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A Estrutura da Bolha de Sabão, de Lygia Fagundes Telles

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Na obra A Estrutura da Bolha de Sabão, publicado em 1978, Lygia Fagundes
Telles aborda temas como a rejeição e a formação da identidade do ser, mas em
cada um deles esses elementos estão aliados a outros e são encarados de formas
diferentes pelas personagens. A autora aborda sobretudo o universo feminino e suas diversas facetas: percepções e desejos próprios da mulher. Este livro pode ser considerado uma coletânea de contos marcado
para repensar a realidade da mulher e a busca da emancipação feminina. Mas não
se trata de um livro inteiramente feminista. A figura do homem também é trabalhada
a fundo, marcando sobretudo o aspecto da fragilidade e das carências masculinas.

No conto “A confissão de Leontina”, a protagonista, é sempre prejudicada
por não ambicionar nada da vida e por estar no lugar errado, na hora errada, com
pessoas erradas. “Tudo bem, não tem problema”, foi o que aprendeu a dizer a vida
toda.

Uma releitura do conto “Missa do galo”, de Machado de Assis também está aqui:
“Missa do Galo – variações sobre o mesmo tema”. É o olhar feminino de Lygia sobre
a mesma situação do conto de Machado.

As narrativas, se lidas na seqüência, nos dá a perceber uma lógica. Por
exemplo, o conto que dá nome ao livro tinha que vir no final. É como se os personagens
de todos os contos resolvessem fazer uso dessa frágil existência e, com a crueldade
pulsante, ao final de tantos desejos inquietos, estourassem finalmente a bolha,
representação de amor, ódio, sensibilidade, candura, crueldade e sutileza.

Na literatura de Lygia, memória e invenção se confundem, se misturam. Ela se protege
com a “idéia”. Boa parte dos seus contos está em primeira pessoa e nota-se neles
sua autobiografia, é como se lêssemos sobre ela. Lygia Fagundes Telles
gosta de mergulhar nos detalhes e incógnitas, enigmas, charadas, como no primeiro
conto da obra , “A medalha” (que a protagonista amarra no gato).

Com óbvias influências de Clarice Lispector e Hilda Hilst, ela traz o cósmico
e o erótico equilibrado em textos como “A confissão de Leontina” e “A fuga”. Freqüentemente
se vêem as reflexões sobre fidelidade, Deus, a morte e o sonho. Lygia Fagundes
Telles poderia então estar enquadrada na Geração 45, pela esquisa lingüística
e inquietações temáticas.

A educação castradora, presenta no conto “O Espartilho”, o mau ambiente familiar
ou relacionamento insatisfatório, presente no conto “A Estrutura da bolha de sabão”,
produzem o ser humano mutilado e infeliz, pessoas / personagens conflituosas,
desencontradas de si ou do mundo, como Leontina. Nem as crianças são poupadas:
Luzia, irmã de Leontina sofre lesão cerebral e morre afogada por causa do primo
Pedro, que também arruína a vida da protagonista deste conto. São personagens
que buscam respostas que dêem sentido à vida. Como interagir da melhor forma com
o mundo externo (como Clarice Lispector buscava), buscando interagir, querendo
reconhecimento nos outros, presas ao passado dentro do presente, prisioneiras
de um tempo esgarçado.

Seu enfoque é urbano e intimista, psicológico. Cheiros, lugares, objetos, roupas,
sensações importam apenas como acesso ao mundo interior. Trafega bem na burguesia,
mas vai até os menos favorecidos como Leontina.

É um panorama da nossa sociedade: desestruturação do grupo familiar, dissolução
dos costumes, conflito de pais e filhos, luta pela maturidade, desajuste social,
miséria, desamparo, prostituição. Resumindo: é o relacionamento personagem
/ mundo. São narrativas de personagens e tem ação lenta. Sugerem mais que descrevem.
Constantemente lançam mão do discurso indireto livre. O que os personagens dizem
não corresponde a uma forma convencional de ver o mundo e sim com seu estado psicológico,
isso sem usar palavras difíceis nem frases que soem artificiais, pelo contrário:
um texto que busca a oralidade. Quando é narrador em primera pessoa, ele se interrompe
e faz perguntas, sugerem ao leitor sem gestos e expressões, amalgamando forma
e conteúdo.

Os contos do livro A Estrutura Da Bolha De Sabão:

A Medalha – Narrado em terceira pessoa, é uma rama insólita em
torno de uma jovem na época da revolução sexual, anos 60/70. Racismo: há um negro
com quem a protagonista deve se casar, ele é tolo, e um branco, com quem ela acabou
de fazer sexo. Por trás da banalidade,. Lygia Fagundes Telles sonda a alma humana.

