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Elenco de cronistas modernos (Parte 4), de Fernando Sabino

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Elenco de Cronistas Modernos

é uma obra que reúne crônicas de Carlos Drummond de Andrade, Clarice Lispector,
Fernando Sabino, Manuel Bandeira, Paulo Mendes Campos, Rachel de Queiroz e Rubem Braga. Foram selecionadas dez
textos de cada autor, além de breve biografia desses autores.

Crônicas são sempre curtas, tematizando os acontecimentos triviais
da vida. Pode-se observar nestas setenta crônicas o predomínio
do foco narrativo em primeira pessoa, um tom confessional, uma linguagem leve,
o humor e as reminiscências.

Nesta parte veremos

FERNANDO SABINO (Belo Horizonte 1923 – 2004 – R.J.)

– Grande cronista
– Pós-moderno
– Lúdico
– Primeira obra: Os grilos não cantam mais.

Crônicas

1. Menino – Cotidiano infantil: beijo, angústia, dor, ternura mater.

– Discurso direto sem sinalização.
– Desejo de boa noite = preparação para a vida.
– As contradições de uma mãe.

2. Quem matou irmã Georgia – Promessa do marido de
levar a esposa ao teatro, a casa alagou e não conseguiram ajuda, um velhinho presta o socorro (cia de água).

– Fala com o leitor.
– Humor, ironia, serviços públicos, imprevistos.
– Narração em primeira pessoa.

3. A quem tiver carro – Humor / Ironia fina. Desonestidade. Visão alternativa. Movimento urbano.

Narração em primeira pessoa.

Íntegra:

