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Bandoleiros, de João Gilberto Noll

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Análise da obra

Bandoleiros

foi publicado em 1985. Como um relato da
sociedade contemporânea, o romance ilustra a situação marginal
dos intelectuais, trazendo à tona a profunda solidão em que vivem,
seus anseios mais prementes e a tentativa inútil de amenizar a dor da
existência com o álcool, o sexo ou as drogas. Desse modo, revela-se
a total impossibilidade de adequação por parte desses intelectuais
ao status quo vigente.

Espaço

A narrativa transcorre em Porto Alegre, no verão e é
entremeada por lembranças de quando o narrador, protagonista do romance,
vivera nos Estados Unidos.

Foco narrativo

Romance em primeira pessoa no qual, do início ao fim,
é omitido o nome do protagonista.

Personagens

Protagonista: anônimo brasileiro; narrador
da obra; escritor arrasado pelo fracasso do seu livro; alcoólatra; solitário
e atormentado.

Steve: americano decadente, alcoólatra,
desmemoriado e sem controle até sobre suas funções fisiológicas.

Ada: mulher do protagonista; desequilibrada e visionária.

Alicia: mexicana; amiga de Ada; igualmente desequilibrada e visionária.

Mary: africana, amiga de Ada e Alícia; intelectual
também visionária.

Jill: a bela mulher de Steve, ruiva de olhos
verdes; apaixonada pelo marido decadente.

João: amigo do protagonista; escritor íntegro
e corajoso.

Enredo

O romance se inicia
com o protagonista relembrando do amigo doente, que vem a falecer em seus braços
a caminho do hospital. Eram velhos amigos. O protagonista viera dos Estados
Unidos, onde residia, especialmente para ficar com o amigo. Ada, sua esposa
na época, tenta salvar um casamento em ruínas mantendo relações
sexuais com outros homens, num apelo desesperado para reconquistar um marido
que já não lhe demonstra o menor interesse. Separam-se. Ada vai
viver numa praia em Santa Catarina, e lá conhece um pescador por quem
apaixona-se.

O protagonista é um escritor. Seu último livro,
um romance destacado pelos críticos, não vendera nada. Entrega-se
à bebida. Há um mês veste a mesma roupa. Vive de traduções
das quais está saturado. Encerrado em seu ostracismo e solidão,
e sob o espectro do fracasso, vagueia pelas ruas e bares ainda pelas manhãs.
Nos bares, bebendo dreher e com firme intuito de turvar a realidade, sente-se
incomodado com conversas alheias. Vê-se obrigado a escutar um garoto que
se diz fã dos seus livros. Escuta-o sem o ouvir. Lembra-se de quando
Ada era professora numa escola pública experimental, antes de debandar
para tantas outras coisas que tentou fazer na vida. Agora Ada aprendia a pescar.
Lembranças permeando-lhe os pensamentos. A menina, aluna de Ada, que
se sentara sem calcinha à sua frente no dia em que ele apresentara-se
de operário para uma de suas aulas de sociologia. Onde andaria a danadinha,
pensava.

Bêbado, joga a chave do apartamento num bueiro. Novamente
se vê no passado, deitado no degrau de um prédio público.
Avista o negro cego tocando sax e chama-o. Conhecera-o há anos. Era músico.
O cego sofria de fome. Mas preferia assim, viver sem calendário. Foram
para o bar tomar café. Depois para a rua, à deriva, enquanto o
vento soprava forte.

De volta ao apartamento, recebe um telefonema que mal consegue
entender, apenas que é de um estrangeiro. Pega o ônibus para Viamão.
No fim da linha uma igreja, uma galinha, uma menina vendendo caramelos. No lugarejo
olhares esquivos dos habitantes. Sobe o morro bêbado; o ar puro revitaliza-o.
Está indo para o Vale que fica depois do morro. Lá do alto avista
uma casinha de madeira sozinha no meio da vegetação árida
lá embaixo. Ao chegar à casa bastante abandonada e sentindo muita
sede, chama por alguém. Aparece um homem com sotaque estrangeiro que
lhe diz não ter água em casa, só cachaça. Era louro,
vestia uma calça branca arregaçada e tinha uma tatuagem no peito
e um olho tatuado. Beberam duas garrafas de cachaça na casa escura, iluminada
apenas por um lampião. O americano chamava-se Steve e discorria sobre
sua vida, sobre o tempo do colégio, deixando seu visitante completamente
entediado. Este, perguntado-se se alguém neste mundo ainda poderia lhe
interessar. Steve conta-lhe que estudou em Harvad e que durante anos foi dopado
por um psiquiatra. Abandonou Harvard. Internou-se numa clínica e adquiriu
uma grave amnésia. Recebera tantos choques insulínicos que nunca
mais recuperara de todo a memória. Estava ali a falar o quanto a clínica
o havia aniquilado. A vida tornara-se-lhe vil.

