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Índice de atualidades
Com
metade do PIB do continente e uma extensão territorial que lhe garante
fronteira com dez dos seus 12 vizinhos, o Brasil é visto na América
do Sul como um potencial líder da região. Mas essa liderança
brasileira, intencional ou não, é considerada apenas uma promessa.
"Eu acho que o Brasil tem o papel de grande integrador",
diz o ministro do Exterior do Peru, José António Garcia Belaunde,
que acrescenta: o país "poderia fazer mais (…) com mais
iniciativa e, obviamente, mais investimento".
As palavras do ministro peruano sintetizam um sentimento generalizado. Há
quem considere difícil o Brasil aumentar sua influência regional,
mas é comum a opinião de que a maior potência sul-americana
deveria fazer mais pelo continente, idéia defendida pelo ex-ministro
da Defesa colombiano Rafael Pardo.
"Francamente (as aspirações de liderança
brasileira), deveriam ser mais ativas. A idéia da união sul-americana
ficou débil, o Brasil parece ter perdido o entusiasmo em relação
a essa idéia, e acho que é necessário entusiasmo para a
América do Sul ter um processo de integração mais dinâmico
do que o tem tido até agora", avalia.
A posição de liderança e a própria necessidade
de um líder regional são ainda tabus para o governo brasileiro.
Em 2003, no início do seu primeiro mandato, o presidente Luiz Inácio
Lula da Silva disse, em um discurso diante de novos diretores da hidrelétrica
de Itaipu, que o continente pedia por uma liderança vinda de Brasília.
"É impressionante como todos esses países estão
quase a exigir que o Brasil lidere a América do Sul."
Mas a frase causou um certo mal-estar, já que, desde que começou
a trabalhar por um projeto de integração sul-americana, no início
dos anos 90, a diplomacia brasileira tem negado uma intenção explícita
de liderar a região – uma idéia que poderia desagradar a
vizinhos e atrapalhar o processo. Hoje o próprio Lula evita qualquer
menção a uma liderança brasileira e sempre que pode repete
que a América do Sul "não precisa de um líder".
Porém o fato é que a maior parte das nações sul-americanas
continua a ver o Brasil como o país com o maior potencial para promover
a integração regional, apesar de considerar que tal potencial
ainda não esteja sendo totalmente aproveitado.
Pilares
A integração sul-americana passa atualmente passa pela construção
de dois grandes pilares: o econômico e o político. Do ponto de
vista econômico, uma das questões que mais geram críticas
ao Brasil é a relação comercial.
O mercado de consumo brasileiro é cobiçado por todos os vizinhos
e apontado como um dos fatores que mais poderiam favorecer a união regional.
No entanto, o Brasil ainda é um dos países mais fechados da região
e mantém superávits comerciais com praticamente todo os outros
países sul-americanos.
"Em 1991, pensávamos que o nosso acesso a um mercado ampliado
permitiria que várias empresas de outras partes do mundo se instalassem
no Uruguai", diz José Manuel Quijano, diretor da Comissão
Setorial para Mercosul do Uruguai. "Mas isso não se concretizou."
Para Quijano, uma das explicações para a frustração
uruguaia está na incerteza em relação ao acesso ao mercado
brasileiro. Apesar de ter sustentado déficits com o Uruguai por vários
anos desde o início da década de 90, o Brasil tem apresentado
superávit com sua antiga Província Cisplatina desde 2004. Em 2006,
o Brasil vendeu ao Uruguai quase o dobro do que importou: US$ 1 bilhão
contra US$ 640 milhões.
Esse é um processo que se repete na relação com a maioria
dos outros países. Hoje o Brasil vende quase dez vezes mais do que compra
da Venezuela e quase cinco vezes mais do que importa da Colômbia. Desde
problemas de regulamentação alfandegária até a barreira
com a língua e a infra-estrutura são apontados como empecilho
para se vender mais ao gigante vizinho.
Da ótica de vários especialistas, políticos e diplomatas
de outros países da região, a balança comercial é
apenas uma das faces do problema. Alguns acreditam que o Brasil não pode
se dedicar mais à solução de problemas regionais por causa
dos seus próprios desafios.
"O dilema político do Brasil é que (o país)
tem todas as condições para ser um líder regional e,
em muitos casos, exerce essa liderança no nível político",
diz Dante Sica, presidente da consultoria argentina Abeceb, especializada nas
relações entre os dois maiores países da região.
"Porém o país não tem todos os atributos de um
líder, porque tem muitos problemas internos."
Na opinião de Sica, tais problemas afetam a capacidade brasileira de
investir na região. Para ele, é difícil para o Brasil tomar
a decisão política de colocar a mão no bolso para acabar
com assimetrias com alguns vizinhos menores. “Como Lula pode ajudar
o Paraguai (…) e não dar dinheiro para o Nordeste?”,
pergunta.
Como resultado, muitos vêem o Brasil como uma espécie de tigre
sem dentes: uma nação que deveria colocar mais dinheiro nas estradas
do Peru, pagar mais pela energia comprada dos vizinhos, ajudar em projetos de
desenvolvimento sustentável no Equador, mas que não consegue,
ou não quer, fazer isso.
Espaços vazios
Nessa espécie de vácuo deixado pelo Brasil, pela primeira vez
desde o fortalecimento da idéia de integração um país
passou a ocupar espaços na busca por liderança. Com os cofres
cheios de petrodólares, o presidente venezuelano, Hugo Chávez,
tem feito em relação a alguns países da região aquilo
que o gigante do continente não consegue.
“Acredito que Lula compreendeu apenas recentemente que não
pode deixar o cenário latino-americano (e a América Sul)
coberto somente pela vigorosa figura de Hugo Chávez”, afirma
o ex-ministro do Planejamento venezuelano Teodoro Petkoff, opositor a Chávez.
