A importância da reforma agrária para o futuro do país
A
má distribuição de terra no Brasil tem razões históricas,
e a luta pela reforma agrária envolve aspectos econômicos, políticos
e sociais. A questão fundiária atinge os interesses de um quarto
da população brasileira que tira seu sustento do campo, entre
grandes e pequenos agricultores, pecuaristas, trabalhadores rurais e os sem-terra.
Montar uma nova estrutura fundiária que seja socialmente justa e economicamente
viável é dos maiores desafios do Brasil. Na opinião de
alguns estudiosos, a questão agrária está para a República
assim como a escravidão estava para a Monarquia. De certa forma, o país
se libertou quando tornou livre os escravos. Quando não precisar mais
discutir a propriedade da terra, terá alcançado nova libertação.
Com seu privilégio territorial, o Brasil jamais deveria ter o campo
conflagrado. Existem mais de 371 milhões de hectares prontos para a agricultura
no país, uma área enorme, que equivale aos territórios
de Argentina, França, Alemanha e Uruguai somados. Mas só uma porção
relativamente pequena dessa terra tem algum tipo de plantação.
Cerca da metade destina-se à criação de gado. O que sobra
é o que os especialistas chamam de terra ociosa. Nela não se produz
1 litro de leite, uma saca de soja, 1 quilo de batata ou um cacho de uva. Por
trás de tanta terra à toa esconde-se outro problema agrário
brasileiro. Até a década passada, quase metade da terra cultivável
ainda estava nas mãos de 1% dos fazendeiros, enquanto uma parcela ínfima,
menos de 3%, pertencia a 3,1 milhões de produtores rurais.
"O problema agrário no país está na concentração
de terra, uma das mais altas do mundo, e no latifúndio que nada produz",
afirma o professor José Vicente Tavares dos Santos, pró-reitor
da Universidade Federal do Rio Grande do Sul. Em comparação com
os vizinhos latino-americanos, o Brasil é um campeão em concentração
de terra. Não sai da liderança nem se comparado com países
onde a questão é explosiva, como Índia ou Paquistão.
Juntando tanta terra na mão de poucos e vastas extensões improdutivas,
o Brasil montou o cenário próprio para atear fogo ao campo. É
aí que nascem os conflitos, que nos últimos vinte anos fizeram
centenas de mortos.
O problema agrário brasileiro começou em 1850, quando acabou
o tráfico de escravos e o Império, sob pressão dos fazendeiros,
resolveu mudar o regime de propriedade. Até então, ocupava-se
a terra e pedia-se ao imperador um título de posse. Dali em diante, com
a ameaça de os escravos virarem proprietários rurais, deixando
de se constituir num quintal de mão-de-obra quase gratuita, o regime
passou a ser o da compra, e não mais de posse."Enquanto o trabalho
era escravo, a terra era livre. Quando o trabalho ficou livre, a terra virou
escrava", diz o professor José de Souza Martins, da Universidade
de São Paulo. Na época, os Estados Unidos também discutiam
a propriedade da terra. Só que fizeram exatamente o inverso. Em vez de
impedir o acesso à terra, abriram o oeste do país para quem quisesse
ocupá-lo - só ficavam excluídos os senhores de escravos
do sul. Assim, criou-se uma potência agrícola, um mercado consumidor
e uma cultura mais democrática, pois fundada numa sociedade de milhões
de proprietários.
Com pequenas variações, em países da Europa, Ásia
e América do Norte impera a propriedade familiar, aquela em que pais
e filhos pegam na enxada de sol a sol e raramente usam assalariados. Sua produção
é suficiente para o sustento da família e o que sobra, em geral,
é vendido para uma grande empresa agrícola comprometida com a
compra dos seus produtos. No Brasil, o que há de mais parecido com isso
são os produtores de uva do Rio Grande do Sul, que vendem sua produção
para as vinícolas do norte do Estado. Em Santa Catarina, os aviários
são de pequenos proprietários. Têm o suficiente para sustentar
a família e vendem sua produção para grandes empresas,
como Perdigão e Sadia. As pequenas propriedades são tão
produtivas que, no Brasil todo, boa parte dos alimentos vêm dessa gente
que possui até 10 hectares de terra. Dos donos de mais de 1.000 hectares,
sai uma parte relativamente pequena do que se come. Ou seja: eles produzem menos,
embora tenham 100 vezes mais terra.
Ainda
que os pequenos proprietários não conseguissem produzir para o
mercado, mas apenas o suficiente para seu sustento, já seria uma saída
pelo menos para a miséria urbana. "Até ser um Jeca Tatu é
melhor do que viver na favela", diz o professor Martins. Além disso,
os assentamentos podem ser uma solução para a tremenda migração
que existe no país. Qualquer fluxo migratório tem, por trás,
um problema agrário. Há os mais evidentes, como os gaúchos
que foram para Rondônia na década de 70 ou os nordestinos que buscam
emprego em São Paulo. Há os mais invisíveis, como no interior
paulista, na região de Ribeirão Preto, a chamada Califórnia
brasileira, onde 50.000 bóias-frias trabalham no corte de cana das usinas
de álcool e açúçar durante nove meses. Nos outros
três meses, voltam para a sua região de origem - a maioria vem
do paupérrimo Vale do Jequitinhonha, no norte de Minas Gerais.
A política de assentamento não é uma alternativa barata.
O governo gasta até 30.000 reais com cada família que ganha um
pedaço de terra. A criação de um emprego no comércio
custa 40.000 reais. Na indústria, 80.000. Só que esses gastos
são da iniciativa privada, enquanto, no campo, teriam de vir do governo.
É investimento estatal puro, mesmo que o retorno, no caso, seja alto.
De cada 30.000 reais investidos, estima-se que 23.000 voltem a seus cofres após
alguns anos, na forma de impostos e mesmo de pagamentos de empréstimos
adiantados. Para promover a reforma agrária em larga escala, é
preciso dinheiro que não acaba mais. Seria errado, contudo, em nome da
impossibilidade de fazer o máximo, recusar-se a fazer até o mínimo.
O preço dessa recusa está aí, à vista de todos:
a urbanização selvagem, a criminalidade em alta, a degradação
das grandes cidades.
No exterior, problema resolvido
"Foi então, pela primeira vez, promulgada a lei agrária,
que, desde aquela época até hoje, nunca mais foi discutida sem
provocar as mais violentas emoções", escreveu o historiador
romano Tito Lívio, quase 2.000 anos atrás, sobre um episódio
ainda mais antigo, a redistribuição de terras ordenada pelo tribuno
Caio Graco um século antes. Se Tito Lívio, que morreu há
1.980 anos, soa tão atual é porque a reforma agrária nunca
foi discutida sem provocar violentas emoções. Reforma agrária
não é simples instrumento para dar terra aos sem-terra. Como desafia
o direito de propriedade e chacoalha a estrutura de poder, carrega consigo o
espírito de uma autêntica revolução social. Mais
de quarenta países experimentaram projetos de redistribuição
da posse da terra neste século - e nenhum deles permaneceu o mesmo depois
disso.
Caio Graco pagou com a vida a ousadia de desapropriar os latifúndios
patrícios. No final do século XVIII, a Revolução
Francesa implodiu as relações de trabalho no campo, abolindo a
servidão rural. Meio século depois, os Estados Unidos moldaram
o destino do país ao distribuir de forma igualitária a terra pública.
Apesar dessas marcantes experiências do passado, a reforma agrária,
do jeito que hoje se pratica, é um fenômeno inteiramente moderno.
A ordem estabelecida no campo foi virada de cabeça para baixo pela primeira
vez em 1910, com a Revolução Mexicana, ao preço de 1 milhão
de mortos. À frente de um exército de camponeses, Emiliano Zapata
distribuiu terras na marra e, como Caio Graco, acabou assassinado. A semente
plantada na revolução demorou duas décadas para germinar.