O carro começou a ratear. Levei-o ao Pepe, ali na oficina da Rua Francisco Otaviano:
– Pepe, o carro está rateando.
Pepe piscou um olho:
– Entupimento na tubulação. Só pode ser.
Deixei o carro lá. à tarde fui buscar.
– Eu não dizia? Defeito na bomba de gasolina.
– Você dizia entupimento na tubulação.
– Botei um diafragma novo, mudei as válvulas. Estendeu-me a conta: de meter medo. Mas paguei.
– O carro não vai me deixar na mão? Tenho de fazer uma viagem.
– Pode ir sem susto, que agora está o fino.
Fui sem susto, a caminho de Itaquatiara. O fino! Nem bem chegara a Tribobó
o carro engasgou, tossiu e morreu. Sorte a minha: mesmo em frente ao letreiro de “Gastão, o Eletricista”.
– Que diafragma coisa nenhuma, quem lhe disse isso? – e Gastão, o Eletricista,
um mulatão sorridente que consegui retirar das entranhas de um caminhão,
ficou olhando o carro, mãos na cintura:
– O senhor mexeu na bomba à toa: é o dínamo que está esquentando.
Molhou uma flanela e envolveu o dínamo carinhosamente, como a uma criança.
– Se tornar a falhar é só molhar o bichinho. Vai por mim, que aqui no Tribobó quem entende disso sou eu.
Nem no Tribobó: o carro não pegava de jeito nenhum.
– Então esse dínamo já deu o prego, tem de trocar por outro. Não pega de jeito nenhum.
Para desmenti-lo, o motor subitamente começou a funcionar.
– Vai morrer de novo – augurou ele, – e voltou a aninhar-se no seu caminhão.
Resolvi regressar a Niterói. à entrada da cidade a profecia do
capadócio se realizou: morreu de novo. Um chofer de caminhão me
recomendou o mecânico Mundial, especialista em carburadores – ali mesmo,
a dois quarteirões. Fui até lá e em pouco voltava seguido
do Mundial, um velho compenetrado arrastando a perna e as idéias:
– Pelo jeito, é o carburador.
Olhou o interior do carro, deu uma risadinha irônica:
– é lógico que não pega! O dínamo está molhado!
Enxugou o dínamo com uma estopa: o carro pegou.
– Eu se fosse o senhor mandava fazer uma limpeza nesse carburador – insistiu ainda. – Vamos até lá na oficina…
Preferi ir embora. Perguntei quanto era.
– O senhor paga quanto quiser.
Já que eu insistia, houve por bem cobrar-me quanto ele quis.
Cheguei ao Rio e fui direto ao Haroldo, no Leblon, que me haviam dito ser um monstro no assunto:
– Carburador? – e o Haroldo não quis saber de conversa. – Isso é o platinado, vai por mim.
Cutucou o platinado com um ferrinho. Fui-me embora e o carro continuava se arrastando aos solavancos.
– O platinado está bom – me disse o Lourival, lá da Gávea.
– Mas alguém andou mexendo aqui, o condensador não dá mais nada. O senhor tem de mudar o condensador.
Mudou o condensador e disse que não cobrava nada pelo serviço. Só pelo condensador.
No dia seguinte o carro se recusou a sair da garagem.
– Não é o diafragma, não é o carburador, não
é o dínamo, não é o platinado, não é
o condensador – queixei-me, deitando erudição na roda de amigos. Todos procuravam confortar-me:
– Então só pode ser a distribuição. O meu estava assim…
– Você já examinou a entrada de ar?
– Para mim você está com vela suja.
E recomendavam mecânicos de sua preferência:
– Tem uma oficina ali na rua Bambina, de um velho amigo meu.
– Lá em São Cristóvão, procure o Borracha, diga que fui eu que mandei.
– O Urubu, ali do “Posto 6”, dá logo um jeito nisso.
Não procurei o Urubu, nem o Borracha, nem o Zé Pára-Lama,
nem o Caolho dos Arcos, nem o Manquitola do Rio Comprido, nem o Manivela de
Voluntários, nem o Belzebu dos Infernos, esqueci o automóvel e
fui dormir. Pela minha imaginação desfilava um lúgubre
cortejo de tipos grotescos, sujos de graxa, caolhos, pernetas, manetas, desdentados,
encardidos, toda essa fauna de mecânicos improvisados que já tive
de enfrentar, cuja perícia obedece apenas à instigação
da curiosidade ou à inspiração do palpite, que é
a mais brasileira das instituições.
Mas pela manhã me lembrei de um curso que se anuncia aconselhando: “Aprenda
a sujar as mãos para não limpar o bolso”. Resolvi candidatar-me
– e quem tiver ouvidos para ouvir, ouça, quem tiver carro para guiar,
entenda. Fui à garagem, abri o capô, e fiquei a olhar intensamente
o motor do carro, fria e silenciosa esfinge que me desafiava com seu mistério:
decifra-me, ou devoro-te. Havia um fio solto, coloquei-o no lugar que me pareceu
adequado. Mas não podia ser tão simples…
Era. Desde então, o carro passou a funcionar perfeitamente…

4. A vingança da porta – Incidente aproxima. Visão alternativa. Esperteza e malandragem.

5. A última crônica – Crônica metalinguística.

A busca do (fio condutor do texto) motivo. Intertexto de Manuel Bandeira.

Narração em primeira pessoa.

O Motivo = Casal

Íntegra:

