Cinema | A História do Cinema Mundial - 3. O expressionismo alemão e o Cinema Noir
Última atualização: 11/05/2009 14:36:18
Por Leonardo Campos*
Chegamos à quarta parte da coletânea História do Cinema Mundial com a análise do expressionismo alemão no cinema, estilo que influenciou outros países e suas produções culturais. Atrelado ao expressionismo, temos o Cinema Noir, estilo de filme cultuado, considerado “diferencial”.
Para alguns historiadores, o cinema alemão da década de 20, onde o expressionismo encontra-se vinculado, era descrito como extremo, decadente e com doses cavalares de violência, uma apologia ao nazismo que viria logo depois. O êxito de algumas produções expressionistas alemãs ganharam fama em pontos distintos do planeta, com notoriedade para os Estados Unidos, que sofreram a influência direta destas produções, principalmente no que tange ao filme noir.
O filme O gabinete do dr. Caligari (de Robert Wiene, 1920) seria um dos principais exemplares do gênero. No filme, os cenários são bizarros e seu enredo tem tom de pesadelo, características típicas de filmes deste estilo, que também estava vinculado a outros campos da cultura, como a pintura, a literatura e o teatro.
O fim do século trouxe um período de conturbações: as culturas advindas da Europa, apesar de se orgulharem de seu imperialismo, sofriam pelas múltiplas manifestações de cunho anticapitalista. A título de exemplificação, basta lembrar das obras de Baudelaire e as idéias bem difusas de Friedrich Nietzsche.
Na pintura temos uma obra muito conhecida, assinada por Edvard Munch: "O grito", em exposição pela primeira vez em 1893. Na pintura expressionista estava exposta uma doutrina que envolvia o uso estático da cor e a distorção emotiva da forma, tratando também do aspecto profundo, divino e imperceptível das coisas. Na literatura, entre tantos, temos Franz Kafka como representante, apontados por alguns como expressionista. Tais características destas formas de artes estavam refletidas também no cinema.
O grito, de Edvard Munch
Em primeiro lugar, havia uma iluminação bem especial, bastante insólita, que estava atrelada à maquiagem, que transformava o rosto dos atores em máscaras, cujo tratamento repleto de exageros podia levar à caricatura e ao grotesco. O que tornava prejudicial a pesquisa em torno do cinema alemão era a escassez de materiais sobre o tema, perdidos durante a fase bélica da Alemanha, grandemente envolvida nas duas grandes guerras mundiais. Segundo historiadores, o cinema alemão sofreu grande influência do cinema escandinavo, título futuro desta coletânea de artigos sobre a história do cinema mundial.
O primeiro representante do gênero foi "O outro" (1913), de Max Mack, considerado também o primeiro filme de cunho psicanalítico do cinema. O enredo gira em torno de um homem que desenvolve dupla personalidade após sofrer um acidente. Outro ótimo representante é O estudante de Praga (1913), que misturando Goethe e Edgar Allan Poe, narra a história trágica do estudante Baldwin, que vende seu reflexo no espelho ao demônio Scapinelli e passa a ser perseguido por seu duplo diabólico. O cinema expressionista alemão é diretamente ligado à temática fantástica.
Mais elementos caracterizaram o cinema expressionista: ligações com o gótico, efeitos de sombra e luz nas imagens e vilões sobrenaturais. Apesar do avanço tecnológico destas produções, que influenciaram na qualidade narrativa das mesmas, o cinema alemão enfrentou duro boicote internacional, por questões referentes a seu envolvimento nas guerras mundiais.
"O gabinete do dr. Caligari" ganhou notoriedade dentro deste estudos devido a criação de uma atmosfera de pesadelo que ganhou possibilidade pela produção em painéis pintados ao estilo expressionista, traçando um panorama com aspectos tortuosos e imprevisíveis. Somado a isso, estavam as interpretações dos atores, exageradas e de forte impacto visual, com maquiagem deformadora e enredo envolvendo personagens com sentimentos de destruição e revolta contra as autoridades.
