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A Festa, de Ivan Ângelo

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A Festa

, romance de Ivan Ângelo, publicado em 1976, é uma obra rica de
significado social e expressiva como experiência estética.

O autor dimensionou este livro com a visão ampla dos problemas humanos e a mestria
dos técnicos e artesãos. Ivan Ângelo continuou a dominar, amplamente, os
recursos narrativos, e nesta obra, que o autor subtitulou de Romance: Contos,
tem um espaço maior e de domínio mais largo, para exercer o fascínio de sua inventiva.
É na aparente diversificação temática e técnica que Ivan Ângelo constrói
o seu mundo artístico, que é dialeticamente o “real empírico” e o testemunho que
se faz documento.

A obra é um romance que surgiu em uma época na qual as verdades só podiam ser
exibidas através de artifícios e jogos, e termina sem que a festa em si seja descrita.
O único momento que é revelado é seu término: “um grupo de trinta rapazes
armados com longos cacetes de madeira invadiu a festa de aniversário de Roberto
em 1971”
. Durante a invasão, quebram o aparelho de som, televisão e discos
e rasgam livros (metáforas explícitas para a Censura). Invadem os dois banheiros
da casa (cerceamento da privacidade das pessoas). Chamam todos os convidados de
veados, comunistas, putas, espancam todos que tentam fugir (referência a ataques
como o que o CCC, Comando de Caça aos Comunistas, realizou em 17 de julho de 1968
aos atores que encenavam a peça Roda Viva, dirigida por Zé Celso Martinez
Corrêa). Não à toa, as palavras que encerram o livro são: “Foi a última festa”.

A ausência de descrições da festa pode ser interpretada como uma elipse irônica
e simbólica do próprio contexto da época, em que os fatos nos eram informados
pela ausência; matérias censuradas tinham seu espaço nos jornais substituído por
versos de Os Lusíadas ou receitas de bolo que, propositadamente, não davam
certo (o que causava a reclamação de muitas donas-de-casa). Subterfúgios que mostravam,
ao leitor atento, que havia algo que não lhes era permitido ser informado (não
se deve esquecer que Ivan Ângelo teve formação de jornalista).

Livro escorregadio – romance político? Drama psicológico? Crônica de uma geração
sem saída? Crítica de costumes? Reflexão sobre as contradições das pessoas? –
ele enreda o leitor em suas múltiplas teias. Mais do que uma brincadeira lúdica
com as múltiplas possibilidades das palavras, A Festa é um libelo à participação
ativa do leitor, que, enredado pelo discurso fragmentado e aberto do narrador,
é obrigado a deixar sua passividade de espectador a fim de conseguir encaixar
as peças do conto-romance que lê. Jogo brilhante porque ao mesmo tempo é metáfora
de um tempo em que passividade rimava com covardia, apatia, resignação.

Contra o discurso oficial, de fórmulas lógicas e decretos-leis, Ivan Ângelo nos mostrou, ainda durante plena ditadura, a
possibilidade de uma linguagem livre.

A Festa é um romance construído pelo arranjo hipertextual ligando entre
si uma multiplicidade de discursos, arranjo estrutural de enunciados que são chamados
de contos pelo próprio autor, mas sua diversidade enunciativa sistematicamente
ligada a um texto, ou melhor, a um hipertexto, A Festa, é que o torna uma
obra-prima da ficção contemporânea. A obra é, portanto, o hipertexto de uma realidade
situada dentro de coordenadas bastante precisas, mas apresentadas por uma multiplicidade
de meios discursivos, como se fosse uma espécie de programa multimídia. Imagine-se
as virtualidades de leitura que sugere o índice remissivo: índice remissivo
das personagens, por ordem de entrada ou de referência, com informações sobre
o destino das que estavam vivas durante os acontecimentos da noite de 30 de março.

Na leitura desse romance não há um enigma a ser decifrado pelo leitor, nada está
subentendido, há na realidade um jogo de revelações e virtualidades. Para festa
todos os personagens e acontecimentos convergem, este é o elo entre todos. Marcionílio,
Andréa, Roberto, Jorge, Ataíde, Carlos etc são arquivos hipertextualizados no
índice remissivo. Pode-se assisti-los em cena lançados nesse universo. O autor
que é também um sujeito enunciativo encontra também seu disfarce e metalingüisticamente
revela-se perdido nessa polifonia de discursos e formas. O grande êxito de Ivan
Ângelo foi revelar novas possibilidades narrativas, foi também, junto com muitos
outros escritores que parecem responder da mesma forma às demandas atuais de leituras
de gêneros ficcionais, tornar-se precursor de uma inteligência criativa atenta
às transformações psicologias dos processos criativos da modernidade.

