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Levantado do chão, de José Saramago

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O romance Levantado do chão, escrito em 1979, tem a especificidade
de demarcar um ponto de superação na expressão literária
e romanesca de José Saramago. Na obra, o autor consegue desenvolver uma
forma de discurso que reproduz a diversidade conflituosa da realidade retratada
pela narrativa em construção, através da incorporação
da tradição oral dos camponeses alentejanos.

O título da obra simboliza, com perfeição, a vida e a
produção literária de um autor que conheceu o desalento
e a incompreensão mas que soube porfiar, erguendo-se do chão,
qual fértil campo espiritual que Saramago cultivou e que neste dia frutificou
de uma forma perene. Nesta obra, Saramago elevou em epopéia a vida dos
trabalhadores alentejanos, em três gerações de dor e sofrimento,
viajando como narrador (que se trata a si próprio como “o narrador”)
entre o passado do século XV e o tempo do presente acompanhando Domingos
Mau-Tempo, o seu filho João, os seus netos António e Gracinda,
casada com António Espada, personagem importante na diérese.

No romance, desde a contracapa, sabe-se que o universo por ele criado é
filtrado pelo imaginário e pelo sonho e o olhar que lança para
as muitas possibilidades deixadas pelos espaços em branco da historiografia
portuguesa. Através dos filtros – sejam eles suas memórias,
de quem assistiu a todo o processo revolucionário, as suas convicções
pessoais, as histórias que ouviu dos camponeses e as suas aspirações
de que os homens portugueses fossem de outra maneira – imprimem à obra
a sua subjetividade, que ao desregular o tempo das experiências social
e individual, oferece-se como uma visão alternativa do passado; atitude
que, em última análise, significa integrar uma outra significação
para os fatos que já estavam solidificados na mentalidade portuguesa
e apontar a precariedade de qualquer conhecimento previamente instituído.

Com efeito, o entrecruzamento dos fatos narrados e dos fatos históricos
abordados pelo romance adquire um estatuto de verdade e é capaz de justificar
e produzir condutas. Entretanto, este discurso que se constrói se ocupa,
primordialmente, de descristalizar aquilo que conhecemos da história
e estabelece-se, intratextualmente, como uma verdade possível e, portanto,
provisória que não tem como objetivo negar os saberes anteriores.

Ciente daquilo que não é competência dos historiadores,
José Saramago se serve de suas lacunas e de suas afirmações
para revisitá-la e tecer críticas a respeito de sua construção,
para criar uma outra ficção que se apóia, duplamente, na
existência de figuras históricas reais e na de homens sem história
e sem lugar na documentação para, no somatório das duas,
criar um discurso – por isso, precário – que seja capaz de
abranger e explicar as relações humanas e sociais.

A imbricação em sua narrativa de episódios históricos
e fatos sociais portugueses para questionar a responsabilidade civil dos homens
antes, durante e após a restauração da democracia, aponta
para o fato que, em sua narrativa, existe um diálogo muito forte com
concepções previamente instituídas do estatuto social do
português e que, ao longo dos anos da ditadura, mantiveram-se e reforçaram-se
por imposições do Estado e pela aceitação delas
por estes homens.

Levantado do Chão se ocupa primordialmente da saga de uma família
de camponeses pobres, os Mau-Tempo, que desde o século XV habitam Portugal,
na região do Alentejo e são os escolhidos pelo autor para relatar
a difícil relação do homem português com a terra
e com o desenrolar dos acontecimentos por ela motivados.

Os Mau-Tempo são testemunhas e combatentes de lutas como a chegada
da República, a Primeira Guerra Mundial, a Guerra da Espanha e o 25 de
Abril, eventos históricos de grande importância para Portugal,
e que contarão a história de Portugal de “uma outra maneira”
– baseada naquela que não foi documentada e que está fora
dos registros oficiais.

