puritana protagonista, que parece ter saído das páginas do romancista
americano Henry James, e a burguesia carioca com quem convive nas aulas de inglês
que ministra em Copacabana.
Em A Senhorita Simpson o ponto de partida é um cursinho de
inglês, o Piccadilly, que serve como motivo principal para a narrativa.
As inter-relações vitais para o enredo vão surgindo como
decorrência dos encontros noturnos para as aulas, tendo como narrador-protagonista
Pedro Paulo Silva, um dos alunos da turma, 29 anos, funcionário-público
no Tribunal de Justiça, separado da mulher, um casal de filhos, habitando
sozinho um pequeno apartamento na Prado Júnior e profundamente envolvido
com uma dependência por Valium, como soporífero, e por mulheres,
como carência de afeto. De certa forma sugerindo em tom de paródia
o tipo romântico: a crise existêncial, uma espécie de obsessão
pelo encontro intermeada por um ligeiro temor, a fuga das responsabilidades
'morais' e a fragilidade das relações não duradoura.
A narrativa sugere um pequeno espaço brasileiro, essencialmente urbano:
a zona sul da cidade do Rio de Janeiro, Copacabana, a classe-média, o
inglês como língua de mercado e da moda, a mulher no trabalho,
a separação conjugal, o misticismo oriental e a utopia da trilha
pela Bolívia e Peru rumo a Cuzco e Machu-Pichu (roteiro seguido por tantos
jovens da época). Tudo isto trabalhado com muita ironia e consciência
crítica sobre o ato de narrar, por parte de um autor que certamente esteve
no contexto, olhando desconfiado para alguns modelos, apreciando o sabor e a
possibilidade do encontro e parecendo ter nunca se submetido ao vício.
Assim, mantendo-se fora do interior da narrativa, Sérgio Sant'Anna distancia-se
do mundo de seu protagonista, não se identifica enquanto narrador e através
da alteridade transfere para a personagem a vivência da história
(em seu duplo sentido: ficção e experiências do passado).
A intertextualidade metaficcional enquanto reflexividade consciente do papel
da ficção na contemporaneidade, é feita através
do 'pastiche' em relação às histórias do gênero
"meu tipo inesquecível", que aparecem na "Seleções
do Reader's Digest", conforme apresentação feita na epígrafe
da obra. E esse roteiro problematizador confunde-se com a própria narração
enquanto técnica e modo de compor a narrativa. Como característica
pós-modernista, no entanto, em tomo de uma superposição
crítica e paródica, ficcional e historiográfica, Sérgio
Sant'Anna procura reconstituir o estilo (gênero) ao invés da sensibilidade
compositiva mais do que sob uma conceituação estética que
privilegie o contexto puramente ideológico do discurso.
O gênero "meu tipo inesquecível" instala-se
na figura de Miss Simpson, faixa etária dos 40, sobrevivente de Woodstock,
professorinha de inglês no Picadilly e que por um instante se converte
na mãe desejada no auxílio geral e no sexo. E aqui também,
como em toda história do gênero, aparece um final de "agradeço
por tê-lo(a) conhecido", em deferência à importância
da personagem narrada para a vida de quem com ele(a), de algum modo, um dia
conviveu. Para o protagonista Pedro Paulo Silva, trata-se de Miss Simpson, que
"lhe restará sempre na memória" enquanto forma de encontro
necessário e vital.
Assim, como técnica de narração, o tema e o enredo parecem
juntar-se enquanto arranjo de linguagem e artificio cênico da mera banalidade
do ato de viver: a linguagem é simples, objetivando uma aceitabilidade
fácil e sugerindo o efeito comum de representação da vida
enquanto dissolução do cânone maior. Ao mesmo tempo, no
entanto, realçando o caráter da importância do fato para
o narrador que tem na vivência do texto elaborado um motivo a mais para
viver. Como pretexto de ter o que contar e lembrar. Não importa que quem
narre seja deveras um escritor (no sentido de autor em alto grau), mas um narrador
cônscio da sua própria fragilidade, um que se identifica (ou pelo
menos pode fazê-lo) com tantos outros que pretendem também participar
da ação de terem um dia narrado. Desta forma, vivência e
ficção se confundem já que o gênero "meu tipo
inesquecível" reproduz a verossimilhança com o vivido. E
diante da extinção na contemporaneidade da experiência de
narrar", quando o ser humano está diluído no meio da multidão
e se torna presa fácil da tecnologia, as vivências históricas
(não mais experiências propriamente)" tornam-se ocasionais,
dissolvidas nos fragmentos colhidos pelos meios de comunicação
de massa. Este é o lugar da narrativas do gênero "meu tipo
inesquecível": um último refúgio que possibilite às
gerações terem ainda o que e onde contar.
