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Cidade de Deus, de Paulo Lins

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Análise da obra

Neste seu romance de
estréia, Paulo Lins faz um painel das transformações sociais
pelas quais passou o conjunto habitacional Cidade de Deus: da pequena criminalidade
dos anos 60 à situação de violência generalizada
e de domínio do tráfico de drogas dos anos 90. Para redefinir
a situação do lugar onde cresceu, Lins usa o termo “neofavela”,
em oposição à favela antiga, aquela das rodas de samba
e da malandragem romântica.

O livro se baseia em fatos reais. Grande parte do material utilizado
para escrevê-lo foi coletado durante os oito anos (entre 1986 e 1993)
em que o autor trabalhou como assessor de pesquisas antropológicas sobre
a criminalidade e as classes populares do Rio de Janeiro.

Cidade de Deus é um romance que traz fortes
traços culturais de um povo predominantemente negro, cultuador da Umbanda
e do Candomblé, devoto de São Jorge, amante do carnaval e dos
ritmos brasileiros como o samba de partido alto, hoje mais conhecido como pagode;
tradicionalmente freqüentador de clubes e bares, da praia do final de semana,
da culinária associada às comidas fortes e ao consumismo popular
por influência da mídia.

Foco narrativo

Escrito em terceira pessoa, Cidade de Deus é
extensa narrativa que pode ser analisada como romance naturalista, quando descreve
o modo de vida de seus personagens. A infância dos bandidos, nas brincadeiras
de pipa, pião, futebol, nos banhos de rio e no contato com a natureza,
marca esse naturalismo e depois, na maturidade do crime como única forma
de sobrevivência, é a violência que comanda os destino, imperando
a lei do mais forte, como se todos fossem animais vivendo numa selva urbanizada
e primitivamente civilizada. A animalização está presente
no modo de agir dos bandidos: o consumo de drogas, o tipo de alimentação,
o prazer do sexo, a organização de suas casas e a forma naturalmente
cruel como se matavam uns aos outros.

Linguagem

Outro caráter que podemos sentir em todo o livro é
o realismo. O autor parte de fatos reais para estruturar o romance a adapta
sua linguagem através de minuciosa pesquisa lingüística (diálogos,
termos, gírias, palavrões) que permite, juntamente com a realidade
dos fatos, apresentar ao leitor uma trama independente de qualquer sentimentalismo
que possa amenizar a crueza imutável dos acontecimentos.

Muito definido também é o caráter expressionista.
O exagero e a insistência da narrativa em descrever pormenores e detalhes
dos crimes é característica que Paulo Lins mantém durante
todo o livro e que destaca a forma grotesca pela qual o autor valoriza a violência
e o suspense em cada gesto dos personagens.

Ainda podemos destacar o caráter de transformação
que, ajudado pelo desenrolar dos fatos através de um longo período
de tempo, marca a mudança de todos os componentes da trama. O conjunto
habitacional transforma-se em favela, as crianças se transformam em bandidos,
a polícia se corrompe, a natureza é poluída, os valores
sociais se modificam etc.

Estrutura

Uma mescla de estilos é que mantém a estrutura
do romance em constante tensão. A realidade se contrapõe à
ficção, a natureza à urbanização, a civilização
organizada à anarquia, a ambição do poder à simplicidade
da vida e o progresso à decadência.

Tecnicamente o romance divide-se em três partes (capítulos).
A narrativa tem estilo cinematográfico, em que o detalhamento das cenas
é a maior característica. Há constante fragmentação
que interrompe os casos narrados e também insere descrição
dos personagens que entram na trama. Mesmo assim o romance segue uma cronologia
linear em relação ao tempo real dos acontecimentos, com exceção
de alguns flashbacks.