Mas nos anos 30 o México entregou 70 milhões de hectares de áreas
agrícolas a 3 milhões de lavradores, realizando uma das maiores
redistribuições de terra da História.
Sete anos depois da Revolução Mexicana, os comunistas russos
aboliram a propriedade privada da terra com um decreto assinado no dia seguinte
à tomada do poder. O abismo ideológico entre as duas experiências
pioneiras marcou, dali para diante, a história das mudanças nesse
âmbito. O México tomou a terra de grandes fazendeiros e a distribuiu
entre vários, menores, multiplicando o número de proprietários.
A União Soviética expropriou a terra de todos em benefício
de um único grande patrão, o Estado, o nome verdadeiro da "propriedade
do povo". Os dois modelos foram amplamente copiados, quase sempre misturados
e adaptados às circunstâncias específicas de cada país.
Bandeiras vermelhas e camponeses em armas, contudo, tão marcantes nas
duas reformas pioneiras, raramente voltaram à cena. A reforma agrária
é quase sempre iniciativa de governos às voltas com crises, que
precisam resolver ou amainar. Algumas foram impostas por exércitos de
ocupação, como fizeram o Exército Vermelho na Europa Oriental
e os Estados Unidos no Japão e na Coréia do Sul.
O objetivo básico das reformas em países não comunistas
é melhorar a vida do homem do campo e redistribuir a renda a seu favor.
Depois da II Guerra, percebeu-se também que se tinha ali um excelente
instrumento para dar à agricultura um papel estratégico no desenvolvimento
dos países pobres. São dos anos 40 e 50 as quatro grandes experiências
em países de economia de mercado - Japão, Taiwan, Coréia
do Sul e Egito -, com decisiva influência nas que vieram depois. Como
os três primeiros se transformaram em potências econômicas,
suas experiências servem como vitrine. Comparadas à coletivização
forçada na União Soviética, a grande experiência
socialista nos anos 30, que custou 6 milhões de mortos e resultou numa
agricultura até hoje ineficiente, as reformas asiáticas são
mesmo de dar água na boca.
No final da II Guerra, os três países tinham em comum a enorme
concentração da posse da terra e a economia destroçada.
Cerca de 70% do solo agrícola japonês era cultivado por arrendatários
- os kosakus -, que entregavam aos proprietários ausentes metade da produção.
No comando das forças de ocupação americanas e, como tal,
imperador de fato, o general Douglas MacArthur simplesmente exigiu uma reforma
agrária em 1946. O governo japonês tentou safar-se propondo o teto
de 5 hectares para as propriedades rurais - artifício que, visto o tamanho
nanico do latifúndio japonês, limitaria a reforma a somente 20%
das terras. MacArthur, que tinha entre seus objetivos aniquilar o poder político
dos latifundiários, um dos pilares do militarismo japonês, impôs
1 hectare, o tamanho de uma chácara de fim de semana no Brasil.
O terreno excedente foi desapropriado a preço vil e revendido aos agricultores
com financiamento camarada. Toda essa revolução, que entregou
lotes a 4 milhões de famílias e acabou com os resquícios
de feudalismo na estrutura social, demorou apenas 21 meses. "Ao incorporar
os kosakus ao processo político, a reforma foi fundamental para a modernização
do país", diz Ikutsune Adachi, diretor do Centro de Pesquisas Sociais
em Agronomia, em Tóquio. Do ponto de vista macroeconômico, a contribuição
foi bem menor. O minifúndio japonês, nascido da reforma de 1946,
depende ainda hoje para sobreviver de gordíssimos subsídios estatais
e produz o arroz mais caro do mundo. É mais negócio, porém,
pagar para manter o agricultor no campo do que lhe dar emprego na cidade.
A ironia é que essas grandes transformações foram obras
de governos profundamente anticomunistas. Expulso da China continental pela
vitória comunista, o generalíssimo Chiang Kai-chek reproduziu
o modelo japonês em Taiwan. A inovação local foi a indenização
parcialmente paga em ações, convertendo os antigos latifundiários
em sócios da industrialização do país. O resultado
social foi de tirar o chapéu: em 1952 a reforma agrária tinha
transferido aos agricultores o equivalente a 13% do PIB, pacificando o campo
e criando uma nova classe de consumidores.
A situação sul-coreana era agravada pela falta de espaço
(só 4% do território é cultivável), pela má
distribuição da posse e pela guerra, que continuou devastando
o país até 1953. O governo anunciou regras tão severas
que a maioria dos proprietários, temendo o calote das indenizações,
se apressou em vender a terra diretamente ao arrendatário. O impacto
na distribuição de renda foi superior ao ocorrido no Japão
e em Taiwan e garantiu a comida barata de que o país precisava para se
transformar numa potência econômica.
De forma muito parecida com a Coréia do Sul, só 4% do solo egípcio
era aproveitável para a agricultura. A maior parte dessa terra estava
nas mãos de uma classe de 12.000 proprietários. Dez milhões
de felás - os camponeses e arrendatários do Vale do Nilo - penavam
sob aluguéis exorbitantes, que chegavam a 75% da produção.
Seis semanas depois de derrubar a monarquia, em 1952, Gamal Abdel Nasser acabou
com as grandes propriedades. Cerca de 1,7 milhão de egípcios receberam
lotes com tamanho médio de 1 hectare cada um. Em quantidade de terra
e número de beneficiados, foi a maior reforma agrária dos anos
50. O resultado, contudo, nem se compara ao dos países asiáticos.
O regime detonou o poder dos latifundiários - mas os felás continuam
miseráveis como sempre.
O pós-guerra foi também o período em que a União
Soviética impôs seu modelo agrícola à Europa Oriental,
ainda que a maioria dos países tenha conservado algum tipo de pequena
propriedade individual. A China fez a maior revolução camponesa
de todos os tempos e, no início dos 60, Cuba implantou a versão
caribenha da agricultura coletiva. Diante do avanço comunista, a reforma
agrária ganhou impulso, também, como ferramenta da Guerra Fria.
Na periferia latino-americana, governos de alguma inclinação esquerdista
produziram suas próprias reformas. No Peru e na Bolívia, com grandes
populações indígenas, a redistribuição de
terras aliviou injustiças mas pouco contribuiu para aumentar a produção
ou amenizar a miséria. No Chile, o processo foi peculiar. A reforma,
iniciada pela Democracia Cristã e ampliada pelo socialista Salvador Allende,
obviamente tropeçou com o golpe militar. A ditadura, porém, não
devolveu a terra à velha oligarquia rural. Os lotes, de tamanho reduzido,
foram comprados por capitalistas urbanos, que modernizaram a produção
e iniciaram o modelo moderno de exportação de alimentos, principalmente
frutas.
A reforma agrária saiu da agenda dos países a partir dos anos
70. Ou já tinha sido feita, com resultados variados, ou não era
mais necessária como fator de desenvolvimento. "Até os anos
60, ela era fundamental para a modernização. Depois, a produtividade
da agricultura moderna mostrou-se capaz de garantir o abastecimento sem outra
revolução que a tecnológica", analisa o professor
Bastiaan Reydon, do Núcleo de Economia Agrícola da Unicamp. "Como
a própria agricultura perdeu importância na economia global, a
reforma agrária reduziu-se a uma questão de justiça social."
Os teóricos do desenvolvimento, que também saíram de moda,
agora mudaram de enfoque e temem que a fragmentação do solo agrícola
em propriedades menores prejudique a escala da produção.
"Reforma agrária dá certo quando se consegue o que se queria,
seja aumentar a produção de alimentos, seja resolver problemas
sociais graves", ensina o professor José Eli da Veiga, da Faculdade
de Economia da USP. "A História mostra que isso só acontece
naquelas realizadas rapidamente, de um a três anos no máximo. Quando
entrava, é porque a sociedade não está preparada e a reforma
está condenada ao fracasso." Mudanças radicais na posse da
terra não são garantia absoluta de benefício econômico.