O ponto de vista do narrador não é onisciente. Ele não
mergulha na vida das demais personagens, que só se formam enquanto incursão
cotidiana de relacionamento. Personagens opacas, portanto, sem aprofundamento
psicológico. Apresentadas não em si mesmas, mas em relação
às demais. Delas só se conhecem as superficialidades que estão
presentes no contexto da ação. O próprio Pedro Paulo Silva
é construído a partir de migalhas: pequenos detalhes aqui e ali.
Assim, através de uma sugestão cênica fragmentada em episódios,
o leitor vai se apropriando aos poucos de todo o enredo, o qual também
é desprovido de profundeza. E as inter-relações pessoais
no contexto da obra se esgotam rápido e fácil. O Piccadilly é
quase que o único local de encontro. Nele os alunos da turma de Miss
Simpson (sete no total) se conhecem e se entretêm como se fossem jovens
adolescentes, possivelmente como um pretexto para o rompimento com o estado
diurno do trabalho. As aulas noturnas de inglês funcionam, assim, como
um espaço lúdico: próprio para o relaxamento e a desrepressão.
Brincadeiras acontecem, num constante passar de bilhetinhos em classe, além
das gozações mútuas.
Evidente que a trama maior se dá em tomo do narrador e protagonista
Pedro Paulo Silva: seu relacionamento remoto com a ex-esposa Antonieta; sua
visita ocasional aos filhos quando lhes conta estórias inventadas; seu
ligeiro contato com o pai e amigo advogado, alcoólatra e depois suicida,
que vive com a quarta mulher, Maria de Fátima (nome artístico:
Mara Regina), num apartamento em Laranjeiras; seu distanciamento da mãe
agora casada "com um joalheiro careca e chatísismo";
seu encontro com o misterioso e suspeito Wan-Kim-Lau chinês, amigo de
Antonieta, impregnado com a sabedoria oriental e professor de tai-chi-chuan
numa academia; sua dependência por Valium antes de dormir e seu infatigável
apetite sexual por mulheres movido por uma espécie de descontrole emocional
baseado no desejo de livrar-se do tédio.
Em forma de flashes momentâneos, a ação e o cenário
vão se compondo, quando a narrativa se propõe a realçar
a similitude com as histórias do gênero "meu tipo inesquecível".
Assim, o estilo é claro, sem maior ostentação retórica
e técnica, a não ser pelo recurso utilizado na passagem em que
Pedro Paulo Silva conta para o Gordo sua transa com Ana e o autor sobrepõe
simultaneamente e de modo engenhoso três focos narrativos diversos. Também
algumas frases de efeito aparecem: "A gente sempre morre antes da última
dose" (deixada pelo pai suicida dentro de uma "garrafa quase
vazia", antes de se matar); "meu reflexo de passageiro da
vida no espelho" (em conotação com a contemporaneidade);
"a fragrância de um perfume na memória" (parecendo
Marcel Proust); "o alvorecer das utopias" (em analogia ao
sonho hippie); "A história se repetia como comédia; esperava-se
que não se repetisse como tragédia" (parodiando Karl
Marx).
No interior da narrativa uma proposta intertextual aparece enquanto uso constante
de um inglês básico, que aqui e ali postula do leitor um mínimo
de domínio. E esse cruzamento interlinguístico deriva do Picadilly,
onde, através de Miss Simpson, Pedro Paulo Silva e o resto da turma preenchem
o vazio de suas próprias histórias com as aventuras vividas pelos
Dickinsons, Harrisons e Jones, personagens de uma outra história; o livro
didático utilizado.
