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Questões: O Vampiro de Curitiba, de Dalton Trevisan


1. (UEL) TEXTO

Se não havia ninguém na casa, além dele e Maria... Intrigado, experimentou o trinco: no quarto cor-de-rosa penteadeira oval.
Uma, duas, três bonecas de luxo. E, da cama, sentadinha, sorria a gorda senhora.
- Entre, seu moço.
Dois passos no reino das bonecas: ar adocicado de incenso, pó-de-arroz, esmalte de unha.
– É parenta da Maria?
– Não adivinha? – E sorria, faceira, lábio muito pintado. – É minha filha.
– Tão jovem... – Bem a avozinha do Chapeuzinho Vermelho. – Parece irmã!
No canto do espelho alinhavam-se os galãs de cinema.
– Muito gentil. Você quem é?
– Amiguinho dela.
A gorda afastou o abajur, aninhada na sombra misteriosa.
Esqueceu no joelho a revista, em gesto pudico fechou o quimono encarnado.
– Aceita um bombom? – e retirou do lençol uma caixa dourada. – Como escondida...
Lambeu o dedinho curto, a tinir o bracelete:
– Segredo de nós dois!
– De mim ela não vai saber – e beliscava o cacho loiro da boneca.
– O moço não quer sentar?
Ao vê-lo correr o olho, encolheu-se no canto:
– Lugar para mais um.
Respeitoso na beira da cama, apanhou a revista de fotonovela.
– Os dois brigaram?
– Sabe como ela é.
Aborrecido virava as páginas: dedo peganhento de chocolate o olhinho gorducho.
– É recheado de licor! – e oferecia na ponta da língua um bocado meio derretido.
Era a avozinha ou, no quimono fulgurante de seda, o próprio lobo?
Largou a revista ao pé da cama – voltar à Maria e pedir mil perdões? Na mesinha o retrato em moldura prateada.
– Sou eu.
A menina com a cesta de amora.
– Já fui bonita.
– Ainda é – retrucou alegre –, ainda é.
Muito sério ao dar na sombra com o olho arregalado de sapo debaixo da pedra.
– Seu diabinho! – agarrou-lhe o polegar na mão lambuzada e, antes de soltá-lo, um apertão e mais outro.
Nada de avozinha, é mesmo o lobo. Ao mexer a cabeça, girava a parede e, enxugando o suor da testa, voltou-se para ela:
– Tem alguma bebida?
Exibiu os dentes alvares de pouco uso:
– Sou melhor que bebida.
Entre divertido e assustado, descansou o cotovelo na cama: propunha-se o lobo devorá-lo? Vislumbrou a cara na sombra: balofa, sem sobrancelha, o cabelo ralo. Por cima do quimono apalpou-lhe o peito: apesar de velha, o seio durinho.
– Quer minha perdição? – Meu Deus, a voz dengosa de menina. – Ai, diabinho peralta!
Brincalhona, correu a unha pela nuca. De repente o gemido rouco:
– Feche a porta.

(TREVISAN, Dalton. Chapeuzinho Vermelho. In: O Vampiro de Curitiba. Rio de Janeiro: Record, 2003. p. 72-74.)

Leia as correlações estabelecidas entre as frases do conto e suas interpretações.

I. "Bem a avozinha do Chapeuzinho Vermelho". Esta frase corresponde à impressão inicial do rapaz sobre a mãe da namorada quando ainda desconhece as suas artimanhas.
II. "Era a avozinha ou, no quimono fulgurante de seda, o próprio lobo?". Esta frase corresponde a um momento em que o rapaz ratifica suas suspeitas anteriores quanto à senhora e se sente emocionalmente fragilizado diante dela.
III. "Nada de avozinha, é mesmo o lobo." Esta frase corresponde a uma etapa em que o rapaz sai de seu torpor, ressaltando que, a partir dali, ele estaria recuperando o controle da situação.
IV. "Entre divertido e assustado, descansou o cotovelo na cama: propunha-se o lobo devorá-lo?". Esta frase corresponde à convicção de que a senhora não era uma vítima e ao espírito de análise demonstrado pelo personagem do rapaz.