Para ele, a capacidade do presidente da Venezuela de ameaçar a posição
brasileira na integração regional é superdimensionada,
especialmente pelos Estados Unidos. Mas ele acredita que o Brasil precisa se
dedicar mais para servir de contraponto à posição de Chávez.
A dúvida de muitos é se Venezuela e Brasil disputam uma posição
de liderança ou podem trabalhar juntos para o bem da região. Com
a chegada ao poder de Luiz Inácio Lula da Silva, havia quem esperasse
ou temesse uma maior aproximação entre os dois países.
Mas a mais recente crise política envolvendo Equador e Colômbia
mostrou diferenças claras de ação entre Brasil e Venezuela:
o governo brasileiro acionou sua diplomacia, enquanto Caracas mobilizou tropas.
O alívio da crise, obtido no âmbito de negociações
na Organização dos Estados Americanos (OEA), também mostrou
que o Brasil não é uma superpotência que pode impôr
soluções sozinha, posição que o próprio governo
brasileiro diz nunca ter buscado.
Além disso, na reunião do Grupo do Rio, que selou definitivamente
o fim da crise, Lula não estava presente, tendo enviado o ministro Celso
Amorim para representá-lo. Coube à argentina Cristina Kirchner
e a Hugo Chávez o papel de mediadores na reunião de chefes de
governo.
Confrontado com as demandas, o governo brasileiro cita o que considera sucessos
e avanços na integração e na atuação brasileira
na América do Sul. Dessa lista fazem parte a evolução,
mesmo que lenta, da infra-estrutura física, a conclusão de acordos
de livre comércio, a criação da Comunidade Sul-Americana
das Nações, hoje Unasul, e a criação do Banco do
Sul – uma proposta de Chávez abraçada com relutância
pelo Brasil.
Aos críticos, a resposta brasileira é que uma integração
continental não acontece rapidamente nem sem percalços. Mas inúmeras
vozes na América do Sul dizem que, após quase duas décadas
de esforços para integrar a região, a liderança brasileira,
assim como a formação de um bloco sul-americano, continua no campo
das promessas.
ARGENTINA
As
relações entre Argentina e Brasil passaram por altos e baixos
no último século e na opinião de muitos analistas os dois
países estão mais próximos de seu ponto de equilíbrio
e formam hoje uma parceria necessária para ambos.
Se no início do século passado a Argentina era considerada o
país mais importante da América do Sul, atualmente é o
Brasil que se destaca.
Um dos sinais da força da economia brasileira é a instalação
de dezenas de empresas brasileiras na Argentina nos últimos 12 anos por
meio de fusões, aquisições ou instalações
próprias. Muitas entraram em setores importantes e simbólicos
da economia argentina, como o energético e o de construção
civil.
"Como diz (uma letra de) um tango, a Argentina tem de superar a lembrança
de ter sido e a dor de já não ser", afirma o presidente da
consultora Abeceb, Dante Sica, que diz que está na hora de a classe politica
e a sociedade argentina aceitarem que existe um novo líder na região,
que é o Brasil.
Porém, nem todos vêem o Brasil como líder, entre eles o
ex-ministro da Economia da Argentina, Roberto Lavagna.
"É o país com maior peso do ponto-de-vista econômico
e populacional, mas não vejo uma liderança natural. Acho que o
Brasil entendeu há muitos anos que ele precisa da Argentina em sua relação
com a América Latina", disse o ex-ministro.
O olhar do povo
Apesar de se falar muito da rivalidade entre os dois povos, quando se conversa
com os argentinos nas ruas de Buenos Aires a rivalidade realmente só
aparece quando o assunto é futebol.
Todos os argentinos entrevistados nas ruas da capital portenha elogiaram o
país vizinho e seu povo, apesar de expressarem uma visão bastante
limitada do Brasil, baseada no estereótipo de festa, praias e mulheres
bonitas.
Porém, quando se fala em futebol, o carinho pelo Brasil desaparece.
"Há rivalidade, mas é saudável. Eles (os
brasileiros) não querem que ganhemos e nós não queremos
que eles ganhem. Mas faz parte do folclore do futebol", afirma o vendedor
Ignácio Contreras.
Assim como a maioria dos entrevistados, o saxofonista Xavier Tebelle não
titubeou ao responder quem são os melhores: "A Argentina! Depois
o Brasil!"
As relações econômicas
• População: 39 milhões
• PIB: US$ 608 bilhões
• Quanto o Brasil exporta para o país: US$ 14 bilhões
• Quanto o Brasil importa do país: US$ 10 bilhões
• Saldo comercial com Brasil: US$ - 4 bilhões
Em 1910, a Argentina era um dos países mais ricos do mundo e seu Produto
Interno Bruto (PIB) era o dobro do Brasil. Hoje, o PIB do Brasil é pelo
menos três vezes maior do que o da Argentina.
A mudança de importância das duas maiores economias da América
do Sul é verificada também na balança comercial entre os
dois países: em 2007, o Brasil registrou o quinto ano consecutivo de
superávit, com um saldo positivo de cerca de US$ 4 bilhões.
A presença brasileira na Argentina não se restringe às
exportações. Dezenas de empresas do Brasil se instalaram no país
vizinho por meio de fusões, aquisições ou instalações
próprias.
Se no passado a enxurrada de produtos brasileiros gerou tensões entre
os dois países, hoje ela não gera mais muitos problemas. A entrada
na Argentina de alguns bens, como automóveis, respeita regras específicas
para não prejudicar o mercado argentino e a aceitação de
produtos brasileiros pela a população é maior.
