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As meninas, de Lygia Fagundes Telles

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Análise da obra

As Meninas

trata-se, sem dúvida, do mais importante romance de Lygia Fagundes
Telles. Escrita em 1973 é resultado do esforço de três anos de trabalho dessa
autora perseverante, que valoriza a palavra e mostra, através de seus textos,
a luta de todos nós em defesa da liberdade. O texto de Lygia Fagundes Telles não
cai na vulgaridade, não se banaliza. A linguagem é coloquial e expressiva e os
diálogos abandonam as conveniências formais.

O romance As Meninas oferece-nos, de um lado, um painel saboroso das vivências de três pessoas
em busca de si mesmas; de outro, uma amostra dos problemas cruciais que agitaram a juventude durante um
dos períodos mais conturbados da história do Brasil, que Lygia Fagundes Telles teve a ousadia e a
coragem de denunciar.

Tempo

Uma seqüência cronológica pouco marcada de alguns dias ou poucas semanas: o tempo é voluntariamente vago
e difícil de precisar. O que prevalece é o tempo psicológico, pois tudo acontece através do entrecruzar
da memória, da evocação do passado, da mistura com algumas ações no presente. Alguns fatos permitem a
localização da obra no final dos anos 60, pois evocam as agitações sociais, as greves universitárias, a
prisão e a tortura de militantes políticos sob o enrijecimento da ditadura militar, o crescimento
agressivo da megalópole que tritura o jovem e esmaga sua individualidade, alienando-o, censurando-o e
dificultando-lhe a busca de caminhos. Passado e presente fundem-se de modo inextricável, e nos traumas
da memória encontram-se as explicações para os problemas existenciais de três meninas – símbolos de toda
uma geração massacrada e alienada por forças do passado e das circunstâncias.

A intriga de As Meninas transcorre em época aguda da vida política e cultural, no período mais
violento da repressão e da resposta armada contra os militares. O golpe militar de 1964 se inspirara no
projeto de um Brasil moderno e capitalista, liberal, tecnológico. Inversamente, o governo então deposto
havia-se inspirado num projeto democrático e nacionalista, escorado na participação das massas
trabalhadoras e das associações de classe. Houve perseguições e mortes. Houve prisões e exílios. Houve
muita censura por toda parte. Esse clima, de medo e espera, se estendeu pelos anos 70 e 80 e só começou
a arrefecer durante o último governo militar. De qualquer forma, tivemos, de um lado, toda uma atuação
clandestina que confluía para o terrorismo, e, do lado oposto, uma violenta repressão por parte das
autoridades. Entre esses dois pólos, amordaçada, sofria a sociedade brasileira. E, debaixo desse jogo de
forças, foram crescendo e se consolidando formas que iam minando a sociedade, como o desamparo da
educação, o tráfico de drogas, o contrabando, a corrupção das elites e a base de toda a criminalidade
urbana.

Todos esses móveis constituem o pano de fundo de As Meninas. O tema do romance não é esse, mas
sem isso a obra praticamente perderia todo o seu sentido.

Em As Meninas, pois Lygia Fagundes Telles mostra um mundo em que os ideais de esquerda já não
satisfazem, nem conseguem explicar todas as coisas, como se pretendera durante muito tempo. A idéia do
romance é a de que, em quaisquer circunstâncias, o destino é sempre uma escolha individual. Por outro
lado, a presença calma e indiferente das religiosas no romance é um sinal de outros caminhos, talvez
mais seguros e verdadeiros do que os apresentados pela arena da ideologia. Figuras como Lorena e Ana
Clara querem levar a vida que sonharam, e não se obrigam a viver de acordo com padrões estabelecidos,
nem do lado da direita, nem do lado das esquerdas, e nem mesmo do lado religioso. Podem estar erradas
naquilo que escolhem. Mas não estão erradas em seu direito de escolha. Em qualquer regime, os indivíduos
querem escolher a vida que bem entendem. A verdade do indivíduo tende a parecer mais verdadeira do que a
verdade social. Essa é a principal tensão dentro do romance de Lygia Fagundes Telles.

Espaço

Oprimidas pela cidade grande e sua violência, as três meninas refugiam-se no Pensionato N. Senhora de
Fátima, na região central de São Paulo. O quarto-concha de Lorena constitui-se no refúgio para onde as
pessoas convergem em busca de conforto, de carinho, de segurança, de afeto e compreensão – um tipo de
oásis dentro de um mundo desorganizado, caótico e extremamente ameaçador, onde “Deus vomita os mortos”.

Ação

A ação do livro é interiorizada. Quase nada acontece na realidade exterior; a vida pacata e rotineira no
pensionato, as conversas intermináveis, os estudos, as visitas das personagens ao redor do quarto de
Lorena – centro daquele microcosmo -, poucos momentos na faculdade e no “aparelho”; as atitudes
contraditórias de Ana Clara e sua morte; a solução dada pelas amigas para se livrarem de um cadáver
comprometedor. Tudo se passa no âmbito da memória, enquanto as meninas resolvem o passado e evocam suas
experiências em busca de auto-conhecimento, de solução para seus traumas e conflitos interiores, para a
exorcização de seus “fantasmas”.

Foco Narrativo e Linguagem

Para realizar a descrição da alma, Lygia Fagundes Telles teve de usar o foco narrativo de maneira
insinuante e inventiva, teve que deixar a alma falar, sem intermediações. O foco narrativo em primeira
pessoa é manipulado pela autora de forma magistralmente cambiante: ele se desloca constantemente (e
inesperadamente!) para o fluxo de consciência das três amigas, que se entrevistam, que se apresentam
umas às outras e ao leitor, que refletem continuamente sobre si mesmas e umas sobre as outras,
arrastando-nos nessas freqüentes invasões à privacidade de Ana Clara, Lorena e Lia, que se vão
desnudando paulatinamente diante de nós. Existe uma dificuldade inicial para a leitura até a
identificação do estilo peculiar de cada personagem, pois cada uma delas se exprime dentro de seu
“dialeto” coloquial – o discurso mais elaborado e culto de Lorena, o regionalismo politicamente engajado
de Lia e o pensamento confuso e truncado de Ana “Turva”. Superada essa dificuldade, o leitor mergulha
de corpo e alma no universo fantástico dessas três meninas encantadoras, representantes autênticas
daquele que foi um dos períodos mais importantes e difíceis para a emancipação da mulher, para a
liberdade de pensamento e para a realização individual dentro de um universo politicamente conturbado.