Estão corretas apenas as afirmativas:

a) I e II.
b) I e IV.
c) III e IV.
d) I, II e III.
e) II, III e IV.


2. (UEL) TEXTO

Se não havia ninguém na casa, além dele e Maria... Intrigado, experimentou o trinco: no quarto cor-de-rosa penteadeira oval.
Uma, duas, três bonecas de luxo. E, da cama, sentadinha, sorria a gorda senhora.
- Entre, seu moço.
Dois passos no reino das bonecas: ar adocicado de incenso, pó-de-arroz, esmalte de unha.
– É parenta da Maria?
– Não adivinha? – E sorria, faceira, lábio muito pintado. – É minha filha.
– Tão jovem... – Bem a avozinha do Chapeuzinho Vermelho. – Parece irmã!
No canto do espelho alinhavam-se os galãs de cinema.
– Muito gentil. Você quem é?
– Amiguinho dela.
A gorda afastou o abajur, aninhada na sombra misteriosa.
Esqueceu no joelho a revista, em gesto pudico fechou o quimono encarnado.
– Aceita um bombom? – e retirou do lençol uma caixa dourada. – Como escondida...
Lambeu o dedinho curto, a tinir o bracelete:
– Segredo de nós dois!
– De mim ela não vai saber – e beliscava o cacho loiro da boneca.
– O moço não quer sentar?
Ao vê-lo correr o olho, encolheu-se no canto:
– Lugar para mais um.
Respeitoso na beira da cama, apanhou a revista de fotonovela.
– Os dois brigaram?
– Sabe como ela é.
Aborrecido virava as páginas: dedo peganhento de chocolate o olhinho gorducho.
– É recheado de licor! – e oferecia na ponta da língua um bocado meio derretido.
Era a avozinha ou, no quimono fulgurante de seda, o próprio lobo?
Largou a revista ao pé da cama – voltar à Maria e pedir mil perdões? Na mesinha o retrato em moldura prateada.
– Sou eu.
A menina com a cesta de amora.
– Já fui bonita.
– Ainda é – retrucou alegre –, ainda é.
Muito sério ao dar na sombra com o olho arregalado de sapo debaixo da pedra.
– Seu diabinho! – agarrou-lhe o polegar na mão lambuzada e, antes de soltá-lo, um apertão e mais outro.
Nada de avozinha, é mesmo o lobo. Ao mexer a cabeça, girava a parede e, enxugando o suor da testa, voltou-se para ela:
– Tem alguma bebida?
Exibiu os dentes alvares de pouco uso:
– Sou melhor que bebida.
Entre divertido e assustado, descansou o cotovelo na cama: propunha-se o lobo devorá-lo? Vislumbrou a cara na sombra: balofa, sem sobrancelha, o cabelo ralo. Por cima do quimono apalpou-lhe o peito: apesar de velha, o seio durinho.
– Quer minha perdição? – Meu Deus, a voz dengosa de menina. – Ai, diabinho peralta!
Brincalhona, correu a unha pela nuca. De repente o gemido rouco:
– Feche a porta.

(TREVISAN, Dalton. Chapeuzinho Vermelho. In: O Vampiro de Curitiba. Rio de Janeiro: Record, 2003. p. 72-74.)

É correto afirmar que esse segmento do conto corresponde:

a) A um encontro marcado entre os dois personagens que ainda não se conheciam até aquela ocasião.
b) Ao momento em que o rapaz, que havia brigado com sua namorada, descobre a presença da mãe na casa, mas depois retorna aos braços da amada, com asco daquela mulher.
c) À descoberta da sexualidade pelo menino, que, após uma briga em seu namoro inocente com a filha daquela senhora, conhece a mãe dela e é por ela seduzido.
d) A uma passagem constrangedora em que o rapaz sente um misto de atração e repulsa, mas se entrega à tentação sem remorso ou grandes conflitos por trair a namorada.
e) A um duelo entre os personagens, do qual o rapaz sai vencedor, pois ele tortura a senhora, fazendo com que ela se apaixone por ele, abandonando-a em seguida, ignorando suas súplicas.