A primeira parte, A História de Cabeleira,
narra a ocupação da Cidade Deus e a formação das
quadrilhas. A ambição é individual, a relação
com as drogas é mais no sentido do próprio consumo, e o que move
a criminalidade dos bandidos é a vontade de fazer um grande assalto e
viver o resto da vida nos moldes ideais dos burgueses. A participação
da polícia é efetiva, que de forma violenta e implacável
procura eliminar os criminosos. Destaca-se ainda o amor e o casamento. A segunda
parte, A História de Bené, tem seu maior enfoque na busca
do comando da favela por meio do tráfico de drogas e na nova geração
de criminosos que dão proteção à comunidade. Também
se destaca a ascensão dos cocotas como uma tribo social de características
marcantes, a corrupção do sistema carcerário e a maneira
de viver dos homossexuais. A terceira e última parte, A História
de Zé Pequeno
, traz a guerra propriamente dita e a seqüência
interminável de sucessores no comando do tráfico. Emerge a figura
do justiceiro implacável, Manoel Galinha, que, no entanto, não
modifica o destino da marginalidade.

Personagens

Cidade de Deus envolve grande número de personagens.
Os protagonistas se sucedem de acordo com o sucessivo e interminável
número de mortes. Diante dessa característica, toda a trama é
protagonizada principalmente pela própria Cidade de Deus. Por isso destacaremos
somente os três principais, até porque o perfil descritivo da maioria
dos protagonista se assemelha com o deles:

Cabeleira: Era negro de família humilde.
Seu pai era alcoólatra e a mãe, prostituta. Elegante no andar,
bom porte físico, bem sucedido com as garotas, habilidoso capoeirista,
Cabeleira representa o anti-herói, surreal e lírico. Não
estupra, respeita a comunidade e a rapaziada do conceito. É com ele que
começa a respeitar os limites da favela para se assaltar. Cabeleira,
no entanto, é cruel e maldoso com seus inimigos, mata sem piedade e sempre
se vê protegido por seus exus e pombagiras.

Bené: É cria da Cidade de Deus.
Sua crueldade fizera com que herdasse, junto com Zé Pequeno, todo o poder
do tráfico na favela. Admira os cocotas e, depois que se enturma com
eles, passa a se vestir só com roupas de grifes famosas e tatua um enorme
dragão no braço. É negro, baixinho e gordinho. Não
é feliz no amor e sonha em ganhar muito dinheiro para fundar uma comunidade
alternativa.

Zé Pequeno: Também negro baixinho
e gordinho, é o mais feio dos bandidos. Sua crueldade é a mais
temível de toda a narrativa. Sonha em ser dono da Cidade de Deus e para
isso não poupa ninguém. Constantemente coloca seus amigos uns
contra os outros. A risada fina, estridente e rápida, acompanha suas
ações de crueldade e é sua marca registrada. Totalmente
infeliz no amor, estupra a namorada de Manoel Galinha, fato que gera a guerra
na favela. Representa o poder do submundo do crime. É o que mais enriquece
com o tráfico e que comanda a favela por mais tempo, inclusive de dentro
da prisão. Seu fim finaliza o romance mas não finaliza a história
da Cidade de Deus.

Enredo

Cidade de Deus é uma história de guerra.
Não só a guerra na favela, mas uma constante disputa por poder,
ascensão social e dinheiro. O romance toma variadas direções
e tendências estéticas, ora explícitas na narrativa, ora
simplesmente sugeridas no desencadear dos fatos. É o fruto de exaustiva
pesquisa na qual Paulo Lins protagoniza uma favela como metáfora da sociedade
carioca e da sociedade brasileira.

É importante destacar a relação dos moradores
de Cidade de Deus com a morte. A importância de um bandido, por serem
eles que faziam as leis de proteção à comunidade, era medida
pelo número de pessoas que iam ao seu enterro ou pelo silêncio
diante de alguma vítima de sua crueldade. Era o respeito a essas regras
que fazia com que houvesse a paz.

A História de Cabeleira

Inicia-se o livro com Busca-Pé e Barbantino se drogando
e a narrativa descrevendo as características físicas e particulares
do empreendimento imobiliário que foi cedido para famílias de
desabrigados e sem-teto que passavam necessidade no Rio de Janeiro. “Por
dia, durante uma semana, chegavam de trinta a cinqüenta mudanças,
do pessoal que trazia no rosto e nos móveis as marcas das enchentes.(…)
Em seguida, moradores de várias favelas e da Baixada Fluminense chegavam
para habitar o novo bairro (…) Do outro lado do braço esquerdo do rio,
construíram apês…”

Entre os casos que se sucedem, intercala-se a descrição
de Cabeleira, Marreco, Alicate, Salgueirinho, Pelé e Pará. Esses
protagonizam a seqüência de crimes e assaltos e a disputa por melhores
roubos e assaltos sempre a espera “da boa” que lhes possibilitará
mudar de vida. Na divisão de poderes, Lá em Cima: Cabeleira, Marreco
e Alicate e Lá em Baixo: Salgueirinho, Pelé e Pará.