Uma de nossas evidências mais cotidianas é que ninguém pode expressar melhor nossos sentimentos do que
nós mesmos. Dada essa evidência, as três moças terão de falar em primeira pessoa. Lorena, Lia e Aninha
usam o pronome EU, falam de si mesmas. Cada uma também fala ou sobretudo pensa sobre as outras. Isso não
exige que o foco passe para a terceira pessoa. Cada moça é sempre um EU observador, que mostra sua
própria posição, quando fala das outras. Cada uma fala o que sabe. Isso, porém, ainda não constitui o
verdadeiro foco. É uma habilidade, uma astúcia criada pelo foco. Mas ainda não é o foco. Se fosse assim,
se houvesse três narradoras em primeira pessoa, quem é que poderia ter juntado esses três eus? É fato
que cada moça fala de si mesma e fala das duas outras. Mas quem é que fala das três juntas? O verdadeiro
narrador. Há, portanto, em As Meninas, um narrador que nada fala de si, e que só fala das três.
Logo, é um narrador onisciente (= que tudo sabe) e de terceira pessoa, como costumam ser os narradores
oniscientes. Portanto, em As Meninas, o narrador é de terceira pessoa, é também onisciente (porque
sabe tudo sobre as três meninas) e, na maior parte do tempo, deixa que as meninas falem por si mesmas,
dando-nos a impressão de um teatro com alguns diálogos e muitos monólogos. Nós não conhecemos esse
narrador. Nem podemos dizer que seja Lygia Fagundes Telles. Lygia é a autora, a pessoa física e real que
escreveu o romance, e nele concebeu um narrador sobre o qual sabemos muito pouco ou nada. Note uma das
passagens do romance em que esse narrador se mostra um pouco:

Inclinou-se [Lorena] para os lados, numa profunda reverência, os braços em arco para trás, as mãos se
tocando como pontas de asas entreabertas. Agradeceu recuando um pouco, o sorriso modesto posto no chão.
Mas empolgou-se ao colher uma flor no ar, beijou-a, atirou-a triunfante para as galerias e voltou
rodopiando à janela. Acenou para a jovem que esperava de braços cruzados no meio da alameda. Levou as
mãos ao lado esquerdo do peito e suspirou com ênfase.

É claro que o narrador aí se mostra porque é ele que está em sua função de falar sobre a personagem (em
geral as personagens falam de si mesmas). Mas, nesses raros momentos em que se mostra, tal narrador
revela a manipulação das técnicas “românticas” de apresentação das meninas-moças. Isso acaba se
harmonizando bem com o realismo dos monólogos, onde as confissões tendem a ser mais brutais e mais
modernas.

Estrutura dramática

O conflito social de Ana Clara, por exemplo, vem do fato de ela ter “perdido” toda a família, mas o
destino final dessa moça não depende apenas disso. O desamparo pode explicar até que ela seja dependente,
fraca e doentia. Mas não explica o fato de ela ser ambiciosa. Por um lado, ela se entrega ao vício, e
não se preocupa com a imagem que possa ter no pensionato. Por outro lado, aspira a subir além de seus
limites, e além de todas as evidências. Se por um lado se envolve com Max, que é traficante, por outro
lado sonha casar-se com um ricaço. Seu intento de fazer “vaginoplastia” para enganar o noivo (não o
amante) mostra o quão fraca e pouco livre ela é. Não tem amor ao noivo, se é que esse noivo existe.
Tinha feito abortos. Trancara a matrícula na Faculdade. As duas amigas a chamam de Ana Turva, e esse
adjetivo diz bem da obscuridade em que se debatem suas emoções. E, entretanto, ela é a única das três
que se realiza no amor. Max a trata com carinho, promete-lhe mundos e fundos. Em suas intimidades com o
amante, Aninha não esconde mesmo certa superioridade ao falar de suas amigas. E as amigas falam dela
como de um pobre diabo. Isso não é hipocrisia. É o movimento dialógico do discurso humano. É a dinâmica
da contradição.

Lia, por sua vez, tinha vindo da Bahia, e também lhe faltava dinheiro. Seu pai era alemão, a mãe era
baiana. Tinha saudades de sua casa e sua terra. Sozinha, e quase sem recursos, ela encontra um sentido
para a vida no movimento político universitário. É compulsiva (Lorena a chama Lião). Suas alpercatas
cruzam as ruas da cidade, e seus olhos espiam a polícia em todo lado. Fala por citações e clichês, e,
sob essa perspectiva, é incapaz de uma conversa livre. Mas se valoriza com isso. E não é burra, percebe
as astúcias do chamado “milagre econômico”:

Nunca o povo esteve tão longe de nós, não quer saber. E se souber ainda fica com raiva, o povo tem
medo, ah! como o povo tem medo. A burguesia toda aí esplendorosa. Nunca os ricos foram tão ricos […]
Resta a massa dos delinqüentes urbanos. Dos neuróticos urbanos. E a meia-dúzia de intelectuais […]
Não sei explicar, mas tenho mais nojo de intelectual do que de tira.
(p. 13)

Lia é amigona, pode-se contar com ela a toda hora. Procura desqualificar tudo aquilo que não tenha
relevância militante e ideológica. Envolvera-se com Miguel, que era terrorista, mas não foi feliz no
amor, muito menos no sexo. Descarregava, por isso, toda sua energia no ativismo. Teve de mudar o nome
para Rosa. Com Lorena ela se relacionava bem. Mas não conseguia entender o estado estúpido de Aninha.

