Pré-História: 2. A Pré-história do Brasil

  • Data de publicação
Fernando Luis de Carvalho, obra "A Pré-história Sergipana"


Na história europeia, os nomes geralmente usados na periodização universal são: Paleolítico (Inferior, Médio e Superior), Mesolítico, Neolítico e Civilização ou Urbanismo (Pré-Clássico, Clássico e Pós-Clássico). Os nomes americanos aproximadamente correspondentes são:

I. Período Lítico, que pode ser usado no sentido semelhante ao Paleolítico e dividido em um período Pré-pontas e outro Paleoíndio.
II. Período Arcaico (Mesolítico);
III. Período Formativo (Neolítico);
IV. Período Pós-Cabralino, a partir da presença europeia e o estabelecimento do processo civilizatório (excluídas, no período, as fases pré-clássica e clássica).

O povoamento da América e, naturalmente, do Brasil, ocorreu no término do Pleistoceno, que corresponde ao final da última glaciação. Os principais artefatos da pré-história brasileira são as pedras manipuladas para a confecção de instrumentos, os fragmentos cerâmicos, a reciclagem de ossos de animais e conchas, notadamente.

Os locais onde são encontrados os artefatos são identificados como sítios arqueológicos. Pela sua condição espacial, os sítios são classificados como abrigos, sítios a céu aberto e sítios construídos; pela funcionalidade, sítio habitação (estável ou ocasional), depósitos de lixo (sambaquis), oficinas de trabalho, sítios cerimoniais (cemitério, registro rupestre). Cada sítio arqueológico é uma página da pré-história.

A pré-história brasileira é dividida em dois grandes períodos:

Culturas do Pleistoceno (Anteriores a 12.000 AP)

AP – significa “Antes do Presente” que, por convenção, é 1950.
Trata-se de uma menção à descoberta da técnica de datação através do carbono 14, que se deu em 1952. As referências cronológicas obtidas através de métodos físicos são sempre acompanhadas de suas respectivas margens de erro, que são expressas com o sinal positivo e o negativo (±).

I. A Cultura do Paleoíndio

Populações que teriam vivido concomitantemente com a megafauna. Sítios principalmente de matança, não de acampamentos residenciais. Artefatos identificadores, pontas bifaciais, especializadas, de projétil, geralmente acompanhadas de lascas usadas como facas, raspadores e raspadeiras; o ambiente, um período frio e seco; população, pouco numerosa e nômade, organizada em bandos frouxos.

Os animais caçados seriam, como hipótese ainda não plenamente constatada, os que se extinguiram com o final da glaciação e que, em termos populares, poderíamos denominar de bisontes, cervídeos e camelídeos, antigos cavalos, preguiças e tatus gigantes, antas, tigres-dente-de-sabre etc.

O conceito de Paleoíndio, no Brasil, é utilizado para as culturas mais antigas, encontradas em Goiás, Minas Gerais, Piauí, Pernambuco e Rio Grande do Norte. O conceito de período Arcaico para as outras culturas de caçadores pré-cerâmicos. Em alguns estados brasileiros há datações que registram a presença do homem antes de doze mil anos: em Minas Gerais, a cultura do homem de Lagoa Santa (Gruta do Sumidoro, Lapa Mortuária de Confins, Cerca Grande em Pedro Leopoldo); em São Paulo, o Sítio Alice Boer, em Rio Claro e no rio Ribeira do Iguape; no Mato Grosso, o Abrigo do Sol, em um afluente do Guaporé.


Luzia, um dos mais antigos registros da
presença humana no Brasil.

“Hoje sabemos, por meio de datações pelo Carbono 14, que as importantes coleções de esqueletos de Lagoa Santa possuem mais de 10 mil anos. Em 1999, pesquisadores da Universidade Manchester, na Inglaterra, reconstituíram a face do crânio humano mais antigo já encontrado nas Américas, proveniente de Lagoa Santa. Apelidado, de forma carinhosa, com o nome de Luzia, o crânio é de uma mulher e tem cerca de 11.680 anos. O crânio e outros ossos do corpo de Luzia haviam sido descobertos em 1975, em Lagoa Santa, por uma equipe franco-brasileira coordenada pela arqueóloga francesa Annete Laming-Emperaire, e hoje se encontram no acervo do Museu Nacional do Rio de Janeiro” (FUNARI, 2001).