NARRAÇÃO / LINGUAGEM

A diferenciação existente entre Levantado do Chão
e a tradição do romance histórico é mais nítida
no estatuto do narrador e nas funções das personagens. Quanto
ao primeiro aspecto, nota-se a existência de um narrador que acompanha
a ação, comenta e critica, em onisciência, que usa o aforismo
ou a profecia levando o leitor a incorporar-se no texto numa dialética
ativa entre passado, presente e futuro, na qual ele é guia e consciência.

As personagens são alvo da análise objetiva até à
exposição do estatuto fictício e de inverosimilhança
numa mistura de realista e ficcional, que é apresentada ao leitor revelando
a meta-ficção histórica.

A reconstrução do romance histórico em Saramago tem na
personagem, como já indiciado, outro exemplo de subversão. Na
tradicional ordenação das personagens do romance histórico,
podia-se encontrar o protagonista-tipo, representante das evoluções
do momento histórico-social e as figuras históricas típicas.
Estes elementos são a antítese em Saramago.

Resgatando narrativas orais populares, fazendo uso da ironia, utilizando o
discurso indireto livre, José Saramago dá a Levantado do Chão
um tom ensaístico, sem compromisso com a verdade na medida em que tenta
abranger a totalidade das relações humanas e sociais, mesmo que
esteja ciente de que o fará sempre de maneira precária pela própria
contingência de saber que constrói um discurso. O conhecimento
daquilo que se apresenta no texto é, não raramente, acompanhado
da discussão do próprio fazer literário.O discurso metaficcional
revela ao leitor a consciência de que se trata de um relato sobre a realidade,
e não da realidade em si: o(s) narrador(es) sabe(m) que a representação
fiel da realidade é impossível na dimensão do discurso
e, neste sentido, o romance rompe com o compromisso de verdade assumido pelos
neo-realistas.

TEMPO

A história contada por Saramago atravessa vários períodos
de Portugal, desde a época da monarquia, no início do século
XX, o fim da monarquia, a república, a ditadura e a volta da liberdade
no final do século XX.

ESPAÇO

Portugal – Alentejo.

O espaço romanesco em Levantado do chão é constantemente
identificado com grandes extensões de terra, com planícies e vales
cuja dimensão mal pode ser abarcada pelo olhar humano.

Na prisão que é o Latifúndio, a relação
do trabalhador com o seu espaço é extremamente árida. Para
ele, a lida com a terra se dá de maneira esgotante, causando amargura
e sofrimento. Não existe amor na execução mecânica
de tarefas que farão o solo frutificar para um maior enriquecimento de
seus donos. Contudo, no espaço ficcional criado por Saramago, o trabalhador
rural, cuja condição por séculos apresentou-se imutável,
pôde transformar a sua situação. Acompanhando a história
da família Mau-tempo, podemos perceber como isso se deu.

João, patriarca da família e protagnista do romance, desde pequeno
estabelece uma relação muito estreita com o espaço onde
mora e trabalha. A consciência de que as terras que ele cultiva pertencem
a homens que exploram seu trabalho é muito forte. Tão forte que,
mesmo sem ter o que comer e o que dar de comer aos seus filhos, fá-lo
resistir à pressão dos latifundiários para que a colheita
seja feita mediante um pagamento miserável. Quando o feitor insiste em
dizer que não serão pagos mais de vinte e três escudos pela
jorna, João está decidido:

(…) É então que João Mau-Tempo abre a boca e as
palavras saem, tão naturais como se fossem água a correr de boa
fonte, Ficará a seara ao pé, que nós nãovamos por
menos.
(LC, p.141)

O narrador, absolutamente simpático à causa dos trabalhadores
rurais, como fica claro na comparação que ele estabelece entre
as palavras de João e a água de boa fonte, já afirmara,
páginas antes: “Posto em seu devido tempo na terra, o trigo
nasceu, cresceu e agora está maduro
” (LC, p. 138). Estabelecer
correspondência entre o trigo e os lavradores é inevitável:
é chegada a hora de seu amadurecimento político. Depois de um
longo processo, nascimento e desenvolvimento, a consciência dos homens
finalmente manifesta-se em toda a sua plenitude. E a mobilização
dos trabalhadores para que a oferta dos patrões não fosse aceita
mapeia todo o Latifúndio:

(…) Não tinha havido multiplicação dos peixes, havia
multiplicação dos homens. Ali se fizeram dois grupos, dividiu-se
o itinerário, uns tantos para o Pendão das Mulheres, outros para
o Casalinho, e neste monte tornariam a juntar-se todos para distribuir outra
vez.
(LC, p. 145)

Percorrer as terras é, nesse momento, uma forma de se apropriar delas.
Semeando a resistência contra a exploração dos patrões,
os homens afirmam o seu direito de serem respeitados e dignamente pagos pelo
seu trabalho. O resultado desse movimento é a vitória dos grevistas.
Os latifundiários resignam-se a pagar trinta e três escudos pela
jorna e os trabalhadores comemoram o fato entusiasticamente. O que vem logo
depois, é fácil de se prever: João e os outros grevistas
são presos e torturados. A humilhação e a dor, levadas
às últimas conseqüências, não conseguem, porém,
desencorajar a luta dos lavradores.

A metáfora, o latifúndio é um mar interior, que marca
o início de um dos últimos capítulos da narrativa, alude
às seculares relações sociais existentes no espaço
conformado pelo Latifúndio e à ininterrupta mobilização
que incansavelmente operam os trabalhadores rurais. Nesse universo, em que os
peixes miúdos garantem o sustento dos peixes maiores e mais vorazes,
a aparente ordem das coisas pode, algumas vezes, ser abalada pelas marés
e ressacas. É o que acontece quando os lavradores reivindicam o direito
de trabalharem oito horas por dia. Outra vez o espaço do Latifúndio
é percorrido para que todos possam se engajar no movimento:

(…) Anda uma voz pelos caminhos do latifúndio, entra nas vilas
e nas aldeias, conversa nos montes e nos montados, uma voz de duas palavras
essenciais e de outras muitas que explicam essas duas, oito horas, (…)

(LC, p. 328)

Depois de os trabalhadores rurais alcançarem mais uma vitória,
acontece finalmente o 25 de Abril. Mas as comemorações públicas
e livres do Primeiro de Maio, que sucedem a Revolução e enchem
os corações de alegria, logo dão lugar às antigas
formas de opressão no latifúndio. Os Bertos unem-se para que a
ordem se mantenha e negam a colheita aos trabalhadores com o intuito de que
eles aceitem as vergonhosas condições de outrora. A resposta a
esse desmando não demora:

E então num sítio qualquer do latifúndio, a história
lembrar-se-á de dizer qual, os trabalhadores ocuparam uma terra. Para
terem trabalho nada mais, cubra-se de lepra minha mão direita se não
é verdade. E depois numa outra herdade os trabalhadores entraram e disseram,
vimos trabalhar. E isto que aconteceu aqui, aconteceu além, é
como na primavera, abre-se o malmequer do campo, e se não vai logo Maria
Adelaide colhê-lo, milhares de seus iguais nascem em um dia só,
é assim como o noivado desta terra
. (LC, p. 361)

A ocupação das terras alastra-se como os malmequeres. Em pouco
tempo, todas as herdades são invadidas. Uma multidão avança
e, em clima de festa, perfaz a caminhada pela posse da terra:

Depois das Mantas vão ao vale da Canseira, às Relvas, ao
Monte da Areia, à Fonte Pouca, à Serralha, à Pedra Grande,
em todos os montes e herdades são tomadas as chaves e escritos os inventários,
somos trabalhadores, não viemos roubar, afinal nem há aqui ninguém
para afirmar o contrário, porque de todos os lugares percorridos e ocupados,
montes, salas, adegas, estábulos, cavalariças, palheiros, malhadas,
cantos, cantinhos e escaninhos, pocilgas e capoeiras, cisternas e tanques de
rega, nem falando nem cantando, nem calando nem chorando, estão Norbertos
e Gilbertos ausentes, para onde foram, sabe-se lá (…)
(LC, p.
364)