Já Lorena é dominada por dois dramas, um pregresso, outro presente. Tivera dois irmãos, Rômulo e Remo.
E, numa brincadeira de infância, à toa, Remo acabou matando a Rômulo. Esse trauma a perseguia (Remo agora
é diplomata, e manda presentes para a irmã, lá do norte da África, onde servia). Lorena parece ter tido
também um grande afeto pelo pai (isso pode ser sentido na constante exclamação — “ah, meu Pai”). O pai
morreu. Mas o centro das angústias de Lorena estava no estranho médico que lhe escrevia cartas de amor
impossível. Ela o nomeava pelas iniciais, M.N. (Marcus Nemesius). Esse Marcus Nemesíus era casado. Tinha
cinco filhos, e parecia não ligar pra ela. Um homem na casa dos sessenta anos. Impotente, Lorena vai
levando a vida com seus discos, com seus livros, com a gata e com as simpáticas e discretas freiras do
pensionato.

Temos os elementos de uma equação dramática, que pode ser recompreendida da maneira seguinte:

1. No nível intersubletivo (eu x eu x eu), as meninas se dão bem, formam um destino comum e
provisório no pensionato. Nós nos acostumamos a pensar nas três, a contar com as três, e querer que as
três continuem juntas. Entretanto, cada uma está presa a um tipo de paixão que conspira contra a
unidade. De certa forma, tão jovens, estão jogando a vida fora.

2. No plano da subletividade, os três projetos são falidos por princípio: Lia terá de se esconder
da polícia. Seu amante é preso, e depois solto, em troca de um refém. Nesse espaço de tempo, teve uma
relação frustrada com Pedro, jovem tímido e indeciso. Lia acredita que irá com o namorado para a Argélia
(mas, ao fim do livro, não sabemos se ela foi de fato). Tranca seu curso de Ciências Sociais, envolve-se
em confusões, e vive de sustos. E Ana Clara? Ana Clara quer de novo a virgindade, e pensa casar com toda
a pompa, ter marido rico, dirigir um Jaguar novinho em folha, bancar a rica. Abandona a Faculdade, onde
estudava Psicologia. E não quer deixar o amante. E afunda-se cada vez mais na dependência. E a veneração
de Lorena (que faz Direito na USP) é por um fantasma, um homem que não dá sinal de vida. Lorena só pensa
nele, e, sob esse aspecto, seu lamento gracioso lembra o das “cantigas d’amigo” medievais. Ela não pode
ouvir o som do telefone, que sai correndo afobada e esperançosa. Lorena não quer nada com droga ou com
política. Mantém-se virgem, para esperar seu M.N.. Lorena tivera algum namorico anterior, com o Fabrízio,
e depois com o Guga. Mas tudo isso não era nada, diante da paixão que sentia agora pelo clínico
misterioso.

Vê-se, portanto, que os três destinos marcham para a dispersão. Isso configura, como vimos, uma síntese
entre o drama cultural e o drama pessoal. Que é, aliás, o drama da menina em sua passagem para mulher. É
o drama da definição e da busca de um caminho. Um caminho que passa necessariamente pela esfera
masculina. Pois é sempre o homem (esse ausente) que decide sobre as coisas.

3. O clímax do livro ocorre com a morte súbita (mas nada estranha) de Ana Clara, nos aposentos de
Lorena. Lorena passa então por uma confusão mental. Que fazer? Mas Lia acaba chegando, e ela e Lorena
vestem elegantemente a falecida, retiram-na silenciosamente do pensionato (para evitarem a polícia), e
colocam o seu corpo furtivamente num banco de jardim de uma pequena praça, não sem algumas atrapalhações
e juvenilidades que, não fosse a tristeza da hora, teriam sua graça e até comicidade. Lia e Lorena se
separam. Aquela se prepara para deixar o Brasil, e se reencontrar com seu amante. Esta fica só, depois
de uma inaugural experiência de coragem e desassombro, que fora essa aventura de carregar a morta pela
cidade perigosa. É o fim. A impressão derradeira é de desconsolo e miséria cultural. É a dispersão dos
destinos.

Personagens

Em As Meninas, as três moças apresentam graus de valor humano e social distintos. Em relação a
Ana Clara, por exemplo, só podemos ter pena, compreensão, revolta contra a infiltração das drogas na
adolescência. Ela exemplariza o jovem desencaminhado, desadaptado socialmente. Está no grau mais baixo
de idealização, que podemos chamar grau irônico, se dermos a essa palavra a conotação antiga de
“sofrimento”, “dependência” em relação aos outros.

Lia, por seu lado, tem um esquerdismo que faz as vezes de “cortina de fumaça” para esconder os seus
complexos (era desengonçada, feiosa, grandona, calçava alpargatas e não tinha dinheiro). Lia, portanto,
estará num grau médio de idealização. É bondosa, prestativa, honesta.

Finalmente Lorena tem um monte de problemas, mas é filhinha de papai, não é feiosa, nem drogada. Livra
seus amigos dos apuros financeiros. Portanto, Lorena ocupa o primeiro nível de idealização. Lorena é,
das três, aquela que resolve melhor os seus problemas. As duas outras são “datadas”, correspondem a
tipos de época. Aninha tem ainda alguma representatividade, porque as drogas estão aí, mais fortes do
que nunca. Mas é “fora de moda”, quer que a medicina lhe devolva a virgindade. Ao fim e ao cabo, é Lorena
que tem um perfil — senão eternizável — pelo menos bem durável, consistente. A despeito de suas
atrapalhações, Lorena é uma das grandes personagens femininas da literatura brasileira. Por causa de seu
lado lírico e humano, solto, leve, gracioso e femininamente atrapalhado. Visto sob esse ângulo, As
Meninas
podem ser tidas como perfis femininos, mais ou menos na maneira como os praticava o
Romantismo.