As datações mais antigas recuam a presença de culturas humanas há 14 mil anos do presente. Há uma correlação cronológica entre o paleoíndio e os megatérios.


Crânio do “Homem de Lagoa Santa”, existente no Museu Lund.
Copenhague. Fonte: Josué Camargo Mendes. Conheça a pré-história brasileira.

Segundo Mendes (1970), os megatérios foram animais de grande porte, chegando a ultrapassar 5m de comprimento. Os seus caracteres anatômicos aproximam-se muito das preguiças atuais. Mas, no tocante aos hábitos, parecem ter divergido, pelo menos numa particularidade: animais tão corpulentos não poderiam ter sido arborícolas. Alimentavam-se, também, de folhas e brotos, a julgar pelo tipo de dentição. Eram cobertos de pêlos grosseiros, como as preguiças e tamanduás, fato que comprova através de um fragmento de pele de milodonte, parente do megatério, preservada numa gruta de Patagônia. Os seus membros locomotores apresentavam uma torção em virtude da qual as plantas dos pés se voltavam para dentro. Eram dotados de grandes garras em forma de gancho.

Enfim, a sua conformação anatômica somente lhe permitiria marcha lenta e pesada sobre o solo, embora não tão vagarosa quanto à das preguiças de hoje. Essa interpretação valeu-lhes o cognome de “preguiças terrícolas”. Se o animal desejasse alcançar ramos mais altos, teria que se erguer sobre os membros posteriores, apoiando-se com as patas dianteiras sobre o tronco das árvores.

(...) Assim como os megatérios se assemelhavam às preguiças, os gliptodontes lembram os tatus. Mas estes são mais antigos que os gliptodontes e provavelmente deramlhes origem do decorrer do terciário. Ambos os grupos se caracterizam pela posse de uma carapaça dorsal. No caso dos gliptodontes, a carapaça não se constituía de anéis móveis, como a dos tatus, mas de um mosaico de placas ósseas, solidamente ligadas entre si”. (Mendes,1970)

Megatério
Fonte: Museu Nacional/RJ.
Mastodonte
Fonte: Museu Nacional/RJ


Os gliptodontes alcançavam, em média, dois metros de comprimento. Entre os grandes carnívoros do final do pleistoceno, o maior e mais agresssivo foi o Smilodon Populator, ou tigre-dentes-de-sabre. Porte superior ao da maior onça conhecida. Os Caninos atingiam cerca de trinta centímetros de comprimento.

Registra-se também a presença dos toxodontes, do tamanho de um hipopótamo e, como aqueles, eram anfíbios. Os mastodontes assemelhavam-se fisicamente aos elefantes. Enormes presas, com pontas encurvadas para o alto e mais de um metro de comprimento.

No caso da América, acreditamos que pode ter ocorrido uma confluência dos três fatores, pois houve, efetivamente, mudança climática, com a diminuição da área dos campos e cerrados – os habitats originais desses grandes animais – concomitantemente a expansão da ocupação humana, que pode tanto ter espalhado doenças como extinguido o número desses animais por meios das caçadas. Segundo alguns estudos realizados com o auxilio de simulação com modelos computacionais, em apenas mil anos a caça excessiva seria o suficiente para acabar com algumas espécies de animais. Como quer que seja, o fim da megafauna foi a mais significativa extinção de animais do planeta desses a época dos dinossauros, podendo ser considerada importante por ter sido contemporânea do ser humano e, portanto, possivelmente relacionada à ação deste. Entretanto, seria mesmo correto atribuir ao homem essa destruição, ou seria apenas a nossa consciência pesada a sugerir tais hipóteses? Não sabemos, mas o estudo da megafauna extinta, por essa ligação umbilical com o ser humano, promete continuar a concentrar a atenção dos pesquisadores do passado pré-histórico e a gerar novos conhecimentos coevolucionários entre humanos e animais.” (FUNARI, 2001)

A partir da década de setenta, no Piauí, a arqueóloga Niede Guidon, nos sítios Boqueirão da Pedra Furada e do Meio, apresenta datações de mais de cinquenta mil anos do presente.

Das culturas pleistecênicas, os artefatos recolhidos são choppers, chopping-tool, batedores, lascas e núcleos trabalhados (líticos), fogueiras com a recuperação de parte da dieta alimentar e ossadas humanas.