3. (UEL) TEXTO

Se não havia ninguém na casa, além dele e Maria... Intrigado, experimentou o trinco: no quarto cor-de-rosa penteadeira oval.
Uma, duas, três bonecas de luxo. E, da cama, sentadinha, sorria a gorda senhora.
- Entre, seu moço.
Dois passos no reino das bonecas: ar adocicado de incenso, pó-de-arroz, esmalte de unha.
– É parenta da Maria?
– Não adivinha? – E sorria, faceira, lábio muito pintado. – É minha filha.
– Tão jovem... – Bem a avozinha do Chapeuzinho Vermelho. – Parece irmã!
No canto do espelho alinhavam-se os galãs de cinema.
– Muito gentil. Você quem é?
– Amiguinho dela.
A gorda afastou o abajur, aninhada na sombra misteriosa.
Esqueceu no joelho a revista, em gesto pudico fechou o quimono encarnado.
– Aceita um bombom? – e retirou do lençol uma caixa dourada. – Como escondida...
Lambeu o dedinho curto, a tinir o bracelete:
– Segredo de nós dois!
– De mim ela não vai saber – e beliscava o cacho loiro da boneca.
– O moço não quer sentar?
Ao vê-lo correr o olho, encolheu-se no canto:
– Lugar para mais um.
Respeitoso na beira da cama, apanhou a revista de fotonovela.
– Os dois brigaram?
– Sabe como ela é.
Aborrecido virava as páginas: dedo peganhento de chocolate o olhinho gorducho.
– É recheado de licor! – e oferecia na ponta da língua um bocado meio derretido.
Era a avozinha ou, no quimono fulgurante de seda, o próprio lobo?
Largou a revista ao pé da cama – voltar à Maria e pedir mil perdões? Na mesinha o retrato em moldura prateada.
– Sou eu.
A menina com a cesta de amora.
– Já fui bonita.
– Ainda é – retrucou alegre –, ainda é.
Muito sério ao dar na sombra com o olho arregalado de sapo debaixo da pedra.
– Seu diabinho! – agarrou-lhe o polegar na mão lambuzada e, antes de soltá-lo, um apertão e mais outro.
Nada de avozinha, é mesmo o lobo. Ao mexer a cabeça, girava a parede e, enxugando o suor da testa, voltou-se para ela:
– Tem alguma bebida?
Exibiu os dentes alvares de pouco uso:
– Sou melhor que bebida.
Entre divertido e assustado, descansou o cotovelo na cama: propunha-se o lobo devorá-lo? Vislumbrou a cara na sombra: balofa, sem sobrancelha, o cabelo ralo. Por cima do quimono apalpou-lhe o peito: apesar de velha, o seio durinho.
– Quer minha perdição? – Meu Deus, a voz dengosa de menina. – Ai, diabinho peralta!
Brincalhona, correu a unha pela nuca. De repente o gemido rouco:
– Feche a porta.

(TREVISAN, Dalton. Chapeuzinho Vermelho. In: O Vampiro de Curitiba. Rio de Janeiro: Record, 2003. p. 72-74.)