A perseguição da Polícia aos bandidos
é protagonizada pelo PM Cabeção e pelo detetive Touro.
Astutos, conheciam o conjunto habitacional e eram tão cruéis quanto
os bandidos; além de os conhecerem bem, sempre estavam na espreita dos
marginais, andando fortemente armados e decididos a prender ou executar os inimigos.

Cabeleira tem uma queda por Cleide, mulher de Alicate, mas
depois de conhecer Berenice, apaixona-se pela cabrocha e passa a viver com ela.
Lúcia Maracanã é parceira nas fugas e sempre recebe os
marginais com carinho e dedicação. Bá é dona de
uma boca de fumo e, sempre protegida, abastece os bandidos de droga.

Os roubos que começam na Cidade de Deus, aos caminhões
de gás, extrapolam os limites. Cabeleira era sempre decidido a roubar
e nunca ficava sem dinheiro, e sempre “na ânsia de rebentar a boca”.

Entram na trama Dadinho, Cabelinho Calmo, Bené e Sandro
Cenourinha, ainda crianças, na iniciação da vida do crime
já liderando seus bandos. Enquanto isso, Cabeleira se impõe, executando
um delator e o detetive Touro continua na procura dos criminosos. Cabeleira,
Carlinho Pretinho, Pelé e Pará planejam um assalto sensacional
a um motel. Resolveram levar Dadinho, que na fuga desaparece, mas não
morre e volta a cena mais tarde. Touro e Cabeção trocam tiros
com todo mundo as anciã de pegar alguém.

A seqüência de crimes não se reduz aos protagonistas
da trama. Casos absurdos são descritos, como o do marido traído
que esquarteja vivo o filho que não era dele, entregando-o à sua
mulher numa caixa de sapatos e do outro cortou a cabeça do “Ricardão”
e entregou-o para a mulher numa sacola plástica.

A violência se materializa no dia-a-dia e vai se formando
o tecido cultural das crianças de Cidade de Deus. Os meninos dividem
seu tempo entre heróis da TV, pipas, brincadeiras, banhos de rio, aulas
e a iniciação ao consumo de drogas.

A vida do crime continua, em paralelos aos costumes da comunidade,
aos bailes, pelas biroscas, pelas vielas de Cidade de Deus e suas particularidades.
Num desses bailes, Salgueirinho, que era galã disputando a tapa pelas
meninas, volta para casa com uma cabrocha que morava nas Últimas Triagens
e pela manhã, quando sai para a farmácia, é atropelado
e morre. Diz-se que é por causa da macumba de uma mulher abandonada por
ele. Seu enterro foi prestigiado por mais de duas mil pessoas e todas as suas
mulheres compareceram.

Touro elimina um ex-policial e cruza com um sargento do Exército
que acabava de ver Pelé e Pará assaltando um ônibus. Eles
perseguem os bandidos e após a captura executam os marginais. A narrativa
descreve a vida dos dois e como foram parar na Cidade de Deus. A tensão
da trama é forte e até a matança de um gato para fazer
“churrasquinho de feira” é descrita de maneira impressionante,
dado o suspense da narrativa.

Jorge Nesfato tem seu fim como condenado por treze crimes que
não cometeu, além de ser condenado pela mulher. Marreco é
perseguido e apanhado por Cabeção. Acaba conseguindo fugir, mas
na fuga uma bala perdida mata uma criança, colocando a comunidade em
desespero. A operação de tráfico de drogas é comandada
por Damião e Cunha. Damião mata Cunha para obter poderes e para
ficar com Fernanda, que é mulher de Cunha. Como Fernanda não aceita,
ele a espanca e some para nunca mais voltar.