Na fauna pleistocênica ainda presente a megafauna, com os megatérios (preguiças gigantes), gliptodonte (tatus), tigres dentes-de-sabre, ursos, toxodontes (similares ao hipopótamo), mastodontes (parecidos com os elefantes, com grandes presas). Aspectos climáticos apontam, como reflexo das glaciações no hemisfério norte, períodos de chuvas e secas. A oscilação do clima, (glaciação Wisconsin), chegou a quatro graus centígrados. O nível do mar estava a 90 metros do atual há vinte mil anos. Há sete mil anos o nível se apresentava a dez metros abaixo. Este o fator apontado para a ausência de culturas pleistocênicas no litoral.

Em período anterior (30 a 20 mm anos AP) as condições climáticas eram mais amenas e o nível do mar mais alto; o holoceno traz o calor e a umidade, com a elevação do nível do mar, caracterizando a tropicalização do Brasil.

O final do pleistoceno (cerca de 18.000 – 12.000 anos AP) é rigorosamente frio e seco e o nível do mar está ao menos 100m abaixo do atual; o período anterior (cerca de 30.000 – 20.000 anos AP) apresenta, ao menos parcialmente, condições climáticas mais amenas e o nível do mar mais alto; o holoceno, finalmente, traz consigo o calor e a umidade, junto com um nível de mar alto, que redundam na tropicalização do Brasil e, a partir do início de nossa era, numa certa estabilidade dessas condições.

Os animais herbívoros, a que o homem estava principalmente ligado, reagiram de forma idêntica ao aparecimento e desaparecimento de cada ciclo climático, de forma que a fauna florestal podia, em qualquer lugar, ser substituída por outra adaptada às condições da estepe ou da tundra e vice-versa.

Os sítios arqueológicos no pleistoceno estão ligados a nichos naturais de recursos diversificados: alimentos, combustível, abrigo e matérias primas para a promoção de utensílios, instrumentos e armas. Neles, os caçadores-coletores tinham acesso a grande número de espécies de animais de médio e pequeno porte. A captura não exigia um arma especializada: armadilhas, porretes, a criatividade e a força muscular do homem. As proteínas vegetais, em sua maior parte, frutos de acesso fácil, raízes e tubérculos. A partir de vestígios da dieta alimentar e registros rupestres, algumas espécies animais são conhecidas: antas, capivaras, veados, pacas, tatus, tamanduás, lagartos, emas, peixes e aves. Nos rios, como o São Francisco e seus afluentes, a piscosidade durante a piracema foi fator decisivo para os deslocamentos e instalação de grupos.

Os habitats dos caçadores-coletores se dão em grutas ou abrigos, no alto de colinas ou à beira dos rios.

A pré-história brasileira no período quaternário, o holoceno, é subdividida em duas fases. Na primeira são situadas as culturas pré-cerâmicas, entre 12 a 5 mil anos do presente; na segunda fase, as culturas dos ceramistas, a partir de cinco mil anos. Quando do início do holoceno, o espaço territorial hoje constituído como Brasil já tinha sido ocupado por caçadores-coletores.

A base econômica continuava sendo a caça, a coleta e a pesca. Expressivo aumento demográfico, notadamente com a introdução de técnicas agrícolas, gerou atritos interétnicos com aumento de pressão ocupacional sobre os ecossistemas. Com a instalação do semi-árido no holoceno, o clima inviabilizou a sobrevivência da megafauna. As transformações operadas no meio ambiente alteraram, nos grupos pré-históricos, o seu modo de vida. Um conjunto de práticas e conhecimentos relativos aos hábitos cotidianos foram sendo processados e desenvolvidos lentamente. No holoceno a tecnologia deu um salto para a frente com a revolução na produção de alimentos, há aproximadamente cinco mil anos.

Culturas do Holoceno (12.000 AP)

As culturas pré-cerâmicas

Temperaturas quentes com umidade localmente diversificadas. Vegetação em expansão. Na alimentação, os moluscos terrestres ocupam posição determinada, amplia-se a acesso a proteínas vegetais e caça mais reduzida.

As culturas estão sendo diversificadas, à proporção que os grupos de caçadores-coletores se adaptar aos recursos locais. A pedra era predominantemente utilizada para fabricar artefatos que englobam ferramentas, armas e objetos de adorno. O uso das peças líticas caracteriza-se no período como múltiplo: cortar, raspar, furar, desbastar, moer, aplainar, serrar e até decorar. A matéria-prima predominante: o sílex, o quartzo e a calcedônia. Duas técnicas foram empregadas em função do uso e do avanço tecnológico: o lascamento e o polimento.

