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Política Internacional - Entenda a crise e protestos em Mianmá


País asiático vive a maior onde de contestação do regime militar em mais de 20 anos.

Qualquer ato violento contra os monges poderia provocar a revolta da população.

RANGUM - Dezenas de milhares de pessoas saíram às ruas de Mianmá (ou Mianmar) - antiga Birmânia - nos últimos dias em uma onda de manifestações liderada por monges budistas contra a junta militar que governa o país. Nos maiores protestos contra os generais desde que passeatas de estudantes foram esmagadas, há 20 anos, cerca de 100 mil pessoas aderiram ao movimento para a derrubada do regime.

Os protestos começaram em 19 de agosto, motivados pelas altas dos preços dos combustíveis decretadas pelo governo, o que disparou os preços dos bens da cesta básica. As tensões agravaram-se no início de setembro, quando um grupo de monges foi agredido por soldados da tropa de choque durante uma manifestação pacífica.

As ações promovidas pelos monges tornaram-se explicitamente políticas, apesar de líderes religiosos optarem por cânticos e orações ao invés de discursos inflamados. Os monges são muito respeitados no país e qualquer ato violento contra eles poderia provocar revolta da população.

Cidadãos comuns que aderiram aos protestos deram o tom político entoando palavras de ordem do movimento pró-democracia: reconciliação nacional, libertação dos prisioneiros políticos e ênfase em campanhas de alimentação, agasalho e habitação. Os organizadores afirmaram que vão continuar nas ruas até que o governo militar entregue o poder.

O protesto dos monges começou a ganhar tom político quando manifestantes receberam permissão para passar diante da casa onde a líder do movimento democrático, Aung San Suu Kyi, é mantida em regime de prisão domiciliar. Ela acenou para os manifestantes em sua primeira aparição pública em mais de quatro anos.

Suu Kyi passou 11 dos últimos 18 anos presa. Em 1990, o partido dela venceu as eleições nacionais, mas o pleito acabou anulado pelo Exército, e ela nunca pode assumir o governo.

De acordo com analistas, o futuro das manifestações é imprevisível. Até agora, os generais no poder não têm reagido, mas há receios de que se repita o episódio de violência ocorrido em 1988, quando o último levante pró-democracia terminou com a morte de 3 mil pessoas.

Veja também: A China tem papel crucial na crise em Mianmá

Dissidentes cibernéticos driblam censura de Mianmá

Os bloggers de Mianmar estão usando a internet para driblar a censura e contar ao mundo o que está acontecendo debaixo do manto de silêncio imposto pela junta militar.


Imagens de passeatas de monges
têm sido vistas mundo afora
Imagens de monges com mantos laranja liderando multidões pelas ruas de Yangun vêm sendo transmitidas para fora do país conhecido por seu regime totalitário e pelo controle repressivo da informação.
As fotos são às vezes granuladas e as imagens de vídeo tremidas – capturadas sob grande risco pessoal com telefones celulares -, mas cada uma representa uma poderosa reafirmação de dissidência política.

“É impressionante como a população de Mianmar tem sido capaz de receber coisas de dentro e de fora por meio de redes clandestinas”, diz Vincent Brussels, chefe da seção asiática da organização Repórteres sem Fronteiras, que defende a liberdade de imprensa.

“Antes, eles tinham que passar as coisas de mão em mão, mas agora estão usando a internet – sites proxy (que permitem a conexão sem identificar o usuário, burlando os controles), o Google, o Youtube e todas essas coisas”, diz.

Diferenças de 1988

O uso da internet como uma ferramenta política é uma das diferenças mais marcantes entre os atuais protestos e o levante de 1988, que foi brutalmente reprimido.

Graças em parte aos bloggers, desta vez o mundo exterior está a par dos detalhes do que está acontecendo nas ruas de Yangun, Mandalay e Pakokku e está sedento por mais informações.

O blooger Ko Htike, nascido em Mianmar mas atualmente radicado em Londres, está transformando seu blog anteriormente dedicado à literatura em uma agência de notícias, com um crescimento de dez vezes na audiência.

Ele publica fotos, vídeos e informações enviadas a ele por uma rede de contatos clandestinos com o país.

“Eu tenho cerca de dez pessoas por lá, em locais diferentes. Eles me enviam seu material de internet-cafés, por meio de páginas de acesso livre ou às vezes por e-mail”, disse ele à BBC.