Muitas vezes, nem mesmo de justiça social. A agricultura soviética
oferecia condições de vida tão ruins que, para impedir
a migração para a cidade, o governo negou passaporte interno aos
membros das fazendas coletivas até 1974. O fim do comunismo não
mudou muito as coisas, exceto pelo fato de que agora os agricultores podem largar
o campo. Por falta de interessados em se tornar proprietários, o Estado
continua dono de 95% da terra.
No México, onde tudo começou, a reforma agrária agoniza.
O ejido, a propriedade comunal explorada individualmente, segundo a tradição
indígena, viveu anos de relativa prosperidade entre 1940 e 1965, mas
retrocedeu diante da produtividade crescente das modernas empresas rurais. Sessenta
anos depois da revolução, o México está de volta
ao ponto de partida. Em Chiapas, no extremo sul, alçou-se o exército
de camponeses que reivindica a estirpe zapatista. Na terra onde nasceu, a reforma
agrária produziu um paradoxo dramático: transformou uma imensa
massa de sem-terra numa imensa massa de pequenos proprietários sem perspectivas.
É o que de mais parecido existe com o Brasil.
Brasil - Parado por 500 anos
Em 500 anos de História, o Brasil nunca dividiu a terra. É o
único país de extensão continental, em todo o mundo, com
estrutura fundiária semelhante à da sua fundação.
O primeiro regime de propriedade, o das sesmarias, durou três séculos
e dividia as doze capitanias hereditárias em extensões maiores
que Fortaleza e Belo Horizonte juntas. Em 1822, às vésperas da
Independência, foi revogada a legislação das sesmarias,
e o Brasil ficou quase trinta anos sem nenhuma lei sobre a propriedade rural.
De 1850 para cá, pouco se mexeu na estrutura da terra no país
- apesar do fim do tráfico de escravos, da abolição, da
proclamação da República, da Revolução de
30, do golpe de 64 e da Nova República. Em toda a História do
Brasil houve agitações no campo, luta pela divisão das
fazendas e até zonas liberadas, como os quilombos. Mas, só neste
século, nos anos 20, o movimento tenentista agitou a bandeira da reforma
agrária, tal como é concebida hoje. A agitação voltou
nos anos 60, com o movimento pelas reformas de base do presidente João
Goulart, foi derrotada pelos militares em 1964 e ressurgiu com as ocupações
de fazendas pelos sem-terra. E, grosso modo, em termos de propriedade rural,
o Brasil continuou o país do latifúndio, das vastas extensões
de terra pouco produtiva e do minifúndio nordestino pobre e tacanho.
Gabinetes liberais e conservadores, no Império e na República,
fosse o presidente Getúlio Vargas, Juscelino Kubitschek, João
Figueiredo ou José Sarney - os governos brasileiros primaram por deixar
a terra dormindo em berço esplêndido. Com as caravelas de Pedro
Álvares Cabral, desembarcou no Brasil uma política de terras -
a lei de sesmarias - que não tinha nenhum parentesco com a realidade
da colônia. Criada em 1375 por dom Fernando, então rei de Portugal,
a lei foi pensada para povoar o interior de Portugal. Lá, as sesmarias
funcionaram, tanto que conseguiram alimentar o país. Mas, aqui, numa
terra dezenas de vezes maior, o mesmo regime dificilmente poderia dar certo.
Com território tão vasto, as sesmarias produziram grande balbúrdia.
Pela lei escrita, recebia-se um latifúndio junto com o compromisso de
cultivá-lo. Quem não o fizesse dentro de cinco anos, no máximo,
deveria devolver a terra à Coroa. Imagine-se, só por ironia, como
era a fiscalização da produtividade da terra naquele tempo - nunca
se devolveu nada.
As sesmarias eram enormes. Uma delas foi a Ilha de Itaparica inteira. Brás
Cubas recebeu uma fatia de terra que tomava boa parte da área que, hoje,
forma os municípios de Santos, Cubatão e São Bernardo.
Havia, já, os espertalhões que recebiam sesmaria para revendê-la
retalhada. Havia quem levasse uma sesmaria para si, outra para a mulher, outra
para o filho. Os limites eram imprecisos. Em documentos históricos, existem
terras que terminam "onde mataram o Varela". Há outra fazenda
que ia até "a casa onde estão uns cajus grandes". Às
vezes, para medir a terra, acendia-se um cachimbo, montava-se no cavalo e ia-se
em frente. Quando o cachimbo apagasse, acabado o fumo, marcava-se 1 légua.
"A origem do latifúndio é a lei de sesmarias", afirma
a professora Ligia Osorio Silva, da Universidade de Campinas. "Mas elas
não são a razão de o latifúndio durar até
hoje, pois a lei foi revogada há mais de 170 anos."
Com o fim das sesmarias, em 1822, o país ficou sem nenhuma lei sobre
a propriedade da terra. Quase trinta anos depois, com a Lei de Terras, quando
a pressão britânica pelo fim da escravidão estava no auge,
definiu-se que só se poderia ter terra pagando por ela, e pagando caro.
Como se pretendia manter os negros libertos como mão-de-obra disponível
e barata nas fazendas, não se queria transformá-los em pequenos
proprietários. No Sul, as terras valiam menos. Em função
do clima temperado, eram imprestáveis para a grande agricultura de exportação,
como açúcar e café. Em função disso, ali
foi possível iniciar a partilha da terra e criar uma estrutura agrária
mais eqüitativa.
Em 1945, a reforma agrária preconizada pelos tenentes foi sepultada
por meio de uma legislação que dizia que as desapropriações
tinham de ser feitas mediante pagamento à vista e em dinheiro. De lá
para cá, o único presidente civil que tentou enfrentar o assunto
de verdade foi João Goulart, que acabou deposto em 1964 - ele só
pretendia desapropriar terras próximas de ferrovias, estradas e açudes
da União. Castello Branco, o primeiro presidente do ciclo militar, vinha
do interior do Ceará, conhecia algo da miséria rural e tinha apreço
especial pela questão agrária. Com as Ligas Camponesas de Francisco
Julião derrotadas, Castello fez o Estatuto da Terra. Até hoje,
ele é considerado um bom instrumento jurídico para fazer reforma
agrária. Mas o Estatuto tinha uma parte sobre reforma agrária
e outra sobre política agrícola - e só esta segunda saiu
do papel. "Na prática, o Estatuto só foi usado para reduzir
as tensões sociais no campo, e não para fazer a reforma agrária",
diz o professor José de Souza Martins, da USP. "Nas emergências,
permitia que se fizesse uma desapropriação aqui, outra ali."
Nos anos 60 e 70, o governo seguiu estimulando a exportação,
também distribuiu crédito subsidiado para que as terras pudessem
ser adquiridas por grandes grupos econômicos. "O regime se definiu
por uma modernização que excluiu pequenos agricultores",
afirma o professor José Tavares dos Santos, da Universidade Federal do
Rio Grande do Sul. Na prática, as grandes lavouras produtivas, como o
café, a soja e a cana, cresceram, mas a esmagadora maioria do campo brasileiro
continuou a marcar passo. No governo de José Sarney, fez-se um plano
para assentar 1,4 milhão de famílias até o fim do mandato,
em 1990. Mas também não saiu do papel. Acabou assentando apenas
90.000. "No início, Sarney contava até 10 antes de assinar
um decreto de desapropriação. Depois, contava até 100.
Depois, até 1.000", relembra o seu ex-ministro da Reforma Agrária
Nelson Ribeiro. "Quando os decretos na gaveta passaram de oitenta, saí
do governo."