A caminho de casa, entro num botequim da Gávea para tomar um café
junto ao balcão. Na realidade estou adiando o momento de escrever.
A perspectiva me assusta. Gostaria de estar inspirado, de coroar com êxito
mais um ano nesta busca do pitoresco ou do irrisório no cotidiano de
cada um. Eu pretendia apenas recolher da vida diária algo de seu disperso
conteúdo humano, fruto da convivência, que a faz mais digna de
ser vivida. Visava ao circunstancial, ao episódico. Nesta perseguição
do acidental, quer num flagrante de esquina, quer nas palavras de uma criança
ou num acidente doméstico, torno-me simples espectador e perco a noção do essencial.
Sem mais nada para contar, curvo a cabeça e tomo meu café, enquanto
o verso do poeta se repete na lembrança: “assim eu quereria o meu
último poema”. Não sou poeta e estou sem assunto. Lanço
então um último olhar fora de mim, onde vivem os assuntos que merecem uma crônica.
Ao fundo do botequim um casal de pretos acaba de sentar-se, numa das últimas
mesas de mármore ao longo da parede de espelhos. A compostura da humildade,
na contenção de gestos e palavras, deixa-se acrescentar pela presença
de uma negrinha de seus três anos, laço na cabeça, toda
arrumadinha no vestido pobre, que se instalou também à mesa: mal
ousa balançar as perninhas curtas ou correr os olhos grandes de curiosidade
ao redor. Três seres esquivos que compõem em torno à mesa
a instituição tradicional da família, célula da
sociedade. Vejo, porém, que se preparam para algo mais que matar a fome.
Passo a observá-los. O pai, depois de contar o dinheiro que discretamente
retirou do bolso, aborda o garçom, inclinando-se para trás na
cadeira, e aponta no balcão um pedaço de bolo sob a redoma. A
mãe limita-se a ficar olhando imóvel, vagamente ansiosa, como
se aguardasse a aprovação do garçom. Este ouve, concentrado,
o pedido do homem e depois se afasta para atendê-lo. A mulher suspira,
olhando para os lados, a reassegurar-se da naturalidade de sua presença
ali. A meu lado o garçom encaminha a ordem do freguês. O homem
atrás do balcão apanha a porção do bolo com a mão,
larga-o no pratinho – um bolo simples, amarelo-escuro, apenas uma pequena fatia triangular.
A negrinha, contida na sua expectativa, olha a garrafa de Coca-Cola e o pratinho
que o garçom deixou à sua frente.
Por que não começa a comer? Vejo que os três, pai, mãe
e filha, obedecem em torno à mesa um discreto ritual. A mãe remexe
na bolsa de plástico preto e brilhante, retira qualquer coisa. O pai
se mune de uma caixa de fósforos, e espera. A filha aguarda também,
atenta como um animalzinho. Ninguém mais os observa além de mim.
São três velinhas brancas, minúsculas, que a mãe
espeta caprichosamente na fatia do bolo. E enquanto ela serve a Coca-Cola, o
pai risca o fósforo e acende as velas. Como a um gesto ensaiado, a menininha
repousa o queixo no mármore e sopra com força, apagando as chamas.
Imediatamente põe-se a bater palmas, muito compenetrada, cantando num
balbucio, a que os pais se juntam, discretos: “parabéns pra você,
parabéns pra você…” Depois a mãe recolhe as velas, torna a guardá-las na bolsa.
A negrinha agarra finalmente o bolo com as duas mãos sôfregas e
põe-se a comê-lo. A mulher está olhando para ela com ternura
– ajeita-lhe a fitinha no cabelo crespo, limpa o farelo de bolo que lhe cai
ao colo. O pai corre os olhos pelo botequim, satisfeito, como a se convencer
intimamente do sucesso da celebração. Dá comigo de súbito,
a observá-lo, nossos olhos se encontram, ele se perturba, constrangido
– vacila, ameaça abaixar a cabeça, mas acaba sustentando o olhar e enfim se abre num sorriso.
Assim eu quereria minha última crônica: que fosse pura como esse sorriso.

6. Invenção da laranja – Humor. Texto próximo
do conto dilatado. Metáfora do capitalismo. Esperteza e malandragem.

Na primeira metade do século XX, quando morou em Nova York, Fernando
Sabino enviou para publicação no Brasil uma crônica extraordinária
sobre a laranja. Nela contava que um americano dedicado ao cultivo dessa fruta
estava preocupado com a concorrência dos vizinhos mais prósperos.
Procurando batê-los, começou a espremê-la e a engarrafar
o suco. Fracassou. O vidro não preservava a qualidade do produto. Com
o correr do tempo, azedava. Resolveu enlatá-lo. Não deu certo.
O suco adquiria o sabor característico dos alimentos enlatados. Fez nova
tentativa. Embalou-o em caixinhas de papelão parafinado, com um pequeno
orifício obturado no alto. O consumidor rompia o lacre e introduzia um
canudinho. Mas a embalagem era frágil e suportava mal os rigores do transporte.
Após experimentar todos os tipos de recipiente, o americano passou a
extrair apenas o miolo da laranja. Deixava a casca intacta, repleta de líquido.
“Em pouco tempo, apareciam no mercado as primeiras laranjas contendo no
seu interior o suco já espremido”, escreveu Sabino. A solução
igualmente não funcionou. A embalagem natural murchava em poucos dias.
Então, ocorreu-lhe uma idéia perfeita, infalível. O americano
começou a vender o suco dentro dos próprios gomos, ou seja, deixando
intacta a laranja, do jeito que havia sido colhida. “Deslumbrado com a
invenção, correu à repartição pública
mais próxima e encaminhou um pedido de patente”, acrescentou Sabino.
Daí o título da crônica – “A Invenção
da Laranja” -, publicada no livro A Cidade Vazia/Crônicas e Histórias
de Nova York (O Cruzeiro, Rio de Janeiro, 1950).