Com base no conto "Chapeuzinho Vermelho", do qual este trecho foi extraído, e nos demais contos de O vampiro de Curitiba, é correto afirmar:

a) Como nos demais contos do livro, o personagem masculino demonstra sua violência ao maltratar os personagens femininos, ocasionando a morte simbólica da mulher.
b) Divergindo de outros contos do livro, o personagem masculino desse conto está imune à timidez e aos conflitos interiores que tornam difícil sua aproximação das mulheres.
c) Como nos demais contos do livro, o personagem masculino enfrenta situações assustadoras diante daqueles que tripudiam sobre sua ingenuidade e desconhecimento da vida.
d) Divergindo de outros contos do livro, o personagem masculino é bem sucedido nas conquistas sexuais, sem sofrer, como em outros contos, a privação dos próprios desejos.
e) Como nos demais contos do livro, o personagem masculino vive às voltas com uma atmosfera erótica que se sobrepõe à idéia de um amor espiritualizado e eterno.


4. (UEL) A questão a seguir refere-se ao conto “Último Aviso”, de Dalton Trevisan (1925 - ), presente em O vampiro de Curitiba (1965).

Duas da tarde, Nelsinho viu a fulana descer do ônibus. Na esquina o tal Múcio, com quem trocou olhares.Entrou no cinema, o sujeito atrás.
Apagada a luz, sentaram-se na última fila, a conversar em voz baixa. De sua cadeira Nelsinho não os podia ouvir. Certo que não prestavam atenção ao filme. No meio da sessão, Múcio levantou-se e saiu.
O herói pediu licença, sentou-se ao lado, precisava falar com ela.
- Está louco? Sabe que sou casada.
Por ele não fazia diferença.
- Olhe que chamo o guarda.
- Aí, safadinha, pensa que não vi?
- Não tem nada com minha vida.
- Eu não. Teu marido pode ter.
- Se disser alguma coisa, conto que me perseguiu.
- Isso é velho. De você eu sei coisas do arco-da-velha.
Ofendida, Odete ergueu-se e, subindo a escada, foi para o balcão. Minutos depois, o rapaz surgiu ao lado.
- Como é? Posso falar com você? Sabia que teu marido tem amante? Sabia que eles se encontram à noite? Ainda não sabe, não é? Já vi os dois juntinhos em tantos lugares. Sei que ele pouco demora em casa. Trata você aos gritos quando lhe pede dinheiro. Foi seduzido por essa tipa. Me dói o coração ver você desprezada. É a única de quem gostei na vida. Tire a máscara dessa sem-vergonha. Também é casada. Mãe de filhos, quem sabe do teu marido... O homem dela viaja muito. Na sua ausência, ela se mostra o que é: uma sirigaita. Pode que aconteça uma tragédia quando o marido volte e alguém conte. É bobagem brigar com o teu. Sabe como são os homens. São fracos – não resistem a um palminho de cara bonita. Cuidado com essa aventureira, que se entrega a ele de olho fechado. Quer um conselho, Odete? Olhe, você dê o desprezo. Faça com ele o mesmo que lhe faz.
Sem responder, a bela foi para a platéia, seguida de Nelsinho. Ameaçou contar ao marido assim que chegasse. Ora, se falasse qualquer coisa, não a surpreendera com outro? Odete saiu furiosa, esqueceu até a sombrinha. Em casa, descreveu o incidente à sua velha mãe:
- Não se pode ir sozinha ao cinema.
Aconselhada pela velha a nada revelar ao marido. Muito nervoso, alguma desgraça. Odete insistia, olhos sonhadores, na loucura do rapaz. Intrigá-la com o marido não era vingança de um doente de paixão?
Àquela hora o nosso herói telefonava para o marido:
- Boa tarde, seu Artur. Como foi de viagem? Viajar é bom – quando a mulher fica em casa.
- Que história é essa? Quem está falando? Não estou entendendo.
- Aqui é um amigo. O nome não interessa. O caso é tão delicado. Não sei o que diga. Por onde comece. O marido viaja, a mulher fica de namoro. O senhor merece essa falseta? Vou contar o que sei... A sua mulher... Ela tem um amante!
- Canalha! Dou um tiro na boca. Você prova, seu patife?
Então, diga. Quem é que anda com minha mulher?
- Um tal doutor Múcio.
No súbito silêncio, e antes que o palavrão explodisse, Nelsinho desligou. Da folha branca alisou as rugas.
Grande sorriso até o fim da carta, em letra de forma, com a mão esquerda:
Dr. Múcio
Grande filho da mãe
Previno-te cuidado! Cuidado!
De hoje em diante vou te perseguir
Já não fiz asneira porque não quis manchar o meu nome
De hoje em diante farei meus pensamentos
Já considerei tua mulher e teus filhos
Mas como você é covarde só merece uma bala na cabeça
E te previno pense bem na tua mulher e teus filhos
E outros inocentes que andam sofrendo no mundo por tua causa
Covarde sem-vergonha descarado
Pense no futuro do teu lar porque tua vida é curta
Se continuar tirando a honra das mulheres casadas
Você também é casado e anda corneando os maridos
Não é só com a minha tem muitas outras
Não pense que eu sou um covarde como você
Tenho coragem para tirar teu miolo fora
Talvez você não alcance o Ano Novo
Farei uma limpeza em Curitiba
Eu só desejo a vingança
Derramarei o sangue deste desgraçado na rua
Cuide do teu pêlo
É o último aviso.