Comparado a seus antecessores, Fernando Henrique Cardoso teve muitas realizações:
retalhou 18 milhões de hectares, uma área maior que o Uruguai
e equivalente a metade do território da Alemanha, e neles assentou 635.000
famílias. Quase 2 milhões de brasileiros receberam terras entre
1995 e 2002. Para isso, o antigo governo FHC gastou 25 bilhões de reais
na aquisição de terra e na instalação de assentamentos.
No programa de governo de Fernando Henrique Cardoso, a reforma agrária
entrava sem destaque, de maneira retórica. Ela só entrou na agenda
do governo por força e pressão do MST, com projetos destinados
a assentar, ou a emancipar quem está assentado ou a viabilizar a compra
da terra. Ou seja, iniciativas que se destinavam a acalmar os ânimos dos
sem-terra. O presidente Luiz Inácio Lula da Silva, seu sucessor, foi
o primeiro candidato eleito com apoio de setores dos movimentos sem-terra. A
trégua dos grupos ao seu governo, porém, durou somente três
meses - os conflitos recomeçaram quando Lula demorou a cumprir suas promessas
sobre o campo.
Por que o modelo de reforma agrária do país fracassa?
Eles reapareceram nos últimos meses ocupando postos de pedágio,
saqueando caminhões de comida, invadindo prédios públicos
e denunciando o governo por sua lentidão em promover as desapropriações
e assentamentos. Depois de um período de trégua, quando foram
saindo do noticiário, os sem-terra retornaram à cena pública
- e seu problema, apesar dos progressos obtidos nos últimos anos, continua
do mesmo tamanho. Antes da posse de Fernando Henrique Cardoso havia 40.000 famílias
acampadas esperando terra; foram assentadas mais de 600.000, e ainda existem
80.000 na fila - ou seja, a conta não fecha. Considerando o ritmo de
assentamentos, seria de esperar que os sem-terra estivessem desaparecendo lentamente
da paisagem, integrando-se à economia, como aconteceu em todos os países
que adotaram a reforma agrária em algum momento de sua História
para reorganizar a propriedade no campo. Mas sobram indícios de que o
processo de assentamentos veio tarde demais no Brasil e não atende exatamente
quem tem competência para se beneficiar dele.
De
acordo com as pesquisas mais detalhadas sobre o tema, o sistema defendido pelo
MST e geralmente adotado pelo governo - desapropriação e distruibuição
da terra em pequenos assentamentos - tem pouca chance de sucesso, já
que caminha na contramão da História. Sem competitividade no mercado
nem estrutura para engrenar a produção, os pequenos produtores
que ganham terras acabam fracassando - e retornando à fila da exclusão
no país. A reforma agrária brasileira, cujo modelo atual funciona
há mais de vinte anos com velocidade variável de assentamentos,
tem sido usada em grande parte para mandar, ou devolver para o campo, desempregados
urbanos e legiões de excluídos da atividade rural pelos processos
de modernização da agricultura. Uma pesquisa realizada pelo instituto
Vox Populi em 1996 detectou vários sinais dessa situação.
De um lado, encontrou-se entre os assentados gente com profissões anteriores,
como alfaiate, professor primário, militar, encanador e bancário
- sem nenhuma intimidade com a terra. De outro, constatou-se que 67% dos entrevistados
tinham mais de 40 anos de idade, ultrapassando, portanto, aquele limite que
costuma ser considerado um marco perverso da exclusão do emprego braçal.
Por fim, 91% dos assentados pesquisados declararam ter sido, anteriormente,
arrendatários, donos, meeiros ou parceiros na exploração
de atividade agrícola. Ou seja, com altíssima probabilidade de
terem fracassado antes na condução de empreendimentos rurais.
Há outros sinais concretos de que a reforma agrária brasileira
funciona equivocadamente. "Apenas um quinto dos que recebem terra consegue
gerar renda suficiente para se manter no campo", informa o pesquisador
Eliseu Roberto Alves, ex-presidente da Empresa Brasileira de Pesquisa Agropecuária.
"Os outros abandonam a terra num período máximo de dez anos."
O fenômeno do esvaziamento populacional no campo, aliás, é
absolutamente natural e faz parte da História da maioria dos países
desenvolvidos neste século. Nos Estados Unidos, resta apenas 1,5% da
população trabalhando no campo. Na França, há 6%,
mas isso custa bastante em termos de subsídios. No caso do Brasil, a
massa que vai sendo derrotada pela tecnologia ganha o rótulo de excluída
e acaba abastecendo iniciativas que parecem exigir que o planeta gire ao contrário.
Se há uma vantagem no modelo atual, ela é do MST, que continua
vendo crescer o número de cabeças disponíveis para seguir
discursos inflamados como os do líder José Rainha, comandante
popular com carisma e poder de persuasão. Em contrapartida às
dificuldades nos projetos de reforma agrária, existe no Brasil o sucesso
do modelo de cooperativas de pequenos proprietários. Em alguns casos,
as cooperativas respondem por mais de 30% da produção nacional
de determinada cultura. O problema é que, para ligar uma coisa com a
outra, se depende da familiaridade e da aptidão do assentado para o trabalho
na terra, habilidades pouco comuns entre os integrantes das fileiras do MST.
OS RESULTADOS DA REFORMA DE TERRAS
Uma luta de foices e armas
A
violência no campo já deixou centenas de vítimas no país
nos últimos anos - e as mortes se acumulam de ambos os lados, tanto entre
fazendeiros e seus capatazes como entre os sem-terra. Entre 1985 e 1989, quando
a UDR tornou-se nacionalmente conhecida, as mortes chegaram a 640, um recorde.
De 1996 até meados de 2003, o saldo foi menor, mas ainda assustador:
mais de 200 pessoas morreram no campo. O maior massacre de sem-terra na história
do país ocorreu no Pará, estado campeão em confrontos,
em Eldorado dos Carajás, em 1996, com 19 mortes e 51 feridos. A violência
agrária, porém, não se resume às lutas de foices,
facões e balas entre fazendeiros e lavradores. Nos últimos anos,
foram registrados roubos, saques, invasão e depredação
de propriedades públicas e privadas, seqüestros, extorsões
e chantagens.
Em muitos casos, as invasões em áreas que não podem ser
desapropriadas acabam com lavouras destruídas, máquinas estragadas
e animais mortos. Sob o argumento de que quer pressionar para acelerar a política
de assentamento, o MST passou a ocupar prédios públicos, de delegacias
de polícia a agências bancárias. Quando a seca despontou
no Nordeste, o MST correu para organizar saques a caminhões e armazéns
de comida. Em 2000, o movimento decidiu "comemorar" os 500 anos de
descobrimento do Brasil com um mutirão de protesto. Seus militantes organizaram
invasões de terra em treze Estados. Em 2002, seus militantes realizaram
a mais surpreendente ação de sua história, invadindo a
fazenda dos filhos do então presidente Fernando Henrique Cardoso. Arrasaram
a despensa e a adega, danificaram colheitadeiras e tratores, mataram galinhas
e perus, mexeram em papéis privados. No auge do deboche, deitaram-se
na cama do presidente e abriram o guarda-roupa da primeira-dama.
Do lado dos grandes proprietários rurais, o problema é encarado
com pistolas e espingardas. O crescimento da tensão no campo e as ameaças
de invasão motivaram esse grupo a se armar para repelir as investidas
dos sem-terra. A promessa de receber os invasores com balas virou rotina. O
chamado às armas não tem adesão unânime dos fazendeiros,
mas ainda é ouvido numa escala preocupante. Os defensores desse procedimento
dizem ter motivos de sobra para comprar armas: além das costumeiras ocupações
de latifúndios improdutivos, há registros de invasões de
terras produtivas em vários estados. Alguns fazendeiros dizem ter sido
forçados a pagar para ter a autorização para escoar a produção
pelos sem-terra que cercavam suas propriedades. O pior desse quadro é
o seguinte: quanto mais tempo a reforma agrária demora e mais intensa
fica a pressão por sua realização, os riscos para quem
mora no campo - com ou sem terra para plantar - invariavelmente aumentam.