Em face da inexistência de artefatos cerâmicos, as culturas nessa fase são classificadas a partir da tipologia lítica. Duas tradições são consagradas notadamente: a UMBU, com datações obtidas no planalto meridional, e a HUMAITÁ, com datações próximas a seis mil anos, típica de áreas com altitude inferior a duzentos metros, ambas identificadas nos estados do sul do Brasil.

Duas tradições líticas gerais têm sido reconhecidas no sul do Brasil, uma com pontas de projétil líticas e outras onde estas estão ausentes. Esta última [é] designada tradição Humaitá (...) As pontas de projétil líticas são antigas na América do Sul e persistem no Sul do Brasil (...) na tradição Umbu." (Meggers, Evans, 1977).

A tradição UMBU, composta a partir da presença de caçadores-coletores em área planaltina, ocupando regiões menos arborizadas e espalhando-se por vales posteriormente, caracteriza-se pelas pontas de projétil e lascas retocadas, confeccionadas do silex, calcedônia, quartzo e ágata. Nessa tradição há uma ausência de peças polidas e picoteadas. As comunidades da tradição UMBU sepultavam seus mortos sobre cinzas, mesmo ainda com a presença de brasas. Apenas colares de conchas foram resgatados do mobiliário funerário.


Artefatos líticos da tradição UMBU. Paraná.
(Segundo Chmy, coord., Projeto Arqueológico Itaipu)
Fonte: Prous, André (1992)

Alguns objetos de ossos resgatados são os furadores retocados, anzóis curvos, adornos de dente de tubarão e agulhas. Os registros rupestres em abrigos-sob-rochas da borda do planalto gaúcho são vinculados à tradição Umbu, apesar da inexistência de escavações contextualizadas e a presença, em alguns abrigos, de vestígios arqueológicos das tradições Humaitá, Taquara e Guarani.

A vinculação é proposta devido à presença de pontas de projétil praticamente em todos os contextos identificados (registros rupestres) e vinculação similar na Patagônia.

Com o aumento da umidade, a partir de 9000 anos A.P., temos o gradativo crescimento dos ambientes fechados. Isto parece que favoreceu o surgimento e a dispersão/ocupação desses ambientes, incluindo o planalto, de outro grupo coletor-caçador-pescador (invertemos os dois primeiros termos indicativos de modo de subsistência para distinguir este grupo, sem pontas-de-projétil líticas, do anterior, objeto de nosso estudo). Trata-se da tradição Humaitá. Na encosta do planalto, no Rio Grande do Sul, possuímos provas estratigráficas da ocupação da UMBU, seguida pela Humaitá. Com o surgimento da cerâmica e de alguns instrumentos polidos (lâminas de machado, mãos-de-pilão), a Humaitá evoluiu para a cultura de roças: é a tradição Taquara”. (Ribeiro, 1990)

A tradição Humaitá resulta da presença de grupos pré-históricos que habitavam os barrancos e terraços dos rios. Os artefatos líticos produzidos eram peças mais pesadas como chopper, chopping-tool e bifaces, inexistindo as pontas de projétil. Ocupando áreas próximas aos rios, sua atividade econômica predominante era a coleta de vegetais e a pesca.

As culturas pré-cerâmicas do Norte e Nordeste e Brasil Central ainda são pouco conhecidas. Comenta-se a tradição Itaparica, caracterizada pelo predomínio dos raspadores e da técnica de retoque unifacial. Essa tradição foi estabelecida pelo arqueólogo Valentin Calderon.

Se tomarmos como ponto de partida os trabalhos já publicados sobre o material lítico dos últimos 10000 anos, certamente chegaremos a uma grande divisão em dois grupos: o das pontas de projétil e o dos raspadores. Este se estenderia por uma paisagem de cerradão e de caatinga fechada e, por perdurar por todo este espaço de tempo, teria se adaptado à caatinga aberta, à medida que o processo de desertificação foi se acelerando” (Rocha, 1990).

II. As culturas pré-cerâmicas do litoral: Os sambaquis

Em lagunas, baías, enseadas ou ao longo dos mangues há o registro de importantes sítios arqueológicos: os sambaquis. A palavra, de origem tupi, significa amontoado (IRI) de mariscos ou conchas (TAMPA). Compreendem, portanto, os acúmulos artificiais de conchas e moluscos (Ostra, Berbigão, Mexilhão). Os grupos pré-históricos de coletores marinhos baseavam o seu sustento preferencialmente na coleta de moluscos, que eram abundantemente encontrados nas lagoas, mangues e baías do litoral do Brasil. Não se sabe se a coleta de moluscos seria uma atividade predominante e anual de moradores do litoral ou uma atividade estacional e complementar de populações transumantes entre o litoral e o interior.

