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As veias abertas da América Latina, de Eduardo Galeano

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Essa é uma das grandes obras clássicas da literatura latino-americana. Leitura
imperdível para aqueles que gostam, querem ou precisam entender a História da
América Latina.

As veias abertas da América Latina, de Eduardo Galeano, foi publicado pela primeira vez em 1970
e editado em praticamente todos os países do continente, vários países da Europa e nos EUA.

Na obra o autor propõe um inventário dos 500 anos da história do continente retratando as suas
principais bases: a economia agrícola e mineradora dominada pelo mercado internacional, com o objetivo
de gerar lucros para a potência dominadora; a pobreza social como resultado de um sistema econômico
externo e excludente, que privilegia uma minoria financeiramente capaz de integrar-se aos padrões de
consumo; a opressão de governos centralizadores contra as minorias, produzindo genocídios e o caos
social; a exploração do trabalho e as péssimas condições de sobrevivência para a grande maioria de sua
população.

Num relato informal, para entender a história e a atual situação da América Latina, Galeano narra
os fatos fora de uma seqüência cronológica, fazendo com que passado e presente conversem entre si na
mesma obra, determinando o ponto de vista do autor: o continente foi e é peça importante no
enriquecimento de poucas nações, e o preço que paga por isso é o seu subdesenvolvimento crônico, suas
eternas crises sociais e seu status de colônia. A riqueza das potências é a pobreza da América
Latina
, diz Galeano em certa passagem do livro.

O livro mostra como os espanhóis e portugueses chegaram àquelas terras virgens no século XV e se
aproveitaram das riquezas que o continente possuía. Os espanhóis, fixados desde o planalto mexicano
até os Andes, tiveram sorte e encontraram ouro e prata nas primeiras andanças. Os portugueses, ocupando
a faixa litorânea do Oceano Atlântico, tiveram de construir um império colonial à base da cana-de-açúcar
enquanto não encontravam os metais. Embora em áreas diferentes, a tônica da exploração foi a mesma:
trabalho forçado, agressão física, enriquecimento, opressão colonial. Os espanhóis encontraram dois
exércitos de mão-de-obra disponíveis: os índios astecas no México e os incas no Peru. Estas civilizações,
para o autor, retratam o caráter do domínio colonial: socialmente e militarmente evoluídas, foram
destruídas nas minas e com o trabalho forçado nas mitas e encomiendas. Já os portugueses, depois de
tentar a exploração dos índios nos engenhos de açúcar e não obter sucesso, transformaram-se no maior
traficante de negros mundial. Vindos da África, os negros deixavam à força seus reinos para, em terras
brasileiras, ser escravos e motor da produção açucareira.

Após narrar a glória desses centros produtivos de riqueza colonial que, como faz questão de ressaltar,
não ficava na Espanha e nem em Portugal: destinava-se a pagar as dívidas que estes países tinham com a
potência que lhes roubaria o domínio econômico da América: a Inglaterra, Galeano traz a exploração para
o presente e fala da decadência dessas regiões. Citando a teoria marxista da divisão do trabalho entre
operário e patrão, Galeano afirma que enquanto a Europa era o cavaleiro que levava as glórias, a
América era o cavalo que fazia todo o serviço
.

Apesar de longo, encontramos na obra de uma linguagem simples, não-acadêmica,
que atrai o leitor. O autor procura compreender o processo de formação da região,
discutindo os vários interesses existentes, desde as contradições internas, até
a postura do imperialismo britânico e norte americano, dedicando inclusive alguns
capítulos ao Brasil.

Trecho do livro

Em 1781, Túpac Amaru sitiou Cuzco.

Este cacique mestiço, descendente direto dos imperadores Incas, encabeçou o movimento messiânico
e revolucionário de maior envergadura. A grande rebelião estourou na província de Tinta. Montado em seu
cavalo branco, Túpac Amaru entrou na praça de Tugasuca e, ao som de tambores e pututus, anunciou que
havia condenado à forca o corregidor real Antonio Juan de Arriaga, e dispôs a proibição da mita de
Potosí. A província de Tinta estava ficando despovoada por causa do serviço obrigatório nos socavãos de
prata da montanha. Poucos dias depois, Túpac Amaru expediu um novo comunicado pelo qual decretava a
liberdade dos escravos. Aboliu todos os impostos e o repartimiento de mão-de-obra indígena em todas suas
formas. Os indígenas se juntaram, aos milhares, às forças do ” pai de todos os pobres e de todos os
miseráveis e desvaliados “. À frente de seus guerrilheiros, o caudilho lançou-se sobre Cuzco. Marchava
pregando seu credo: todos os que morressem sob suas ordens nesta guerra ressuscitariam para desfrutar
as felicidades e riquezas de que tinham sido despojados pelos invasores. Sucederam-se vitórias e
derrotas; no fim, traído e capturado por um de seus chefes, Túpac Amaru foi entregue, amarrado com
correntes, aos espanhóis. Em seu calabouço, entrou o visitador Areche para exigir-lhe, em troca de
promessas, os nomes dos cúmplices da rebelião. Túpac Amaru repondeu-lhe com desprezo: “Aqui não há mais
cúmplice que tu e eu; tu por opressor, e eu por libertador, merecemos a morte”.

Túpac Amaru foi submetido a suplícios, junto com sua esposa, seus filhos e seus principais
partidários, na praça de Wacaypata, em Cuzco. Cortaram-lhe a língua. Amarraram seus braços e pernas em
quatro cavalos, para esquartejá-lo, mas o corpo não se partiu. Decapitaram-no ao pé da forca. Enviaram
sua cabeça para Tinta. Um de seus braços foi para Tungasuca e o outro para Carabaya. Mandaram uma perna
para Santa Rosa e a outra para Livitaca. Queimaram-lhe o tronco e jogaram a cinzas no rio Watanay.
Recomendou-se que fosse extinta toda sua descendência, até o quarto grau.

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