Marreco apresentava comportamento esquisito: enlouquecia os
vizinhos, repetindo que era filho do Diabo; estuprou uma paraibana casada e
queria matar qualquer um que atravessasse seu caminho. Laranjinha não
pára para falar com ele e só por isso é jurado de morte.
Mesmo assim executa um assalto de sucesso e como Cabeleira se deu bem, assaltando
o pagamento de uma construtora, eles vão juntos comemorar. A comemoração
dura vários dias de intenso consumo de drogas. Depois da comemoração,
Marreco volta a estuprar a paraibana que não oferece resistência,
mas o marido surpreende Marreco e mata-o com uma facada. Ao enterro somente
Lúcia Maracanã compareceu, porque seus amigos temeram o cerco
da polícia.

Alicate pensa em mudar de vida. Acaba deixando a Cidade de
Deus e tornando-se evangélico da Igreja Batista, em cujo templo trabalha
e prega o evangelho. Cabeleira procura Madrugadão, seu novo parceiro,
que lhe diz que Cabeção está cada vez mais ofensivo no
cerco contra ele. Cabeleira vê em sonho seus amigos mortos, Marreco, Salgueirinho,
Haroldo, Pelé e Pará, com a mesma indumentária e em meio
a muito sangue. Marreco no sonho aconselha-o a matar Cabeção ,
se não quiser ir para a companhia deles no outro plano.

Cabeção executa Wilson Diabo e jura que o próximo
é Cabeleira. Eles trocam tiros pelas ruas de Cidade de Deus, mas nenhum
consegue atingir o outro. Marimbondo empresta uma pistola 45 e um fuzil para
Cabeleira igualar-se a Cabeção. Ari, o irmão homossexual
de Cabeleira , aparece e Cabeleira que não admite ter um irmão
assim, se atem em se livrar do irmão para que ele não fique em
Cidade de Deus. Enquanto Cabeção é implacável em
sua caçada, a narrativa descreve sua vida, seu comportamento e seu ingresso
na polícia. Ele continua a perseguir Cabeleira pelas vielas e acaba sendo
surpreendido pelas costas por um vingados que o mata. Cabeleira fica sabendo
do assassinato, mas nem sai de casa.

A narrativa volta ao início e conta a história
de Busca-Pé e Barbantino, seus sonhos e a maneira de vida dos cocotas
e playboys dos subúrbios e favelas cariocas. Da mesma forma é
contada a história de Dadinho, como sua mãe ganha uma cadeira
de engraxate a qual lhe servia para fazer assaltos e como ela descobre que Dadinho
se inicia na vida do crime.

“…acordou Dadinho a tapas e chorando perguntava
com o revólver nas mãos:
– Pra que isso?
– É pra assaltar, matar e ser respeitado!”

Volta à seqüência do assalto ao motel, Dadinho
encontra Cabeleira que promete uma grana pelo serviço do assalto e Dadinho
pede um revólver. Vão à casa de Marimbondo e são
convidados a para novo roubo. Cabeleira não vai. Dadinho e Marimbondo
fazem o assalto e se dão bem. No dia seguinte são noticias nos
jornais. Empolgados, tramam o próximo crime, desta vez com Bené
incorporado ao grupo.

O detetive Touro procura Marimbondo em casa onde se homiziavam,
mas eles estavam assaltando uma gráfica. O insucesso revolta o detetive.
“Pensava com brutalidade em tudo o que ocorria, porque era bruto, seu nome
era Touro, sua fala, suas idéias. A vontade de querer mandar em tudo
sempre lhe fora pertinente.” Ainda continua rondando a casa de Marimbondo,
enquanto os bandidos se escondem no mato após o roubo da gráfica.