Adriana, a protagonista, chega da farra de manhã. A mãe, burguesa, chama-a de
“cadela”. Tem cabelos oxigenados de louro. Diz que é branca, mas tem “sangue podre”
e assusta a mãe dizendo que os netos vão nascer morenos. A mãe diz que a filha
puxou ao pai: cara de anão, pescoço curto, jeito mole, balofo. Adriana não se
importa, vai se casar com quem for conveniente e vai levar a vida como quiser.
A mãe ainda tenta ser tradicional e dá à filha uma medalha que estava na família
há três gerações. Adriana pega. Vai para o quarto. Amarra a medalha no pescoço
de um gato e o empurra porta a dentro do quarto da mãe. São apenas duas personagens,
os outros são apenas citados.

A Testemunha – Neste conto vemos dois amigos passeiando pela cidade em
um dia de inverno. Rolf e o “esquecido” do Miguel, com cerca de 50 anos, que quer
a todo custo fazer o outro lembrar do que aconteceu: “preciso saber até que ponto
eu cheguei”. Ao que Rolf responde: “Somos todos normalmente loucos”. Este conto
também só tem duas personagens, além de um guarda no final. Eles parecem duas
metades de um só homem em busca de si, ou querendo se esquecer. Há aqui a sombra
da mãe.

Vão por uma rua escura, “quase deserta, no fim da rua, a ponte, curvo traço de
união entre as margens do rio. A névoa subia densa”. Rolf é a ponte que liga Miguel
ao ontem, ele não se lembra bem do que aconteceu. Miguel perdeu seu cão, o Rex.
Miguel pede o último cigarro e subitamente joga o amigo da ponte: “as águas se
abriram e se fecharam sobre o grito afogado, se engasgando” (Rolf não sabia nadar).
Miguel amassa o pacote do cigarro e joga-o no rio. Aparece um policial e reclama:
“É proibido atirar coisas no rio (…) é a lei”. Miguel se desculpa e some no
nevoeiro. Livrou-se de parte do seu passado.Mas e de si mesmo?

O Espartilho – Neste conto parece que toda a estrutura familiar é posta
em xeque. Narrativa em primeira pessoa. Ana Luíza, é órfã de um clã conservador,
sua mãe era judia, o que sua avó, mãe do seu pai, faz questão de mostrar como
herança genética maldita. Tricô, bíblia, álbum, chaves, cheiro de altar, seda,
tesourinha, rendas, eis o campo semântico para lances abruptos: a “tia Ofélia
tomou veneno um mês depois do casamento”, a família que tinha “olhos verde-água”.
Ana Luíza é reprimida e vê sensualidade na empregada negra que foge com um homem.
Percebe a hipocrisia do jogo social burguês. Conhece Rodrigo e faz sexo com ele,
tudo parece acontecer nos anos 40, a guerra, Hitler (a avó até que o admira);
a avó dá um cheque e Rodrigo troca a neta por uma viagem. O espartilho é metáfora
da contenção emocional e do preconceito burguês. Ana fica só no final e a velha,
com o espartilho, vai dormir: “os mortos já haviam sido devorados, agora era a
vez dos retratos”. Aquela família estava cheia de “podres”: tio Maximiliano engravidou
uma negra e foi mandado às pressas para a Europa. “Por que eu que começara tão
bem, tinha que me transformar naquela mosca morta?”, pergunta-se a protagonista.
Na noite de natal, os parentes se amavam e se detestavam com igual intensidade:
“Sentei-me para comer sossegada minha fatia de peru”, narra. “Você parece com
sua avó”, disse Rodrigo, “Uma burguesinha empoeirada”. O que perdi em ilusão,
ganhei em segurança
, reflete a narradora Ana Luíza.

Quer que eu tire seu espartilho?, perguntei quando meus dedos tocaram a rigidez
das barbatanas.
– Não minha filha. Eu me sentiria pior sem ele. Já estou bem, vá, querida. Vá
dormir.
Antes de sair, abri a janela. A Via-Láctea palpitava de estrelas. Respirei o hálito
da noite: logo iríamos amanhecer”.