As protagonistas (Lorena, Lia e Ana Clara) oriundas de classes sociais diferentes, procuram exprimir
suas individualidades e adequar o meio em que transitam aos seus anseios. Utilizando a reflexão e o
diálogo,1 as personagens se analisam, exprimem seus desejos e acabam sendo derrotadas por ligações ao
passado, pela incapacidade de superar a inércia, pelo status quo. As meninas é a história
do fracasso de três tentativas de libertação das imposições sociais.

Lygia Fagundes Telles escreve de maneira propositada, condensada. Mesmo quando Lorena ou Ana Clara
parecem divagar longamente, a digressão desenvolve a caracterização das personagens. Apesar dos
monólogos aparentemente intermináveis, o livro apresenta uma grande coerência. Nenhuma indicação é
gratuita. Por exemplo, Lorena estuda direito, Lia estudava ciências sociais e Ana Clara estudava
psicologia. Isto porque Lorena se insere melhor nas normas estabelecidas pela sociedade, Lia se
interessa pelo aspecto social do país, e Ana Clara não consegue se desprender do passado. Lia e Ana
Clara trancaram as matrículas, Lia porque quer agir sobre a sociedade mais diretamente, Ana Clara porque
seu passado impede qualquer tentativa de inserção. A história ocorre durante um hiato, um limbo: a
faculdade está em greve. No decurso da narração a vida das três protagonistas muda, elas são recuperadas
ou eliminadas pela sociedade. O fim da narrativa coincide com o fim da greve.

Lorena Vaz Leme, é sem dúvida a personagem principal do relato, o traço de união entre as três, o objeto
de desejos contraditórios das duas outras. Filha de fazendeiros, culta, fina, aristocrática, descende de
bandeirantes. É aluna na Faculdade de Direito e bastante estudiosa: cita com freqüência passagens da
Bíblia, frases em latim, em francês, em espanhol, de filósofos variados, escritores e músicos. Demonstra
cultura e educação esmerada, onde se fundem harmoniosamente o erudito e o popular. Assistiu impotente à
derrocada da própria família e evoca freqüentemente esse passado, onde contrapõe os momentos felizes da
infância, na fazenda, à morte acidental do irmão e a subseqüente desagregação do núcleo familiar – a
fazenda vendida, o pai internado em sanatório, o irmão traumatizado pela culpa, a mãe vivendo de
fantasias, terapias e falsas ilusões. Lorena vive num quarto que chama minha concha. Meu delicado
mundo que amo tanto
(230), e que anteriormente foi um quarto de chofer. Naturalmente Lorena tapeçou
o quarto com papel dourado, e o banheiro com azulejos cor-de-rosa: Lá fora as coisas podem estar
pretas, mas aqui tudo é rosa e ouro
(51). Ela se descreve como sendo do gênero enrolado, as
coisas comigo não se resolvem assim
(15); Sou da família dos delicados, dos sensitivos. Prima da
lagartixa estatelada na vidraça
(49). Didática na propagação de seus valores, gostaria de mandar
minha palavra de equilíbrio, de amor ao mundo, mas sem entrar nele, é lógico
(50).Lorena tenta
equilibrar-se fechando-se em um mundo somente seu dentro do pensionato de freiras, onde pratica
ginástica, faz chá, recebe cartas e presentes do irmão, visitas freqüentes de colegas, e de onde ajuda
as amigas. Toma sol, lê, filosofa, mas pouco age. Segundo Lia, trata-se de uma burguesa alienada, apesar
da bondade e do carinho com que recebe e ajuda a todos. Mas o mundo insiste em invadir sua privacidade –
as amigas, as freiras, Fabrízio, Guga, o amor impossível pelo médico mais velho colocam-na em freqüente
conflito com o mundo exterior. Procurando viver de sonhos, perde várias oportunidades de realizar-se
afetivamente e ser feliz. No entanto, diante da morte de Ana Clara, consegue definir-se e agir
positivamente, encontrando, por um lado, solução para o problema imediato; e, de outro, um possível
desfecho para sua alienação: voltará para a casa da mãe, acabará por perceber a impossibilidade de um
compromisso com M.N. e se abrirá para o amor de Guga, enquanto se resolve a enfrentar o mundo e a deixar
sua “concha” definitivamente.

Lia de Melo Schultz serve como contraponto à “finesse” de Lorena: veste-se mal, usa alpargatas, não
gosta muito de banho, não cuida da aparência. Veio da Bahia para fugir da mãe superprotetora e do pai
com um passado misterioso de ex-oficial nazista. Matricula-se no curso de Ciências Sociais (foco de
agitações estudantis na década de 60), onde se envolve com um grupo militante da esquerda e apaixona-se
por Miguel, que acaba preso. Sua preocupação consiste em angariar dinheiro e roupas para o “aparelho”, e
está sempre discursando contra a alienação da burguesia, das amigas, e a pobreza do Nordeste. Seu
equilíbrio repousa sobre dois referenciais: em seu engajamento político (doação de amor aos amigos e à
liberdade da Pátria) e na segurança que encontra no amor de Miguel e no apoio da família, que, mesmo à
distância, protege-a e dispõe-se a ajudá-la em sua fuga para o exterior. Escolhe seu próprio caminho e
resolve-se bem.