A ausência dos donos do Latifúndio explica-se pela fuga em massa
empreendida quando sua condição de senhores da terra se mostra
insustentável. Sem o apoio da Igreja, retraída à espera
dos novos rumos da História, e sem o apoio do novo governo revolucionário,
grande parte dos latifundiários deixa o campo e, desse modo, as fazendas
podem ser legitimamente ocupadas por aqueles que sempre nelas trabalharam.

A apropriação do espaço consuma-se de forma a concretizar
a tão esperada justiça conclamada pelo narrador desde o início
do romance. Levantados do chão, os trabalhadores rurais apossam-se das
propriedades agrícolas e sentem-se livres para viver uma realidade sem
a exploração do próprio trabalho.

CARACTERIZAÇÃO DAS GERAÇÕES QUE COMPÕEM
A NARRATIVA

1ª geração: Tempo de silêncio. São
pessoas acuadas pela religião, pela opressão do governo e exploradas
pelos donos das terras. A vida é marcada pelo conformismo e não
vêem nenhuma perspectiva de mudança. A primeira geração
é representada pelo casal Domingos Mau-Tempo e Sara da Conceição
cuja vida é pontuada pela errância e pelo sofrimento.

2ª geração: tempo das perguntas. Os homens
passam a questionar sua situação e a ver que algo pode mudar e
que a mudança depende deles, da sua coragem para enfrentar os donos das
terras , o governo e se revoltar contra a Igreja. É representada por
João Mau-Tempo, e é a geração que começará
a tomar consciência da importância da luta.

3ª geração: Tempo da luta. Os homens passam
a fazer greves e a lutar pelas mudanças que desejam. Nesse período,
muitos são presos e outros tantos morrem. Manuel Espada é o revolucionário
que marca essa época.

Maria Adelaide é a possível resposta para o tempo das perguntas,
porque assiste ao fim da ditadura e da geração dela para frente,
tudo pode ser construído de maneira diferente, só depende dela.

ENREDO

Introdução: O autor faz reflexões sobre
a questão agrária: “o que mais há na terra é
paisagem
” e a importância do dinheiro: “o lugar do
dinheiro é um céu, um alto lugar onde os santos mudam de nome
quando vem a ter que ser, mas o latifúndio não
.” Propõe-se,
então, a contar uma história diferente de toda a situação
de amargura de desespero do homem do campo: crescei e multiplicai-me, diz o
latifúndio Mas tudo pode ser contado de outra maneira.

1ª geração: Domingos Mau-Tempo e Sara da
Conceição

O livro tem início com uma grande chuva, que marca a chegada da família
em São Cristóvão: “Chamo-me Domingos Mau-Tempo
e sou sapateiro Disse um dos homens sentados a sua graça, Mau tempo trouxe
vocemecê.
” Essa família saiu de Monte Lavre porque a
vida estava difícil. A mulher, Sara da Conceição, é
extremamente oprimida pelo mundo masculino. O marido entra na taberna e ela
é obriga a ficar com o filho João do lado de fora, pois “a
taberna é sítio dos homens
“. Depois de saírem
de lá, buscam um lugar para ficar, e encontram uma casa simples, sem
janelas. Sara sente que está grávida novamente, mas teme comentar
com o marido.

O primeiro filho do casal, João Mau-Tempo, se dá muito bem com
a mãe. Ele foi a causa do casamento de Sara e Domingos, pois ela se entregou
a ele, solteira, no meio dos trigos, no mês de Maio, ficando grávida.
O menino nasceu com olhos azuis e o autor nos explica que isso é uma
descendência germânica que aparece em alguns membros dessa família.

