Home EstudosLivros Felicidade clandestina (Conto da obra Felicidade clandestina), de Clarice Lispector

Felicidade clandestina (Conto da obra Felicidade clandestina), de Clarice Lispector

by Lucas Gomes

Neste conto a narradora recorda sua infância no Recife.

A introdução do conto apresenta as duas protagonistas da narrativa, salientando os
aspectos negativos de uma, que serão bem mais evidentes que os da outra: “Ela era
gorda, baixa, sardenta e de cabelos excessivamente crespos, meio arruivados. Tinha
um busto enorme…” Mas, apesar de todos esses defeitos, ela era agraciada com
algo que a tornava privilegiada: “possuía o que qualquer criança devoradora de
histórias gostaria de ter: um pai dono de livraria”. E isto a tornava superior a
todas suas amigas. A outra que apesar de ser como as demais meninas: “bonitinhas,
esguias, altinhas, de cabelos livres”, não tem acesso aos livros. Por isso, ela,
que é a narradora em 1ª pessoa, relata a sua experiência de amá-los e não poder
desfrutá-los.

A filha do dono da livraria não aproveitava os livros e, segundo a narradora, nem
as outras meninas, uma vez que ela, até mesmo nos aniversários, não tinha a
gentileza de dar um livro de presente: “em vez de pelo menos um livrinho barato”.
Nesse ponto chegava a ser irônica, pois seu presente favorito para as outras
eram cartões postais da loja do pai, como para mostrar-lhes que o mundo dos livros,
para elas, era inacessível, sempre ficariam distantes dele, enquanto ela detinha o
poder de possuí-los.

Por isso, ela vivia pedindo-os emprestados àquela colega filha de dono de livraria.
Essa colega não valorizava a leitura e inconscientemente se sentia inferior às
outras, sobretudo à narradora.

Em relação a esse comportamento da menina que lhe dava cartões postais da livraria
do pai, a narradora era indignada: “ela nos entregava em mãos um cartão-postal da
loja do pai. Ainda por cima era de paisagem do Recife mesmo, onde morávamos, com
suas pontes mais do que vistas”. Por entender que possuir livros significava ter
poder sobre os que não tinham, a filha do dono da livraria, resolveu que às outras
não daria esse gostinho de querer mudar esta situação. Pois é preciso entender que
para essas meninas leitoras o seu adentramento na ambiente dos livros seria uma
opção pela liberdade “a ponto de entendê-lo enquanto relação amorosa”.

Essa menina era mesmo cruel e com a narradora exerceu com calma ferocidade o seu
sadismo, tanto que a pobre nem percebia, tal era a sua ânsia de ler: “continuava
a implorar-lhe emprestado os livros que ela não lia”. Até que chegou o dia em que
começou a exercer sobre a outra uma tortura chinesa, a informou que possuía As
Reinações de Narizinho
, de Monteiro Lobato, que para esta “era um livro grosso,
[…], era um livro para se ficar vivendo, comendo-o, dormindo-o”.

para a nossa narradora, os livros lhe davam “um lar permanente”, e um lar que ele
“podia habitar exatamente como queria, a qualquer momento.” Porém, para ela, o
livro estava longe de suas posses. Então, foi logo pedindo emprestado o tal,
a outra pediu que passasse por sua casa no dia seguinte e ela o emprestaria.

Para a narradora, o livro é o objeto do seu desejo e para este não há limites:
“Até o dia seguinte eu me transformei na própria esperança da alegria: eu não
vivia, eu nadava devagar num mar suave, as ondas me levavam e me traziam”. Ao
chegar o tão esperado dia seguinte, foi à casa da outra “literalmente correndo”.

