Venha ver o pôr do sol (conto da obra Antes do baile verde), de Lygia Fagundes Telles
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Este conto está inserido na obra Antes
do baile verde, de Lygia Fagundes Telles.
Em Venha Ver o Pôr do Sol, o narrador é do tipo heterodiegético, quanto
à sua relação com a história – ou seja, existe uma voz, ausente da história,
que narra os eventos.
Inicialmente, o narrador descreve o cenário no qual as personagens irão se
encontrar. Trata-se de um cemitério abandonado, situado em uma rua com casas
esparsas e muitos terrenos baldios, onde nem os carros chegam. Os adjetivos
empregados compõem o espaço soturno: a ladeira é “tortuosa” (p. 88), as casas
“modestas” (p. 88), o mato “rasteiro” cobre a rua “sem calçamento”(p. 88). A
cantiga “débil” é a única nota “viva” (p.88). O espaço, neste conto, tem grande
importância, como o leitor perceberá, ao final da leitura.
O enredo consiste em um último encontro entre duas pessoas que já formaram um
casal, no passado. O rapaz, ao ver a ex-namorada, sorri “entre malicioso e
ingênuo” (p. 88).
As informações a respeito das personagens vão sendo fornecidas aos poucos,
por meio do próprio diálogo que se estabelece entre elas. Assim, Ricardo faz
comparações com a forma de ser atual de Raquel, ou seja, no tempo presente da
narrativa, e a do passado.
A moça, “agora” está muito elegante, fuma “uns cigarrinhos pilantras” (p. 88)
e na época em que “andava” com Ricardo, “usava uns sapatões de sete léguas”
(p. 88). É feita uma contraposição entre o passado e o presente da personagem
feminina.
O narrador elenca novos elementos, por meio da focalização externa, para compor
o cenário: cemitério “abandonado” (p. 88), muro “arruinado” (p. 88), portão
“carcomido pela ferrugem” (p. 88). Os componentes enumerados fazem com que o
leitor enxergue o local, como se estivesse no cinema. O cenário armado pelo
narrador é propício para o desenrolar de um filme de horror.
A proposta do encontro foi feita pelo rapaz – na verdade, ele “implorou”
pelo encontro durante “dias seguidos” (p. 89). A moça está envolvida em um
relacionamento com um homem “riquíssimo” (p. 90) e “ciumentíssimo” (p. 89), de
acordo com as palavras da própria personagem feminina, Raquel. Os adjetivos são
empregados no grau superlativo absoluto sintético, para realçar e exacerbar as
qualidades do namorado de Raquel, em matéria de riqueza e ciúme, ele não é
comparável a ninguém. Ricardo, por sua vez, ficou “mais pobre ainda” (p. 89)
do que era antes. Neste caso, foi empregado o grau comparativo de superioridade
analítico do adjetivo, confrontando a situação anterior e a atual da personagem.
A caracterização externa das personagens é feita pelo narrador. Assim, sabe-se
que Ricardo, é “esguio e magro”, tem “cabelos crescidos e desalinhados” e “um
jeito jovial de estudante” (p. 88). De Raquel, recebem-se as informações,
através do olhar e das falas de Ricardo, que “está uma coisa de linda” (p. 88) e
tem olhos verdes, “assim meio oblíquos” (p. 92). Os olhos oblíquos fazem pensar
imediatamente em uma das mais famosas personagens da Literatura Brasileira, criada
por Machado de Assis, a Capitu, de Dom Casmurro. Os olhos da menina são
definidos pela personagem José Dias, em conversa com Bentinho: “Você já reparou
nos olhos dela? São assim de cigana oblíqua e dissimulada.” (Assis, 1997, p. 71).
Assim, trata-se de uma intertextualidade, presente no texto de Lygia Fagundes
Telles.
O diálogo entre Ricardo e Raquel estrutura a narrativa, proporcionando um efeito
de sincronicidade – o leitor tem a impressão que presencia a ação enquanto ela
está acontecendo. Ricardo propôs à ex-namorada ver o “pôr do sol mais lindo do
mundo” (p. 89), no cemitério abandonado. Isso deixa Raquel perplexa, o que também
deve acontecer com o leitor. Afinal, é no mínimo estranha a proposta do rapaz.
Entretanto, ele justifica que escolheu esse passeio “porque é de graça e muito
decente” (p. 89), “até romântico” (p. 89) e, além disso, como os dois não podem
ser vistos juntos, por causa do namorado ciumento de Raquel, outro argumento usado
para desculpar a escolha do programa é que por tratar-se de lugar tão discreto,
ali Raquel não correria nenhum risco (p. 89). Diante de tais colocações, Raquel,
e o leitor, tranqüilizam-se.
Ao longo da narrativa são apresentados alguns índices de antecipação do desfecho,
prolepses, que o narratário só identificará após o término da leitura do conto.
Podem ser citados, como exemplo, “Esta a morte perfeita, nem lembrança, nem saudade,
nem o nome sequer.” (p. 91), “Mas já disse que o que mais amo neste cemitério é
precisamente este abandono, esta solidão. As pontes com o outro mundo foram cortadas
e aqui a morte se isolou total. Absoluta.” (p. 92).
Alguns detalhes do ambiente são fornecidos pelas próprias personagens, e não por
trechos descritivos. Assim, toma-se conhecimento da extensão do cemitério pelo
discurso direto, empregado nas falas da personagem Raquel: “– É imenso, hein?”