Steve prossegue sua história. A vida que tivera em Boston.
Fora casado com Jill antes de decidir mudar-se para o Brasil. Reencontrara o
amigo Baby Buffalo, que desde os treze anos não via. Baby Buffalo contou-lhe
que aos vinte anos estuprara uma mulher em Vermont, passara um tempo na prisão,
e estava tentando refazer a vida em Boston. A partir daí voltaram à
velha amizade até Baby Buffalo ser preso novamente.

Nosso protagonista começa então a falar sobre
a experiência que teve no mesmo parque de Boston em que Steve reencontrou
Baby Buffalo. Conta-lhe que pisou num corpo de mulher desenhado a giz no chão.
Ao pé do corpo estava escrito que havia sido estuprada. Steve torna-se
possesso. Quer matá-lo, inicia-se uma briga que os levará à
extrema violência. Steve acaba extenuado e todo ensangüentado, mas
resiste ainda. Nosso protagonista também tendo sido muito golpeado, ameaça-o
com uma pedra, e acaba conseguindo escapar. Steve fica caído no morro,
ao relento.

Na estada em Boston, Ada esteve lendo um livro pelo qual apaixonou-se,
chamado Minimal Society. Tratava de uma sociedade auto-suficiente na qual tudo
de que se necessitasse seria produzido, abolindo a introdução
do comércio exterior. Nesta sociedade auto-gerida, o sentido de nacionalidade
não existia, pois o importante seria ser um cidadão minimalista.
Ali se desenvolveria também a crença na reencarnação.
E assim cada vez que se morresse, o espírito voltaria para uma sociedade
minimalista mais evoluída, já redimido dos erros passados. Por
esta época, o protagonista e Ada já andavam entediados um com
o outro. Ada fazia quindins para viver. Ada mantinha uma relação
estranha com Alícia, a mexicana com quem dividia o apartamento. Ia além
da amizade. Uma espécie de dependência por parte de Ada e paixão
por parte de Alícia.

Quanto à sociedade minimalista de Ada, em que todos
seriam livres, tudo seria permitido: banhos grupais, trocas de casais, até
que seria uma boa idéia passar por essas experiências. Teria muito
o que contar nos livros. Mas Ada lhe dizia que por enquanto era melhor mesmo
que voltasse para o Brasil.

A bem da verdade, qual o dia que passa sem
alguém dissolver minha última esperança? Há sempre
alguém a postos para declarar que estou perdido. Que já é
outro o rumo das coisas e que eu me atrasei. Que a história marcha e
olha como ainda estou cheio de ilusões. Tudo marcha em direção
a uma clareza que absolutamente não compreendo. (…) Eu e tudo estávamos
sofrendo de um ridículo, mas esse ridículo não me dava
vontade de rir mas sim um medo atroz. Então entrei num bar e pensei num
porre. Daqueles que eu costumava ter no Brasil. Daquelas noites que no dia seguinte
você não lembra de nada. E eu tinha um bom motivo para beber: esquecer
por uma noite do ridículo, o mais completamente.”

Mary viera do Quênia. Era uma negra forte, de grandes
seios. Fora aos Estados Unidos apresentar um vasto relatório sobre pesquisas
minimalistas desenvolvidas em seu país. Falava de como os cegos seriam
úteis nas sociedades minimalistas, pois através de suas experiências
com a escuridão é que se chegaria à luz. Nos ensinariam
que só há um único caminho: o da luz. Dizia também
que pesquisas recentes sobre o sono afirmavam a importância de não
se observar alguém dormindo, porque o ser humano é a única
espécie que odeia o seu semelhante, e quando este dorme, sente um desejo
intenso de eliminá-lo, embora esse desejo visceral seja reprimido pela
moral social. As conversas de Ada, Alícia e Mary giravam em torno da
sociedade minimalista. Não havia espaço entre elas para um intruso
que não estivesse de tal modo integrado. Foi quando Ada pediu-lhe que
voltasse ao Brasil.