As datações nos sambaquis brasileiros situam aquelas culturas entre oito e dois mil anos do presente. Em forma de calotas, os sambaquis ou concheiros constituem morros artificiais entre dois e dez metros de altura, com trinta metros, em média, de comprimento e largura. A decapagem nos depósitos constata vestígios humanos: fogueiras, enterramentos, líticos, restos de alimentos e, em menor número, recipientes de barro não cozido.

Local de acampamento temporário de comunidades caçadoras, pescadoras e coletoras, geralmente litorâneas, de forma e dimensão variável, contendo, de acordo com o grau de adaptação ou especialização, quantidades variáveis, e as mais numerosas evidências da atuação humana: artefatos de pedra, osso e concha, cerâmica, sepultamentos, resíduos de carvão, cinzas de fogueiras, matéria corante, entre outros” ( Lina Kneip, 1977 )


Zoólitos. Coleção Padre Rohr, IPHAN, SC.

Os maiores sambaquis brasileiros já identificados situam-se no Estado de Santa Catarina (Laguna, Garuva e São Francisco do Sul), onde chegam a atingir trinta metros de altura por centenas de comprimento. Os sambaquis não são apenas amontoados de moluscos mas devem ser entendidos como restos de acampamentos, reunindo, além dos resíduos alimentares, vestígios de habitações e sepulturas. Edificados à beira d’água, os acampamentos possibilitavam aos grupos coletores recursos abundantes, diversificados e renováveis.

Escavações arqueológicas nos sambaquis constataram, junto aos alimentos, vestígios outros da coleta e da caça, tais como conchas, ossos, dentes, chifres, etc. Seus sepultamentos são primários, em posição fletida. Há fogueiras ligadas ao ritual de enterramento. Os líticos resgatados são mais polidos e picoteados que apenas lascados. São batedores, bigornas, machados, pesos para redes e zoólitos.

A partir da variabilidade dos rituais funerários na sociedade sambaquieira (Gaspar, 2000), autores levantam a hipótese de desigualdade social. No entanto, não há evidencias que indiquem uma chefia institucionalizada.

Esculturas (zoólitos) em pedra e osso indicam habilidade artesanal em suas confecções mas, pelo volume obtido (5 mil anos da cultura) não caracterizaria uma atividade destacada.

Madu Gaspar sugere que “a existência de uma sistema de regras rígido para a sua confecção indica a presença de algum tipo de organização supra-comunal que permeava as relações sociais (...). Ficou para trás a figura desenhada nos primórdios da arqueologia brasileira que representava os sambaquieiros como bandos simples de coletores na constante busca de moluscos, tentando escapar da fome e da má nutrição”.

A matéria-prima mais presente: o granito, gnaisse e diabásio. Inúmeros os objetos de ossos, conchas e chifres como perfuradores, raspadores e adornos.

Alguns sambaquis fluviais em terraços, nas encostas dos morros, já foram identificados nos estados de São Paulo, Paraná, Santa Catarina e Rio Grande do Sul. No litoral do Nordeste, o arqueólogo Valentin Calderón (UFBA) escavou o sambaqui da Pedra Oca, no recôncavo baiano. Identificou a cultura como Periperi. Já no Maranhão, a equipe do Museu Goeldi registrou sambaquis próximos a São Luís. No Rio Grande do Norte foram identificados assentamentos préhistóricos em dunas, ao longo da costa. No Rio Grande do Sul há os CERRITOS, montículos artificiais nos banhados que circundam em alguns desses sítios, propondo duas tradições para os mesmos: a ITAIPÚ, mais antiga, pré-cerâmica, e a VIEIRA, recente, já de ceramistas.

