Negrinha (Livro), de Monteiro Lobato
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Negrinha, publicado em 1920, segundo os especialistas em Monteiro Lobato,
reúne o melhor em sua obra de literatura não-infantil. São vinte e dois contos,
alguns são de sua fase atormentada, antes de viajar aos Estados Unidos.
"Negrinha", "O Jardineiro Timoteo", "O colocador de pronomes" e a obra-prima,
"A facada imortal", que foi escrita em seu regresso, são alguns deles. Inclui
ainda os contos "Os pequeninos" e "O fisco".
Os contos abordam tragédias, ódio e romantismo.
O tema de "A facada mortal" é simples: uma facada que Indalício deu em seu companheiro
de roda, Raul. A abordagem baseada na psicologia do "mordedor" se reveste em uma de
narrativa primorosa. O conto foi escrito por uma razão sentimental, para dar alegria
a Raul de Freitas, seu amigo doente, personificado em Raul. Raul de Freitas recebeu
o trabalho de Lobato como morfina para suas aflições de saúde.
No conto "Os pequeninos" o personagem se sente aprendiz da dolorosa vida sangrenta
dos animais selvagens por ter calado a voz interior, que lhe ditava tolas lembranças
do passado, e ter aberto o ouvido agudo e curiosíssimo para ouvir as peripécias
duma estória original contada por um desconhecido.
Em "O Fisco" o narrador elabora sucessivas comparações entre o organismo humano e
a vida na cidade. A rua é a artéria; os passantes, o sangue. O desordeiro, o bêbado
e o gatuno são os micróbios maléficos, perturbadores do ritmo circulatório determinado
pelo trabalho, em particular dos imigrantes italianos. O soldado de polícia é o
glóbulo branco — o fagocito de Metchenikoff. E continua o conto: "Mal se
congestiona o tráfego pela ação anti-social do desordeiro, o fagocito move-se,
caminha, corre, cai a fundo sobre o mau elemento e arrasta-o para o xadrez."
O conto "O colocador de pronomes" ilustra muito bem o desinteresse e o desapego
de Lobato quanto ao rigor gramatical.
Conto NEGRINHA
"Negrinha" é uma narrativa em terceira pessoa, impregnada de uma carga emocional
muito forte. Sem dúvida alguma é conto invejável: "Negrinha era uma pobre órfã de
sete anos. Preta? Não; fusca, mulatinha escura, de cabelos ruços e olhos
assustados. Nascera na senzala, de mãe escrava, e seus primeiros anos vivera-os
pelos cantos escuros da cozinha, sobre velha esteira e trapos imundos. Sempre
escondida, que a patroa não gostava de crianças."
D. Inácia era viúva sem filhos e não suportava choro de crianças. Se Negrinha,
bebezinho, chorava nos braços da mãe, a mulher gritava: "Quem é a peste que
está chorando aí?" A mãe, desesperada, abafava o choro do bebê, e afastando-se
com ela para os fundos da casa, torcia-lhe belicões desesperados. O choro não
era sem razão: era fome, era frio: "Assim cresceu Negrinha magra, atrofiada,
com os olhos eternamente assustados. Órfã aos quatro anos, por ali ficou feito
gato sem dono, levada a pontapés. Não compreendia a idéia dos grandes. Batiam-lhe
sempre, por ação ou omissão. A mesma coisa, o mesmo ato, a mesma palavra,
provocava ora risadas, ora castigos. Aprendeu a andar, mas quase não andava. Com
pretexto de que às soltas reinaria no quintal, estragando as plantas, a boa
senhora punha-a na sala, ao pé de si, num desvão da porta. - Sentadinha aí e bico,
hein?" Ela ficava imóvel, a coitadinha. Seu único divertimento era ver o cuco sair
do relógio, de hora em hora.
Ensinaram Negrinha a fazer crochê e lá ficava ela espichando trancinhas sem fim...
