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Gaibéus, de Alves Redol

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Gaibéus

é comumente
aceito como o romance que marca o aparecimento do neo-realismo em Portugal. 
Romance que retrata as modestas condições de vida dos camponeses da região do
Ribatejo. Esse escritor do neo-realismo português revela-se, através de Gaibéus,
um perfeito organizador de sensações e impressões, criando imagens de variados
tipos, a partir do discurso poético. Sua linguagem expressa elevado grau de
visualismo nas descrições das paisagens ribatejanas e nos gestos e expressões
de suas personagens. Através da correspondência entre o discurso verbal e o
discurso pictórico, Alves Redol consegue criar no leitor, a ilusão de ser um
espectador que assiste a um espetáculo ou a sensação de estar diante de um quadro.
 

Gaibéus
é o primeiro romance de Alves Redol e foi publicado em 1939. É o ponto de partida da obra romanesca
do autor. Mas é também o ponto de chegada de uma longa reflexão de Alves Redol
sobre o significado e o papel da arte, o primeiro edifício do programa de uma
literatura nova. Fiel ao seu ideário, antes de escrever Gaibéus, o autor realizou um amplo trabalho de campo – deslocou-se repetidas vezes à lezíria,
chegou mesmo a instalar-se no campo para recolher dados sobre o trabalho nos
arrozais. Os seus blocos de apontamentos contêm numerosas indicações técnicas
sobre o cultivo do arroz.

Como viria a confirmar-se em obras posteriores, este primeiro trabalho do autor
é uma das suas incursões ao país real, rural, de um povo trabalhador e
explorado. Conta a vida desses jornaleiros que trabalhavam na monda do arroz
numa das lezírias do Ribatejo. Homens e mulheres que vinham de outras terras,
como alugados para um trabalho duro, de sol a sol, e de fraca paga. Alves
Redol, com uma escrita nascida na oralidade do povo (e por isso o leitor tem de
contar com algumas palavras e expressões menos comuns), retrata com um realismo
cruel o modo de vida dos gaibéus (jornaleiro da província portuguesa do Ribatejo
ou da Beira Baixa que vai trabalhar nas lezírias durante as mondas) que ganhavam
o seu sustento na época das mondas do arroz. Os maus-tratos, as más condições de
trabalho, a exploração nua e crua, o abismo social entre o proprietário e o
assalariado, a resignação e passividade de uns e a consciência e angústia de
outros, são o tema deste grande livro desse grande escritor tão pouco lembrado.

História simbólica do embate de duas diferentes mentalidades, a desunião entre gaibéus e rabezanos é triste e profético paradigma das oposições, ainda hoje bem marcadas, entre os camponeses dos minifúndios e os dos latifúndios. Redol
acreditava que seria possível o casamento entre uns e outros quando descobrissem
que a mesma fome os une.

As
personagens são uma e todas ao mesmo tempo. Um povo resignado que luta com
afinco durante o tempo quente, antes da chegada do inverno, em condições
extremas para fazer render os poucos cobres que lhes pagam por tamanha dureza.
Por um lado o trabalho árduo de sol a sol, as doenças (malária), a fadiga e a
teimosia em cada vez se fazer o trabalho mais rápido para mais rendimento obter,
a sede, a fome, a pobreza extrema. Por outro lado, o modo como preenchiam as
escassas horas de lazer, os sonhos de uma vida melhor, os projetos sem logro, o
vinho para alegrar os espíritos. As mulheres ainda sofrem de outro tipo de
exploração, sendo sujeitas aos caprichos do senhor das terras que as escolhe
para os seus prazeres carnais.

E o
futuro espelhado numa velha que acaba por enlouquecer, fraca e doente, mas com o
mesmo anseio de pegar na foice para acabar o trabalho, iludindo-se, febrilmente
delirante, no gabar-se de ainda ser o exemplo para os outros de como é uma
verdadeira mondadeira.


também a personagem que remói as palavras duras dos capatazes e cerra de raiva
os dentes na presença do patrão. Uma consciência da exploração de que é vítima,
mas de que não tem fuga possível, a não ser, talvez, tentar a sorte em terras
distantes como Brasil e África de onde alguns retornavam abastados.

E
quando enfim o Inverno chega e a monda se acaba, os jornaleiros regressam com
esse sabor amargo às suas terras de origem, preparando-se, no ano seguinte, para
procurar trabalho no mesmo rancho, em outras lezírias…

Narrativa muito bem construída que, exceto por algumas palavras e expressões que
requerem o uso do dicionário e um pouco de experiência junto das gentes rurais,
se lê muito bem e com grande satisfação e curiosidade, uma vez que se trata do
retrato fiel do homem português explorado até aos limites na década de trinta;
portanto, que faz parte da nossa memória.

Alves Redol revela-se, através de
Gaibéus, um perfeito organizador de sensações e impressões, criando imagens de variados tipos, a partir do discurso poético. Sua linguagem expressa elevado grau de visualismo nas descrições das paisagens ribatejanas e nos gestos e expressões de suas personagens. Através da correspondência entre o discurso verbal e o discurso pictórico, Alves Redol consegue criar no leitor, a ilusão de ser um espectador que assiste a um espetáculo ou a sensação de estar diante de um quadro.

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