7. O tapete persa – Tema comum, trivial. Materialismo e falta
de senso. Reflexão da morte.

Íntegra:

Comprou o tapete, colocou-o no imenso living e ficou olhando. Mal se podia
pisar com um pouco mais de firmeza, o dono do tapete perdia logo o fio da conversa.
Se por acaso um amigo acendia um cigarro, ah, isso não, meu velho, tenha
santa paciência, mas vá fumar lá fora, na varanda, isso
aqui é tapete pra muito luxo, me custou os tubos, da Pérsia ali
no duro, se me cai uma brasinha no chão eu lhe mando a mão na
cara, desculpe a franqueza, mas comigo é assim, mais vale prevenir que remediar.
A mulher já nem podia receber em casa uma visita de cerimônia, porque logo de entrada ele ia avisando:
– Vai limpar o pezinho aí o capacho, não vai? Tapete novo ali
na sala, coisa pra muito luxo, a senhora compreende… Preço de automóvel!
Quem, pelo preço de um tapete, compra um automóvel hoje em dia?
Era o que ele pensava, quando se meteu no seu com toda a família e foi
passar o verão em Petrópolis. Recomendara à empregada cuidados
especiais com o tapete. A mulher sugerira enrola-lo, mas onde colocar um canudinho
de três metros de comprimento, quatro se enrolasse ao comprido? E poderia
estragar-se, pois os tapetes, ainda que persas, foram feitos para ficar estendidos.
Estava feliz: nem todos podem ter um tapete persa. Para muita gente é um ideal de vida.
Um belo dia a empregada descobriu, com pavor, que o tapete apresentava aqui
e ali pequenas manchas de mofo. Abriu todo o apartamento, mas, não satisfeita,
resolveu dependurar o tapete na amurada da varanda para que apanhasse sol.
Ora, acontecia morar no apartamento de baixo um americano que invariavelmente
chega bêbado todas as noites e ainda bebia um pouco antes de dormir, mais
um pouco ao levantar-se. Naquele dia, tendo o tapete obstruído por completo
sua janela, cuidou de acordar que ainda era noite e voltou para a cama.
Afinal, cansado de dormir, acendeu a luz e olhou o relógio: duas horas.
Não poderia estar tão bêbado assim – convenhamos que
às duas horas da tarde o dia já deveria pelo menos ter começado
a clarear. Ou passar o dia todo dormindo e seriam duas horas da noite?
Avançou para a janela e deu de cara com o tapete. Vendo que não
conseguia olhar para fora, voltouse, resignado, sem buscar explicação.
Buscou antes uma faca e meteu-a no tapete como no ventre de um peixe, abrindo-o de alto a baixo.
Depois enfiou a cabeça pelo rombo para ver se lá fora era noite ou dia.
Infelizmente era dia. Não se conformando, puxou com violência o
tapete e quando afinal acabou de recolhe-lo, deixou que tombasse no espaço
e fosse cair lá embaixo, sobre as obras de um edifício em princípio de construção.
Muitos que viram se assustaram. Houve quem pensasse que o prédio estava vindo abaixo.
Caiu uma “coisa” lá de cima! – vários gritaram,
apontando. O que foi? Alguém se atirou lá de cima? Uma mulher se atirou lá de cima?
– Nós mal começamos e este aqui já está mandando
a mobília – comentou um operário da construção, contemplando o tapete.
Enfim, não é todo dia que caem tapetes persas de janela dos apartamentos,
pelo menos naquela rua. Alguns curiosos se ajuntaram, enquanto não se
chamava a assistência. A empregada apareceu desvairada, e ao ver o tapete
no chão enlameado, botou as mãos na cabeça e a boca no mundo:
– Nossa Senhora, meu patrãozinho me mata!
No dia seguinte era o patrãozinho que, descendo de Petrópolis,
ia ao apartamento de baixo disposto a matar o primeiro americano. No que disse yes, foi-lhe metendo o braço.
– Just a moment! Just a moment! – berrava o americano, se defendendo. – No fala portuguese! Must be some mistake!
– Misteique é a mãe – dizia o dono do tapete, enfurecido.
Não satisfeito, pôs-se a quebrar coisas no apartamento do outro.
Pouco havia que quebrar, além de uma garrafa de “four Roses”, já vazia.
Afinal, mais calmo, preveniu:
– No fala portuguese mas pagar tapete, ta bem? Olha aqui, ô gringo, to pay my tápet, morou?
– Let’s have a drink – propôs o americano.