Em Porto Alegre, nosso protagonista fala a João sobre
a sociedade minimalista. João quer saber como é encarado o Terceiro
Mundo, as relações de produção, os velhos. E irrita-se
pelo amigo não ser capaz de responder-lhe. João era um escritor
corajoso. Escrevera um romance esperançoso em contraponto à atual
sociedade corrosiva. João dizia que era preciso manter a serenidade diante
das crises. Morreu alguns dias depois dessa discussão.

Ada retornara dos Estados Unidos numa cadeira de rodas, sobrevivendo
de soro e sedativos, sem dizer palavra e incapaz de reconhecê-lo. Nosso
protagonista ficou a seu lado até sua completa recuperação.
Finalmente curada, Ada explicou-lhe o que acontecera. Alícia tentara
matá-la sufocando-a com um saco plástico enquanto dormia. Ada
livrou-se de Alícia dando-lhe um empurrão com os pés, jogando-a
contra a parede e causando-lhe um dano irreversível. Alícia hoje
está sobre uma cama, levando uma vida vegetativa. Mary, que viu o que
acontecera, prestou um excelente testemunho, livrando-a da prisão. Mary
aproveitou para escrever uma tese sobre o sono minimalista, e foi comprovado
o ódio do homem pelo homem e sua irresistível tentação
de matá-lo enquanto assiste-o dormir. A tese virou livro, que virou best-seller.
Mary comprou uma fazenda no Quênia e lá fundou a primeira comunidade
minimalista.

O protagonista conhecera Steve na ocasião em que fora
“convidado” pelas três mulheres minimalistas a voltar para o
Brasil. Tinha ido beber num bar quando Steve, após puxar assunto, convidou-o
a conhecer seu refúgio, uma velha casa de campo nos arredores de Boston.
No trajeto, Steve contou-lhe sobre a casa abandonada que conhecera em Viamão,
lá em Porto Alegre. Contou-lhe também pormenores de sua vida,
que pouco o interessou. Steve, muito alcoolizado, entrou em coma alcoólico,
e antes defecou na roupa. Deitado de bruços sobre a cama da velha casa
implorou ao amigo que o limpasse. Este, por sua vez, esgotado com aquela situação
insuportável e extremamente nauseado, por um momento desejou matá-lo.Acabou
por tirar-lhe as roupas sujas, arrastou-o até o banheiro e colocou-o
dentro da banheira. Enquanto banhava-o, alguém abriu a porta da sala
e entrou. Era Jill, uma bela mulher ruiva com olhos verdes. Disse-lhe estar
cuidando de Steve. Agarrou-a. Houve reciprocidade. Despiu-a. Ficaram ali se
bulinando por um longo tempo até que Steve deu um grito e Jill foi até
ele. Steve caíra no banheiro e estava sangrando. Trouxeram-no para fora.
Jill debruçou-se sobre ele e abraçou-o ali, no chão mesmo.

Nosso protagonista partiu rumo ao Brasil. Já no Galeão
só pensava em reencontrar João. Ao avistá-lo sorrindo por
detrás do vidro a poucos passos, largou a mala que havia exigido-lhe
um enorme esforço. Abandonou a mala com todas as suas coisas gastas e
foi direto ao encontro de João, sem saber que dias depois…

“Porque João sorria, e não importava
coisa alguma que ele fosse morrer. João vai. Eu vou”
. Todos
nós vamos morrer. Então, o que importava era aquilo mesmo – eu
devolver esse largo sorriso para João, que está ali, do outro
lado do vidro, me sorrindo.

Trecho de Bandoleiros

Ada começou a cavar sua bolsa para a Boston University
ao se apaixonar perdidamente por um livro chamado Minimal Society. É
que lá havia um bom curso de PH sobre o assunto. De que assunto se trata?
É melhor que eu deixe Ada falar. Porque hoje, simplesmente, eu não
saberia dizer uma única linha sobre o assunto. Se é que há
algum assunto em pauta na Minimal Society. Mas o fato é que muito se
falou sobre isso, e Ada literalmente transpirava toda ao conclamar que encarássemos
a era da Minimal Society.

Um núcleo comunitário mínimo, onde só
circulassem suas próprias mercadorias, completamente vedado às
injeções do comércio exterior.