Ana Clara Conceição apresenta o temperamento mais problemático e a personalidade mais inconsistente das
três, apesar do fascínio que a força de suas evocações exerce sobre o leitor, as amigas e Madre Alix,
principalmente. Filha de pai desconhecido, amargou uma infância carente, junto a uma mãe prostituída e
constantemente machucada pelos sucessivos companheiros, um dos quais a induz ao suicídio pela ingestão
de formicida. Ana foi seduzida por um dentista, que abusa sexualmente da mãe e da filha. Traumatizada,
não consegue encontrar prazer nos seus relacionamentos amorosos. Permanece quase o livro todo na cama
com o namorado Max, traficante que a viciou em drogas e, embora conversem muito, seu discurso aparece
truncado – amam-se, mas não conseguem ser felizes. Sob o efeito das drogas, suas evocações são
basicamente sinestésicas: ruídos (o roque-roque dos ratos e o barulho das baratas, nas construções),
cheiros (do consultório do dentista, da bebida, do mar, do corpo de Max…), sensações variadas de frio
e de calor entrecruzam-se enquanto ela desnuda seus traumas sem qualquer pudor e, fugindo à realidade,
adia todas as soluções para “o ano que vem”. Só que o peso da memória é mais forte: nem a aspirina; nem
a ilusão de um noivo rico; nem a probabilidade da plástica restauradora da virgindade; nem a perspectiva
de ascensão social através da Faculdade de Psicologia, da carreira de modelo, do dinheiro que conseguirá
na clínica para a burguesia; nem o amor e os conselhos de Madre Alix e das amigas conseguem salvá-la.
Seu fim é trágico: morre de overdose no quarto de Lorena, e, vestida e enfeitada, cumpre seu destino
num banco de praça, sem prejudicar aquelas pessoas que conseguiram dar-lhe um pouco de afeto, mas não a
paz de que tanto necessitava.

Enredo

O livro narra a história de três universitárias de condição social e origens diversificadas, que se
conhecem em um pensionato de freiras na cidade de São Paulo, tornam-se muito amigas, apesar das
diferenças de valores e personalidades, convivem durante algum tempo, compartilham seus dramas e sonhos,
ajudam-se nos momentos difíceis e terminam por separar-se definitivamente. O encanto e a dificuldade
aparente da leitura repousam no foco narrativo cambiante: Lorena Vaz Leme, Ana Clara Conceição e Lia de
Melo Schultz contam a própria história através do fluxo de consciência, misturando suas falas, ações,
lembranças e críticas recíprocas. Depois dessa surpresa inicial, o leitor acaba por identificar o estilo
de cada personagem e sente-se desafiado a desvendar o universo interior das três “meninas”- uma
paulista quatrocentona, uma baiana “terrorista” e uma modelo de moral “duvidosa” e viciada em drogas. Os
capítulos não têm nome, mas números:

Um – Lorena Vaz Leme divaga em seu quarto dourado e rosa – com cozinha, geladeira, banheira etc –
no pensionato Nossa Senhora de Fátima: pensa na amiga Lia de Melo Schultz, que tem pretensões a
escritora e é militante política; no gato Astronauta, que cresceu e abandonou-a; em Che Guevara, que foi
líder de toda uma geração; em M.N., homem misterioso que lhe desperta desejos eróticos, em Jesus Cristo,
a quem dedica a música de Jimi Hendrix; e na morte desse roqueiro e de Rômulo, seu irmãozinho querido.
Lia aparece para pedir-lhe o carro de “mãezinha” emprestado, e enquanto tomam o chá especial de Lorena,
conversam e divagam sobre tolices e sobres coisas sérias, concomitantemente a greve na faculdade; a
prisão de Miguel, namorado de Lia e militante político também; na alienação da burguesia acomodada; na
repressão militar, nos amigos que estão presos e sendo torturados. Lorena lembra a morte traumática de
Rômulo e sua agonia nos braços da mãe, vitimado por um tiro acidental dado pelo outro irmão, Remo. Da
fuga deste para o exterior através da Diplomacia, dos freqüentes presentes que ele envia a ela (sinos,
lenços, roupas, comida…). Mistura a esses pensamentos a figura do médico Marcus Nemésios (o M.N.),
casado e bem mais velho, de quem ela sonha receber amor, carinho e proteção (aliás, passa o livro todo
aguardando um telefonema dele, que nunca se concretiza); evoca ainda a figura de Ana Clara, suas
origens “suspeitas”, no excesso de tranqüilizantes que consome; pensa na própria adolescência, ao piano,
no gostoso convívio familiar, nos banhos de banheira, na decisão de morar no pensionato, no aluguel e
decoração do quarto por Mieux, o atual namorado da mãe. Lia fala sobre o livro que escrevera e acabara
por rasgar. Criticam Ana Clara e o namorado Max, traficante que a viciou em drogas, e o provável e
desconhecido noivo rico com quem ela pretende se casar para “sair do buraco”, após plástica restauradora
da virgindade, “bancada” por Lorena. Lia pede várias vezes o carro emprestado, e um pouco de “oriehnid”
(dinheiro “ao contrário”, para dar sorte) para o “aparelho”(= grupo de resistência à ditadura militar).
Apesar de temer envolvimentos com o grupo e suas conseqüências, Lorena é incapaz de dizer “não” aos
pedidos da(s) amiga(s).

Dois – Ana Clara e Max drogam-se na cama e deliram. Ela sente-se travada, bloqueada, apesar das
sessões de terapia – ela odeia o analista. Acha-se bonita (modelo, 1,77 m) e carente – a mãe, prostituta,
nunca lhe deu atenção. Lembra-se do Dr. Algodãozinho, que deixava seus dentes apodrecerem para abusar
sexualmente dela e da mãe, em sua cadeira de dentista. Pensa no quanto ama Max, mas que em janeiro
casa-se com o noivo rico e resolve seus problemas. Sente ódio de Deus – e de negros. Resgata a infância
carente, repleta de ruídos (ratos, baratas) e cheiros, nos prédios em construção, onde vivia com a mãe
e os sucessivos amantes. Também evoca detalhes da vida das amigas Lia e Lorena. Max também delira. Reza.
Teve educação esmerada (fala francês, é fino) mas empobreceu e tornou-se traficante. Tem uma irmã que
sumiu com as jóias da família e encontra-se internada em sanatório. Ana e Max se amam, mas seu
relacionamento é difícil e complicado.