URUGUAI
O
Uruguai, país-sede do Mercosul e um dos quatro fundadores do bloco em
1991, amarga uma balança comercial extremamente desfavorável com
o Brasil e com a Argentina e muitos uruguaios questionam os benefícios
de o país permanecer no grupo.
Apesar de o governo uruguaio oficialmente já ter dito repetidas vezes
que o país vai continuar no Mercosul, alguns integrantes da coalizão
governista dizem que acordos bilaterais de comércio com países
fora do bloco, como os Estados Unidos, seriam muito mais vantajosos para o Uruguai.
Os defensores do Mercosul, no entanto, argumentam que Brasil e Argentina já
reconheceram as assimetrias do bloco com a criação do Fundo de
Convergência Estrutural do Mercosul (Focem), para o qual as duas economias
grandes doam a maior parte do dinheiro, que é aplicada nas duas menores,
Uruguai e Paraguai.
"Sigo acreditando que a melhor forma de negociar bons acordos com o resto
do mundo é junto com os nossos vizinhos. E creio que é como teremos
mais benefícios a longo prazo", afirma José Manoel Quijano,
diretor da Comissão Setorial para o Mercosul.
Esta discussão está bem longe da realidade vivida pela população
na fronteira do Uruguai com o Brasil, onde a integração entre
os dois países é bem mais abrangente do que as relações
comerciais.
A cidade uruguaia de Rivera e a brasileira Santana do Livramento parecem dois
bairros do mesmo município e a população atravessa livremente
de um lado para o outro da fronteira.
O olhar do povo
Espremido entre a Argentina e o Brasil, o Uruguai tem um terço da população
do Rio Grande do Sul e uma área menor do que a do estado brasileiro vizinho.
É assim que os uruguaios se sentem: pequenos ao lado do vizinho gigante,
do qual eles se separaram há 180 anos com a ajuda da Argentina.
Hoje em dia, no entanto, poucos expressam ressentimentos em relação
ao Brasil e há quem diga que o relacionamento com os brasileiros é
muito melhor do que com os argentinos.
"Pessoalmente, creio que a relação entre Uruguai e Brasil
sempre foi boa, melhor do que a que os uruguaios têm com os argentinos,
apesar de haver mais pontos em comum entre eles, começando pelo idioma",
diz o jornalista Bebe Marcini.
A língua, aliás, não parece ser uma barreira, já
que muitos uruguaios entendem um pouco de português por terem viajado
diversas vezes ao Brasil, ou mesmo terem parentes morando no país vizinho.
As relações econômicas
• População: 3 milhões
• PIB: US$ 37 bilhões
• Quanto o Brasil exporta para o país: US$ 1,2 bilhões
• Quanto o Brasil importa do país: US$ 786 milhões
• Saldo comercial com o Brasil: US$ -502 milhões
Desiludido com o Mercosul, que não trouxe os benefícios econômicos
esperados pelo Uruguai, o país vinha dando alguns sinais de que pensava
em sair do bloco.
O mais polêmico deles foi o Acordo Marco de Comércio e Investimentos
(Tifa, na sigla em inglês) assinado com os Estados Unidos, que em muitos
casos costuma ser um primeiro passo para a firmação de um tratado
de livre comércio entre dois países.
O Brasil é o principal parceiro econômico do Uruguai, mas a balança
comercial entre os dois países é extremamente desfavorável
para o Uruguai: no ano passado ele registrou um déficit de cerca de US$
500 milhões.
Nos últimos dois anos o Brasil também chegou ao Uruguai por meio
de compra de empresas de importantes setores exportadores, como a indústria
de carnes e de arroz.
PARAGUAI
O
Brasil é visto com doses iguais de admiração e desconfiança
pelo Paraguai. Os dois países estão ligados não apenas
pela fronteira, mas pelo comércio e pela extensa comunidade brasileira
que vive em território paraguaio, os chamados 'brasiguaios'.
Uma convivência que, apesar de pacífica, exibe alguns pontos
de tensão, considerados normais entre dois vizinhos tão próximos.
Atividades ilícitas na região da fronteira, como contrabando,
tráfico de drogas e lavagem de dinheiro, além do comércio
de reexportação, são algumas das questões polêmicas
nas relações bilaterais.
Os produtores brasileiros, que chegaram ao Paraguai na década de 70
e revolucionaram a agricultura local, introduzindo o cultivo da soja e técnicas
modernas, também provocam tanto o reconhecimento por sua contribuição
à economia quanto críticas por parte dos mais nacionalistas.
Entre os temas controversos, porém, nenhum tem mais destaque atualmente
que a Usina Hidrelétrica de Itaipu, construída em parceria entre
os dois países. O Paraguai usa apenas 5% da parte que lhe cabe da energia
gerada pela usina. O restante, é vendido ao Brasil, a preço de
custo.
O aumento do valor que o Paraguai recebe pela energia que vende ao Brasil está
no centro da campanha para as eleições presidenciais no país,
que ocorrem em abril. Todos os candidatos incluíram a revisão
dos termos do Tratado de Itaipu, que deu origem à usina, entre suas propostas.
O olhar do povo
Em sua maioria, os paraguaios têm grande carinho pelos brasileiros, que
consideram 'gente alegre e trabalhadora'. A convivência entre os dois
vizinhos é intensa, tanto na presença de turistas, estudantes
e imigrantes brasileiros no Paraguai, quanto no fluxo de veranistas paraguaios
rumo a praias como a catarinense Camboriú - um dos destinos de férias
favoritos em um país sem litoral.
No entanto, o tamanho do território, da população e da
economia do Brasil fazem às vezes com que os paraguaios sintam-se pequenos
diante do vizinho gigante. Muitos acreditam que seu país é deixado
de lado em grandes decisões, como no âmbito do Mercosul, e que
o Brasil usa seu poder como forma de pressão.