Quando eu perguntava sobre as possibilidades aí do chamado
intercâmbio cultural, Ada me respondia que a Sociedade Minimal congrega
todas as potências do Homem, e portanto ela mesma se encarregaria de edificar
seus próprios monumentos.

Voltemos à Sociedade Minimal, diz Ada diante de sete
ex-alunos. Os garotos adoravam essas palestras informais. Um deles um dia escreveu
um bilhete a Ada, confessando que depois das aulas masturbava-se sonhando com
a Sociedade Minimal. O bilhete vinha manchado de esperma. Uma noite surpreendi
Ada olhando-se no espelho e confidenciando a si mesma que tivera um orgasmo
involuntário ao ler o bilhete.

Passou a língua na mancha do papel olhando-se no espelho.

Ada não viu que eu estava ali.

Na Boston University Ada encontrou muitos adeptos da Sociedade
Minimal. Vários deles já tinham comprado terras, para lá
fundarem um dia suas pioneiras Sociedades Minimais.

Quando cheguei em Boston para visitá-la, ainda no aeroporto,
Ada disse que estava pensando entrar depois do curso numa Sociedade Minimal
no norte de Massachusetts. Achava que iria emigrar para os Estados Unidos. Não
via mais na nacionalidade um critério avaliador de qualquer conteúdo
humano. As nações sem exceção estavam condenadas.
Restava o ingresso nas Sociedades Minimais.

O fato de ser brasileira ou americana já não
a comovia. Ter nascido aqui ou ali era um mero acidente. O futuro viveria das
migrações. O cara só tinha de decidir que Sociedade Minimal
escolher. E para lá então se dirigir. Não importava que
estivesse na Terra do Fogo e escolhesse uma Minimal na Groelândia.

Os Fundos Mundiais lhe garantiriam os gastos da locomoção.
Uma vez ingresso na Minimal, o indivíduo entraria num processo gradual
de recolhimento. A tarefa era a de reconstruir o Universo no espaço de
sua Minimal. Ali o derradeiro refúgio contra os espectros do Mundo Exterior.
A Minimal auto-suficiente: pródiga fornecedora das necessidades humanas
de cada um. E o indivíduo poderia então morrer em paz: sem rancor,
servidão, ou cobiça.

Ada dizia que a morte deixará de ser um problema. Pois
que as doutrinas post-mortem das Sociedades Minimais seriam tecidas por seus
maiores poetas. Os poetas, dizia Ada, têm as mãos apropriadas para
a tarefa. Há previsões de renomados Scholars sobre a matéria:
os poetas das Sociedades Minimais voltarão a trabalhar em cima da idéia
da Reencarnação.

Depois de morto o cara migra cada vez para uma mais perfeita
Sociedade Minimal. Algum eventual prejuízo da vida anterior será
regiamente ressarcido na nova Sociedade Minimal. O cara vai fazendo parte da
Evolução interminavelmente.

Os poetas das Sociedades Minimais viverão gozosamente,
trancafiados em escuras celas privativas: álcool, alucinógenos,
mulheres, tudo. Só têm que permanecer trancafiados para sempre
na trevosa, mas celeste cela. Não suportariam a luz do sol, eles que
tecem o grande painel da morte. Ada deplora a influência atual dos mass-media.
Diz que na Sociedade Minimal o poeta não será mais bombardeado
pela informação. O poeta será o selvagem da masmorra. Para
que jornais? exclama Ada ao entrar no táxi à saída do aeroporto
de Boston. No táxi olho Boston pela primeira vez.

Passamos agora por ruas estreitas do Little Italy. Num núcleo
seguro, continua Ada, a Informação será ociosa. A informação
só tem sentido no perigo. É a ameaça que nos faz conhecer.

As Minimais se aurorarem livres como astros. Não precisam
de ninguém.

O que se vê hoje é que ninguém quer saber
do que vai bem. O homem passando os olhos por páginas de jornais para
ter mais um motivo de horror.

Não podemos continuar nessa via macabra, sempre à
espera do pior.

Ada pede ao motorista para parar o carro, e me leva a um pequeno
restaurante italiano. Não adianta eu dizer que estou atulhado pelas porcarias
da Pan American. Ada quer comer agora naquele amado restaurante italiano, como
se precisasse de mais um tempo até me levar para a casa onde morava.

Ada estava me escondendo.

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