Memórias do Cárcere, de Graciliano Ramos
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Graciliano Ramos foi preso em março de 1936, acusado de
ligação com o Partido Comunista. Prisão sem processo, mas que não evitou a
deportação do acusado, num porão de navio, para o Rio, onde permaneceu
encarcerado. Foi demitido do cargo de Diretor da Instrução Pública e levado a
diversos presídios, até Janeiro de 1937, quando foi libertado. Dessa experiência
resultou a obra Memórias do Cárcere, publicada postumamente em 1953. A
obra não é o relato puro e simples do sofrimento e humilhações do homem
Graciliano Ramos; é a análise da prepotência que marcou a ditadura Vargas e que,
em última análise, marca qualquer ditadura. É um dos depoimentos mais tensos da
literatura brasileira.
Escrito em quatro volumes (sem o capítulo final, pois
Graciliano faleceu antes de concluí-lo), Memórias do Cárcere narra
acontecimentos da vida de Graciliano Ramos e de outras pessoas que estiveram
presas durante o Estado Novo. A narrativa é amarga, mas sem exageros ou
invenções, nessa obra Graciliano Ramos é fiel aos acontecimentos. Se há
amarguras e sordidez, é porque as situações vividas foram sórdidas e
amarguradas.
A narrativa de Graciliano Ramos, pela
exposição de motivos contida no capítulo de abertura da obra, dá ao texto uma
autenticidade autobiográfica, sobretudo se a ela somarmos a “explicação final”
de Ricardo Ramos, na qual ficam esclarecidas as dificuldades que impediram o
autor de dar definitivamente o texto por concluído. Essa narrativa,
característica do relato autobiográfico, oferece a típica junção
autor-narrador-personagem, sendo possível percebê-la como resultado da
experiência vivida, o que aproxima Graciliano Ramos da noção de narrador
clássico.
A autoridade do narrador clássico é
referendada pela perspectiva da morte, conforme se percebe já no início do
texto: “... estou a descer para a cova...”. A morte, para o filósofo alemão,
confere autoridade, pois é nesse momento que o saber humano assume uma força
maior, tornando imperativa a sua transmissão. O narrador clássico sabe dar
conselhos. Narra porque tem experiência de vida, e é essa experiência que lhe dá
sabedoria. A obra do escritor alagoano, ao fazer uso da forma autobiográfica, ao
falar de si mesmo, intencionalmente mistura a sua voz a outras, até então
silenciadas, contrariando assim a perspectiva natural desse tipo de relato.
Memórias do Cárcere é o testemunho da realidade nua e
crua de quem, sem saber por quê, viveu em porões imundos, sofreu com torturas e
privações provocadas por um regime ditatorial chamado de Estado Novo.
Na obra Graciliano Ramos não diz diretamente que se sente
injustiçado, embora o tenha sido e isso se explicita no próprio texto. Não fica
insistindo que não deveria estar naquelas situações, isso faz com que a
indignação do leitor não fique restrita às suas histórias particulares, mas se
direcione a situações vivenciadas por muitas pessoas. O que o autor retrata, e é
o que mais interessa em Memórias do Cárcere, é um olhar de quem foi
preso, algo que é muito mais abrangente do que se fixar no olhar do narrador.
O discurso, regido pela égide da opressão, é caracterizado
pelo desdobramento: pois é psicológico, e, ao mesmo tempo, um documentário; é
particular, mas universaliza-se.
Trecho da obra
“O mundo se tornava fascista. Num mundo assim, que futuro
nos reservariam? Provavelmente não havia lugar para nós, éramos fantasmas,
rolaríamos de cárcere em cárcere, findaríamos num campo de concentração. Nenhuma
utilidade representávamos na ordem nova. Se nos largassem, vagaríamos tristes,
inofensivos e desocupados, farrapos vivos, fantasmas prematuros; desejaríamos
enlouquecer, recolhermo-nos ao hospício ou ter coragem de amarrar uma corda ao
pescoço e dar o mergulho decisivo. Essas idéias, repetidas, vexavam-me; tanto me
embrenhara nelas que me sentia inteiramente perdido.”