Nos últimos meses, porém o Brasil tem sido um assunto cada vez
mais comum no Paraguai devido a um tema específico: a discussão
em torno da revisão do Tratado de Itaipu, que deu origem à usina
hidrelétrica binacional e é um dos principais temas da campanha
para a eleição presidencial de 20 de abril.
As relações econômicas
• População: 6 milhões
• PIB: US$ 31 bilhões
• Quanto o Brasil exporta para o país: US$ 1,6 bilhões
• Quanto o Brasil importa do país: US$ 434 milhões
• Saldo comercial com Brasil: US$ -1,2 bilhões
Um modelo econômico excessivamente dependente do Brasil faz com que muitos
paraguaios tenham ressentimentos em relação ao vizinho e parceiro.
O principal produto agrícola do Paraguai, por exemplo, a soja, foi introduzido
por produtores brasileiros que atravessaram a fronteira na década de
70.
Hoje, segundo analistas econômicos, a exportação de soja
é um dos fatores principais do crescimento do PIB paraguaio, mas a importância
dessa atividade não se traduz em benefícios diretos para o país,
como aumento de empregos.
Há ainda o excedente da energia gerada pela Hidrelétrica de Itaipu,
que é vendido ao Brasil a preço de custo, conforme os termos do
tratado assinado pelos dois países, o que vem provocando um amplo debate
no Paraguai.
Os paraguaios querem que o tratado seja revisto e que o Brasil pague preço
de mercado pela energia, um tema que ganhou inclusive os discursos na campanha
para as eleições presidenciais.
BOLÍVIA
Bolívia
e Brasil têm uma relação marcada pela interdependência
na área energética. O Brasil é o maior parceiro da Bolívia
e o maior comprador do gás boliviano, indispensável para o abastecimento
de lares e indústrias. A Bolívia, por sua vez, tem nos brasileiros
não apenas grandes consumidores mas, principalmente, investidores.
Logo após a nacionalização dos hidrocarbonetos promovida
pelo presidente Evo Morales em 2006, essa relação bilateral sofreu
um golpe. A Petrobras foi severamente atingida por essas medidas, adotadas com
grande respaldo da população.
Muitas medidas do governo de Morales, eleito com a promessa de dar mais voz
às parcelas excluídas da população boliviana, como
os indígenas, não apenas provocaram tensões com parceiros
externos, mas também exacerbaram divisões já existentes
dentro da Bolívia. Os departamentos orientais do país, reduto
da oposição, passaram a exigir mais autonomia e uma parcela maior
da receita gerada pela venda do gás.
Um projeto de reforma da Constituição, aprovado em meio a muita
polêmica e sem a presença da oposição, aumentou ainda
mais a crise política interna.
No final do ano passado, porém, uma visita do presidente Luiz Inácio
Lula da Silva à Bolívia deixou claro o apoio do Brasil ao governo
boliviano - considerado de grande importância nesse momento de divisão
interna. O gesto também demonstrou a intenção do Brasil
de deixar as diferenças para trás e voltar a investir na Bolívia
e apostar em uma parceria que é essencial para ambos.
O olhar do povo
Quando se pergunta a um boliviano que imagem ele tem do Brasil, as características
mais citadas são as 'lindas praias', a 'boa música' e, principalmente,
a 'amabilidade do povo brasileiro'. Muitos citam o progresso e o desenvolvimento
do vizinho como um exemplo a ser seguido.
A presença da Petrobras no país, que passou a ocupar a atenção
dos bolivianos depois da nacionalização dos recursos naturais,
promovida pelo governo em 2006 com enorme apoio da população,
é vista com simpatia pela maioria.
Atualmente, no entanto, há um tema de tensão que nada tem a ver
com as relações econômicas, e sim com uma paixão
compartihada pelos dois povos: o futebol. Os bolivianos acham que o Brasil deveria
apoiar a Bolívia contra a decisão da Fifa de proibir partidas
internacionais em altitudes elevadas.
As relações econômicas
• População: 9 milhões
• PIB: US$ 27 bilhões
• Quanto o Brasil exporta para o país: US$ 850 milhões
• Quanto o Brasil importa do país: US$ 1,6 bilhões
• Saldo comercial com Brasil: US$ 750 milhões
Nos últimos dez anos, o gás provocou uma reviravolta nas relações
econômicas entre a Bolívia e o Brasil e garantiu aos bolivianos
um saldo positivo na balança comercial entre os dois países.
Segundo analistas econômicos, quase metade do crescimento da Bolívia
nos últimos cinco anos se deve à exportação de gás
natural para o Brasil, que também garantiu um superávit nas finanças
públicas do país andino.
No entanto, essa extrema dependência de um único produto causa
certo desconforto entre os bolivianos. Eles gostariam de diversificar essa relação
que, acreditam, ainda tem muito espaço para se desenvolver e estreitar
os laços econômicos entre os dois países.
PERU
O
Brasil e o Peru dividem uma grande fronteira na selva amazônica, mas muitos
analistas afirmam que a floresta tem separado os dois países.
Para eles, a falta de vias de conexão, rompendo a 'barreira' da Amazônia,
tem dificultado as relações comerciais.
''Eu acredito que as relações têm sido sempre mais para
o futuro do que para o presente, porque o potencial sempre foi muito grande,
mas as relações comerciais não foram tão grandes
por causa das dificuldades de integração fisica. Nós temos
um grande oceano verde que nos separa'', diz o diretor do Instituto Peruano
de Economia, Fritz Du Bois Freund.
Um dos projetos que têm marcado uma tentativa de romper a falta de conexão
é a construção da Interoceânica Sul, ligando o Estado
do Acre a várias regiões do sul do Peru. Em fase de construção,
a estrada gera grande expectativa de crescimento nas regiões do sul do
Peru, muito pobres, e de novos negócios com o vizinho gigante.