“Todos os meus contatos estão entre os budistas, acompanhando as passeatas, e assim que conseguem alguma imagem ou notícia eles entram num internet-café e mandam para mim”, disse.

Ko Htike é um dos vários ativistas online de Mianmar, em sua maioria baseados fora das fronteiras do país.

Guia para dissidentes


Para analistas, regime subestimou
potencial da internet
Os Repórteres sem Fronteira relatam como um guia para dissidentes cibernéticos para jovens do país foi febrilmente disseminado entre um grande grupo de jovens, politicamente ativos e com prática no uso de computadores.

Os bloggers estão ensinando outros a usar sites proxy baseados no exterior – como your.freedom.net e glite.sayni.net – para ver páginas bloqueadas e navegar virtualmente sem serem detectados pelo ciberespaço, trocando dicas e links em suas páginas.

A internet também se tornou um espaço virtual para grupos políticos que não podiam expressar abertamente suas visões em público.

Ko Htike encontrou sua rede de jornalistas-cidadãos em um fórum de internet que foi rapidamente desmontado após os contatos iniciais.

Tais fóruns também são usados como um espaço para alertar aos bloggers quando conteúdos novos – fotos ou vídeos – ficam disponíveis.

“Nós normalmente usamos salas de bate-papo na internet, como o Yahoo Messenger”, diz Ko Htike. “Se eles encontram dificuldades, eles nos ligam. Eles não dizem nada, apenas nos passam links ou um código, sem mencionar nada sobre isso.”

Potencial subestimado

Analistas concordam que apesar de o acesso à internet estar disponível atualmente para menos de 1% da população, o regime militar subestimou seu potencial.

O regime parou de se concentrar em policiar suas fronteiras virtuais após uma luta pelo poder que resultou na deposição do então primeiro-ministro Khin Nyunt em outubro de 2004, segundo afirma Brussels, da Repórteres sem Fronteiras.

“Khin Nyunt era um homem da inteligência militar, que tinha uma grande rede de espiões e pessoas que eram bastante atentas sobre todos esses tipos de controle. Após sua deposição, eles não tinham mais muito conhecimento nessa área”, disse Brussels.

“Tem havido oportunidade para as pessoas no país de usar seus conhecimentos. Eles são jornalistas e usuários de computador jovens, que sabem como driblar o bloqueio e a censura”, afirma.

Apesar de manter o controle total dos dois únicos provedores de internet e de limitar severamente o uso da internet – qualquer um que não registre seu computador conectado à internet está sujeito a uma pena de 15 anos de prisão – Ko Htike diz que a atual crise tornou os líderes do país cientes da ameaça representada pelos bloggers.


Blogger diz que governo tenta
espalhar boatos por meio da rede
Ele descreveu como tem recebido e-mails pessoais – e manifestantes dentro de Mianmar receberam mensagens por celular – espalhando informações falsas e boatos, por exemplo sobre repressão militar aos manifestantes.

Ele está convencido de que os boatos são espalhados pelas autoridades de Mianmar, tentando influenciar os manifestantes e disseminar propaganda governamental por meio de sua página.

“Muitas pessoas estão lendo meu blog, então se eu colocar notícias falsas no site isso vai afetar as pessoas. Eles (o governo) podem ver a audiência, podem ver que as pessoas estão acessando minha página... isso significa que estão tão temerosos que estão tentando me manipular e usar o poder popular”, disse Ko Htike.

Sistemas pouco sofisticados

Comparados com os controles virtuais e físicos sobre a internet na China, porém, os sistemas em Mianmar são bem pouco sofisticados, segundo os especialistas.

“O governo de Mianmar tem um regime de filtragem bem repressivo... mas isso pode ser um pouco inconsistente – um dos provedores de internet bloqueia somente as páginas internacionais, o outro apenas as regionais”, diz Ian Brown, especialista em privacidade e segurança na internet da Universidade de Oxford.

Os bloggers de Mianmar se dedicam a explorar as brechas.

“Isso é realmente importante; as pessoas querem saber o que está acontecendo em Mianmar”, diz Ko Htike.

Por meio de sua rede cibernética, ele também pretende proteger aqueles que arriscam suas vidas para alimentar seu blog, agora proibido dentro do país.

“Eu monitoro as notícias sobre Mianmar e renovo meu site constantemente, Se alguma coisa acontece, nós podemos avisar as pessoas. Nós podemos fazer algo, podemos manter as pessoas cientes”, afirma.

Fonte: Jornal O Estado de São Paulo | BBC Brasil


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