8. Dona Custódia – A empregada sente-se a dona da casa.
Solidão. Status. Condição social.

Narra a história de um escritor solitário que tem sua rotina
alterada pela presença de sua nova empregada: Dona Custódia, uma
senhora dócil e simpática que se utiliza do apartamento em que
trabalha como diarista para reunir suas amigas para lanches e cafés vespertinos.
Ocorre que ela se faz passar por dona do imóvel, sempre, claro, às
escondidas do verdadeiro proprietário. Numa bela tarde, é surpreendida
com as amigas pelo rapaz limitando-se a dizer para as colegas que aquele era o menino que alugava o quarto dos fundos.

9. Reunião de mães – Educação Século XXI
– Barganha
– O fazer literário
– Angústia por não saber como é o filho na escola

Íntegra:

A reunião de pais só havia mães. Eu me sentia constrangido
em meio a tanta mulher, por mais simpáticas me parecessem, e acabaria
nem entrando – se não pudesse logo distinguir, espalhadas no auditório,
duas ou três presenças masculinas que partilhariam de meu ressabiado zelo paterno.
Sentei-me numa das últimas filas, para não causar espécie
à seleta assembléia de progenitoras. Uma delas fazia tricô,
e várias conversavam, já confraternizadas de outras reuniões.
O Padre-Diretor tomou assento à mesa, cercado de professoras, e deu início à sessão.
Eu viera buscar Pedro Domingos para levá-lo ao médico, mas desta
vez cabia-me também participar antes da reunião. Afinal de contas
andava mesmo precisando verificar pessoalmente a quantas o menino andava.
O Padre-Diretor fazia considerações gerais sobre o uniforme de
gala a ser adotado. – A gravatinha é azul? – perguntou uma
das mães. – meia três-quartos? – perguntou outra. –
E o emblema no bolsinho? – perguntou uma terceira. Outra ainda, à
minha frente, quis saber se tinha pesponto – mas sua pergunta não chegou a ser ouvida.
Invejei-lhe a desenvoltura. Tive vontade de perguntar também alguma coisa,
para tornar mais efetivo meu interesse de pai – mas temi aquelas mães
todas voltando a cabeça curiosas e surpreendidas, antes uma destoante
voz de homem, meio gaguejante talvez de insegurança.
Poderia também não ser ouvido – e se isso me acontecesse
eu sumiria na cadeira. Além do mais, não me ocorria nada de mais
prático para perguntar senão o que vinha a ser pesponto.
Acabei concluindo que tanta perguntação quebrava um pouco a solene
compostura que devíamos manter, como responsáveis pelo destino
de nossos filhos. E dispensei-me de intervir, passando a ouvir a explanação do Padre-Diretor:
– Chegamos agora ao ponto que interessa: o quinto ano. Depois de cuidadosa seleção,
foi divulgado em três turmas – a turma 14, dos mais adiantados; a turma
13, dos regulares; e a turma 12, dos atrasados, relapsos, irrequietos, indisciplinados.
Os da 13 já não são lá essas coisas, mas os da 12
posso assegurar que dificilmente irão para a frente, não querem nada com o estudo.
Fiquei atento: em qual delas estaria o menino? Pensei que o Diretor ia ler a
lista de cada turma – o meu certamente na 14. Não leu, talvez por
consideração para com as mães que tinham filhos na 12.