Cabeleira se cansa de ficar entocado com os colegas e resolve
sair sozinho. Queria ver os amigos de Cidade de Deus . A narrativa descreve
uma manhã calma e silenciosa.”…então por que aquela aflição?
Por que aquela vontade de voltar para perto dos amigos? Aquela sensação
de vazio lhe trazia sobressaltos, frios na espinha.(…) A qualidade da paz
era superlativa também na Rua do Meio e fazia crescer aquele temor, temor
do nada.(…) Não sabia o porquê, mas pequenos pedaços de
sua vida vinham-lhe repentinamente de modo sucessivo. As mais vivas cores do
dia tornaram-se significantes de significados muito mais intensos, confundindo
a sua visão. O vento mais nervoso , o sol mais quente, o passo mais forte,
os pardais tão longe dos homens, o silêncio inoperante, os piões
rodando, os girassóis vergando-se, os carros mais rápidos e a
voz de Touro agitando tudo: – Deita no chão, vagabundo! Cabeleira não
esboçou reação. Ao contrário do que se esperava
Touro (…) Talvez nunca tenha buscado nada, nem nunca pensara em buscar, tinha
só de viver aquela vida sem nenhum motivo que o levasse a uma atitude
parnasiana naquele universo escrito por linhas tão marginais. (…) Aquela
mudez diante das perguntas de Touro e a expressão de alegria melancólica
que se manteve dentro do caixão.” A morte de Cabeleira fecha o primeiro
capítulo.

A História de Bené

Inicia o segundo capítulo a narrativa descrevendo a
herança do tráfico de drogas na Cidade de Deus e o crescimento
de Dadinho no mundo do crime. Dadinho se consultava na Umbanda e assaltava cada
vez mais. Apesar disso, lá em cima os traficantes eram mais respeitados
e isso o feria. Morre o traficante grande e Dadinho toma a boca de seu irmão.

Na Cidade de Deus há mudanças no poder, que agora
gira em torno do tráfico de drogas e os bandidos cada vez mais precocemente
se destacam pela sua crueldade. Paralelo há um destaque para a vida dos
cocotas e da “rapaziada do conceito”, grupos que gravitam por fora
da violência exacerbada dos bandidos e traficantes, atuando como coadjuvantes
na ação dos quadrilheiros. No crime começam a destacar-se
Bené e Zé Pequeno.

Enquanto a trama centra-se na história dos cocotas,
suas aventuras, as brigas nos bailes, os festivais de rock, o amor de Thiago
por Angélica e seu duelo com Marisol por causa da cabrocha, Pequeno dá
a boca Lá de Cima para Sandro Cenoura (já crescido) depois de
matar os comandantes do tráfico. Logo após planeja dividir tudo
só com Bené. “Seu sonho de ser dono de Cidade de Deus estava
ali, vivo, completamente vivo, realizado (…) Traficar, era isso que estava
na onda, isso que estava dando dinheiro.”

Com a morte de Cabeleira, seu irmão Ari, que atendia
pelo nome de Soninha, retorna à Cidade de Deus e tem sua história
de ódio com Pouca Sombra e de amor com Guimarães, que abandona
a mulher para ficar com o homossexual. A narrativa descreve o submundo do homossexualismo,
como eles vivem e se relacionam. Enquanto isso, uma sucessão de mortes
é destacada na trama: Pequeno ameaça Bigodinho, que mata Jorge
Gato e é morto por Pequeno, contrariando Acerola. Cabelo Calmo é
preso quando completava dezoito anos. É encaminhado ao Presídio
Lemos de Brito, onde é transformado em “mulherzinha” do xerife
do presídio, um bandido que mantinha o comando interno da cadeia. Ao
sair da prisão é recebido por Pequeno e Bené, mas não
lhes revela sua vida no cárcere. Eles tomam a boca de Cenoura e, a pedido
de Bené, Pequeno não o mata.

A narrativa descreve fatos e costumes do Presídio de
Ilha Grande e o mecanismo da corrupção no sistema. Marimbondo,
que chegara ao presídio com a mesma valentia com que se destacava na
favela, é brutalmente assassinado a facadas. Em Cidade de Deus, Bené
se enturma e “conquista” o cocota Daniel, a quem pede que lhe compre
muitas “roupas de grife” para andar na moda dos cocotas cariocas.
” – Sou palyboy! – dizia Bené a todos que comentavam sua nova indumentária.
Tatuou no braço um enorme dragão soltando labaredas amarelas e
vermelhas pelo focinho, o cabelo ligeiramente crespo foi encaracolado por Mosca.”
Com sua Calói 10 ia à praia todas as manhãs, tirando a
maior onda da rapaziada. No seu envolvimento com a cocotada, acaba entrando
na briga de Thiago e Marisol, por causa de Angélica. Faz com que os dois
amigos façam as pazes e tudo fica bem.