A Festa é um painel, um caleidoscópio, uma montagem de fatos, narrativos, e depoimento de um personagem (o escritor)
que inquire a própria obra e a põe em discussão. Dessa soma de falas, diálogos, narrativas, monólogos, “recortes” de notícias,
sai o romance inteiriço, uno na sua diversificação.

O depoimento é do personagem-escritor: “Não é um livro sobre uma geração, mas
sobre várias gerações que um dia se encontram no 1970 brasileiro”
. A abertura,
o núcleo e fechamento do romance mostram a figura dramática e sofrida do nordestino
Marcionílio, migrante da terra ressequida, escorraçado e enxotado numa estação
de trem em Belo Horizonte, Minas Gerais, junto com inúmeros companheiros. Embora
a figura de Marcionílio apareça pouco no romance, a sua presença subjaz em todo
o decorrer da narrativa, que é feita de vários pontos-de-vista, com enfoques variados:
o painel, de implicação social, cresce e se enriquece.

Este livro, como já observado, transcorre sua ação no Brasil dos anos 1970,
onde jovens estudantes e jornalistas lutam pela liberdade, ao mesmo tempo o enredo
se entrelaça com um conflito na praça, uma festa entre quatro paredes, diálogos
teatrais, notícias de jornal, cortes de cinema e vídeo-clip. Caos, desordem, mentira,
sexo e dor estão presentes na narrativa. Apesar de ser o mais violento, erótico
e implacável livro de Ivan Ângelo, não deixa de ser também uma história de amor.

Os personagens, todos bem configurados, são vários nesse caleidoscópio da vida
brasileira. Embora o perigo do documento se sobrepor à criação, da informação
jornalística e fria afogar a dimensão narrativa (ambiente, personagens, ação),
a realidade do romance de Ivan Ângelo consegue o distanciamento necessário,
a eqüidistância entre a obra e o fato. Não se torna mais verdadeiro um romance
pelo simples acúmulo de informações reais, do dia a dia, acontecimentos do domínio
público. A ficção (a poesia) não precisará, necessariamente, justificar o seu
compromisso com o real empírico. Ela se faz documento vivo, atuante, mesmo que
tenha a seu dispor um mínimo de informação. O resto é suprido pela sensibilidade
do romancista.

O que se tem depois é a ficção propriamente dita, a técnica narrativa exemplar,
os personagens que nos são desnudados pela inventiva do autor. São reais tais
personagens? Não interessa, pois eles agora servem na condição de tipos num determinado
meio. Quer o burguês desocupado ou o delegado de política social bombástico ou
a jovem prostituta ou o jovem militante político, apareçam como peças da engrenagem,
Marcionílio, o nordestino injustiçado, completa o painel, que é o resultado da
experiência real e estética do ficcionista.

Ivan Ângelo metaforiza o caos da sociedade brasileira através de uma justaposição
de fragmentos que, mais do que meras experiências lingüísticas, foi a forma adeqüadíssima
para descrever a perda de sentido global provocada por um governo autoritário
no cotidiano das pessoas. E isso sem apelar para panfletarismos, ideologismos
e outros “ismos” freqüentes na mais rasa “literatura” engajada.

A julgar pelas primeiras páginas, parece que se enreda em um denso romance político;
mas eis que o caleidoscópio se move e mostra nova face: “Bodas de Pérola (amor
dos anos 30)”. E assim, de capítulo em capítulo, Ivan Ângelo nos exibirá
contos díspares na forma e conteúdo, aparentemente autônomos entre si. A cada
passagem, um salto para frente ou para trás no tempo descreverá as mais diversas
faces da sociedade brasileira através dos anos:

– “Documentário (sertão e cidade, 1970)” – Abertura doromance,
este primeiro capítulo é totalmente composto por fragmentos de jornais e livros,
que dão um apanhado da miséria e desigual distribuição de renda no Brasil desde
1859 até a atualidade. Por meio de flashbacks, Ivan recupera acontecimentos ocorridos
na madrugada do dia 31 de março de 1970 (16 anos após a “Revolução”), sobre uma
revolta deflagrada por centenas de nordestinos que, chegando em Belo Horizonte
após semanas de fome e sacrifícios passados em uma viagem de trem, chocam-se com
soldados enviados com a ordem de mandá-los de volta ao sertão. Marcionílio de
Mattos, nordestino de 53 anos admirador de Lampião e Francisco Julião, lideraria
tal rebelião.