(TREVISAN, Dalton. Último aviso. In: O vampiro de Curitiba. Rio de Janeiro: Record, 2003. p. 30-33.)

Analise a frase a seguir, presente no primeiro parágrafo, e assinale a alternativa correta.

“Entrou no cinema, o sujeito atrás.”

a) Na frase, o verbo refere-se a Nelsinho; “o sujeito” é Múcio.
b) Na frase, o verbo refere-se a Múcio; “o sujeito” é Nelsinho.
c) Na frase, o verbo refere-se a Odete; “o sujeito” é Múcio.
d) Na frase, o verbo refere-se a Odete; “o sujeito” é Nelsinho.
e) Na frase, o verbo refere-se a Múcio; “o sujeito” é alguém anônimo.


5. (UEL) A questão a seguir refere-se ao conto “Último Aviso”, de Dalton Trevisan (1925 - ), presente em O vampiro de Curitiba (1965).

Duas da tarde, Nelsinho viu a fulana descer do ônibus. Na esquina o tal Múcio, com quem trocou olhares.Entrou no cinema, o sujeito atrás.
Apagada a luz, sentaram-se na última fila, a conversar em voz baixa. De sua cadeira Nelsinho não os podia ouvir. Certo que não prestavam atenção ao filme. No meio da sessão, Múcio levantou-se e saiu.
O herói pediu licença, sentou-se ao lado, precisava falar com ela.
- Está louco? Sabe que sou casada.
Por ele não fazia diferença.
- Olhe que chamo o guarda.
- Aí, safadinha, pensa que não vi?
- Não tem nada com minha vida.
- Eu não. Teu marido pode ter.
- Se disser alguma coisa, conto que me perseguiu.
- Isso é velho. De você eu sei coisas do arco-da-velha.
Ofendida, Odete ergueu-se e, subindo a escada, foi para o balcão. Minutos depois, o rapaz surgiu ao lado.
- Como é? Posso falar com você? Sabia que teu marido tem amante? Sabia que eles se encontram à noite? Ainda não sabe, não é? Já vi os dois juntinhos em tantos lugares. Sei que ele pouco demora em casa. Trata você aos gritos quando lhe pede dinheiro. Foi seduzido por essa tipa. Me dói o coração ver você desprezada. É a única de quem gostei na vida. Tire a máscara dessa sem-vergonha. Também é casada. Mãe de filhos, quem sabe do teu marido... O homem dela viaja muito. Na sua ausência, ela se mostra o que é: uma sirigaita. Pode que aconteça uma tragédia quando o marido volte e alguém conte. É bobagem brigar com o teu. Sabe como são os homens. São fracos – não resistem a um palminho de cara bonita. Cuidado com essa aventureira, que se entrega a ele de olho fechado. Quer um conselho, Odete? Olhe, você dê o desprezo. Faça com ele o mesmo que lhe faz.
Sem responder, a bela foi para a platéia, seguida de Nelsinho. Ameaçou contar ao marido assim que chegasse. Ora, se falasse qualquer coisa, não a surpreendera com outro? Odete saiu furiosa, esqueceu até a sombrinha. Em casa, descreveu o incidente à sua velha mãe:
- Não se pode ir sozinha ao cinema.
Aconselhada pela velha a nada revelar ao marido. Muito nervoso, alguma desgraça. Odete insistia, olhos sonhadores, na loucura do rapaz. Intrigá-la com o marido não era vingança de um doente de paixão?