Três – Lorena reflete sobre a violência do mundo; assaltos a bancos; a morte de Rômulo; a
profissão de Remo propiciando sua “fuga” para o exterior. Gostaria de poder alienar-se da “máquina desse
mundo” violento (intertextualidade com o texto A Máquina do mundo, de Carlos Drummond de Andrade),
como uma ostra dentro de sua concha dourada (= seu quarto – refúgio). Rememora a chegada de Lia e Ana
Clara e a “invasão” das duas à sua privacidade, a amizade das três, apesar das personalidades opostas.
Miúda e magra, mostra certa inveja da beleza de Ana Clara, apesar da diferença cultural… Através da
visão de Lorena, conhecemos um pouco mais sobre as duas amigas: Lia de Melo Schultz tem um “pé” baiano,
da mãe Diú (D. Dionísia) e outro berlinense, do pai seu Pô (Herr Paul, ex-oficial nazista). Herdou do
pai o vigor germânico; da mãe, as “proporções gloriosas e a cabeleira de sol negro” e o açúcar da voz. É
uma “mulher-hino”, enquanto Lorena vê-se como uma civilizada, requintada “balada medieval” (ou “Magnólia
desmaiada”, para os colegas da Faculdade de Direito). Ana Clara “arrombou” a privacidade de Lorena,
obrigando-a a verdadeiros exercícios de caridade cristã: mexe em tudo, nos livros, nos objetos pessoais.
Tem olhos verdes, é modelo, linda, mas “de cuca embrulhada”, deprimida e deprimente, juntadíssima,
afetadíssima, mentirosíssima – “ni ange ni bête” – (nem anjo, nem demônio). Envolvida com sexo e drogas.
Enquanto lancha ao sol, Lorena recorda o aborto de Aninha, resgatando a fábula da formiga e da cigarra
(inconsciente, bagunceira, irresponsável), com quem compara a amiga. Recebe carta de Remo e pensa na
morte de Rômulo. Filosofa sobre o lado omisso das relações humanas. Sonha em casar-se com M.N., pois
sente-se frágil, insegura, precisando de um homem em tempo integral. Ao voltar para o quarto, pensa no
colega Fabrízio, na noite chuvosa em que ele veio estudar mas preferiu envolvê-la nos braços, ameaçando
sua virgindade; na falta de luz e subseqüente chegada de Lia, estragando o momento mágico com suas
alpargatas molhadas e suas pesquisas sobre a vida das prostitutas, sua obsessão por Miguel. Lia sai,
mas chega Ana Clara, e “se instala”. Fim da noite para Fabrízio e Lorena. No dia seguinte, conheceu o
Dr. M.N. na sua Faculdade e ganhou carona. Passa a viver aguardando seu telefonema, fantasiando um amor
edipiano.

Quatro – Max delira na cama. Gosta de Chopin, de Renoir. Conversa com a Coelha (Ana Clara) sobre
a riqueza passada, as viagens. Ana compara os diferentes níveis de artistas abstratos e reclama de estar
lúcida – teria tomado aspirina? Lembra o passado de miséria e sonha com o futuro promissor como
psicóloga de ricaços – Nessa cidade as pessoas não se preocupam mais com nome, mas com o saco de
ouro
(de que adianta o nome Vaz Leme de Lorena, descendente de bandeirantes?). Quer esquecer a mãe,
os amantes, Jorge, Aldo, Sérgio… e o suicídio com formicida. Lembra-se da amiga Adriana, feia e vesga,
mas com casa na praia, onde Ana Clara tentou lavar a memória do passado num banho de mar. Max desperta
e os dois deliram juntos. Ela está grávida e quer abortar. Ele deseja o filho, cuja voz diz ter ouvido.
Vão ficar ricos e fazer cruzeiros pelo mundo. Ela é a gata borralheira, que tem encontro marcado com o
noivo, que já deve estar inquieto com o atraso.

Cinco – Lorena aguarda o telefonema de M.N., como sempre. Pensa em arte, em literatura (Dante,
Beatriz), em música (jazz), em cheiros (incenso); em morte (Rômulo); na mãe e no carro (teme que Lia
seja metralhada dentro dele). Gostaria de poder sair de moto com Fabrízio, um cinema, um jantar… mas
acha que ele deve estar na faculdade, incitando a greve e namorando uma poetazinha que resolveu
seduzi-lo. Recebe a visita da irmã Bula e desconfia que esta é a autora das cartas anônimas, que falam
coisas horríveis sobre as meninas e as freiras, para Madre Alix, a superiora. Enquanto serve licor e
biscoito para a freira, relembra a morte de Rômulo, as manchetes nos jornais; pensa em Lia, em Simone de
Beauvoir (escritora francesa), em segundo e terceiro sexos, em M.N., em Che Guevara, em morrer e
renascer (segundo S. Marcos, “é necessário nascer de novo”). Recupera a teoria da amiga “terrorista”
sobre a perda de pureza do baiano e do índio, e cita Gonçalves Dias. Coloca um Noturno de Chopin e serve
constantemente vinho à freirinha. Quando tampa a garrafa, pensa na ferida de Rômulo, na fuga de Remo.
Despede-se da Irmã Bula e de sua velhice sem sentido.