Estatísticas
• A violência no campo já deixou centenas de vítimas
no país nos últimos anos. Entre 1985 e 1989, quando a UDR tornou-se
nacionalmente conhecida, as mortes chegaram a 640, um recorde. De 1996 até
meados de 2003, o saldo foi menor, mas ainda assustador: mais de 200 pessoas
morreram no campo. O maior massacre de sem-terra na história do país
ocorreu em Eldorado dos Carajás, no Pará, em 1996, com 19 mortes
e 51 feridos. O comandante da operação policial que culminou no
massacre, coronel Mário Colares Pantoja, foi condenado a 228 anos de
prisão - 12 anos por cada morte.
• O MST tem 19 anos de história e cerca de 1,5 milhão de
afiliados. De acordo com o comando do movimento, cerca de 350.000 famílias
foram assentadas até hoje e mais 80.000 vivem em acampamentos organizador
pelo grupo. Com 1.800 escolas montadas, o MST tem cerca de 160.000 crianças
estudando nos assentamentos, e 19.000 jovens e adultos envolvidos em programas
de alfabetização.
• Nos seis meses iniciais do governo Lula, o MST fez 110 invasões
em quase todos os Estados, e, nos conflitos ocorridos até agora, já
houve dez mortes, mesmo número de vítimas fatais em 2000. No Pará,
40 famílias invadiram 3.000 hectares. Em Mato Grosso, onde 70 fazendas
já estão sob ocupação do MST, 300 famílias
invadiram outra área. Houve, ainda, ocupações em Minas
Gerais e em São Paulo.
• Em sua reunião com Lula, o MST entregou ao governo uma lista
com 16 pedidos, entre eles a meta de assentar 1 milhão de famílias
até 2006 e 120.000 imediatamente. O governo respondeu propondo assentar
60.000 famílias até o fim do ano, e não quis dizer quantas
famílias quer assentar até o fim do mandato. Passados seis meses
do primeiro ano de Lula como presidente, o governo assentou 2.534 famílias,
menos de 5% da meta de assentamento para o ano.
• Segundo o governo, outras 2.276 famílias devem ser atendidas
nos próximos meses nos 80 projetos de assentamento criados no primeiro
semestre de 2003. Lula já assinou decretos de desapropriação
de 199.000 hectares de terras, que deverão receber 57.000 famílias
assentadas. No entanto, falta dinheiro: cada família assentada custa
23.000 reais, e o governo não tem verba para cumprir sua meta até
dezembro. O limite de gastos do Ministério do Desenvolvimento Agrário
com assentamentos é de 162 milhões de reais, suficiente para 6.956
famílias - pouco mais de 10% do prometido.
• Em entrevista a VEJA, o ministro do Desenvolvimento Agrário,
Miguel Rossetto, afirmou que a prioridade do governo são as 80.000 famílias
acampadas no país. Ele diz, porém, que a demanda por terra é
muito maior, e pode chegar a 4 milhões de pessoas. Nos últimos
anos, os balanços dos números de candidatos na fila por terras
do governo mostraram que a conta da reforma agrária nunca fecha: antes
da posse de Fernando Henrique havia 40.000 famílias acampadas esperando
terra; foram assentadas mais de 600.000, e ainda existem 80.000 na fila.
• Sem contar Lula, Fernando Henrique Cardoso foi o presidente que mais
assentou famílias de sem-terra entre os quatro últimos chefes
de estado brasileiros. Em seu governo, a média de famílias assentadas
foi de 70.000 por ano. Itamar Franco foi o pior, com 11.000 famílias
por ano. João Baptista Figueiredo assentou 18.500 famílias por
ano; José Sarney, 18.000; e Fernando Collor, 19.000.
• O governo FHC retalhou 18 milhões de hectares, uma área
maior que o Uruguai e equivalente a metade do território da Alemanha,
e neles assentou 635 000 famílias. Quase 2 milhões de brasileiros
receberam terras entre 1995 e 2002. Para isso, o antigo governo FHC gastou 25
bilhões de reais na aquisição de terra e na instalação
de assentamentos.
ASSENTAMENTOS POR REGIÃO NO PAÍS
Quem são os religiosos que lutam ao lado do MST
A roda de chimarrão faz parte da paisagem de todo acampamento de sem-terra,
em qualquer lugar do país. É em torno do chá-mate que se
comemora o sucesso de uma ocupação ou se discute o plantio do
feijão e do milho. Entre uma bicada e outra, também é comum
ouvir uma pregação. "Dividir o chimarrão é
uma lição de como se deve dividir tudo na vida. A terra, o pão",
diz o padre Círio Vandresen, 35 anos, num dos três acampamentos
que visita por semana no interior de Santa Catarina. Não há grupo
de sem-terra que não conte com a supervisão constante de um padre
católico. Vandresen é o exemplar típico desse exército
de religiosos. "Não sou padre só para rezar. Sou padre para
me engajar na luta por justiça. E a coisa mais importante a ser feita
pela Justiça no Brasil é a reforma agrária", apregoa.
Vandresen é um padre sem paróquia nem residência fixa. Como
coordenador da Comissão da Pastoral da Terra, CPT, em Santa Catarina,
ele e três assessores percorrem o Estado, dormindo em tendas de lona ou
pernoitando em uma paróquia aqui, noutra acolá. O padre já
participou diretamente de quinze invasões e, em suas andanças,
passou por todos os 293 municípios do Estado.
Não se sabe exatamente quantos padres militam dessa maneira ao lado
do MST. A única contabilidade sobre o assunto é a da Pastoral
da Terra, à qual estão filiados 700 religiosos. É um grupo,
por si só, mais numeroso no país do que ordens católicas
tradicionais, como a dos dominicanos. Mas calcula-se que o dobro desse número
divida seu tempo entre as atividades regulares nas paróquias e o apoio
aos acampamentos do MST e de outros movimentos pela reforma agrária.
Não é de se estranhar. O berço do movimento sem-terra e
o de boa parte dos padres é o mesmo - as cidades mais pobres do interior
dos Estados do Sul.
Segundo uma pesquisa feita em 1998 pelo Centro de Estatística Religiosa
e Investigações Sociais, Ceris, quase a metade do clero brasileiro
veio da Região Sul do país. Dois terços pertencem a famílias
de classe baixa ou média-baixa. Enquanto 78% da população
brasileira vive nos centros urbanos, 64% do clero tem origem na zona rural.
Três em cada quatro padres nasceram em cidades com menos de 20.000 habitantes.
Na secretaria da entidade, dos quatro secretários executivos, dois vêm
do Rio Grande do Sul, um do Paraná e o outro de Santa Catarina. "Padre
gaúcho parece churrascaria. Tem em todo o lugar", diz dom Tomás
Balduino, bispo responsável pela CPT, uma exceção na cúpula
do movimento - ele é goiano.
A concentração de padres sulistas no movimento pela reforma agrária
não é só um dado estatístico e a análise
sobre sua origem não é apenas uma curiosidade sociológica.
O interesse dos padres da Região Sul pelo Movimento dos Sem-Terra e outros
movimentos ligados à reforma agrária é um fenômeno
que explica em parte a lógica e a maneira de pensar do próprio
MST. O fato de os padres que apóiam o movimento ser originários
de famílias de imigrantes, conservadoras e profundamente religiosas,
estabelecidas em pequenas propriedades, cria a base para que seus descendentes
de batina sejam refratários a modernizações e desconfiados
em relação aos mecanismos capitalistas de produção.
Esses são alguns fatores que explicam por que estes religiosos defendem
com tanto fervor o engajamento ideológico do MST.