Por outro lado, as questões sociais e políticas são abandonadas
ou, no mais, deixadas à imaginação do leitor enquanto apelo
irônico; como exemplo, o episódio da greve no Piccadilly, ironizando
maio de 68 e o movimento político brasileiro pós-64. O Matoso,
um dos alunos da turma, é pego fumando marijuana no banheiro
da escola e um ruidoso Mr. Higgins, o diretor, pretende expulsá-lo pois,
embora fosse uma droga leve e que "se disseminara por todas as escolas",
conforme argumentara Miss Simpson assumindo a defesa dos alunos, em "-
Escolas só de inglês, não -", receoso de que "se
aquilo se tomasse um hábito", "o nome do Piccadilly
(...) iria por água abaixo". Como se fosse um
'É proibido proibir' a greve então é proposta. No entanto
não acontece; Miss Simpson convence o diretor.
Mas, tem-se a alusão a "um marco histórico no movimento
estudantil", ao "dinheiro da CIA no negócio";
o eco das "palavras liberty and democracy" e a ovação
para que o protagonista Pedro Paulo Silva seja elevado à categoria de
"líder revolucionário". A ironia se faz presente,
então, de forma completa: em seu caráter ideológico contraditório,
já que estabelece um vínculo com a história ao mesmo tempo
em que sugere o tema como um passado perdido. Assim, o que ocorrera em termos
reais até em desprendimento (enquanto abnegação = sacrifício
dos próprios interesses em beneficio de uma causa maior) torna-se agora
fragmentos do passado, memória apenas de uma vivência de se 'ter
ouvido falar'.
A partir dessa analogia intertextual entre o passado e o presente, entre a
novela e as histórias do gênero "meu tipo inesquecível",
percebe-se na composição cênica de A Senhorita Simpson
a vida aparecendo como o grande intertexto. Já não mais em torno
de um 'eu' utópico, indivisível e potente enquanto projeto "liberal
humanista", mas de um 'eu' fragmentado e, de repente, se vê no vazio.
Vale, então, a lembrança de 'roteiros', não mais como um
enredo coeso em tomo de um princípio, um meio e um fim. Mas, enquanto
possibilidade de apego a um presente de imagens meio-ambientais (natureza -
indivíduo(s) - objetos) que se arranja ou se compõe como ajuntamento
de estilhaços visuais: como "um tremendo pôr-do-sol sobre
o mar de Copacabana", a "porta pantográfica"
do elevador, ou os "reflexos luminosos que estampavam tonalidades fantasmagóricas
na pele de Miss Simpson".
O arranjo cênico então sugere 'os olhos a se alimentarem de luz',
fixos na possibilidade que o meio-ambiente oferece, uma vez que o passado virou
migalhas e já não há mais experiências reais para
se narrar: somente vivências ou lembranças momentâneas. Neste
ponto, a intertextualidade entre ficção e historiografia propõe
a reflexão de que todo o jogo político do passado foi apenas um
modo de constructo ideológico enquanto jogo de poder. E a identidade
histórica torna-se qualidade apenas narrativa, na arte da composição.
Para Pedro Paulo Silva, esse recurso significa procurar a lembrança de
seu 'tipo inesquecível' e, conforme sugere Walter Benjamin, "começar
tudo de novo", "contentar-se com pouco", operando
"a partir de uma tábula rase'. E ele assim faz: fura uma
das orelhas para "colocar nela um brinco dourado" e ao completar
30 anos estará deixando para trás não a sua juventude,
mas a sua velhice, rumo à Bolívia, Peru, Cuzco e Machu-Pichu.
A senhorita Simpson é o exemplo da terceira fase do autor,
onde continua fazendo exercícios metalinguísticos, mas os subordina
ironicamente à história que conta. A obra transgride as próprias
"convenções" do autor: o diálogo é ágil,
mais "realista", sem as massas verbais típicas da sua representação
do mundo; há uma nitidez, uma luminosidade que atravessa a narrativa
inteira; e, o mais significativo, no final da novela encontramos um dos raros
momentos em que o narrador, com simplicidade, endossa o ponto de vista de seu
personagem, entregando-se ao texto sem atravessá-lo de ironia: "Aos
trinta anos, eu estaria deixando para trás não a minha juventude,
mas a minha velhice".
Créditos: Carlos Eduardo Vieira de Figueiredo, Mestre em Literatura
Brasileira, UFSC