Com o passar do tempo, Domingos começa a beber muito e Sara constantemente
é obrigada a ir buscá-lo no meio da noite, em lágrimas.
Devido às dívidas que Domingos fez na taberna, a família
foi obrigada a se mudar novamente e Sara dá a luz a Anselmo, no meio
de muita dor e sofrimento.

Na outra cidade, Landeira, Domingos é acolhido pelo Igreja do padre
Agamedes, mas não abandona a bebida a acaba cobiçando uma mulher
que vivia com o padre. Devido a isso, passou a ser mal visto na paróquia,
mas jurou que se vingaria do padre, que o havia repreendido. Nomeio de uma missa,
brigou com o pároco e eles rolaram as escadas da Igreja. Por causa desse
acontecimento, a família se viu obrigada a se mudar para outro lugar.

Nesse momento, o narrador interrompe a história para localizar o leitor
no momento histórico que Portugal atravessava. A monarquia havia caído
e chegara a República, mas nada mudou na vida do homem do campo: “ente
o latifúndio monárquico e o latifúndio republicano, não
se viam diferenças
.”

Nessa época, os camponeses resolveram se juntar e ir ao administrador
da fazenda, pedir melhores condições de vida. Lamberto, dono do
latifúndio chama a polícia e muitos apanham e são presos
e mortos.

Retomando a narrativa, percebemos que Sara têm mais dois filhos, Maria
da Conceição e Domingos, entretanto, somente João tinha
olhos azuis.

Com a passar dos anos, Domingos começou a desaparecer por algum tempo
e depois voltar para casa. Sara, desesperada, voltou para a casa dos pais com
os filhos. Domingos chegou a procurá-la algumas vezes, mas ela se separou
definitivamente e se escondia dele. Sem ver sentido em sua vida, Domingos se
enforca. Sara ainda cuida dos filhos e dos netos, mas passa a ter sonhos com
Domingos e acaba ficando louca e morrendo doente.

2ª geração: João Mau-Tempo e Faustina

João, como filho mais velho, assume a família e começa
a trabalhar desde pequeno. O mundo está em guerra e eles passam muitas
dificuldades. “João não tem corpo de herói. É
um pelém de dez anos retacos, um cavaco de gente que ainda olha as árvores…
É uma injustiça que se lhe faz obrigá-lo a levantar-se
ainda noite fechada, andar meio a dormir e com o estômago frouxo o pouco
ou muito caminho que o separa do lugar de trabalho e depois dia fora, até
o sol posto, para tornar a casa outra vez de noite, morto de fadiga, se isto
é ainda fadiga, se não é já transe de morte
.”

Um pouco mais velho, João, então, conhece seu grande amor, Faustina,
e decidem se casar. A família da menina não permitiu a união
e eles fugiram, levando um pedaço de pão e chouriço para
comer : “Em pouco tempo perdeu Faustina a sua donzela, e, quando terminaram
lembrou-se João do pão de do chouriço, e como marido e
mulher o repartiram

Enquanto isso, o povo continuava a viver oprimido pelos bertos, apanhando muito
do feitor da fazenda, sem poder reclamar.

João e Faustina têm três filhos, Antônio, Amélia
e Gracinda. Antônio começa a trabalhar desde cedo, como o pai.
O trabalho no campo é duro e os homens começam a se organizar
em torno do comunismo. Sobre isso, o narrador afirma: “Outros, porém,
já se levantaram, não no sentido próprio de quem suspirando
se arranca do doloroso conforto… mas naquele outro e singular sentido que
é acordar em pleno meio dia e descobrir que um minuto antes ainda era
noite.
” João acaba se envolvendo em um manifesto e vai preso.
Historicamente, Salazar tinha assumido o poder em Portugal. O padre Agamedes,
continuava trabalhando para oprimir o povo e tinha sempre um discurso de conformismo,
fazendo os homens aceitarem a situação. Nesse período,
um jovem idealista, chamado Manuel Espada se destaca, por ser revolucionário
e querer mudanças para a vida do trabalhador. Ele e Antônio, filho
de João Mau-Tempo, tornam-se amigos. Movidos pelo discurso comunista,
Manuel, João e outro vão aos patrões para reclamar das
condições de trabalho e pedir melhores salários. Acabam
sendo presos por muito tempo. Faustina vai até lá, juntamente
com as filhas Gracinda e Amélia . Manuel Espada e Gracinda se vêem
e se apaixonam. Todos acabam voltando livres para casa e Manuel e Gracinda começam
a namorar, apesar dele ser sete anos mais velho que ela.