Seis – Na sala imunda e mal iluminada onde montaram o “aparelho”, Lia (“Rosa de Luxemburgo”) e
Pedro começam a separar material para o jornal. Conversam sobre experiências homossexuais; Jango; o
nazismo; conceito de santidade; sobre Che Guevara; Martin Luther King (líder negro americano),
engajamento político-social, atuação da Igreja progressista, casamento de padres, amor… Sai para uma
operação noturna com o Bugre, que lhe conta sobre a próxima deportação de Miguel para a Argélia. De
volta ao pensionato, feliz, conversa com Madre Alix: fala de seu amor pela família, do passado com
saudade, do presente (fases da vida!…); de Ana Clara, Max e seu envolvimento com drogas; na sua
pretensa vocação para escritora; na desilusão com Miguel (muito cerebral) e Lorena (muito sofisticada).
Madre Alix quer ajudá-las, mas sente-se impotente e teme por seu futuro. Sugere uma epígrafe para o
livro de Lia e que serve para a vida das duas: Sai da tua terra e da tua parentela e da casa de teu
pai e vem para a terra que eu te mostrarei
(Gênesis).

Sete – Irmã Clotilde leva frutas para Lorena, que se exercita na bicicleta. Falam sobre as duas
Santas Teresas; sobre Tolstói; sobre homossexualismo (comenta-se no pensionato que I. Clotilde é lésbica);
sobre beleza, ideais, filosofias de vida. A freira vai lavar as mãos e volta criticando a cor, a saúde e
a alimentação das três amigas. Lorena anseia por beleza e um telefonema… Quer ficar só, mas a freira
se demora na visita e no exame do quarto, dos animais, dos livros da moça. Esta lê um pedaço de um livro
de Direito, cita frases em latim, enquanto pensa sobre o lado oculto das pessoas: a vida é um jogo de
espelhos, e Lorena tem sede de autenticidade… Lia chega, a freira se vai. Devolve a chave do carro,
conta sobre a viagem à Argélia, brinca de entrevistar Lorena (os assuntos de sempre: virgindade,
casamento, M.N., Fabrízio, Pedro) e diz que esta é edipiana. Ambas mostram-se preocupadas com a gravidez
de Ana “Turva” e sua dependência. Divertem-se no jardim e despedem-se no portão. Lia pede roupas para os
“revolucionários”. Lorena fica pensando na iniciação sexual das amigas e imagina como será sua “primeira
vez” (M.N. é ginecologista, um “gentleman”).

Oito – Ana Clara e Max acordam e conversam: ele e Lorena são “aristocratas”, têm álbum de
retratos… Os de Lorena estão na garagem do pensionato. Criticam o amante jovem de “mãezinha”, Mieux.
Max vai até a geladeira, come e volta a dormir. Ana pensa na desculpa que vai inventar para o noivo
aceitar seus sumiço. Arruma-se e sai. Chove. São quase 11 horas da noite. Não consegue táxi e aceita
carona de um industrial em um Mercedes. Foge dele e refugia-se em um bar, onde encontra um velhote
estranho que a convida para seu apartamento. Confundindo-o com “um pai” que nunca teve, segue-o.
Apartamento de boêmio – retratos na parede, vitrola de corda, discos de tangos. Ana deita-se na cama e
dorme, enquanto ele lê para ela textos sobre Napoleão, Rodolfo Valentino e tem orgasmo. Diz que o
platonismo amoroso é a forma mais sutil e temível da paixão infinita e insaciável.

Nove – Na banheira, Lorena filosofa sobre “ser” ou “estar” no mundo – na desintegração do ser
humano na cidade grande, no papel do filósofo, do advogado, do médico, do psiquiatra. Sente todos os
sintomas de todas as doenças mentais, apesar de charmosa e inteligente. Lembra-se da fazenda, das
procissões em que se vestia de anjo. Rememora o primeiro encontro com M.N. e imagina as reações de
mãezinha quando lhe contar sobre ele. Sai do banho emocionada e veste um robe. Chega o colega Guga, que
lhe conta ter abandonado a família, a escola e estar vivendo em um porão, numa comunidade. Escandalizada
com sua sujeira, Lorena corta-lhe as unhas, alerta-o sobre promiscuidade e lê para ele uma carta de M.N.
Guga se excita e tenta amá-la. Ela quase cede, mas reage e ele se vai. Chega Lia. Conversam sobre
filosofia, Lacan, auto-identificação, transferência de afetos. Lia quer provar que M.N. está mais para
pai que para namorado, mas Lorena não admite. Falam sobre o telefonema de Herr Pô e da promessa de ajuda
em dinheiro para a viagem. Lorena entrega a Lia um cheque em branco e pede-lhe para usar uma cruz na
corrente, enquanto filosofa sobre Deus, religião, fé. Lia sai rindo. Lorena faz caretas.

Dez – Lia pega carona com o motorista de mãezinha de Lorena e vai visitá-la. No caminho, consegue
fundir a cabeça do senhor com seu discurso sobre família e liberdade. Recebida no hall pelo mordomo,
fuma, examina os objetos e tapetes luxuosos, enquanto imagina sua viagem, a desunião da esquerda; vê-se
na Argélia escrevendo seu diário e exaltando a Pátria. Mãezinha chora, na cama, a morte do psiquiatra
Dr. Francis. Desajeitada, Lia tenta consolá-la e ouve suas lamúrias sobre a diferença de idade entre ela
e Mieux, a impossibilidade de acompanhá-lo em seus programas, a dificuldade em aceitar a velhice e a
morte. Lia lembra-se de sua família (tão equilibrada!) com saudade e amor. Mãezinha pergunta sobre os
namoros de Lorena e Lia (acha-a masculinizada) e quer trazer a filha de volta à casa. Conta uma versão
totalmente diferente sobre a morte de Rômulo (falência cardíaca, ainda bebê). Lia sente-se nauseada e
pensa em ver o álbum de fotos na garagem: acha que mãezinha está escamoteando a tragédia por auto-defesa.
Ganha roupas e mala para a viagem.