IV. As Culturas dos Ceramistas (A partir dos 5.000 anos)

A partir do holoceno, há uma destacada ampliação no número de sítios arqueológicos brasileiros. Em todas as regiões e praticamente em todos os estados, começam a ser resgatados os vestígios da pré-história brasileira mais recente. Com isso, a difusão da agricultura terá papel destacado no crescimento vegetativo dos grupos. A arqueologia brasileira já tipificou inúmeras culturas, tais como:

a) Culturas Meridionais: tradições Taquara e Itararé. Os grupos pré-históricos procuraram o planalto meridional, distantes dos rios mais importantes, provavelmente fugindo do avanço Tupi-guarani, os hábeis canoeiros. A cerâmica passa a ser o vestígio mais presente nos sítios arqueológicos. A Itararé, pouco decorada, baixa cocção, paredes finas e base convexa. Seu antiplástico, areia e quartzo. A Taquara, com uma pasta mais fina e homogênea. A decoração chega a
50% dos fragmentos encontrados.

Esta cerâmica caracteriza-se pelo pequeno porte de suas vasilhas onde a abertura da boca, nas formas mais verticais (potes), mantém-se estreita. Mesmo nas peças mais horizontais (tigelas), tal abertura tem pouco diâmetro. (...)
Pode-se dizer que a cerâmica itararé é uma cerâmica tipicamente utilitária, sendo possível visualizar-se na parte externa das bases sinais de fuligem que atestam seu uso direto ao fogo para cozinhar alimentos. No interior das vasilhas é comum encontrar-se crostas mais ou menos compactas de restos de alimentos.
” (Sérgio, 1990)

Nos líticos, projetam-se os polidos como machados de mão e pilão. Nas lascas, as facas e pontas de flecha, além de chopper e chopping-tool. Raríssima a presença de ossos e conchas trabalhados. Datações comprovam a presença Itararé até o século XVIII.

b) A Cultura do Brasil Central e Nordeste: tradições Una e Aratu. As culturas ceramistas da tradição UNA situaram-se nos Estados do Rio de Janeiro, Espírito Santo, Minas e Goiás. As datações dividem a tradição em uma fase mais antiga, próxima a quatro mil anos do presente, e em uma mais recente, a menos de dois mil anos.

A UNA mais antiga é caracterizada, na cerâmica, pelo uso de antiplástico vegetal, ausência de decoração, recipientes pequenos (20 centímetros de diâmetro na boca), formas globulares e cônicas. A pasta é compacta e a cocção excelente. Nos líticos, pouco material polido, lascas de sílex e quartzo. A UNA mais recente é caracterizada por uma cerâmica negra, vasilhames pequenos, globulares e piriformes. Como antiplástico, a própria argila em cacos moídos. Aumenta o número de artefatos líticos polidos.

A tradição ARATU ocupa um vasto território: de São Paulo a Mato Grosso e Goiás e do litoral da Bahia ao Rio Grande do Norte. Como essa tradição será detalhada na análise da pré-história sergipana, apresentamos a seguir um resumo de suas características:

  • Os sítios mostram que todas as habitações eram a céu aberto e não ocupavam grutas. Eram comunidades de expressivas densidades, em áreas de 200 x 100 metros. As cabanas formavam alinhamentos ou círculo ao redor de uma praça central.
  • As urnas funerárias, piriformes, ao redor ou no fundo das habitações, caracterizam, predominantemente, os enterramentos secundários.
  • O mobiliário dos enterramentos era constituído de machados polidos pequenos (10 cm) e rodelas de fusos e de cerâmica.
  • A cerâmica é lisa, sem decorações, com tempero de areia e grafita. Os recipientes são globulares e as bases cônicas, predominantes.
  • Cachimbos tubulares são também encontrados.
  • O material lítico polido apresenta inúmeros artefatos como machados, quebra-cocos, batedores, bigornas. Nas lascas, destacam-se os raspadores.
  • As ocupações eram feitas em regiões colinares, perto de riachos.

Antes da chegada dos europeus, os povoadores “índios” aprenderam a viver em todos os ambientes deste hemisfério. Esse processo se prolongou por milhares de anos. Em alguns lugares, como no Peru e no México, criaram-se nações que assombraram os invasores espanhóis pela eficiência de sua organização estatal, a magnificência de suas cidades e a opulência de seus governantes. Em outros locais, como o Brasil e a América do Norte oriental, pequenos grupos de famílias extensas, providos de escassos bens materiais mas de um vasto domínio do seu meio ambiente, salvaram os colonizadores europeus da morte por inanição ou exposição ao frio. Grande parte desse saber se perdeu com a extinção dos aborígenes. Uma fração dele, porém, pode ser recuperada pelos arqueólogos.” Betty J. Meggers (1985)

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