É cada vez mais notável a presença de empresas brasileiras
no Peru. As construtoras Norberto Odebrecht e Camargo Correa, por exemplo, participam
da construção da Interoceânica Sul.
A Companhia Vale do Rio Doce e a Petrobrás também começam
a investir no país. Mas para o ministro das Relações Exteriores
peruano, José Antonio García Belaunde, o Brasil poderia investir
mais. ''Não é possível que o Chile tenha mais investimento
no Peru do que o Brasil'', afirma.
O olhar do povo
A maioria dos peruanos demonstra muito carinho em relação aos
brasileiros, muitas vezes fazendo referência à irmandade que existe
entre os povos.
Muitos dos moradores das cidades de Ilo, Cusco e Lima, conhecem apenas o futebol
e o carnaval brasileiros. Mas alguns falaram sobre a impressão que tiveram
ao visitar o vizinho. Eles afirmaram acreditar que peruanos e brasileiros são
parecidos, devido, em parte, à mestiçagem dos povos.
Em algumas partes do país também há a expectativa de que
os dois países se aproximem com a construção da estrada
Interoceânica, que vai ligar o Brasil ao Pacífico passando pelo
Peru.
As relações econômicas
• População: 28 milhões
• PIB: US$ 186 bilhões
• Quanto o Brasil exporta para o país: US$ 1,6 bilhões
• Quanto o Brasil importa do país: US$ 955 milhões
• Saldo comercial com Brasil: US$ -652 milhões
O intercâmbio comercial entre o Brasil e o Peru vem crescendo. Em 2006,
as exportações brasileiras para o Peru aumentaram 60,82% e, em
2007, 9,22%. Já as importações de produtos peruanos aumentaram
71,67% em 2006 e 16,36% em 2007.
Apesar desse crescimento, a falta de vias de integração física
entre os dois países é apontada como um dos empecilhos para um
intercâmbio mais vigoroso.
Os Estados Unidos continuam a ser o principal parceiro comercial do Peru. O
país está em vias de finalizar um Tratado de Livre Comércio
com os Estados Unidos, que pode entrar em vigor a partir do ano que vem.
O Peru exporta para o Brasil principalmente produtos primários, sem
valor agregado, como minérios. E importa, na grande maioria, produtos
com grande valor agregado, como produtos petrolíferos, metais mecânicos
e químicos.
CHILE
Sem
fronteiras com o Brasil, o Chile é muitas vezes visto como um vizinho
distante. Mas a presença brasileira no país está crescendo,
principalmente no que diz respeito ao número de turistas brasileiros.
Por outro lado, na opinião de analistas, a falta de limites comuns tem
feito com as relações entre os dois países seja marcada
pela falta de atritos.
Para o diretor do Instituto de Estudos Internacionais da Universidade do Chile,
José Morande, o Brasil - é um referente permanente para a história
política e para a história diplomática do Chile, principalmente
em momento de conflito com outros vizinhos.
Economicamente, o Chile é o segundo principal parceiro do Brasil na
América do Sul em volume de negócios, ficando atrás apenas
da Argentina. Mas o país andino tem adotado um modelo de desenvolvimento
diferente do brasileiro e se caracteriza por ter uma das economias mais abertas
do continente.
Economistas acham que as relações podem avançar à
medida em que investimentos brasileiros no país cresçam, o que
vem de fato ocorrendo, principalmente no setor de mineração, e
à medida em que o Chile tente se firmar como um país que servirá
de plataforma de exportação para os mercados asiáticos,
oferecendo serviços aos vizinhos.
Os governos brasileiro e chileno, juntamente com o boliviano, se dizem comprometidos
com a integração física entre os países, e esperam
concluir, até o ano que vem, um corredor interoceânico que ligará
os portos do norte do Chile ao porto de Santos, em São Paulo.
O olhar do povo
Os chilenos demonstraram simpatia em relação ao Brasil e ressaltaram
a imagem do vizinho como país alegre e de gente amável. O número
de turistas do Brasil no Chile vem crescendo, mas muitos chilenos dizem também
conhecer brasileiros que vivem no país.
Os moradores na capital Santiago e na cidade portuária de Iquique, apesar
de terem em mente o estereótipo do país do futebol e das mulheres
bonitas, alguns destacaram os problemas sociais brasileiros.
A falta de fronteiras provoca reações distintas entre os moradores.
Alguns já visitaram o vizinho e não acham que a falta de fronteiras
seja um fator importante, mas outros pensam que o Brasil ainda é um país
distante.
As relações econômicas
• População: 16 milhões
• PIB: US$ 202 bilhões
• Quanto o Brasil exporta para o país: US$ 4,2 bilhões
• Quanto o Brasil importa do país: US$ 3,4 bilhões
• Saldo comercial com Brasil: US$ -781 milhões
Em 2007, o Chile foi o oitavo mercado fornecedor de produtos para o Brasil
e as importações do país vizinho aumentaram 21,5% em relação
a 2006, mais do que as exportações, que aumentaram 9%. Em volume
de negócios, o Chile é o segundo principal parceiro comercial
do Brasil na América do Sul, atrás da Argentina.
Ao contrário do Brasil, o Chile tem uma das economias mais abertas da
América do Sul, com poucas barreiras à entrada de produtos de
outros países.
Apesar de intercâmbio comercial entre os dois países vir crescendo,
a participação do Brasil no intercâmbio comercial global
do Chile vem caindo. Por outro lado, a China se consolida como um parceiro cada
vez mais importante para o país andino.
O Brasil exporta principalmente produtos petrolíferos para o Chile.
O principal produto importado é o cobre. Os investimentos brasileiros
no país vêm aumentando, principalmente no setor de mineração.