Fuga – Parece o mais estranho: narrado em terceira pessoa, o foco narrativo
nos exibe o inseguro Rafael, que passou da idade e ainda mora com os pais, dependendo
economicamente e psicologicamente deles. Sofre de uma doença que não ousa nem
dizer o nome. Não, ele resfolega, não é asma. Está envolvido por uma misteriosa
“névoa” que o absorve no meio de um parque, árvores que querem agarrá-lo. Ele
quer dar de presente argolinhas de ouro para uma italiana virgem que tem joelhos
que parecem “anjinhos barrocos”. Lygia aqui, usa o discurso indireto livre e joga
com metáforas inusitadas, símbolos. O filho preso na teia familiar não consegue
fugir: “Você sabe que não pode correr”. O conto finda com o rapaz retornando a
casa e encontrando seu próprio caixão: ele estava lá dentro.

A Confissão de Leontina – Quinto conto do livro: a narradora é uma mulher
pobre e de pouco verniz cultural, que reclama por não confiar em ninguém da cidade
grande. Nasceu na pequena cidade Olhos D’Água e mal sabe ler e escrever, além
de não ter ninguém por ela no mundo. Lembra do primo Pedro que, ao derrubar a
pequena Luzia, irmã da narradora, atingiu o cérebro da menina, criada desde ali
como um vegetal.

A mãe de Luzia e dela, Leontina, era uma lavadeira que criara o filho da irmã,
Pedro. Os poucos centavos, a melhor comida, a escola, tudo só dava a ele, em quem
depositava falsas esperanças. Quando ela morreu, Leontina foi ser lavadeira. E
também na formatura de Pedro, Luzia afogou-se. Pedro não a quisera no colégio,
mal podia aturar a miséria da nossa narradora. Forma-se, pega o que pode e vai
para São Paulo estudar medicina e fazer o possível para vencer e esquecer Leontina
e todo aquele horrível passado de pobre. Obrigou-a a vender tudo que tinha e entregou-a
aos cuidados de um padre que a empregou na casa de uma perversa mulher, mãe de
um filho que quis abusar de Leontina.

Nossa heroína vai à luta na cidade grande fugindo do interior. Dançarina de aluguel,
prostituta e… assassina? Com tantos elementos assim, Lygia entrega ao leitor
sua visão confortável de todo o nosso desconforto. É como perguntaria Machado
de Assis sobre Dona Plácida, de Memórias Póstumas de Brás Cubas:
para que existir deste modo?

A narradora dirige-se a alguém que mal conseguimos distinguir. Há um tom de tragicômico,
desespero. A morte da mãe e da cachorra Titã no mesmo parágrafo revela que o mundo
é dos fortes: Pedro venceu, mesmo quando nega conhecer Leo como sua prima. O primeiro
“amor” da vida dela, já dançarina de aluguel: um marinheiro; seu primeiro vestido:
aquele que vestiria na mãe para enterrá-la e que lhe foi deixado como herança.

Minha mãe vivia lavando roupa na beira da lagoa (…) nunca vi minha mãe se
queixar. Era miudinha e tão magra que até hoje fico pensando onde ia buscar forças
para trabalhar tanto não parava (…) Pedro precisava estudar para ser médico
.
Prometera a irmã e todos passavam necessidades em nome dele. E ele as renegava.

Não podemos aqui falar em felicidade. Leontina é uma Macabéia (de A Hora da Estrela,
de Clarice Lispector, 1977) que foi à luta e acabou na prisão. Lygia vai tecendo
a trama desta pequena novela. Onde está a narradora? O que aconteceu com ela para
estar assim? Com quem fala?

A ruptura com o tempo cronológico faz o leitor viajar na mente tortuosa e ao mesmo
tempo simplista da personagem. ‘“Essa daí não é a tua irmã?”, um menino perguntou.
Mas Pedro fez que não e foi saindo. Fiquei sozinha no palco com um sentimento
muito grande”, diz diante da primeira negativa de Pedro.

“Não conheci meu pai. Morreu antes de você nascer, respondia minha mãe sempre
que eu perguntava”. A narrativa é fragmentada e trabalha o discurso indireto livre
imprimindo ao texto um ritmo ágil: “Meu pai feito um Deus desaparecendo atrás
da montanha com sua capa de nuvem num carro de ouro”. É um pai mítico e a menina
o cria com elementos do seu universo particular: as nuvens, quando se deitava
na beira da lagoa e escolhia a cara que o pai devia ter.

A velha Gertrude (e o filho João Carlos), sua primeira “patroa”, a tratara como
um animal: “Nem pra ir ao banheiro eu tinha sossego que ela ficava rodando a porta
e resmungando que eu devia estar cagando prego pra demorar tanto assim”.

Na fuga de trem, ela vê uma “estrelinha verde brilhando lá longe” que a acalma
e também nos transmite o grau poético da cena.