A boca-de-fumo de Ari do Rafa, no morro de São Carlos,
é atacada pela quadrilha de Pequeno e Bené. Simultaneamente, Nego
Velho e Metralha assaltam uma rica residência. A quadrilha captura a boca
de Ari do Rafa e todos, inclusive o Ari, são mortos e enterrados numa
só cova. Carlinhos Nervo Duro, que dividia o poder no São Carlos
com Ari do Rafa, toma partido e ataca a quadrilha de Pequeno e Bené.
No tiroteio, novamente os bandidos do São Carlos levam a pior e somente
Nervo Duro escapa com vida. Enquanto isso, Nego Velho e Metralha são
perseguidos pela polícia em Cidade de Deus, mas escapam e dividem o roubo,
em grande almoço, a quadrilha toda reunida. A polícia aparece,
mas reconhece que não há condições de enfrentamento
e passa reto. Manguinha e seus amigos voltam para a favela após uma série
de assaltos espetaculares, disfarçados de médicos. O tráfico
de armas junto à polícia e às forças armadas se
intensificam e cresce a troca de donos das bocas-de-fumo. Conforme as mortes
acontecem, seus responsáveis assumem a liderança das bocas e assim
sucessivamente.

Enquanto Cabelo Calmo é preso novamente, Pequeno e Bené
assumem o poder de Cidade de Deus e passam a ditas as leis da favela. São
convidados a ajudar Voz Poderosa, compositor da Portela, na escolha do próximo
samba da escola.

Bené vai para casa e chora com sua família contando
seu sonho: “…pediu desculpas ao irmão, falou que ia ficar só
mais um tempo na vida do crime para poder comprar um terreno e fundar sua sociedade
alternativa.”

Enquanto isso, Touro intensifica a perseguição
a ele e a Pequeno. No cerco aos marginais, os policiais Lincoln e Monstrinho
prendem Bené; Touro é afastado da Polícia por ter enforcado
um trabalhador numa cela.

Preso, Bené pensa que sua vida poderia ser diferente
e também que era apaixonado por Patricinha Katanazaka. Espada Incerta
sai da prisão e jura para Cenoura que vai matar Bené. Vai para
Realengo, vende um quilo de maconha e na comemoração fica bêbado
jurando de morte toda a família de Bené. Acaba perdendo o dinheiro
do tráfico e perseguido pela polícia; sua própria mãe
é que morre enquanto ele é preso.

A cocotada inventa de assaltar um açougue para dar uma
festa e Daniel é a atração principal da festa após
uma fuga espetacular do carro da polícia que dá um flagrante durante
o assalto. A narrativa enfatiza a natureza, que ameniza os sofrimentos do povo
de Cidade de Deus.

Bené sai da prisão prometendo mandar todo mês
uma quantia ao delegado. De volta à favela, poupa a vida de Butucatu,
que deveria ser executado por Pequeno, pelo estupro e morte de sua ex-mulher.
O criminoso não respeitou os limites da favela e por isso foi espancado
pela quadrilha de Pequeno. Bené tem uma decepção com Mosca,
sua mulher, que anuncia uma gravidez e decide interrompê-la. Na operação
de aborto, Mosca morre.

Após ser espancado, Butucatu planeja matar Pequeno e
pouco tempo depois, ainda com dores, parte para o ataque atingindo fatalmente
o abdômen de Bené, que estava em companhia de Pequeno naquele momento.
Pequeno também foi baleado, mas ainda teve forças para trocar
tiros com Butucatu e sobreviver. O velório de Bené foi um evento
à parte. “E uma lua redonda, claríssima, encantou ainda mais
o eterno mistério que a noite sempre traz, e o enterro daquela manhã
de sol intenso foi o maior que já se viu.”

A história de Zé Pequeno

O terceiro capítulo começa com a inútil
caçada de Pequeno a Pança e Butucatu, dois bandidos que conhecem
todos de Cidade de Deus e juram em segredo matar todo mundo e a consumação
do romance de Ari, o Soninha, com Guimarães, que enjoou da mulher.