No sul do país há padres demais porque persiste um hábito
trazido pelos imigrantes europeus no início do século. "Como
acontecia no sul da Itália e na Baviera católica, cada família
costuma mandar pelo menos um dos filhos para o seminário", explica
o filósofo Roberto Romano, da Universidade Estadual de Campinas, Unicamp,
estudioso da história da Igreja no Brasil. É uma maneira barata
de garantir educação e emprego a pelo menos um dos rebentos. Com
padres demais sendo formados, todos num mesmo caldo de cultura, é natural
que eles se associem aos sem-terra, com quem concordam em gênero, número
e grau. A família de Vandresen, caçula de onze irmãos,
exemplifica o fenômeno. Suas seis irmãs se tornaram freiras. Dos
quatro irmãos, três cursaram o seminário (mas não
se formaram). Essa contabilidade não surpreende na pequena cidade de
Rio Fortuna, a 196 quilômetros de Florianópolis, onde ele nasceu.
De lá, desde a II Guerra, saíram 36 padres. Bastante para um município
que possui apenas 2.000 habitantes.
Foi a colonização dos imigrantes que fez com que ali, no mesmo
caldeirão, se misturassem a religiosidade e os problemas fundiários.
Quando chegaram ao Sul, a partir do final do século passado, os lavradores
europeus receberam glebas de tamanho razoável. De uma geração
para outra, porém, as famílias - muito numerosas - tiveram de
dividir a terra em pedaços cada vez menores. Em algumas décadas,
o campo ficou pequeno para tanta gente. Uma das conseqüências foi
a diáspora de agricultores gaúchos, que partiram para desbravar
as fronteiras agrícolas em todos os cantos do país. Outras foram
o acirramento da luta pela terra e o aumento do desemprego no campo.
Na década de 60, depois dos ventos liberalizantes do Concílio
Vaticano II, os seminários da região passaram a receber padres
formados no Seminário para a América Latina, situado em Verona,
norte da Itália. Sua influência foi imensa. Lá, os livros
da Teologia da Libertação (que, no Brasil, eram proibidos pela
ditadura) davam a tônica. "Para entender a situação
agrária daqui, líamos Graciliano Ramos e Jorge Amado e assistíamos
aos filmes de Glauber Rocha", explica o padre italiano Ermanno Allegri,
54 anos. O modo de pensar desses padres formou toda uma geração
de religiosos brasileiros, que por sua vez se espalharam pelo país. O
bispo Itamar Vian, gaúcho de Roca Sales, decidiu há quinze anos
mudar-se para o Nordeste. Nesse período, deu auxílio direto e
indireto a 550 invasões na região de Feira de Santana, na Bahia.
"A terra prometida foi uma ocupação", teoriza o italiano
Allegri.
Nos últimos anos, o papa João Paulo II bombardeou duramente a
Teologia da Libertação, especialmente onde ela ameaçava
corroer os dogmas mais importantes da Igreja. Mas deixou que a atividade política
dos padres à esquerda subsistisse por um motivo simples. Para Roma, ela
é uma maneira de garantir os fiéis da zona rural, onde a Igreja
Católica ainda tem predominância tranqüila. "A Igreja
sabe que, na cidade, é mais difícil garantir seus fiéis.
Há outras religiões. E também os templos de consumo, os
shopping centers", teoriza a historiadora Zilda Iokoi, da Universidade
de São Paulo, especialista em movimentos sociais. Manter os fiéis
longe desses "perigos" também interessa.
Movimentos sem-terra
Estima-se
que cerca de setenta entidades participem de acampamentos e invasões
de terra no país. Entre elas, há sindicatos e associações
e, no mínimo, 27 movimentos autônomos de trabalhadores rurais,
mais ou menos inspirados no MST. A maioria dos movimentos tem atuação
apenas local, mas alguns ganharam destaque. São eles:
MST (Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra)
É o maior e mais antigo, fundado em 1984. Está presente em 23
Estados e tem 80.000 famílias acampadas em todo o país. Faz invasões
de terra e ocupações de prédios públicos, destrói
plantações de produtos transgênicos, organiza greves de
fome e marchas nacionais. E um caldeirão ideológico, em que se
misturam várias linhas do pensamento de esquerda e extrema esquerda.
Sua tática é a luta pela reforma agrária. Seu objetivo
final é a revolução socialista.
O MST é comandado por uma direção nacional com vários
integrantes - não há um presidente ou líder oficial do
grupo. Porém, seu principal dirigente é, sem dúvida, João
Pedro Stedile, de 49 anos, gaúcho de Lagoa Vermelha, formado em economia,
pós-graduado na Universidade Autônoma do México e autor
de vários livros sobre a reforma agrária. Foi graças às
idéias, mais do que ao cargo que ocupa desde 1985 na direção
nacional do MST, que Stedile ganhou estatura dentro do movimento. Cada aspecto
seu - dos métodos de luta às teses, passando pela organização
- tem as marcas de seus neurônios. Conservador em relação
à família e à religião, Stedile afirma que suas
idéias são radicais e de esquerda, e defende de forma aberta a
adoção de um sistema socialista no país. Ele viaja pelo
país dando palestras e coordenando a atuação do movimento,
e serve como seu principal formulador de políticas. Em julho de 2003,
Stedile liderou a comitiva do MST na visita ao presidente Luiz Inácio
Lula da Silva, no Palácio do Planalto.
Junto de Stedile na cúpula do MST estão outros nomes influentes
no movimento. O mais conhecido deles é o agricultor Gilmar Mauro, de
36 anos, paranaense de Capanema e coordenador de massas do movimento. Casado
com uma economista mexicana, ele integra a ala mais antiga e expressiva do MST.
Outros líderes nacionais são João Paulo Rodrigues, um dos
dirigentes mais jovens do movimento, e os catarinenses Roberto Baggio e Edgar
Golling, além de Ênio Bohnenberger e Egídio Brunetto - este
último, coordenador do MST no Mato Grosso do Sul e secretário
de relações internacionais. O coordenador regional Jaime Amorim,
responsável pelo movimento no Nordeste, também tem projeção
nacional. Aos 43 anos, formado em pedagogia, o catarinense de Guaramirim é
admirador de Ernesto Che Guevara, líder da revolução cubana,
e dos guerrilheiros zapatistas da região de Chiapas, no México.
Em 1998, ele liderou uma série de seqüestros e roubos de caminhões
carregados de alimentos.
O líder regional de São Paulo José Rainha Júnior
(foto acima), de 45 anos, não é integrante da direção
nacional, foi desautorizado a falar em nome do MST e está afastado da
tomada de decisões dentro do movimento. Capixaba de São Gabriel
da Paz, Rainha é um camponês que foi analfabeto até a adolescência,
antes de ganhar notoriedade nacional pulando as cercas dos outros. Já
foi alvo de tiros, foi acusado de assassinato, acabou preso e depois libertado
e continua sendo o principal nome do MST no Pontal do Paranapanema, extremo
oeste do Estado de São Paulo, um dos principais pontos de tensão
na questão agrária brasileira. Casado com Diolinda Alves de Souza
- que já foi presa em seu lugar quando a polícia não conseguiu
localizá-lo -, José Rainha causou desconforto entre os líderes
nacionais quando foi revelado seu plano de reeditar a experiência do acampamento
de Antônio Conselheiro, em Canudos, em pleno Pontal do Paranapanema. Em
junho de 2003, incomodada com a repercussão negativa do projeto, a direção
do MST divulgou que as idéias de Rainha não representam a posição
do movimento.
MLST (Movimento de Libertação dos Sem-Terra)
Criado em 1994, tem acampamentos em seis Estados - Maranhão, Rio Grande
do Norte, Pernambuco, Bahia, Minas Gerais e São Paulo. Formado por militantes
de extrema esquerda, o movimento é ainda mais radical que o MST. Prega
abertamente a tomada do poder pela força e defende a eclosão da
revolução socialista a partir do campo. Apesar do radicalismo
retórico, sua prática não difere muito da do MST.