Rogério era o nome do marinheiro com quem ela “se perdeu”. Um quartinho de hotel
/ pensão barato. Ele a chamara de Joana e não de Leontina: “Seu cabelo encacheado
é igual ao de São João do carneirinho”. Segunda referência à Bíblia, Pedro faz
a primeira: “Conte só com você que todo mundo já está até as orelhas de tanto
problema e não quer nem ouvir falar do problema do outro”, sentencia Rogério ao
prometer levá-la para conhecer o mar, comer uma peixada em Santos: “Aprendi a
tomar banho com Rogério. Você tem que tomar banho todo dia e lavar as partes (…)
em casa a gente só tomava banho de bacia em dia de festa, mas outras vezes só
lavava o pé. E na casa da patroa ela não gostava que eu me lavasse pra não gastar
água quente”.

Às vezes o verde da tal estrelinha ou do sabonete do marinheiro esbarram com nossa
frieza de leitor: “Não sei por que pensei no meu pai quando Rogério passou o braço
por baixo da minha cabeça e me chamou, Vem Joana”. Depois da vírgula o “v” maiúsculo
do “vem”. Uma felicidade clandestina e efêmera de fazer amor e fumar. Dava tristeza
“fazer amor” com Rogério: ia “com cara de boi indo pro matadouro”. “Ele dizia
que minhas sobrancelhas eram como as asas das gaivotas.”

Ele se foi. Ela decai e numa pensão, cheia de artistas de circo, conhece Rubi,
quem levou Leontina para lá foi o Milani, colega de Rogério. Personagem secundário
mas Lygia os tece com carinho de mãe.

Leontina trabalha em inferninhos rodeada da escória típica destes locais: “Nunca
dizia não pro freguês”.

A segunda vez que encontra Pedro, e ele fingiu não conhecê-la, foi na enfermaria
da Santa Casa. Aqui a narradora faz a inevitável comparação com Jesus. Leontina
é tentada.

Ao apreciar um vestido marrom com rosa de vidrilho vermelho no ombro, ela é assediada
por um velho rico dono de jornais “e mais isso e mais aquilo”: “Amaldiçoada para
que enveredei por aquela rua e parei naquela vitrina. O vestido estava numa boneca
e tinha o meu corpo”.

O duplo está estabelecido: o jogo completamente armado. O ritual do sacrifício
se encaminha para um desfecho dramático: ela deixa na loja o vestido branco. O
velho a proíbe de voltar. Ele lhe comprara o vestido que ela queria. A estrada,
o repúdio, o carrão, a estrada: “Era rico e feio com aquele jeito de peru do bico
mole molhado de cuspe (…) boca inchada e roxa como se tivesse levado um murro”.

“O bofetão veio nessa hora e foi tão forte que me fez cair no banco (…) o punho
do velho desceu fechado na minha cara. Foi como uma bomba (…) achei uma coisa
pura e fria no chão. Era o ferro…”.

Depois de tudo ela volta à loja para buscar o vestido branco a polícia está lá.
A vendedora dera a reconhecer.

Missa do Galo – Neste conto, Lygia disseca a intertextualidade com o conto
de Machado de Assis, no qual nos é apresentada uma mulher da segunda metade do
século XIX: Conceição, casada, vítima de um marido adúltero, que a deixa praticamente
só numa noite de Natal. Esta senhora mantém um insinuante diálogo com um hóspede
adolescente, o Nogueira (que é leitor, tal qual a senhora, de romances românticos,
como Os três mosqueteiros, ou os do senhor Joaquim Manuel de Macedo). Ele faz
hora esperando um amigo para juntos irem à tal missa do galo.

Ela “deixou travesseiro e quarto numa disponibilidade sem espartilho, livre o
corpo” e Lygia cria um narrador que vai invadindo o espaço do não dito, nas entrelinhas,
de Machado, coloca até na alcova do adúltero com uma certa “mulata”.

A relação do jovem Nogueira com Conceição também é, digamos assim, intensificada
nesta recriação. Lygia apimenta-a, vasculha-a como um psicanalista provocador.

O insólito é observado: “Durante o dia Conceição parece tão objetiva, eficiente.
E agora esta inconsistência”. Seu narrador observa pelas vidraças da casa, ele
está na rua da “noite antiguíssima”. Sente desejo de entrar e vive um tempo anacrônico
como a interferência de uma lembrança de algo escrito em um caminhão (!): “Matérias
perecíveis”. Mas “aquela casa”, o narrador contrapõe, é “imperecível”, no ”bojo
de tempo”. A obra de Machado.

