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De mãos atadas, de Álvaro Cardoso Gomes

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O romance juvenil De mãos atadas, de Álvaro Cardoso Gomes, torna transparente uma das principais
mazelas brasileiras: a violência como produto da gritante desigualdade social.

Segundo o autor, esse romance nasceu de uma espécie de indignação que sente por
ter que viver num país tão injusto e brutal, num país em que as classes sociais
são tão separadas, provocando o surgimento de legiões de miseráveis e desfavorecidos
da sorte que se entregam, por sua vez, a uma injusta busca de riquezas, apelando
para a brutalidade, a força. O tema do seqüestro foi inspirado por algo que se
tornou bastante banal nas grandes cidades, principalmente em São Paulo.

No enredo de De mãos atadas, Lico, um jovem favelado, aceita participar do seqüestro dos dois
filhos do empresário Luís Carlos. Um abismo separa a realidade dos dois personagens.

Os personagens principais desta história, Lico e Luís Carlos, vivem em mundo opostos:
o adolescente Lico mora em Heliópolis, uma das maiores favelas de São Paulo, e
o empresário Luís Carlos mora no Morumbi, bairro de elite da capital.

Quase tudo na vida de Lico é miserável, feio ou perverso; na de Luís Carlos, quase tudo é ótimo, com
exceção da saúde financeira da sua fábrica, motivo de inúmeros transtornos em sua vida particular,
principalmente com a família.

O jovem Lico costuma dizer: “Tô à pampa, mano”. Já Luís Carlos tem que dar explicações
a seus funcionários: “Há seis meses, a gente só vem tendo prejuízos”. O jovem
morador da favela usa, eventualmente, drogas com os amigos. O empresário acalma
suas angústias com uma dose de uísque. Suas vidas se cruzam quando Lico participa
do sequestro dos dois filhos do empresário. Isso agrava o estado de Luís Carlos.

Todo o plano é tramado por Dentinho, um delinqüente totalmente desequilibrado.
Aterrorizando ainda mais a família, ele ameaça cortar a orelha de um dos meninos.
Tudo para conseguir o dinheiro do resgate o mais rápido possível – antes que a
polícia chegue a ele e a Lico.

Porém, a boa educação que Lico recebeu da mãe desperta o garoto nesse momento. Ele se insurge contra o
líder do seqüestro.

Ao tecer essa narrativa, as maiores preocupações de Álvaro foram evitar o tratamento melodramático e
paternalista do tema e conseguir traduzir a história numa linguagem que não se distanciasse do linguajar
dos marginalizados. “Tomei esse cuidado por dois motivos. Em primeiro lugar, acredito que seria muito
perigoso dar uma visão emocional do tema, correndo o risco de alienar o leitor, de não fazê-lo refletir
criticamente sobre uma realidade dolorosa. Em segundo lugar, se a minha linguagem, que é imitação da
linguagem dos marginais, conseguir convencer o leitor, tenho certeza absoluta de que o atrairá mais
facilmente para dentro da história”
, afirma o autor.

Sobre a complexidade da personalidade de Lico – que se sente culpado por se envolver num seqüestro, mas
sabe que está sendo levado a ele por falta de alternativas e para satisfazer desejos típicos dos
adolescentes -, ele acredita que cair na criminalidade não é só um problema da índole de cada um.

É algo mais complicado do que isso porque envolve ambiente, educação familiar, condições sócio-econômicas.
Aliás, o caso de Lico é bastante especial, porque o seu sentimento de culpa diz respeito não só à sua boa
índole, como também à educação dada pela mãe, que é pessoa das mais dignas.

Outro aspecto polêmico do livro são as passagens em que menores experimentam diferentes tipos de drogas. O
escritor paulista acredita que a literatura juvenil pode – e deve – atuar na conscientização dos leitores
acerca do risco inerente ao consumo de drogas. “Nunca devemos nos portar como avestruzes, escondendo a
cabeça para não ver o problema ou falar dele”
, assegura o autor. “A droga está aí, com todas as
implicações que traz, e é dever de educadores e escritores alertarem sobre seu real perigo.”

Fonte parcial: Editora Ática

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