MLT (Movimento de Luta pela Terra)
Apareceu em 1994, no sul da Bahia, com o desemprego provocado pela crise das
fazendas de cacau da região. Está organizado em quatro Estados:
Minas Gerais, Bahia, Sergipe e Pará. Reúne 4.000 famílias,
das quais 1.000 já foram assentadas. Adota as mesmas táticas do
MST: invasões, acampamentos de beira de estrada e ocupações
de prédios públicos.
MAST (Movimento dos Agricultores Sem-Terra)
Surgiu em 1998, na região do Pontal do Paranapanema, em São Paulo,
e mais tarde se ampliou para o interior do Paraná. Foi fundado por militantes
da Social Democracia Sindical, uma central sindical de direita, e por dissidentes
do MST. Hoje, representa 800 famílias. De todos, é o movimento
de sem-terra mais moderado: opõe-se às ocupações
de terra, não reclama da estrutura agrária do país e defende
uma reforma negociada.
OS NOMES DO GOVERNO
O
presidente da República, Luiz Inácio Lula da Silva, tem grande
ligação com movimentos populares e com a reivindicação
da reforma agrária no Brasil. Quando se candidatou, prometeu promover
uma reforma inédita em qualidade e quantidade no país. Seu partido,
o PT, tem integrantes ligados aos líderes do MST, principalmente em suas
alas radicais, e já apoiou, de forma indireta ou até mesmo explícita,
as invasões de terra promovidas pelo movimento. Pressionado a apresentar
resultados de impacto, Lula decidiu nomear para o governo pessoas com experiência
na defesa da reforma agrária.
Ministro do Desenvolvimento Agrário, o gaúcho Miguel Rossetto,
43 anos, dois casamentos e quatro filhos, é um dos petistas que já
aprovaram abertamente invasões de propriedade privada, assim como a atuação
do MST. Militante da Democracia Socialista, uma das correntes radicais do PT,
ex-líder do sindicato dos petroleiros, ex-deputado federal pelo PT e
vice-governador do Rio Grande do Sul na gestão de Olívio Dutra,
ele tem experiência política, credencial número 1 para ocupar
um cargo explosivo como esse. Sua nomeação, no entanto, mexeu
com os nervos dos produtores rurais. Motivo: para muitos fazendeiros, ficou
a impressão de que Rossetto e seu secretário-executivo, Guilherme
Cassel, braço-direito do ministro, falam e agem como se defendessem os
interesses dos sem-terra.
Ao assumir o cargo, o ministro do Desenvolvimento Agrário loteou sua
pasta de alto a baixo entre simpatizantes da causa. Uma parte ficou com o MST,
outra com os integrantes da Comissão Pastoral da Terra, e uma terceira
é comandada pela confederação dos agricultores, a Contag.
A presidência do Incra, sua nomeação mais importante, foi
entregue a Marcelo Resende, figura ligada à Pastoral da Terra e ex-comandante
do Instituto da Terra no governo Itamar Franco. MST e Contag gostaram da escolha.
Ao designar novos superintendentes para o Incra, Resende colocou pessoas ligadas
ao MST em nove das 29 sedes do instituto no país.
Além de Miguel Rossetto, outros nomes importantes do governo Lula têm
ligação com a atuação dos sem-terra ou experiência
no assunto. O assessor especial da Presidência Carlos Alberto Libânio
Christo, o Frei Betto, é uma das peças do governo que defendem
o MST e outros movimentos de luta pela reforma agrária. Como é
muito ligado a Lula, pode defender a atuação dos sem-terra dentro
da esfera do poder federal. Da mesma forma, o agrônomo, economista e professor
José Graziano da Silva, ministro Extraordinário de Segurança
Alimentar e de Combate à Fome e professor e amigo de Lula há mais
de duas décadas, também pode ser ouvido pelo presidente sobre
o assunto.
Ao final dos primeiros seis meses de governo Lula, a condução
da reforma agrária foi corrigida pelo presidente. Uma nova onda de invasões
e a retomada das ambiciosas reivindicações do MST reacenderam
a tensão no campo. Apesar disso, o ministro Rossetto, criticado por não
agir para inibir as invasões e atos violentos, não caiu em desgraça.
No Planalto, avalia-se apenas que, por sua proximidade com o MST, onde cultiva
velhas amizades, ele tem dificuldade de ser duro com os sem-terra. Três
ministros assumiram a tarefa de controlar a situação e tratar
dos excessos do MST: o secretário-geral da Presidência, Luiz Dulci,
o ministro-chefe da Casa Civil, José Dirceu, e o ministro da Justiça,
Márcio Thomaz Bastos. Enquanto Lula recebia os sem-terra pela primeira
vez como presidente, no início de julho de 2003, o trio advertia, em
entrevistas e discursos, que tanto sem-terra como fazendeiros que radicalizarem
o conflito no campo serão submetidos à lei. Se Dulci, Dirceu e
Bastos cuidarão dos excessos do MST, Rossetto ficará a cargo da
execução da reforma em si - que, promete-se, agora vai deslanchar.
PERGUNTAS & RESPOSTAS
Por que o Brasil, que tem terra de sobra, ainda vive problemas no campo?
Existem duas visões conflitantes a respeito da agricultura brasileira.
Segundo a mais antiga, o Brasil tem terras tão esplêndidas e vastas
que poderia ser o celeiro do mundo. A outra é baseada na observação
prática de quem viaja pelo país. Fora algumas regiões do
centro e do sudeste, que têm lavouras vistosas, uma boa parte do terreno
brasileiro é formada por matagal inaproveitado. Ou por roçados
em que a família cria bode, galinha e planta inhame para comer no casebre.
Nessa paisagem há também o latifúndio improdutivo, dominado
pelo coronel que prefere mexer com política a plantar alguma coisa. É
a essa combinação de terras férteis, mas ociosas, que se
dá o nome de problema agrário brasileiro. Esse problema, temperado
por surtos de agitação rural, é muito discutido, tema de
análises acadêmicas e de discursos inflamados no Congresso. Fala-se
demais sobre a terra brasileira e pouco se faz. Muitos números indicam
que o Brasil pode ser mesmo um dos celeiros mundiais, mas o fato é que
o país nunca teve uma política agrária global, digna desse
nome. Nas áreas em que se planta com técnicas modernas, a agricultura
brasileira é altamente produtiva, quase tanto quanto a européia
ou a americana. Mas na maior parte do Brasil planta-se ao acaso. Se der certo,
deu. E geralmente não dá - porque não há planejamento,
dinheiro, técnica, tradição.
Por que a reforma agrária no país dificilmente produz
resultados significativos?
A operação de desapropriar fazendas improdutivas e alojar trabalhadores
sem terra não é difícil de tocar. Com um laudo do Incra
e um rabisco do ministro da Reforma Agrária, aparecerão lotes
em boa quantidade. Em termos práticos, isso adianta pouco. O sem-terra,
com o seu lote, continuará sem estrada, sem irrigação,
sem semente, sem renda. É difícil imaginar alguma razão
pela qual ele se fixaria nessa gleba por muito tempo. Assim, a política
de desapropriação e assentamento parece fadada ao fracasso se
não vier acompanhada de medidas de apoio, como oferta de crédito
barato ao produtor e construção de infra-estrutura para sua produção.
Se os assentamentos têm tantos problemas, por que tanta gente
continua aguardando na fila para integrar um deles?
De acordo com um censo realizado pelo Incra, 70% dos assentados já trabalhavam
em alguma atividade rural - o que derruba o mito de que grande parte dos assentados
vivia antes nas cidades. É dura a vida nos assentamentos. A maioria vive
em casas de madeira ou taipa, ilumina suas noites à base de lampiões
de querosene e há uns poucos felizardos que desfrutam o luxo da água
encanada. A maior parte não tem nem posto de saúde por perto,
muito menos hospital. Mas, apesar da aspereza da vida e da alta taxa de desistência,
mais de 60% dos assentados não pensam em ir embora. Há sinais
de que a maioria não deixa a terra porque a sua vida, ainda que precária,
está melhor que antes, e sua renda familiar média a coloca com
um padrão bem acima dos milhões de brasileiros oficialmente considerados
miseráveis.