Neste capítulo, Ivan Ângelo lança certos dados objetivos da realidade
social e política: vários instantes da vida brasileira. Os dados reais estão lançados,
como se toda esta parte servisse de epígrafe para o livro. Através de citações,
é introduzido o acontecimento paralelo ao da festa: o levante de retirantes nordestinos
na praça da Estação de Belo Horizonte. É descrito ainda o perfil do provável líder
do levante, Marcionílio de Mattos e do repórter Samuel Aparecido Fereszin. De
imediato este conto já apresenta um processo hipertextual. O relato romanesco
advém de um conjunto de enunciados cujas fontes são assinaladas entre parênteses,
em itálico. A primeira citação é o trecho de uma reportagem do diário “A Tarde”,
inédito, que havia sido suprimido da cobertura dos acontecimentos da praça da
Estação. Contudo vamos encontrar: outras reportagens, relatos de viagens, citações
de escritores como Gilberto Freire, Euclides da Cunha, Rui Facó, depoimentos de
autoridades, versos de Asa Branca de Luís Gonzaga, registro de nascimento, manifesto,
citações de relatório, lista de lugares, notícias. Trata-se de um verdadeiro documentário
acerca das razões que desencadearam o levante da Estação. O interessante é que
o fato histórico é ao mesmo tempo o fato romanesco, artifício que deve sugerir
algo como um romance documentário primo do filme documentário.

– “Bodas
de Pérola (amor, anos 30)” –
O segundo conto-capítulo do livro, descreve
com raro lirismo e sinceridade a história de um casal que fizera um pacto de suicídio
antes que envelhecessem. “Bodas de Pérola” mostra como, com o decorrer dos anos,
o apego pela vida suplantará o amor e o desejo de morrerem juntos. É uma dramatização
em dois atos: “MARIDO” e “MULHER”. No primeiro a voz da mulher é enunciada como
se vinda da consciência do marido. Ela fala, ele responde com um monólogo extenso
fazendo digressões sobre o idílio amoroso vivido enquanto o casal era jovem. Mas
agora ele quer matá-la por conta de um pacto que ambos haviam feito no auge daquela
paixão. O diálogo do pacto é enunciado na íntegra (esse mesmo diálogo vai aparecer
no segundo ato).
O marido trama então a morte da mulher e a sua própria em suas bodas de pérola. No segundo ato a mulher vai aparecer envolvida em diálogos grafados em itálico com um amante, Carlos. Ela é também colocada em
cena por uma fonte narradora em sua casa junto com o marido com ele dialogando ou mesmo monologando, suas vozes são introduzidas
por um travessão. A trama é urdida por essa variação discursiva.

– “Andréa (garota dos anos 50)” – Andréa seria talvez a protagonista do romance, tanto quanto é deste conto. O conto abre com uma epígrafe em itálico sugerindo
uma enunciação do autor do livro (Ivan Ângelo) explicando a origem do conto: uma biografia encontrada entre os papéis de
uma personagem do livro. A história de Andréa é contada com um estilo cheio de valorações e preconceitos, Andréa é submetida a um
julgamento impiedoso por ser bela e voluptuosa. A devassa Andréa é flagrada por esse observador íntimo que parece esboçar uma inveja
ou um ciúme, afinal qual dos personagens teria escrito essa biografia? Como hipertexto essa biografia é o que há de mais romanesco e
mais piegas em todo romance, é pura bisbilhotice na qual a vida dessa frívola personagem é escancarada.