Onze – Tarde da noite. Ana Clara chega transtornada ao quarto de Lorena, que está estudando para
a prova no dia seguinte (a greve terminara). Entra arrastada, gritando de dor no peito e imunda. Lorena
coloca-a na banheira – seu corpo está cheio de nódoas roxas e sofre alucinações com formigas, baratas,
Deus e Max. Pede uísque e a bolsa. Delira. Lorena pensa no abismo entre o ser e o estar, num futuro
feliz no campo, fora de sua casca. As novelas da vizinhança encobrem os ruídos e finalmente Ana Clara
adormece. Lorena toma chá. Finalmente Lia chega para preparar as malas (a viagem será na manhã seguinte)
e Lorena vai até seu quarto. Conversam muito – sabem que estão se despedindo – e Lia conta-lhe que Guga
virá procurá-la. Não vêem futuro na relação com M.N., que jamais abandonará a família, pois a dor do
remorso dói mais que a dor física
(Tolstói). Ao voltar para o quarto, Lorena tem um choque: Ana
Clara está morta.

Doze – Lia corre aos acenos da amiga. Ao entrar, encontra Lorena massageando o peito de Ana Clara,
tentando revivê-la, enquanto reza. Lia pensa em chamar o pronto-socorro, em acordar todo mundo, em que
poderia ter feito mais pela amiga, além dos “discursos”. A bolsa de Ana Clara está aberta: talvez dali
ela tirara a própria morte. Lorena tem idéias e age: encomenda o corpo, reza em latim, veste e pinta Ana
Clara como se esta fosse a uma festa. Elimina todas as pista comprometedoras para Aninha e Max, além das
freiras do pensionato. As duas amigas carregam Ana Clara através da noite providencialmente nebulosa e
abandonam o corpo em um banco em uma linda praça do bairro. Voltam para o pensionato e separam-se: cada
uma vai viver a própria vida. Lia no exílio. Lorena de volta para a casa de mãezinha, deixando sua
concha para a futura hóspede, que vem do Pará.

Trecho do livro

– Desde ontem ela não aparece. Telefonou dizendo que está na chácara do noivo.

– Noivo. A senhora me desculpe, Madre Alix, mas Ana é o produto desta nossa bela sociedade, tem milhares
de Anas por aí, algumas agüentando a curtição. Outras se despedaçando. As intenções de socorro e et
cetera são as melhores do mundo, não é o inferno que está exorbitando de boas intenções, é esta cidade.
Vejo a senhora sair com outras senhoras bondosas dando sopinha aos mendigos. Bons conselhos, cobertores.
Eles bebem a sopinha, ouvem os conselhos e vão correndo trocar o cobertorzinho pelo litro de cachaça
porque o dia amanheceu mais quente, pra que cobertor? Tudo continua como na véspera com uma noite de
demência a mais fornecida pelo donativo. Um padre nosso amigo foi ensinar catecismo à menininha de nove
anos que o pai vendeu pro bordel e quase morreu de tanto apanhar do agregado da proprietária. Aprendeu
a lição, ô se aprendeu. Caridade individual é romantismo, cheguei a essa conclusão não faz muito tempo.
Agora ele funciona com a gente mas dentro de outra perspectiva. Nos esquecemos, nos descuidamos, diz
Bela Akmadulina. E tudo caminha ao contrário.
Vou até a garrafa térmica e me sirvo de mais café mas queria um sanduíche. Presunto e queijo. Uma abelha
se debate contra a vidraça e de repente seu zunido fica mais importante do que nossa fala. Mas de onde
veio essa abelha numa noite dessas? Gostaria de escrever como ela faz mel. E quase me dobro num riso
desatinado, era bem doidona a cigarra da fábula com suas cantorias mas a formiga de vassoura na mão não
ficava atrás.
– Tinha tanta coisa que lhe dizer, filha. E já nem sei por onde começar. Essa sua política, por exemplo.
Me pergunto se você está em segurança.
– Segurança? Mas quem é que está em segurança? Aparentemente a senhora pode parecer muito segura aí na
sua redoma mas é bastante inteligente pra perceber do que essa redoma está lhe protegendo. Alguns padres
romperam o vidro como aquele de que lhe falei. Por acaso estão em segurança? Não. Nem estão pensando em
segurança quando se deitam no colchão sem travesseiro ou quando rezam suas missas num caixote feito
altar.
Ela sorriu. Um sorriso triste que me arrependi de provocar.
– Mas não estou na redoma, Lia. É neste ponto que você se engana como se enganou também quando disse que
eu queria lhe apontar a porta. Deus sabe que meu desejo maior é protegê-la e guardá-las para sempre,
como se isso fosse possível. Se não interfiro, se não me aproximo é porque não quero que pensem em
vigilância, fiscalização. Vocês bateriam as asas mais depressa ainda.
Pronto, magoou-se. Essa minha mania de discurso, baiano com subversão pode dar noutra coisa?
– Não sei explicar, Madre Alix, mas o que queria dizer é que embora resguardada a senhora luta a seu
modo, respeito sua luta. Respeito até a luta dos que querem nos destruir, respeito sim senhora, eles
estão na deles. Como estamos na nossa, enfraquecidos, traídos, divididos, não calcula como estamos
divididos. Mas vamos agüentando. Um que fique tem que correr como um cão danado pra passar o facho ao
seguinte que recebe e sai correndo até o próximo que nem estava na corrida, entende. De mão em mão. É
demorado mas não estamos mais com tanta pressa.
– Facho, Lia? Você fala em facho, mas o que vejo é um levar ao outro violência, morte. Um rastro de
sangue é o que vocês vão deixando por onde passam. Temos um Condutor Supremo e do Seu esquema
transcendente a violência foi riscada. A espiritualidade…
Olha aí, vitória da espiritualidade. Arranco uma lasca da unha que vem com um fiapo de pele. O sangue
brota. Chupo o dedo. Uma bala dum-dum no peito doeria menos.

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