Nunca tivera uma palavra sequer de carinho e os apelidos que lhe davam eram os mais
diversos: pestinha, diabo, coruja, barata descascada, bruxa, pata choca, pinto
gorado, mosca morta, sujeira, bisca, trapo, cachorrinha, coisa ruim, lixo. Foi
chamada bubônica, por causa da peste que grassava... "O corpo de Negrinha era
tatuado de sinais, cicatrizes, vergões. Batiam nele todos os dias, houvesse ou
não houvesse motivo. Sua pobre carne exercia para os cascudos, cocres e belicões
a mesma atração que o ímã exerce para o aço. Mãos em cujos nós de dedos comichasse
um cocre, era mão que se descarregaria dos fluidos em sua cabeça. De passagem.
Coisa de rir e ver a careta..."
D. Inácia era má demais e apesar da Abolição já ter sido proclamada, conservava
em casa Negrinha para aliviar-se com "uma boa roda de cocres bem fincados!..."
Uma criada furtou um pedaço de carne ao prato de Negrinha e a menina xingou-a
com os mesmos nomes com os quais a xingavam todos os dias. Sabendo do caso, D.
Inácia tomou providências: mandou cozinhar um ovo e, tirando-o da água fervente,
colocou-o na boca da menina. Não bastasse isso, amordaçou-a com as mãos, o
urro abafado da menina saindo pelo nariz... O padre chegava naquele instante e
D. Inácia fala com ele sobre o quanto cansa ser caridosa...
Em um certo dezembro, vieram passar as férias na fazenda duas sobrinhas de D.
Inácia: lindas, reconchudas, louras, "criadas em ninho de plumas." E negrinha
viu-as irromperem pela sala, saltitantes e felizes, viu também Inácia sorrir
quando as via brincar. Negrinha arregalava os olhos: havia um cavalinho de pau,
uma boneca loura, de louça. Interrogada se nunca havia visto uma boneca, a
menina disse que não... e pôde, então, pegar aquele serzinho angelical : "E
muito sem jeito, como quem pega o Senhor Menino, sorria para ela e para as
meninas, com assustados relanços d'olhos para a porta. Fora de si,
literalmente..." Teve medo quando viu a patroa, mas D. Inácia, diante da
surpresa das meninas que mal acreditavam que Negrinha nunca tivesse visto
uma boneca, deixou-a em paz, permitiu que ela brincasse também no jardim.
Negrinha tomou consciência do mundo e da alegria, deixara de ser uma coisa humana,
vibrava e sentia. Mas se foram as meninas, a boneca também se foi e a casa caiu
na mesmice de sempre. Sabedora do que tinha sido a vida, a alma desabrochada,
Negrinha caiu em tristeza profunda e morreu, assim, de repente: "Morreu na esteirinha
rota, abandonada de todos, como um gato sem dono. Jamais, entretanto, ninguém
morreu com maior beleza. O delírio rodeou-a de bonecas, todas louras, de olhos azuis.
E de anjos..."
No final da narrativa, o narrador nos alerta: "E de Negrinha ficaram no mundo
apenas duas impressões. Uma cômica, na memória das meninas ricas. - "Lembras-te
daquela bobinha da titia, que nunca vira boneca?" Outra de saudade, no nó dos
dedos de dona Inácia: - "Como era boa para um cocre!..."
É interessante considerar aqui algumas coisas: em primeiro lugar o tema da
caridade azeda e má, que cria infortúnio para os dela protegidos, um dos
temas recorrentes de Monteiro Lobato; o segundo aspecto que poderia ser observado
é o fenômeno da epifania, a revelação que, inesperadamente, atinge os seres,
mostrando-lhes o mundo e seu esplendor. A partir daí, tais criaturas sucumbem,
tal qual Negrinha o fez. Ter estado anos a fio a desconhecer o riso e a graça
da existência, sentada ao pé da patroa má, das criaturas perversas, nos cantos
da cozinha ou da sala, deram a Negrinha a condição de bicho-gente que suportava
beliscões e palavrórios, mas a partir do instante em que a boneca aparece, sua
vida muda. É a epifania que se realiza, mostrando-lhe o mundo do riso e das
brincadeiras infantis das quais Negrinha poderia fazer parte, se não houvesse
a perversidade das criaturas. É aí que adoece e morre, preferindo ausentar-se
do mundo a continuar seus dias sem esperança.