(p. 90); “– Mas este cemitério não acaba mais, já andamos quilômetros!” (p. 91).
Depois de algum tempo Raquel impacienta-se e quer ir embora. Então, Ricardo
passa a fazer confidências a respeito de um amor da infância, uma prima que
morreu aos quinze anos de idade e que tinha os olhos parecidos com os de Raquel.
Chegam, então, a uma capelinha e Ricardo convence a ex-namorada a descer para a
catacumba, a fim de observar a semelhança dos olhos da prima Maria Emília, por
meio da fotografia colocada no medalhão preso à gaveta onde a prima estaria
enterrada. “Venha ver, Raquel, é impressionante como tinha olhos iguais aos
seus.” (p. 93). O ardil armado por Ricardo alcança êxito. “Ela desceu a escada,
encolhendo-se para não esbarrar em nada” (p. 93).
Ocorre, então, o desfecho do conto. Raquel aproxima-se para ver o retrato e
constata:
“– Mas está tão desbotado, mal se vê que é uma moça... – Antes da chama se
apagar, aproximou-a da inscrição feita na pedra. Leu em voz alta, lentamente.
– Maria Emília, nascida em vinte de maio de mil e oitocentos e falecida...
– Deixou cair o palito e ficou um instante imóvel. – mas esta não podia ser
sua namorada, morreu há mais de cem anos! Seu menti...” (Telles, 1982, p. 93)
Ricardo tranca Raquel no jazigo. E, enquanto a moça ordena que ele a solte,
alterna pedidos calmos e gritos, desespera-se e constata a dura realidade que
está enfrentando, Ricardo explica, em uma fala com função de prolepse,
empregando uma ironia sádica: “– Uma réstia de sol vai entrar pela frincha da
porta, tem uma frincha na porta. Depois, vai se afastando devagarinho, bem
devagarinho. Você terá o pôr do sol mais belo do mundo.” (p. 94).
Por meio da focalização externa, o narrador faz com que o leitor perceba que o
jogo de Ricardo acabou. Ele não precisa mais dissimular, pode agora se mostrar
como verdadeiramente é, o que transparece inclusive fisicamente: “Ele já não
sorria. Estava sério, os olhos diminuídos. Em redor deles, reapareceram as
rugazinhas abertas em leque.” (p. 94). Ricardo conseguiu vingar-se. E a vingança
foi premeditada em todos os detalhes, até mesmo a fechadura da porta de ferro
que encerra Raquel havia sido trocada (a moça examina “a fechadura nova em
folha”) (p. 94).
Ao tomar consciência de sua tragédia, Raquel lança gritos “semelhantes aos de
um animal sendo estraçalhado” (p. 94), solta “uivos”, “abafados como se viessem
das profundezas da terra” (p. 94-95). Com essas expressões, o narrador compara
Raquel a um animal, condição que ela assume nesse desfecho, é reduzida a um
animal enjaulado, desesperado pela perda de liberdade, e que está sendo
enterrado vivo. “Nenhum ouvido humano escutaria agora qualquer chamado”
(p. 95).
Apesar da presença no texto de alguns indícios de desfecho, este não é
previsível.
Assim, a autora consegue surpreender o leitor e chocá-lo com a crueldade da
vingança arquitetada por Ricardo. O conto possui uma atmosfera de suspense e a
narrativa é conduzida a um desfecho inesperado, que causa impacto.
A autora emprega imagens antitéticas na construção do conto, crianças brincam
de roda em frente a um cemitério abandonado; o casal vai ver o pôr do sol
dentro de um cemitério; a pobreza e o despojamento de Ricardo e a riqueza e
sofisticação de Raquel; o mato rasteiro que cobre os canteiros e as sepulturas,
“como se quisesse com sua violenta força de vida cobrir para sempre os últimos
vestígios da morte” (p. 90); a trepadeira que envolve a capelinha num “furioso
abraço” (p. 92); luz e paredes enegrecidas; a fechadura nova em folha e as
grades cobertas por uma crosta de ferrugem. Ricardo sorri entre “malicioso e
ingênuo”, “Tinha seu sorriso meio inocente, meio malicioso” (p. 93).
Ao escrever Venha Ver o Pôr do Sol, Lygia Fagundes Telles, provavelmente,
inspirou-se na obra de Edgar Allan Poe, conduta bastante comum para os que se
exercitam no gênero conto de mistério. O conto de Lygia remete a O Barril de
Amontillado, de Poe.
Ambos os contos têm a vingança como tema e estruturam-se por meio dos diálogos das
personagens. O tipo de narrador, entretanto, é diferente, o da obra de Poe é
autodiegético.
A premeditação e a crueldade da vingança são elementos comuns aos dois contos.
O cenário e a reação das vítimas são bastante semelhantes. Talvez a maior diferença seja
que, no conto de Poe, a disposição de Montresor em vingar-se de Fortunato está expressa já
no primeiro parágrafo:
(...) Acabaria por vingar-me, isto era ponto definitivamente assente, e
a própria determinação com que o decidi afastava toda e qualquer idéia de risco.
Devia não só castigar, mas castigar ficando impune. Um agravo não é vingado
quando a vingança surpreende o vingador. E fica igualmente por vingar quando
o vingador não consegue fazer-se reconhecer como tal àquele que o ofendeu.
(Poe, 2001, p. 71)
Fonte: Biblioteca Digital da UNESP