EQUADOR
Único
país, além do Chile, que não faz fronteira com o Brasil,
o Equador mantém com o parceiro maior uma relação ao mesmo
tempo amistosa e distante.
Os dois países deixaram de ser vizinhos depois que o Peru tomou militarmente
parte do rio Amazonas.
Mas o Brasil foi um dos principais mediadores na crise que garantiu ao Equador
o direito de navegar no rio, iniciada nos anos 1940 e solucionada de vez nos
anos 1990.
Hoje, construir relações para substituir a fronteira perdida
é o desafio dos governos esquerdistas de Luiz Inácio Lula da Silva
e de Rafael Correa.
Uma das iniciativas em análise é melhorar a infra-estrutura que
liga os portos de Manaus, no Estado do Amazonas, com Manta na costa do Oceano
Pacífico. Além disso, a Petrobras aguarda uma definição
legal sobre a possibilidade de extrair petróleo de uma área na
Amazônia do país vizinho.
Seja pelo corredor bioceânico, a antiga ligação fluvial
ou campos do petróleo, os dois países estão umbilicalmente
ligados pela selva amazônica. Em Quito, uma estátua homenageia
Francisco de Orellana, que dali partiu para descobrir o maior rio do continente.
Mas outros aspectos curiosos lembram o Brasil, como o 'Pão de Açúcar
equatoriano' ? o morro do 'Panecillo', de cujo topo uma estátua da Virgem
Maria 'abençoa' a capital equatoriana.
O olhar do povo
A brasileira Sônia e o equatoriano Ivan ilustram um fenômeno curioso
na relação entre cidadãos equatorianos e brasileiros. "A
comunidade brasileira aqui (em Quito) é bastante feminina, de brasileiras
que se casaram com equatorianos que foram estudar ou fazer intercâmbio
no Brasil", diz Sônia.
O casal se conheceu em meados dos anos 80, quando Ivan estudou em Ouro Preto.
Há quase 20 anos eles se mudaram para Quito, onde vivem apenas mil brasileiros,
segundo os números oficiais.
Ivan conta que, quando estudou no Brasil, o vizinho maior era considerado por
equatorianos um lugar "distante". "De uns anos para cá
é que a política do Brasil foi de abertura e o Brasil começou
a se integrar com o resto dos países da América do Sul."
Para ele, o "fascínio" que o Brasil exerce nos visitantes
favorece a integração. "Qualquer pessoa que vai para o Brasil
gosta e quer voltar. Mesmo que tenham dificuldade na comunicação,
as pessoas acabam se entendendo."
As relações econômicas
• População: 13 milhões
• PIB: US$ 61 bilhões
• Quanto o Brasil exporta para o país: US$ 661 milhões
• Quanto o Brasil importa do país: US$ 30 milhões
• Saldo comercial com Brasil: US$ -631 milhões
As relações comerciais entre Brasil e Equador estão entre
as mais desiguais do continente. Apesar disso, os governos dos dois países
dizem ter excelentes relações no plano econômico, assim
como no plano político.
Em 2004, os presidentes Luiz Inácio Lula da Silva e Rafael Correa manifestaram
desejo de avançar na integração dos portos brasileiros
de Manaus e equatoriano de Manta, criando uma ligação bioceânica
que colocaria as mercadorias brasileiras a um passo da Ásia e abasteceria
o Norte do Brasil com alimentos produzidos no Equador.
Mas o projeto concorre com outras iniciativas de ligar os dois oceanos através
do Peru e do Chile.
No campo do investimento, uma aproximação desigual com o Brasil
pode ser prejudicial se subjugar o país de 13 milhões de habitantes
e PIB de US$ 60 bilhões.
Após décadas vivendo à sombra dos Estados Unidos, o governo
Correa promete retomar a soberania do país, e deixar para trás
uma "longa noite neoliberal".
Porta-vozes do governo e do movimento indígena - talvez o ator social
de maior influência em um país de maioria indígena - dizem
temer que o Brasil acabe "exportando" um modelo extracionista de desenvolvimento.
COLÔMBIA
Brasil
e Colômbia compartilham uma fronteira que, ao longo de 1,6 mil quilômetros,
é uma das mais inóspitas do continente. Não apenas pelos
milhares de quilômetros de selva amazônica que separam as principais
cidades dos dois países, mas porque a maneira mais comum de cruzar de
um lado a outro é navegando por rios controlados por guerrilheiros, narcotraficantes
e paramilitares.
Efeitos do conflito colombiano são sentidos nos países vizinhos.
Estima-se que 250 mil colombianos já fugiram da Colômbia para a
Venezuela e o Equador, e que outras 20 mil pessoas vivam só na região
da Amazônia legal, em situação de vulnerabilidade.
Visto como um país que colabora no campo da segurança e da solidariedade
aos refugiados, o Brasil mantém entretanto uma cautelosa distância
em relação à Colômbia.
Sobre quase toda a política externa colombiana paira a imagem dos Estados
Unidos, a potência militar aliada do governo colombiano no plano de combate
às drogas. Este pode ser um problema no relacionamento da Colômbia
com países como a Venezuela, governada por um feroz crítico das
políticas de Washington, o presidente Hugo Chávez.
Não é o caso do Brasil, que não é percebido como
uma nação capaz ou mesmo desejosa de desafiar os Estados Unidos.
A crítica de analistas e acadêmicos colombianos é que, por
outro lado, Brasília se mantém demasiadamente afastada de Bogotá
- um fato mais fácil de perceber que de corrigir.
Se os dois países devem estreitar as relações para melhorar
o combate ao narcotráfico - no qual o Brasil tem um papel mais que secundário
-, há pouco consenso sobre que papel caberia a Brasília em questões
como a libertação de reféns da guerrilha ou a mediação
de conflitos entre a Colômbia e seus vizinhos.