Conceição: “bruxa” ou “belíssima”? Quer gritar, é hora de calar: “Vocês sabem
que dentro de alguns minutos será nunca mais?”, pergunta-nos. O menino de 17 anos
estará na igreja e ela no quarto.

Parece Clarice Lispector, amiga de Lygia: “Faça alguma coisa”, pede o narrador
insistentemente com o coração pesado diante desses dois indefesos no tempo.

Metalinguagem e intertextualidade aqui se confundem quando o amigo do rapaz chega,
ele vai para a missa, Conceição volta para o quarto e o narrador conclui:

Quando volta ao quarto, pisa na tábua do corredor, aquela que range. Rangeu,
paciência! Agora está desinteressada da mãe e da tábua.
No canapé, a almofadinha das guirlandas um pouco amassada.
Apago o lampião.

Gaby – Penúltimo do livro, onde somos apresentados ao protagonista de apelido
Andrógino, na verdade o mesmo do arcanjo, Gabriel. Ele está no bar com o garçom,
Fredi, chegam clientes. Espelhos, mármore (balcão), ventiladores, calor. É pintor
de “natureza morta”. Na infância a mãe o protegia. Tem uma amante velha pela qual
sente repulsa, mas precisa do dinheiro dela. Ama uma jovem que não o suporta mais
(Mariana). Vive com tédio a situação-limite em que chegou sua vida. É um indefinido
a contemplar a vida. O pai doente está se acabando numa pensão pobre, sozinho.
O garçom também é um insatisfeito.

Mariana tinha um primo deputado da oposição: “subversivo”. Esse conto fica datado
nos anos 60/70. “Gabriel por que você não acaba o que começa?”. O pai dizia que
o apelido “Gaby” era afeminado, nome de esmalte, creme, de mulher”.

Há uma “mosca” ao redor de Gaby durante quase todo o conto. A lembrança da velha
com bochechas murchas, pintadas, com a peruca meio ridícula. A lembrança de ter
denunciado ao pai que a mãe, que tanto o protegia, tinha um amante com um carro
vermelho. Gaby fora reprovado duas vezes na escola. Na segunda parte do conto,
Gaby recebe a carta de despedida de Mariana. Chora. Amadureceria um dia? Querer
fugir dos beijos da velha, da dentadura dela. É um gigolô com problemas psicológicos,
meio cafajeste inocente (?), traumatizado. A mãe desaparecera, “Como milhares
desaparecem”. Está pintando uma maçã. Tudo é o vazio que se abate sobre tanta
gente. Pensa de novo em matar a velha, que, ao perceber que ele estava um pouco
febril, prepara-lhe um chá. Ele morde a maçã.

A estrutura da bolha de sabão – Neste conto, que dá título à obra, Lygia
cria um narrador em primeira pessoa: uma mulher que encontra o ex-marido com a
atual esposa num bar. Sente ciúme e testa a incomunicabilidade entre os seres,
a aprendizagem dos sentimentos: uma delicada teia de relacionamentos. Ele é físico
e estuda a estrutura da bolha de sabão (sólida / líquida / gasosa): híbrida. Ele,
ela percebe aos poucos, está com uma doença terminal. Ela pensa na própria infância,
revê sua vida em labirinto: “No escuro eu sentia essa paixão contornando sutilíssima
meu corpo”. Lygia é dona de uma sintaxe especial, particular. Pratica o intimismo
com maestria. Sua poesia narrativa é uma espécie de ritual sem sangue, sem grito:
“Amor de transparência e lembranças condenado à ruptura”.

Em relação à outra mulher, a narradora mostra-se superior: “Como ele podia amar
uma mulher assim?”. São frases insólitas como: “Me refugiei nos cubos de gelo
amontoados no fundo do copo”. Ela tem ciúmes e ao saber da doença do ex-marido
vai à casa dele. É recebida pela fulana que agora ocupa o “seu” lugar. Quando
a “outra” sai, ela se aproxima do homem que já foi seu. Ela não tem nome no conto.
Ela flui. Ele usa um roupão verde, mãos “branquíssimas”, está quase lívido. Ela
começa a sentir uma falta e não sabia do que era. Descobre: “Ô! Deus – agora eu
sabia que ele ia morrer”.

Este final vago e brusco nos conduz ao amor interrompido, petrificado em narrativa
de prosa lírica, urbana, metafísica.

Texto parcial: Moisés Neto – Pós-graduado
em Literatura, escritor, membro da diretoria do SATED (Sindicato dos artistas
e técnicos em espetáculos de diversão em Pernambuco)

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