Mal sabia a ingênua menina que a colega tinha um plano diabólico. A dona do livro,
quando a narradora chegou até sua casa e pediu-o, disse que o havia emprestado
à outra menina, que ela voltasse no dia seguinte. Ficou boquiaberta, mas seu
desejo era tal que, a esperança invadiu novamente seu ser e ela andou pelas
ruas pulando, sonhando: “guiava-me a promessa do livro”. No dia seguinte, outra
desculpa, o livro ainda não havia sido devolvido. E assim se seguiram os dias.
O terror por não ter o livro para ler e a outra se divertindo em alimentar uma
esperança era uma cena digna de pena: “eu já começara a adivinhar que ela me
escolhera para eu sofrer”.

Então todos os dias, invariavelmente, ela passava na casa e o livro não aparecia,
sob a alegação de que já fora emprestado. Esse suplício durou muito tempo. A sua
relação com o livro é tal, que todo esse sofrimento começou a afetar o seu físico:
“eu, que não era dada a olheiras, sentia as olheiras se cavando sob os meus olhos
espantados”. Tudo isso porque o ato da leitura para ela era uma necessidade,
padecia com o não-ler, tinha uma fome que precisava ser saciada, pela chance
que a outra poderia lhe dar, ao emprestar-lhe o livro tão esperado.

Chegou finalmente o dia da redenção da narradora, quando todos seus males seriam
sarados. Certo dia, a mãe da colega cruel interveio na conversa das duas e descobriu
que sua filha estava enganando a outra menina: “mas este livro nunca saiu daqui de
casa e você nem quis ler!”

E essa descoberta não era a pior, mas sim a descoberta, horrorizada, da filha que
tinha. A narradora seria agora agraciada pelo tão almejado objeto do desejo: “E
você fica com o livro por quanto tempo quiser”. Esse “por quanto tempo quiser”
significava muito mais do que dar-lhe o livro, ela teria posse sobre o seu objeto
do desejo. Toda a sua espera, sua insistência, finalmente era recompensada.

Para a narradora foi impossível descrever-nos o que sucedeu assim que recebeu o
livro na mão. Ela só lembrava que “o segurava firme com as duas mãos, comprimindo
contra o peito.” Imaginamos que agiu assim por temer que algo ou alguém a separasse
dele. Esqueceu até mesmo quanto tempo levou até chegar à casa. Porém, isso não
importava, o que valia a pena era sentir que o livro estava com ela: “meu peito
estava quente, meu coração pensativo”. Isso indica um sentido diferente para a
leitura.

Para o leitor do conto, a menina que tanto queria o livro ao conseguir possuí-lo,
devorá-lo-ia em pouco tempo. Mas não foi isso o que aconteceu. Ela chegou em casa
e não começou a ler: “fingia que não o tinha, só para depois ter o susto de o ter”.
Algum tempo depois, leu algumas partes, que considerou maravilhosas, fechou-o
novamente, indo fazer outras coisas, fingia que não sabia onde guardava o livro,
achava-o, lia novamente.

Essa foi a felicidade clandestina da menina. Fazia questão de “esquecer” que
estava com o livro para depois ter a “surpresa” de achá-lo.

A narradora “criava as mais falsas dificuldades para aquela coisa clandestina que
era a felicidade”. A felicidade em ter acesso aos livros, à leitura, que para ela
era clandestina, pois não possuía livros e nem condições financeiras que
possibilitassem um maior contato com eles. Esta “felicidade clandestina” significa
que ela está muito feliz por realizar algo para ela ilegal, pois o fato de possuir
um livro, era, muitas vezes, na sociedade antiga, um privilégio dos mais favorecidos
economicamente e continua sendo até hoje. Assim, podemos afirmar que a personagem
narradora quebrou os paradigmas dessa diferença social, e por isso, cometeu grave
delito, com sua insistência e amor aos livros. Conseguiu ter acesso ao seu objeto
desejado.

Ao realizar algo proibido, a narradora sabe que deveria ter orgulho, pois conseguiu
alcançar seu objetivo, e pudor, pois poderia perder o que conseguiu, além disso,
estava vivendo no ar. Agora ela “não era mais uma menina com um livro: era uma
mulher com o seu ‘amante’”.

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