– “Corrupção (triângulo nos anos 40)” – Conto experimental polifônico, no qual se percebe um processo de interiorização simbólica por parte de um dos enunciadores: o filho.
O conto é construído por três vozes: pai mãe e filho alternadamente. O filho é Roberto Miranda, o patrocinador da festa, aqui, o vê-se
nos seus cinco primeiros anos respondendo aos primeiros estímulos psicolingüísticos.

– “Antes da Festa (vítimas dos anos 60)” – O capítulo reúne, a partir da reconstituição dos passos dos
convidados durante os preparativos da “grande festa”, e dos momentos que antecedem o tumulto da praça com os nordestinos imigrantes,
todos os personagens e situações surgidas nos capítulos anteriores, revelando novas e inesperadas facetas e conexões.
Concomitantemente, Ivan insere em itálico anotações de um escritor a respeito da composição de um romance, “coincidentemente” aquele
que estamos lendo no exato momento. Como Morelli em “O Jogo da Amarelinha” de Júlio Cortázar, Ivan Ângelo nos mostra um artista
em pleno processo crítico e de questionamento a respeito do papel do romance e da arte em um mundo cada vez mais caótico e
comercial.

– “O Refúgio (insegurança, 1970)” – No seu refúgio, Jorge Paulo de Fernandes é flagrado por um foco narrador que o irá acompanhar em cada detalhe de suas ações e
solilóquios. O tempo do conto é o tempo dos movimentos e da fala do personagem. Não há digressões, não há valorações, não há tempo ou
espaço para qualquer suspensão ou desvio do movimento da personagem. O efeito é de um complexo de câmaras do tipo BIG BROTHER, nada
escapa aos receptores fono-foto-sensíves dessa câmara romanesca. Desde a entrega sobressaltada em seu apartamento/refúgio até sua
saída serena, em paz, na direção da festa.

– “Luta de Classes (vidinha, 1970)” – O paralelismo desse conto é o que o torna distinto. Dois personagens agem simultaneamente até se encontrarem, mate cruzarem seus
destinos. Como o título sugere trata-se do encontro que acaba em briga entre Ataíde um, pintor que ganhava três salários mínimos e
Fernando, um executivo, provavelmente do comércio. Duas páginas são suficientes para o desfecho da história. Exatamente na praça da
Estação onde Ataíde foi preso, informação encontrada no índice remissivo.

– “Preocupações (angústias, 1968)” – Dois depoimentos que enunciam dois tipos de preocupação. Um depoimento é proferido por “uma senhora mãe de um rapaz” e um outro
proferido por “um delegado de polícia social”. O discurso da senhora tem o tom emotivo de uma mãe preocupada em ver seu filho
Carlinhos ocupado em reuniões estudantis. O depoimento do delegado tem o tom de ensaio que reflete sua preocupação com o
irracionalismo dominante que atinge todas as classes deixando o povo abandonado.

– “Depois da Festa (índice dos destinos)” – O último capítulo,
“Depois da Festa (índice dos destinos)”, como já visto, recupera todos
os personagens, revelando seus destinos aos poucos, citando a página em que apareceram
(exemplo: “O pintor jovem, Roberto J. Miranda. Página 60”). Tais indicações surgem
em negrito e podem variar quando a personagem é retomada (“’está chamando’. Roberto.
Página 140”). Aqui, Ivan Ângelo explicita todas as nefastas conseqüências do regime
militar sobre a sociedade civil: o pintor cuja mão foi esmagada (citação ao compositor
chileno Victor Jara, cujos dedos da mão foram quebrados, um por um, antes de ser
morto pelo regime de Pinochet), a mulher violentada por policiais do DOI-CODI,
o intelectual assassinado, o estudante expulso e proibido de concluir seu curso
da faculdade, o advogado que mata a esposa e é absolvido alegando “defesa da honra”
(ecos de Doca Street), o líder camponês morto pelo DOPS e cuja versão oficial
distribuída aos jornais falava em “resistência a fuga”. É um apanhado didático
de todos os antecedentes que desembocariam na trágica festa que encerrará o livro.

Neste capítulo, Ivan Ângelo como que “complementa” a biografia psicológica
de vários de seus personagens. Esta parte é tambem o veio que une o documentário
da primeira parte. E entre a informação “jornalística” e a informação criativa
(eleição de uma linguagem literária) o romance cresce em seu corte profundo de
tempo histórico e realidade social.

Fonte parcial: Alexandre Maia (UFPE)

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