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Paulicéia Desvairada, de Mário de Andrade

  • Data de publicação

Publicado em 1922, Paulicéia Desvairada, cujo Prefácio Interessantíssimo lança as bases estéticas do Modernismo. Inspirada na análise da cidade de São Paulo e seu provincianismo, a obra marca o rompimento definitivo do autor com todas as estruturas do passado. É do primeiro livro de poemas modernista, cuja "confecção tumultuária" Mário de Andrade descreveria muitos anos depois na famosa conferência de 1942 sobre o movimento que transformaria o panorama das artes no Brasil. Mário de Andrade definiu o livro como “áspero de insulto, gargalhante de ironia”, com “versos de sofrimento e de revolta”.

O Prefácio Interessantíssimo vale como verdadeiro manifesto-programa do Modernismo brasileiro, uma plataforma teórica, que será retomada e aprofundada pelo próprio Mário de Andrade em A escrava que Não é Isaura (1924). É onde expõe suas idéias a respeito de poesia e declara ter fundado o desvairismo.

Nessa poética aberta, há afinidades com a teoria da escrita automática, que os surrealistas pregavam como forma de liberar as zonas noturnas do psiquismo, o ditado do inconsciente. Ao lado dessa entrega lírica às matizes pré-conscientes da linguagem, o Prefácio mostra a admiração da experiência cubista, que, por meio da deformação abstrata, rompe os moldes pseudo­clássicos da arte acadêmica. O “Prefácio” não fica nestas generalidades, há uma descrição dos processos de estilo que conferem à obra a medida de sua modernidade — a teoria da palavra em liberdade, os princípios de colagem (ou montagem) que caracterizavam a pintura de vanguarda na época, a elisão, a parataxe e as rupturas sintáticas como meios correntes na poesia moderna para exprimir o novo ambiente, objetivo e subjetivo, em que vive o homem da grande cidade, a poesia-telegrama, a visão global de uma cidade e sua vida, ironia, versos livres, arcaísmos, coloquialismos, aliterações, rimas complicadas, trechos em língua estrangeira, eruditismo etc.

São visíveis algumas aproximações com vanguardas européias (Dadaísmo, Cubismo, Surrealismo, Futurismo e Expressionismo).

Em termos de construção, de recursos técnicos. Mário de Andrade aproxima a poesia à música, como os simbolistas, adotando da teoria musical as noções de melodia e harmonia. Antecipa as experiências lingüísticas, criando novos termos, recombinando radicais, prefixos, desinências como em "bocejal", "luscofuscolares", "sonambulando".

A obra não tem um roteiro, um enredo. É um livro de poesias. A temática, a musa das poesias, é a cidade de São Paulo, e tudo o que é inerente a cidade. 

A linguagem é simples, algo irreverente e coloquial, tendo até mesmo erros propositais de ortografia e gramática. Ela é uma das partes mais importantes da obra, e configura um protesto por si só ao desafiar as correntes então dominantes. Revolucionou a linguagem poética brasileira, pregando o verso livre.

Na obra todos os procedimentos poéticos e arrojados eram expostos e reunidos pela primeira vez, em uma poesia urbana, sintética, fragmentária e anti - romântica, que retratava uma São Paulo concreta, cosmopolita e egoísta com a população heterogênea e a burguesia cínica.

Paulicéia desvairada pode ser lida como um inventário das vivências, percepções e sensações desencadeadas pela modernização de São Paulo, com a qual Mário de Andrade terá uma relação ambígua ao longo de sua obra. A cidade ora é tumba de homens massacrados pelas "monções da ambição", de bandeirantes ou de capitalistas, ora é palco de multicoloridos festejos.

Destacamos alguns momentos do livro:

Texto 1

INSPIRAÇÃO

São Paulo! comoção da minha vida...
Os meus amores são flores feitas de original...
Arlequinal!... Traje de losangos... Cinza e Ouro...
Luz e bruma... Forno e inverno morno...
Elegâncias sutis sem escândalos, sem ciúmes...
Perfumes de Paria... Arys!
Bofetadas líricas no Trianon... Algodoal!
São Paulo! comoção de minha vida...
Galicismo a berrar nos desertos da América!

Texto 2

Além da Ode ao Burguês e da Paisagem nº 1, outro poema importante do livro são As Enfibraturas do Ipiranga (Oratório Profano) envolvendo cinco vozes, representativas das forças culturais de São Paulo, na década de 1920.

Os Orientalismos Convencionais são os escritores e demais artífices elogiáveis, vale dizer, os poetas parnasianos:

Os alicerces não devem cair mais!
Nada de subidas ou de verticais!
Amamos as chatezas horizontais!
Abatemos perobas de ramos desiguais!
Odiamos as matinadas arlequinais!
........................................................................
Para que cravos? Para que cruzes?
Universalizai-vos no senso comum!
Senti sentimentos de vossos pais e avós!
Para as almas sempre torresmos cerebrais!

As Senectudes Tremulinas são os milionários e burgueses, representando a classe dominante paulistana, na década de 1920:

Só admiramos os célebres
e os recomendamos também! (...)
Preferimos os coros dos Orientalismos Convencionais! (...)
Alargar as ruas...
E as instituições?
Não pode! Não pode!
Maiores menores
Mas não há quem diga
Maiores menores quem são estes homens
que cantam do chão?

Os Sandapilários Indiferentes representam o operariado, a gente pobre, o povo marginalizado e alienado do processo cultural, embalado na valsa, e no e luziam as Estrelas, de Puccini:

Vá de rumor! Vá de rumor!
Esta gente não nos deixa mais dormir!
Antes “E lucevam le stelle" de Puccini!
Oh! pé de anjo, pé de anjo!
Fora! Fora o que é de despertar!

As Juvenilidades Auriverdes são os modernistas de 1922, inquietos, inconformados. São os “tenores” do oratório profano:

Somos as Juvenilidades Auriverdes!
A passiflora! O espanto! A loucura! o desejo!
Cravos! mais cravos para nossa cruz! (...)
Nós somos as Juvenilidades Auriverdes!
As forças vivas do torrão natal,
as ignorâncias iluminadas,
os novos sóis luscofuscolares
entre os sublimes das dedicações! (...)
(queremos) Os tumultos da luz!...
As lições dos maiores!...
E a integralização da vida no Universal!
As estradas correndo todas para o mesmo final!...
E a pátria simples, una, intangivelmente
partindo para a celebração do Universal! (...)
(...) Cães! Piores que cães!
Vós, burros! malditos! cães! piores que cães! (...)
Seus borras! Seus bêbados! Infames! Malditos! (...)
Seus ............................................................!!!
(a maior palavra feia que o leitor conhecer)

A Minha Loucura representa a consciência do poeta, que atua como solista:

Chorai! Chorai! Depois dormi!
Venham os descansos veludosos
vestir os vossos membros!... Descansai!
Ponde os lábios na terra! Ponde os olhos na terra!
Vossos beijos finais, vossas lágrimas primeiras
para a branca fecundação! (...)
Oh! Juvenilidades Auriverdes, meus irmãos: (...)
Diuturnamente cantareis e tombareis.
As rosas... As borboletas... Os orvalhos...
O todo-dia dos imolados sem razão...
Fechai vossos peitos! (...)
Venham os descansos veludosos
Vestir os vossos membros... Descansai!
Eu... os desertos... os Cains... a maldição...

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