Várias, que já sabiam disso, puseram-se a falar ao mesmo tempo:
não era culpa deles; levavam muito dever para casa, não se habituavam com o semiinternato.
Uma – a do tricô, se não me engano – chegou mesmo a
se queixar do ensino dirigido, que a seu ver não estava dando resultado.
Outra disse que tinha três filhos, faziam provas no mesmo dia, como prepará-los
de uma só vez? O Padre-Diretor sacudiu a cabeça, sorrindo com
simpatia – não posso nem ao menos lastimar que a senhora tenha
tanto filho. E voltou a falar nos relapsos, um caso muito sério. Não
vai esse Padre dizer que meu filho está entre eles, pensei. Irrequieto,
indisciplinado. Ah, mas ele havia de ver comigo: entre os piores!
E por que não? Quietinho, muito bem mandado, filhinho do papai, Maria-vai-com-as-outras
ele não era mesmo não. Desafie o auditório, acendendo um
cigarro: ninguém tinha nada com isso. Criança ainda, na idade
mesmo de brincar e não levar as coisas tão a sério. O curioso
é que não me parecesse assim tão vadio – jogava futebol
na rua, assistia à televisão, brincava de bandido, mas na hora
de estudar o rapazinho estudava, então eu não via? Quem sabe se
procurasse ajudá-lo, dar uma mãozinha… Mas essas coisas que
ele andava estudando eu já não sabia de cor, tinha de aprender
tudo de novo. Outro dia, por exemplo, me embatucou perguntando se eu sabia como
se chamam os que nascem na Nova Guiné. Ninguém sabe isso, meu
filho, respondi gravemente. Ah, não sabe? Pois ele sabia: guinéu!
Não acreditei, fui olhar no dicionário para ver se era mesmo.
Ela. Talvez estivesse na turma 13, bem que sabia lá uma coisa ou outra, o danadinho.
Agora o Diretor falava na comida que serviam ao almoço. Da melhor qualidade,
mas havia um problema – os meninos se recusavam a comer verdura, ele fazia
questão que comessem, para manter dieta adequada.
No entanto, algumas mães não colaboravam. Mandavam bilhetinhos
pedindo que não dessem verdura aos filhos.
Eis algo que eu jamais soube explicar; por que menino não gosta de verdura?
Quando menino eu também não gostava.
– Pedem às mães que mandem bilhetinhos, e não é
só isso: usam qualquer recurso para não comer verdura. Hoje mesmo
me apareceu um com um bilhete da mãe dizendo: não obrigar meu filho a comer verdura.
Só que estava escrito com a letra do próprio menino.
Chegada era a hora de levá-lo ao medico – uma professora amiga foi buscá-lo para mim.
-Meu filho – perguntei, ansioso, assim que saímos: -Em que turma
você está? Na 12 ou na 13? Na 14 – ele respondeu distraído.
Respirei com alívio: E nem podia ser de outra maneira, não era isso mesmo?
Fico satisfeito de saber – comentei apenas.
Ele não perdeu tempo:
Então eu queria pedir um favor – aproveitou-se logo: – Que você
mandasse ao Padre-Diretor um bilhete dizendo que eu não posso comer verdura.

10. O enviado de Deus – Metafísico
– Naraação em primeira pessoa
– Consciência/reflexão
– Polifonia de vozes
– Conflito interior – Críticas aos valores e às atitudes frente
às diferenças econômicas.

Fonte: Unievangélica – Carlos Lisboa

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