Àquela hora o nosso herói telefonava para o marido:
- Boa tarde, seu Artur. Como foi de viagem? Viajar é bom – quando a mulher fica em casa.
- Que história é essa? Quem está falando? Não estou entendendo.
- Aqui é um amigo. O nome não interessa. O caso é tão delicado. Não sei o que diga. Por onde comece. O marido viaja, a mulher fica de namoro. O senhor merece essa falseta? Vou contar o que sei... A sua mulher... Ela tem um amante!
- Canalha! Dou um tiro na boca. Você prova, seu patife?
Então, diga. Quem é que anda com minha mulher?
- Um tal doutor Múcio.
No súbito silêncio, e antes que o palavrão explodisse, Nelsinho desligou. Da folha branca alisou as rugas.
Grande sorriso até o fim da carta, em letra de forma, com a mão esquerda:
Dr. Múcio
Grande filho da mãe
Previno-te cuidado! Cuidado!
De hoje em diante vou te perseguir
Já não fiz asneira porque não quis manchar o meu nome
De hoje em diante farei meus pensamentos
Já considerei tua mulher e teus filhos
Mas como você é covarde só merece uma bala na cabeça
E te previno pense bem na tua mulher e teus filhos
E outros inocentes que andam sofrendo no mundo por tua causa
Covarde sem-vergonha descarado
Pense no futuro do teu lar porque tua vida é curta
Se continuar tirando a honra das mulheres casadas
Você também é casado e anda corneando os maridos
Não é só com a minha tem muitas outras
Não pense que eu sou um covarde como você
Tenho coragem para tirar teu miolo fora
Talvez você não alcance o Ano Novo
Farei uma limpeza em Curitiba
Eu só desejo a vingança
Derramarei o sangue deste desgraçado na rua
Cuide do teu pêlo
É o último aviso.

(TREVISAN, Dalton. Último aviso. In: O vampiro de Curitiba. Rio de Janeiro: Record, 2003. p. 30-33.)

Analise, a seguir, as frases presentes no conto e assinale a alternativa correta.

“Ameaçou contar ao marido assim que chegasse. Ora, se falasse qualquer coisa, não a surpreendera com outro?”.

a) Nelsinho é o sujeito de “ameaçou”; o marido é Artur; Odete é o sujeito de “falasse”; Nelsinho é o sujeito de “surpreendera”; e o “outro” é Múcio.
b) Odete é o sujeito de “ameaçou”; o marido é Artur; Nelsinho é o sujeito de “falasse”; “a” refere-se a Odete; e o “outro” é Nelsinho.
c) Odete é o sujeito de “ameaçou”; o marido é Artur; Odete é o sujeito de “falasse”; “a” referese a Odete; e o “outro” é Múcio.
d) Nelsinho é o sujeito de “ameaçou”; o marido não é nomeado; Odete é o sujeito de “falasse”; “a” refere-se a Odete; e o “outro” é alguém anônimo.
e) Odete é o sujeito de “ameaçou”; o marido é anônimo; Nelsinho é o sujeito de “falasse”; o complemento omitido de “contar” é a perseguição; e o “outro” é Múcio.

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