200 Crônicas Escolhidas, de Rubens Braga
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200 Crônicas Escolhidas é uma reunião dos melhores textos produzidos por
Rubem Braga entre 1935 e 1977. A escolha das crônicas foi feita pelo próprio
autor, com base na seleção original do amigo Fernando Sabino. Com uma linguagem
sensível e poética, Rubem Braga capta flagrantes da vida cotidiana que ele
próprio viveu ou testemunhou, abordando assuntos de seu cotidiano, de sua
infância e mocidade.
Rubem Braga é o único escritor que conquistou um lugar
definitivo em nossa literatura exclusivamente como cronista, escrevendo para
revistas e jornais. Em todos os seus textos pressente-se um grande amor à vida,
que torna a leitura irresistível.
Nos textos da obra, Rubem Braga se distancia da linguagem
jornalística típica por sua visada subjetiva, concretizada na recorrência do
discurso em primeira pessoa.
A variedade de tons perceptível nos vários textos de 200
Crônicas Escolhidas deve-se à versatilidade da crônica, que admite tanto a
confissão quanto a reportagem, o lirismo como o drama.
Através de suas crônicas
compreendemos que o autor não mostra interesse pelas coisas nascidas na terra,
quinquilharias.
Texto escolhido:
Passeio
à infância
Primeiro vamos lá embaixo no córrego;
pegamos dois pequenos carás dourados. E como faz calor, veja, os lagostins saem
da toca. Quer ir de batelão, na ilha, comer ingá? Ou vamos ficar bestando nessa
areia onde o sol dourado atravessa a água rasa? Não catemos pedrinhas redondas
para a atiradeira, porque é urgente subir no morro; os sanhaços estão bicando os
cajus maduros. É janeiro, grande mês de janeiro!
Podemos cortar folhas de pita, ir para o
outro lado do morro e descer escorregando no capim até a beira do açude. Com
dois paus de pita, faremos uma balsa, e, como o carnaval é no mês que vem, vamos
apanhar tabatinga para fazer fôrmas de máscaras. Ou então vamos jogar
bola-preta: do outro lado do jardim tem pé de saboneteira. Se quiser, vamos.
Converta-se, bela mulher estranha, numa simples menina de pernas magras e vamos
passear nessa infância de uma terra longe. É verdade que jamais comeu angu de
fundo de panela?
Bem pouca coisa eu sei: mas tudo que sei
lhe ensino. Estaremos debaixo da goiabeira; eu cortarei uma forquilha com o
canivete. Mas não consigo imaginá-la assim; talvez se na praia ainda houver
pitangueiras... Havia pitangueiras na praia? Tenho uma idéia vaga de
pitangueiras junto à praia. Iremos catar conchas cor-de-rosa e búzios crespos,
ou armar o alçapão junto do brejo para pegar papa-capim. Quer? Agora devem ser
três horas da tarde, as galinhas lá fora estão cacarejando de sono, você gosta
de fruta-pão amassada com manteiga? Eu lhe dou aipim ainda quente com melado.
Talvez você fosse como aquela menina rica, de fora, que achou horroroso o nosso
pobre doce de abóbora e coco.
Mas eu a levarei para a beira do
ribeirão, na sombra fria do bambual; ali pescarei piaus. Há rolinhas. Ou então
ir descendo o rio numa canoa bem devagar e de repete dar um galope na
correnteza, passando rente à pedras, como se a canoa fosse um cavalo solto. Ou
nadar mar afora até não poder mais e depois virar e ficar olhando as nuvens
brancas. Bem pouca coisa eu sei; os outros meninos riram de mim porque cortei
uma iba de assa-peixe. Lembro-me que vi o ladrão morrer afogado com os soldados
de canoa dando tiros, e havia uma mulher do outro lado do rio gritando.
Mas como eu poderia, mulher estranha,
convertê-la em menina para subir comigo pela capoeira? Uma vez vi uma urutu
junto de um tronco queimado; e me lembro de muitas meninas. Tinha que era para
mim uma adoração. Ah, paixão de infância, paixão que não amarga. Assim eu queria
gostar de você, mulher estranha que ora venho conhecer, homem maduro. Homem
maduro, ido e vivido; mas quando a olhei, você estava distraída, meus olhos eram
outra vez os encantados olhos daquele menino feio do segundo ano primário que
quase não tinha coragem de olhar a menina um pouco mais alta da ponta direita do
banco.
Adoração de infância. Ao menos você
conhece um passarinho chamado saíra? É um passarinho miúdo: imagine uma saíra
grande que de súbito aparecesse a um menino que só tivesse visto coleiros e
curiós, ou pobres cambaxirras. Imagine um arco-íres visto na mais remota
infância, sobre os morros e o rio. O menino da roça que pela primeira vez vê as
algas do mar se balançando sob a onda clara, junto a pedra.
Ardente da mais pura paixão de beleza é
a adoração de infância. Na minha adolescência você seria uma tortura. Quero
levá-la para a meninice. Bem pouca coisa eu sei; uma vez na fazenda riram: ele
não sabe nem passar um barbicacho! Mas o que eu sei lhe ensino; são pequenas
coisas de mato e de água, são humildes coisas, e você é tão bela e estranha!
Inutilmente tento convertê-la em menina de pernas magras, o joelho ralado, um
pouco de lama seca do brejo no meio dos dedos dos pés.
Linda como a areia que a onda ondeou.
Saíra grande! Na adolescência me torturaria; mas sou um homem maduro. Ainda
assim às vezes é como um bando de sanhaços bicando cajus de meu cajueiro, um
cardume de peixes dourados avançando, saltando ao sol, na piracema; um bambual
com sombra fria, onde ouvi silvo de cobra e eu quisera tanto dormir. tanto
dormir! preciso de um sossego na beira do rio, com remanso, com cigarras. Mas
você é como se houvesse demasiadas cigarras cantando numa pobre tarde de homem.