O olhar do povo
Cansados do conflito político que já levou 3 milhões de
pessoas a deixaram suas casas, colombianos vêem o Brasil como um lugar
pacífico, onde gostariam de retomar sua vida, mas ainda de difícil
acesso.
A ONU estima que até 20 mil colombianos já tenham sido "expulsos"
para o Brasil por causa da violência e das extorsões praticadas
pelas guerrilhas marxistas e por grupos paramilitares. Mas a barreira do idioma
e a inóspita selva amazônica, que dificulta a travessia a pé,
têm contido o fluxo de colombianos.
Talvez pelo desconhecimento gerado pela distância, o Brasil aparece como
uma espécie de esperança ou sonho distante no imaginário
dos vizinhos imersos em crise.
Para os mais pobres, o crescimento econômico e a imagem de país
amigável fazem do Brasil um lugar que oferece promessas de emprego e
de uma vida melhor.
As relações econômicas
• População: 45 milhões
• PIB: US$ 374 bilhões
• Quanto o Brasil exporta para o país: US$ 2,3 bilhões
• Quanto o Brasil importa do país: US$ 426 milhões
• Saldo comercial com Brasil: US$ -1,9 bilhões
A balança comercial do Brasil com a Colômbia é um exemplo
da disparidade que caracteriza a relação econômica entre
o maior país do continente e seus vizinhos.
Exportador de produtos manufaturados - sobretudo aviões - para a Colômbia,
o Brasil importa principalmente itens básicos, como óleo bruto
de petróleo, resíduos de alumínio, ferroníquel e
outras matérias-primas.
O governo brasileiro ressalta que a desvantagem comercial é compensada
pelos investimentos de empresas brasileiras no país vizinho, que já
são históricos. A Petrobras iniciou na Colômbia sua atuação
internacional ? hoje, mais de 50 postos de gasolina com a bandeira verde-amarela
estão espalhados pelo país. Há também projetos na
área de exploração.
No ano passado, o grupo Votorantim comprou a maior siderúrgica colombiana,
a Acería Paz de Rio, e junto com o grupo Gerdau se tornou detentor de
60% do setor siderúrgico colombiano.
Agora, o presidente Álvaro Uribe quer convencer a Companhia Vale do
Rio Doce a investir cerca de US$ 6 de bilhões em uma unidade de alumina
? a matéria-prima do alumínio ?, uma geradora de energia e um
porto no mercado vizinho.
Observadores econômicos em Bogotá dizem que o aumento dos investimentos
brasileiros se deve a bons resultados da política de segurança
do presidente Álvaro Uribe, que reduziu o temor de companhias estrangeiras
de se fixar no país em conflito.
Entretanto, críticos de Uribe dizem que a Colômbia, como vários
outros países da América Latina, apenas embarcou na bonança
que impulsiona os exportadores de produtos básicos.
VENEZUELA
Desde
a chegada ao poder de Hugo Chávez, a Venezuela tem sido um dos países
que mais se destaca no noticiário internacional. Um dos maiores exportadores
de petróleo do mundo, o expandiu sua influência na América
do Sul com o aumento do preço do petróleo nos mercados internacionais.
Para alguns, a Venezuela agora ameaça a liderança brasileira
na América do Sul.
A visão pode ser exagerada, como alega o governo brasileiro, mas a verdade
é que há diversos pontos de discórdia. O Brasil relutou
para entrar no Banco do Sul, proposto por Hugo Chávez, e não manifestou
apoio ao Gasoduto do Sul e à criação da Petroamerica, uma
união de estatais de petróleo. Igualmente Chávez é
um crítico da produção de biocombustíveis, um das
bandeiras do presidente brasileiro Luiz Inácio Lula da Silva.
Considerando que a América do Sul dispõe de potencial e recursos
que poderiam possibilitar a autosuficiência de toda a região, vê-se
claramente o quanto essas divergências dificultam a integração
energética do continente.
Os planos de desenvolvimento de projetos conjuntos entre Venezuela e Brasil
ainda não se concretizaram e cada vez mais o presidente Chávez
usa a abundância de petróleo de seu país para desenvolver
na região a chamada diplomacia do petróleo, através da
qual, são levados a efeito projetos que não atendem necessariamente
os interesses de toda a região.
Para alguns analistas, a fragmentação da relação
de Brasil e Venezuela não permite um melhor aproveitamento desse potencial.
Mas o fato é que Brasil e Venezuela dialogam bastante na América
do Sul. O governo brasileiro é um dos principais defensores do ingresso
da Venezuela no Mercosul.
O olhar do povo
Rivalidade ou amizade? Para a maioria dos venezuelanos entrevistados nas ruas
de Caracas, Brasil e Venezuela são países irmãos e amigos.
Muitos falam que o Brasil é um país mais desenvolvido do que a
Venezuela.
A maioria afirma que o Brasil é o líder da América do
Sul e descarta que a Venezuela possa ser, de alguma forma, uma ameaça
a essa posição de liderança.
Os venezuelanos vêem o Brasil com simpatia e respeito. Muitos disseram
que o Brasil é um importante parceiro econômico da Venezuela e
que gostariam de ver relações econômicas mais intensas entre
os dois países.
As relações econômicas
• População: 27 milhões
• PIB: 186 bilhões
• Quanto o Brasil exporta para o país: US$ 4,7 bilhões
• Quanto o Brasil importa do país: US$ 345 milhões
• Saldo comercial com Brasil: US$ -4,3 bilhões
Na América do Sul, a Venezuela é o país para o qual o
Brasil mais aumentou suas exportações nos últimos dez anos.