Zé Pequeno procura uma loira por quem se apaixonou.
Mexe com ela e, desprezado, estupra-a violentamente na frente do namorado. Depois
procura o namorado, Mané Galinha, em sua casa para matá-lo e,
não o encontrando, mata seu avô. Isso causa uma enorme revolta
em Galinha, que parte para a vingança obstinadamente. Galinha havia servido
na brigada de pará-quedistas do Exército e tinha uma enorme habilidade
com armas, além de ser forte e atlético. No primeiro confronto
Galinha mata dois quadrilheiros com extrema rapidez e crueldade. “Era a
primeira vez que uma pessoa atirava em Pequeno na favela, matava dois de seus
quadrilheiros e fazia com ele se escondesse.”

Sandro Cenoura procura Mané Galinha para formar quadrilha
e derrubar Zé Pequeno. Eles se unem e a guerra contra o bando de Zé
Pequeno é inevitável. As quadrilhas aumentam e a guerra prolifera
com a participação das crianças. Para manter a luta, Galinha
começa a praticar assaltos, enquanto a imprensa destaca a guerra das
quadrilhas de Cidade de Deus. O caos das quadrilhas em guerra é evidente,
e, num dado momento, a narrativa dá uma trégua à guerra
e passa a relatar outros crimes paralelos, estando Mané Galinha escondido
por uns tempos. Mais tarde, voltando à sua obstinada caçada, Galinha
vai à procura de Peninha e Cabelo junto com Fabiano, e acabam matando
outro traficante. Aos poucos a guerra se generaliza, transformando Cidade de
Deus no lugar mais violento do mundo. Seus soldados se uniformizam e, no auge
do conflito, Cidade de Deus é uma praça de guerra. Após
ficarem frente a frente, Pequeno atinge Galinha. Ele não morre, mas as
matanças continuam na briga pelo poder do tráfico. Calmo é
novamente preso e galinha é resgatado no hospital. Aumenta seu desejo
de vingança pela morte de seu irmão Gilson. A polícia estava
fora e, conforme passava o tempo, os bandidos iam contando suas vitimas. Mais
uma vez, após um ataque de nervos, Galinha é baleado; depois,
pela terceira vez, em conflito com Calmo e Madrugado, um viciado finge ajudá-lo
e o atinge com vários tiros e sua morte é inevitável. O
viciado vingava a morte de um irmão.” A festa para comemorar a morte
de Galinha atravessou três dias, enquanto Lá em Cima tudo era silêncio,
ruas desertas, biroscas e lojas comercias fechadas. O Corpo de Galinha foi velado
em sua própria casa, sem a presença de bandidos. Seu enterro,
em número de pessoas, superou o de Bené e de Salgadinho.”

A polícia monta um novo esquema de repressão
para Cidade de Deus e uma operação de grande porte é acionada
na região. “A insegurança dominava a favela. Até os
viciados, antes fregueses bem-tratados porque sustentavam o ganha-pão,
passaram a correr riscos de vida.”

Enquanto Pequeno jogava Calmo contra Biscoitinho e tramar tomar
a boca Lá em Cima, que é de Cenoura, a operação
de polícia é escandalizada pelo massacre de um grupo de crianças.
Mesmo assim, o cerco aumenta e o sargento Roberval prende Pequeno, mas o solta
em seguida após pegar todo o dinheiro e pedir cinqüenta por cento
de todo o dinheiro da boca.

Cabelo Calmo e Biscoitinho duelam pelos becos de Cidade de
Deus e Calmo é atingido, mas foge com vida. O clima de revolta pela morte
das crianças continua, assim como o comando de Sandro Cenoura nas bocas
Lá em Cima. A guerra com a polícia faz enorme número de
vítimas que são atiradas em lugares afastados. A ex-namorada de
Playboy denuncia uma reunião de traficantes, a polícia cerca o
local e faz uma chacina. Isso faz com que algumas bocas troquem de dono. “Pequeno
deu o azar de ser abordado pelas Polícia Civil e Militar mais seis vezes.
Tanto os civis como os militares o extorquiam.”

