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Reforma em escolas paulistas "dá uma lição básica" às escolas brasileiras


As cortinas finas da sala de aula estão fechadas contra o sol forte enquanto os adolescentes com idades entre 13 e 14 anos da escola Irmã Gabriela, na cidade de Osasco, na região metropolitana São Paulo, ensaiam a peça que apresentarão numa reunião de pais.

Uma menina de peruca roxa faz uma boa imitação de uma cozinheira de TV fazendo uma tradicional feijoada. Depois vem uma dança africana. Mas então as coisas ficam sinistras.

Um garoto magro entra em cena fingindo-se de bêbado e pede seu jantar para uma esposa amedrontada. Depois de uma briga, ele volta ao bar, deixando mulher e filhos aos prantos. Então surgem cenas de prostituição infantil e comércio de drogas.

O teatro oferece uma válvula de escape para essas duras realidades. Se as escolas públicas brasileiras, notoriamente precárias, quiserem oferecer às crianças um futuro melhor, fariam bem em aprender com as iniciativas que estão sendo testadas nessa e em outras escolas de São Paulo.

Segundo algumas estatísticas, o desempenho das escolas públicas brasileiras é "horrível", diz Maria Helena Guimarães, secretária estadual da Educação. "Vinte e cinco por cento dos alunos saem do segundo grau sem domínio da leitura e escrita", diz ela. "Quarenta por cento não têm domínio de matemática básica", afirma.

Um dos problemas é o orçamento, bastante distorcido pela lei em favor da educação superior. No ano passado, as três universidades públicas do Estado de São Paulo, com 140 mil alunos, receberam quase R$ 5 bilhões dos cofres estaduais. Os cinco milhões de alunos das escolas de primeiro e segundo graus dividiram R$ 12,3 bilhões entre si.

Os salários são baixos. Na escola Irmã Gabriela, a maioria dos professores ganha R$ 1.000 por mês - salário equivalente ao de empregadas domésticas em casas de classe média. Mas Maria Helena Guimarães diz que os maiores obstáculos para mudar são a burocracia e inflexibilidade do sistema. "Os diretores podem motivar suas equipes, encorajar os pais a participarem e criar um ambiente que acolhe e protege as crianças pobres", diz ela. "Mas eles não podem contratar nem demitir. São os professores que escolhem as escolas, não o contrário".

Quase todos os 1.200 alunos da escola Irmã Gabriela - além das 400 crianças e adultos do período noturno - moram na grande favela que se estende pelo vale atrás de seus muros. A diretora Maria de Lourdes Spricide de Oliveira diz que convencer os pais a se interessarem por seus filhos é uma prioridade, começando pela frequência escolar. "Vamos atrás dos pais e fazemos eles assinarem um compromisso para obrigar seus filhos a virem para a escola", diz ela.

Mas não são só os alunos que faltam. Em 2007, com um corpo docente de 100 a 115 professores, a escola perdeu cerca de 650 dias letivos por conta das faltas. "Alguns professores nunca faltam", diz Oliveira, "Outros faltam um dia por semana. Um professor assim pode destruir o desempenho da escola inteira. E você não pode demiti-lo porque ele não violou nenhuma regra".

Essa era a situação em 2007. Mas desde abril, os professores das escolas estaduais de São Paulo só podem ter seis dias de faltas médicas justificadas por ano; antes, não havia limite definido. A frequência dos professores afeta diretamente seu direito a um novo bônus anual de até 2,9 vezes o salário mensal, pago a todos os funcionários das escolas que atingirem as metas de desempenho estabelecidas em comum acordo com as autoridades estaduais no começo de cada ano.

Recompensar ou punir professores por seu desempenho são ideias radicais para a educação pública do Brasil que estão sendo experimentadas em São Paulo por iniciativa de Guimarães. Ela introduziu outras medidas, como currículos padronizados e treinamento dos professores no próprio local de trabalho, práticas comuns em outros países, mas que provocaram uma onda de protestos por parte dos sindicatos de professores. Milhares de professores se manifestaram contra as medidas em São Paulo.

Guimarães diz que algumas iniciativas tiveram resultados rápidos. De maio a outubro de 2007, os professores tiraram 398 mil dias de faltas médicas. No mesmo período do ano passado, o número foi 60% menor. Outros programas, como o Bolsa Família, do governo federal, que dá assistência aos pais que mantém seus filhos na escola, aumentaram a frequência dos alunos entre 7 e 14 anos para quase 100%.

Mas Alberto Rodriguez, especialista em educação no Banco Mundial, alerta que as melhorias na frequência escolar levaram o país inteiro a uma complacência em relação à necessidade de mais reformas. "O acesso à educação tem melhorado substancialmente, mas a qualidade do ensino continua muito ruim", diz ele. "Educação pública de boa qualidade é absolutamente essencial. É por isso que o crescimento no Brasil é tão lento".

Fonte: Financial Times, reportagem de Jonathan Wheatley, em São Paulo


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