Se há tantas dificuldades para o governo bancar a reforma, por
que vale a pena promovê-la?
Até a década de 60, distribuir terras garantia um aumento na produção
agrícola dos países. Depois, com o aumento da produtividade, garantiu-se
o abastecimento não pela repartição da terra, e sim pelo
uso da tecnologia. A necessidade de mão-de-obra no setor vem caindo,
aumentando diretamente a legião dos sem-terra. O Brasil tinha mais da
metade de sua força de trabalho no campo até a década de
60. Hoje tem 23%. A Europa mantém aproximadamente 6% de sua população
trabalhando no meio rural e, nos Estados Unidos, a porcentagem cai para 2%.
De um ponto de vista estritamente agrícola, portanto, a reforma agrária
não tem mais nenhuma razão de ser. No Brasil, ela se transformou
numa questão diferente, pelo menos na teoria: evitar que as metrópoles
sejam inchadas por desempregados do campo e também funciona na esfera
da justiça social ao conceder terra a quem precisa dela para tirar o
sustento da família.
Se o país bancou centenas de milhares de assentamentos nos últimos
anos, por que o MST mantém sua estratégia agressiva para pressionar
as autoridades?
Pela agressividade e amplitude das manifestações, seria razoável
supor que o MST vive um momento de profunda angústia e que o programa
de reforma agrária vai muito mal no Brasil. Mas nas duas décadas
contadas desde que foi iniciado o programa, nos anos 80, foram distribuídos
22 milhões de hectares de terra a 618.000 famílias. Essa área
equivale à soma de quatro países europeus: Áustria, Bélgica,
Holanda e Portugal. Quanto mais terra o governo distribui, mais irritada fica
a cúpula do movimento, porque, diante de números como esses, o
discurso do MST se fragiliza. Numa palavra, o MST não quer mais terra.
O movimento quer toda a terra: quer tomar o poder no país por meio da
revolução e, feito isso, implantar por aqui um socialismo tardio.
É o próprio MST que diz isso - e sem constrangimento algum.
FRASES
"A reforma agrária é igual a futebol, e o time dos latifundiários
vai ser derrotado. O governo joga no nosso time." (João Pedro
Stedile, do MST, em encontro com Lula)
"Estamos entregando uma bola cheia porque o senhor está com a bola
cheia e temos que aproveitar este momento para escalar o time da reforma agrária.
Vamos colocar o senhor como centroavante e, pela esquerda, o ministro Miguel
Rossetto. Mas pela direita vai o Antonio Palocci. E o José Dirceu é
meia-esquerda." (Ênio Bohnenberger, do MST, em encontro
com Lula)
"O MST é muito organizado para lutar pelo acesso à terra,
mas não tem o mesmo ímpeto na hora de viabilizar o empreendimento."
(Gerd Sparovek, professor da Universidade de São Paulo (USP)
"Antônio Conselheiro não se entregou nem foi morto pelas
tropas do governo. Morreu de diarréia. A burguesia amarela quando falo
que vou fazer uma nova Canudos." (José Rainha, do MST)
"O governo Lula está moroso." (João Pedro Stedile,
do MST)
"O Ministério do Desenvolvimento Agrário não é
instituição policial. Não é tarefa do ministério
reprimir manifestações." (Miguel Rossetto, ministro
do Desenvolvimento Agrário)
"Os dirigentes possuem um sonho revolucionário que é construir
sobre os escombros do capitalismo uma sociedade socialista. Muitas vezes as
aspirações dos dirigentes não são as mesmas da massa.
Nesse caso é preciso desenvolver um trabalho ideológico para fazer
com que as aspirações da massa adquiram caráter político
e revolucionário." (Trecho de cartilha do MST)
"O MST se perdeu, em parte por causa de sua própria estrutura
e em parte por não ter sabido adaptar-se às mudanças que
vêm ocorrendo tanto no mundo quanto na questão agrária no
Brasil." (Raul Jungmann, ex-ministro da Reforma Agrária)
"Se voltarmos dessa joça sem terra, vamos incendiar os latifúndios."
(José Rainha, do MST)
"Essas pessoas que invadem prédios públicos têm de
ser presas. O MST tem posições pré-revolucionárias
e suas ações não estão sendo repelidas com a força
necessária. Ele tem direito de se manifestar, não de praticar
crimes." (Celso Bastos, professor de Direito)
"O Brasil cansou da falta de respeito à liberdade, da transformação
da liberdade de uns no constrangimento de outros. O Brasil e o presidente não
vão mais admitir que funcionários públicos sejam reféns
de gente que faz baderna em nome de uma causa que em si é justa."
(Fernando Henrique Cardoso, ex-presidente)
"Minha família dedicou os últimos quarenta anos à
formação dessas fazendas. Meu pai fez essas pastagens roçando
a área com machados. Na minha idade eu não agüento ver minhas
terras entregues a esses aventureiros." (Túlio Alves Filho,
fazendeiro do Centro-Oeste)
"Nós não temos armas. Quem está armada é
a polícia e o latifundiário." (João Paulo Stedile,
do MST)
"Dividir o chimarrão é uma lição de como
se deve dividir tudo na vida. A terra, o pão. Não sou padre só
para rezar. Sou padre para me engajar na luta por justiça. E a coisa
mais importante a ser feita pela Justiça no Brasil é a reforma
agrária." (Círio Vandresen, padre de Santa Catarina)
"Zapatistas, Che Guevara, maoístas, marxistas, leninistas, gostamos
um pouco de todos, mas não seguimos nenhum. Temos influência até
de Jesus Cristo. Podemos tomar o poder um dia, fazer a revolução,
mas não pensamos nisso agora. O povo tem de ocupar o seu lugar neste
país. Seja pelo voto, eleição ou pela força dos
movimentos." (Jaime Amorim, do MST)
"Enquanto durar o clima de violência, saem de cena o Incra e o
Ministério da Política Fundiária e entram a Polícia
Federal e o Exército." (Milton Seligman, ex-presidente
do Incra)
"Os sem-terra não seriam diferentes de nenhum das dezenas de movimentos
rurais, desde Antonio Conselheiro, se não tivessem essa habilidade que
demonstram na exploração das câmeras de televisão."
(Bolívar Lamounier, cientista político)
"Nas décadas de 70 e 80, a grande teta agrária era pegar
empréstimos e incentivos do governo para investimentos e benfeitorias
fantasmas. Nos anos 90, o filão é entregar terras para a reforma
agrária e receber monstruosas indenizações." (Luiz
Eduardo Greenhalgh, advogado do MST)
"Polícia e fazendeiros têm de andar de mãos dadas
para cumprir mandados judiciais." (Iris Rezende, ex-ministro da
Justiça)
"Não existe nada mais moderno que sonhar com o socialismo. Atrasado
é continuar defendendo o capitalismo, o latifúndio." (João
Paulo Stedile, do MST)
"É preciso investigar a vida pregressa desses que se dizem líderes
do MST e desmascará-los. Eles não querem resolver o problema da
reforma agrária, senão ficam sem emprego. Querem é ficar
hospedados em hotéis cinco estrelas, ganhar dinheiro à custa de
quem precisa mesmo de terra. Falar em desapropriação é
fácil. É muito fácil dividir o que é dos outros."
(Abelardo Lupion, da bancada ruralista na Câmara)
"Ele tinha dois buracos de bala nos olhos e outro na testa. Só
o identifiquei pela roupa. Via-se uma massa de carne disforme no lugar onde
havia sido seu rosto." (Carlos Amaral Júnior, advogado
de uma das vítimas do massacre de Eldorado dos Carajás)