No que tange o quesito composição, o cinema expressionista prendeu-se em muitos aspectos ao gótico medieval, como maquiagem (já citado) reforçada e o figurino estilizado. Uma outra característica foram as cenas repletas de alucinações. Um título que ajudará no entendimento da estética expressionista é a película entitulada "Fantasma" (1922). Numa determinada cena, o protagonista é dominado por uma vertigem e as escadas do caminho que segue começam a subir e descer sem que ele precise se mexer.
Fritz Lang, um dos mais famosos nomes da
escola do expressionismo alemão
No quesito temática, o cinema expressionista alemão estava ligado ao universo da literatura romântico-fantástica. Na estrutura narrativa, uma das experiências mais marcantes era a de evitar o uso de letreiros narrativos e/ou explicativos: era um cinema interessado em mostrar, e cada um que entendesse da sua forma a mensagem transmitida. A descontinuidade era parte do processo narrativo, sendo o espectador o responsável pela construção da narrativa.
FW Murnau, Fritz Lang e Paul Leni foram os três maiores representantes do movimento, que de tão marcante, influenciou em quesitos estéticos o estilo hollywoodiano noir.
CINEMA NOIR
Quando um cinéfilo é perguntado sobre as características do cinema noir, gênero considerado como diferencial/intelectual, ele trata logo de responder: são filmes com luz expressionista, narrados em off, trazendo um detetive durão e uma loira linda e fatal, apimentado com altas doses de erotismo.
Resposta incorreta? Certamente não. A grande confusão na definição do gênero está ligada às suas origens, equivocadas para muitos estudiosos, que não sabiam que na verdade, o gênero não é essencialmente norte-americano. Ele se difundiu e ampliou-se por lá, mas é oriundo da França, país que se encontrava privado de cinema hollywoodiano, vendo-se diante de uma leva de filmes franceses, entre eles os clássicos Alma torturada (1942) e Assassinos (1946). Esses diretores empregavam nas suas obras os tons escurecidos, na temática e na fotografia, além da representação critica da sociedade americana e subversão a unidade hollywoodiana.
Com o passar dos tempos, o cinema noir tornou-se objeto de culto. Filmes atuais como Los Angeles – Cidade Proibida (1997), Estrada perdida (1997) e O homem que não estava lá (2001) seriam versões modernas do gênero. O elemento central do gênero é o crime e simbolizava o mal-estar pós-guerra dos americanos.
Nos filmes do gênero, há predominância do tom pessimista e fatalista, atmosfera repleta de crueldade, clima claustrofóbico e herança estilística da literatura policial. A complexidade das tramas e o uso intenso de flashbacks são marcantes, somados a ruas desertas, paisagens noturnas. Nota-se inclusive os títulos de filmes noirs, sua maioria trazendo palavras de cunho iconográfico como city, dark, street, windown, lonely, mirror, e as de cunho temático, como fear, cry, panic, death.
O homem do Noir, diferente do caubói do western traz na sua personalidade o derrotismo, ambigüidade, narcisismo, isolamento e egocentrismo. A mulher do Noir, mítica, metaforiza a independência que as mesmas alcançaram no pós-guerra.
> Assista um trecho do filme Gilda, uma mostra da mulher do Noir
* Graduando em Letras Vernáculas com Habilitação em Língua Estrangeira Moderna - Inglês - UFBA | Membro do grupo de pesquisas “Da invenção à reivenção do Nordeste” – Letras – UFBA | Pesquisador na área de cinema, literatura e cultura>> Confira também em
- A História do Cinema Mundial - 5. A montagem soviética
- Especial sobre o filme "Um sonho possível"
- A História do Cinema Mundial - O cinema e o 11 de setembro
- A História do Cinema Mundial - 1. O cinema mudo
- Educação e violência doméstica no filme "Preciosa", de Lee Daniels