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La vie en close, de Paulo Leminski

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La vie en close

, livro póstumo do poeta Paulo Leminski, acolhe,
na maior parte de suas páginas, poemas inéditos, escritos depois
de Distraídos venceremos (1987), e não publicados em vida
pelo autor, mono em junho de 1989. É uma coletânea cuja organização
foi finalizada por Alice Ruiz.
Entre os textos há, por exemplo, “Limites ao Léu”,
poema-colagem com definições de poesia extraídas de vários
poetas, escrito e publicado avulsamente, nos anos 70. Os textos, haicais e poemas
de La Vie en Close mostram uma busca consciente e articulada de uma
linguagem fácil (sem ser vulgar), musical e fluida.

Em La Vie en Close o poeta sinaliza a contagem regressiva de sua própria
vida. Sinais evidentes deixados também num bilhete-testamento, que o
Jornal da Tarde publicou com exclusividade.

O poeta Paulo Leminski sabia que tinha pouco tempo de vida. E foi ao encontro
da morte com a mesma vitalidade demonstrada em toda a sua obra. Essas são
constatações evidentes neste livro. Leminski demarcou com extrema
coragem e lucidez a contagem regressiva de sua própria vida. Vários
poemas estão carregados de pistas, algumas diretas, outras camufladas.
É o caso de “Dor Elegante”, transformado em música por
Itamar Assumpção. Na última estrofe, o bom humor de grande
parte de sua poesia veste-se com uma lapidar mudança de tom:

ópios, édens, analgésicos
não me toquem nessa dor
ela é tudo o que me sobra
sofrer vai ser a minha última
obra
.”

Afora o próprio título do livro, trocadilho auto-referente com
a famosa canção eternizada na voz de Edith Piaf, o poeta há
anos vinha preparando um terreno conceitual para seu desaparecimento precoce.
Não foi por simples motivos financeiros — como alegaram críticos
emburrados — que traduziu Sol & Aço, de Yukio Mishima,
em 85. Como o samurai japonês, Leminski disse um sonoro “não”
à mediocridade e às misérias do cotidiano dos dias atuais.

Nesta obra e em outro volume que deixou parcialmente organizado, O ex-estranho,
Leminski abriu a barragem dessas águas turvas em mais de uma dezena de
poemas, jamais esquecendo o rigor formal de verdadeiro fabbro, característico
em sua obra. Os disfarces tornaram-se poesia de alta voltagem.

O livro possui muitos haikais, pequenos poemas de três versos, influência
direta do poeta Bashô. Outras influências literárias podem
ser percebidas, como Mallarmé e Ezra Pound. Disse Alice Ruiz na orelha
do livro: “Esses poemas, mais que quaisquer outros, estão cheios
de noites e madrugadas adentro. Cheios de uma dor tão elegante que é
capaz de nos fazer rir, apesar de tudo (…) Saltam da página para o
entendimento.”

Em La vie en close, Leminski se auto-retrata por dois momentos como
“ex-estranho”. Primeiro no poema “Ópera Fantasma”,
onde se lê:

Nada tenho.
Nada me pode ser tirado.
Eu sou o ex-estranho,
o que veio sem ser chamado
e, gato se foi
sem fazer nenhum ruído.

E algumas páginas depois, no poema que tem como título, justamente
a expressão “O ex-estranho”, registra:

passageiro solitário
o coração como alvo,
sempre o mesmo, ora vário,
aponta a seta, sagitário,
para o centro da galáxia.

Em um outro poema, Leminski apresenta a pedagogia do erro como prática
da liberdade do poeta:

nunca cometo o mesmo erro
duas vezes
já cometo duas três
quatro cinco seis
até esse erro aprender
que só o erro tem vez.

A liberdade de errar já vem, segundo ele, inscrita no código
genético do poeta.

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