Entre 1997 e 2007, as exportações brasileiras para a Venezuela
cresceram mais de seis vezes.
Em 2007, a Venezuela também foi o país com quem o Brasil teve
maior superávit comercial na região: US$ 4,3 bilhões. Carros
e carnes são os principais produtos exportados para lá. Em troca,
o Brasil compra insumos do setor energético, como carvão e derivados
de petróleo.
Para a Venezuela, o Brasil é o terceiro maior parceiro comercial, atrás
dos Estados Unidos e da Colômbia. Os empresários venezuelanos reclamam
que a balança comercial é muito favorável para o Brasil
e trabalham para tentar aumentar as exportações venezuelanas,
sobretudo para o Norte e Nordeste do país.
GUIANA
A
Guiana é um país relativamente isolado dentro da América
do Sul. O interior do país é pouco habitado e coberto com uma
grande extensão da floresta amazônica.
A maior parte da população mora na costa, o que explica as ligações
fortes da Guiana com o Caribe e o pouco contato com os sul-americanos.
Existe uma comunidade de cerca de 20 mil brasileiros morando na Guiana. A grande
maioria vai para trabalhar nos garimpos, em busca de ouro. Brasil e Guiana estão
construindo uma ponte entre as cidades fronteiriças de Bonfim (Roraima)
e Lethem (no lado guianense), sobre o rio Itacatu.
A ponte conecta a única estrada que liga os dois países, possibilitando
a viagem de Boa Vista à capital da Guiana, Georgetown.
Há diferenças entre os países em relação
à Amazônia. Alegando falta de recursos, o governo atual da Guiana
propõe que grande parte da sua floresta seja administrada por britânicos.
O governo brasileiro não se manifestou oficialmente sobre a oferta, mas
o Brasil notoriamente defende a soberania sul-americana da floresta.
O olhar do povo
Nas ruas, o povo da Guiana expressou um pouco de ressentimento com o fato de
existirem relações tão pequenas com o Brasil.
Quando se fala em Brasil, o principal assunto citado pelos guianenses é
a construção de uma ponte sobre o rio Itacatu, na fronteira dos
dois países, que possibilitaria viagens de carro entre as principais
cidades dos dois países.
Outro assunto lembrado pelos guianenses é a presença dos garimpeiros
brasileiros. Eles são bem-vistos no país e retratados como trabalhadores
dedicados e honestos.
As relações econômicas
• População: 750 mil
• PIB: US$ 3,7 bilhões
• Quanto o Brasil exporta para o país: US$ 18 milhões
• Quanto o Brasil importa do país: US$ 1,9 milhão
• Saldo comercial com Brasil: US$ -16 milhões
A Guiana é o menor dos parceiros comerciais do Brasil na América
do Sul. O Brasil exporta apenas US$ 18 milhões para o país, o
que representa menos de 1% das exportações brasileiras para a
América do Sul.
O tamanho e a posição geográfica explicam isso. A Guiana
é sede da Comunidade Caribenha de Nações, onde está
a maior parte dos seus principais parceiros econômicos. O país
tem um dos menores PIBs da América do Sul. Tanto em riqueza quanto em
população, a Guiana se assemelha aos pequenos países caribenhos.
A base da economia é a exportação de minérios.
Existe apenas uma estrada ligando Brasil e Guiana e são poucos os vôos
semanais. O porto de Georgetown possui fluxo comercial mais intenso com Estados
Unidos, Europa e Caribe do que com a América do Sul.
SURINAME
O
Suriname é o vizinho do Brasil que não está ligado ao nosso
país por estrada. Atualmente, existem apenas dois vôos entre a
capital do Suriname, Paramaribo, e cidades brasileiras.
No nível governamental, existem alguns acordos de cooperação
nas áreas de educação e agricultura, as relações
bilaterais são pequenas.
O Suriname tem sido um destino atraente para brasileiros do Norte e do Nordeste,
devido à riqueza dos garimpos de ouro. Cerca de 50 mil brasileiros vivem
no país.
Muitos vivem isolados dentro dos bairros brasileiros nas principais cidades,
já que poucos aprendem o holandês, a língua oficial do país.
O olhar do povo
No Suriname, as pessoas nas ruas têm muito pouco a falar sobre o Brasil.
Existe uma grande admiração pelo futebol brasileiro. Durante a
Copa do Mundo, o Brasil é o primeiro time da grande maioria dos surinamenses,
mesmo com alguns ídolos locais jogando pela Holanda.
O futebol é um dos poucos assuntos em comum. Em geral, os surinamenses
sabem pouco sobre os brasileiros. A comunidade de brasileiros que vive no país
- cerca de 50 mil, segundo estimativas oficiais - não transcende a barreira
da língua oficial, o holandês.
Com pouco destaque para assuntos brasileiros no país, os surinamenses
têm bastante curiosidade para saber o que acontece no Brasil e como vivem
os brasileiros.
As relações econômicas
• População: 450 mil
• PIB: US$ 3,1 bilhões
• Quanto o Brasil exporta para o país: US$ 36 milhões
• Quanto o Brasil importa do país: US$ 19 milhões
• Saldo comercial com Brasil: US$ -17 milhões
Como a Guiana, o Suriname também está muito isolado do Brasil
e da América do Sul economicamente. O país faz parte da Comunidade
Caribenha de Nações, onde estão os seus principais parceiros
econômicos.
Tanto em exportações e importações, o Suriname
representa menos de 1% da balança comercial brasileira na América
do Sul. Além do Caribe, o país possui fortes laços econômicos
com a ex-metrópole Holanda, com os Estados Unidos e com a Europa.
O Suriname tem a menor população da América do Sul, mas
as pessoas são mais ricas do que na Guiana. A base da economia do Suriname
é a exportação de minérios.
Fonte: BBC Brasil