Novamente flagrado com dinheiro, drogas e armas, Pequeno foi
julgado e encaminhado ao presídio Milton Dias Moreira, onde passa a integrar
a facção que dominava os presídios cariocas. Do presídio,
pelo telefone, Pequeno passa as instruções a seu irmão
Pinha e continua a comandar o crime, até que paga um suborno e sai do
presídio, refugiando-se fora da Cidade de Deus. Cenoura é afastado
da favela, mas sempre causando mortes. Cabelo Calmo se apaixona por uma professora
e se entrega à polícia por insistência dela e acreditando
na justiça. No segundo dia na penitenciária Lemos de Brito é
assassinado a facadas por Nervo Duro.

A sucessão dos traficantes se intensifica: Israel é
morto por Conduíte, e Biscoitinho, por Lampião. Otávio
que era um cocota que pensava em matar todo mundo para ser dono do tráfico,
entra para a macumba e se apresenta para a quadrilha da Treze, sob o comando
de Tigrinho e Borboletão. Não pede nenhum cargo de hierarquia
do tráfico. Ele só queria matar. Marisol, agora taxista, leva
três tiros de Zezinho Cara de Palhaço, que é preso.

Enquanto Cenoura vai preso para a Baixada Fluminense, continua
a sucessão de bandidos no poder das bocas. Otávio mata Jacarezinho,
que estava sabotando a boca de Borboletão e Tigrinho. Ele domina Jacarezinho
e faz com que cave a própria cova. Trajado de vermelho e preto, com uma
cartola, Otávio é um assassino com requintes de brutalidade inigualáveis.
” …deu só um tiro para depois cortar o corpo de Jacarezinho com
o facão. Com a própria cavadeira jogou a terra de volta para o
buraco, foi até os pés da figueira mal-assombrada, acendeu sete
velas, sentou em cima da cova, retirou um baseado do bolso, acendeu e fumou
sem muita pressa.” Depois desse crime, Otávio repete o ritual com
mais de trinta vítimas e as enterra na mesma cova. É preso por
dois anos e passa um tempo como pregador evangélico. Depois casou, teve
filhos e jogou a culpa de seus crimes no Diabo. Alegando que fora dominado por
uma força maléfica, incontrolável. Mais tarde, porém,
voltou. ” …rasgou a Bíblia, queimou o terno com o qual costumava
ir aos cultos e foi à boca pedir a Borboletão uma pistola para
matar somente policiais.”

Messias, o último “herdeiro” do tráfico
Lá de Cima, propõe trégua a Borboletão e Tigrinho
na Treze. Com isso a paz volta a reinar na favela. Bastiana, a Bá, deixa
o tráfico; a nova geração de cocotas continua curtindo
a vida; Busca-Pé realiza o sonho de ser artista como fotógrafo;
Cara de Palhaço recebe visita de Marisol, que ficara paraplégico
por sua causa, e dias depois aparece enforcado na cela.

Pequeno encontra Borboletão, que continuava com a boca
dos Apês, e deixa claro que vai voltar. Tinha estado em Realengo. “O
bandido tinha sua prepotência renovada e planos para ser novamente o dono
de Cidade de Deus, e para isso já tinha planejado com seus parceiros
de Realengo um ataque surpresa na Treze logo na primeira semana de seu novo
mandato nos Apês, depois atacariam Lá em Cima.”

No entanto, na sua volta, “…Tigrinho, que observava
atentamente, retirou a pistola da cintura, deu um tiro no abdômen de Pequeno
e saiu correndo junto com Borboletão”. O bando de Pequeno se entocou
nos Apês, Pequeno morreu ao som dos fogos de Ano-novo e eles voltaram
para Realengo. Logo após a morte de Pequeno a narrativa se encerra. “Lá
na Treze, Tigrinho, bem cedinho, mandou um menino moer vidro, colocá-lo
dentro de uma lata com cola de madeira. Depois do cerol feito, passou-o na linha
10 esticada de um poste ao outro. Esperou o cerol secar na linha, fez o cabresto,
a rabiola e colocou uma pipa no alto para cruzar com as outras no céu.
Era tempo de pipa na Cidade de Deus.

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