3ª geração: Manuel Espada e Gracinda Mau-Tempo

O casal não pode se unir de imediato, porque Gracinda é muito
jovem e não tinha enxoval. Nesse período, Manuel é tido
como o primeiro grevista de Monte Lavre, porque não aceita a opressão
dos latifundiários. Gracinda, depois de três anos, sente-se pronta
para casar e demonstra ter um pressentimento de que sua criança seria
especial.

Finalmente, chega o dia da festa e a cerimônia é realizada pela
padre Agamedes. O narrador deixa claro que o padre não é o mesmo
do início do livro: “nem o padre é o mesmo, as pessoas
não são eternas
“. Na verdade, essa figura representa
a igreja. O padre começa a fazer o seu discurso: “se não
fôssemos nós, a igreja e o latifúndio, duas pessoas da santíssima
trindade, sendo a terceira o Estado.. como sustentariam eles a alma e o corpo..
.”
Antônio Mau-Tempo interrompe a fala do padre e faz um discurso altamente
revolucionário, sabendo colocar o padre em seu lugar. O casamento se
realiza e no dia seguinte, Manuel já tem que trabalhar.

As agitações políticas no latifúndio aumentam e
João acaba sendo preso novamente. A família fica em lágrimas
e ele é condenado a trinta dias de isolamento. Lá, sofre muito,
sendo insultado e espancado nas pernas. Quando João sai da cadeia, já
está velho, mas seus olhos têm o mesmo brilho azul de outrora.
Antônio que estava no exército, volta para casa porque tem problemas
de saúde, e vem trabalhar no latifúndio. Gracinda fica grávida
e Manuel e Antônio passam a trabalhar juntos.

A criança do casal representa uma mudança “Quem em tudo
isso não encontrar novidades, precisa que lhe tirem as escamas dos olhos
ou lhe abram um buraco na orelha
“.

A menina chama-se Maria Adelaide Espada, e nasce com os mesmos olhos azuis
do avô. O narrador antecipa o significado disso: “quando ele
chegar faremos a comparação e então ficaremos a saber de
que azul enfim se trata
“. João chega e vai ver a menina “João
Mau-Tempo vê que seus olhos são imortais
“.

Historicamente, percebe-se que a ditadura continua. O narrador, que domina
o texto, demonstra sua tristeza por perceber que a história não
mudava, porém, os latifundiários se organizam novamente e o povo
passa a pedir eleições livres: “o mar levanta-se, levantam-se
os braços, as mãos trazem as rédeas ou trazem pedras apanhadas
do chão (…) Era uma cena de batalha digna… Esta foi a carga do vinte
e três de junho fixai bem a data na memória E quando os dragões
passaram João Mau-Tempo não pode segurar as lágrimas, de
raiva eram e de uma grande tristeza também. Quando será que acaba
o nosso martírio
” João chorava porque a ditadura não
caíra com a insurreição dos camponeses.

Porém, mais uma vez, os trabalhadores se organizaram e foi um grande
momento da história do latifúndio. Era o mês de abril, período
em que aconteceu em Portugal a Revolução dos Cravos, que finalmente
acabou com a ditadura. “foi-se deslaçando a sagrada aliança
João fica doente e sabe que vai morrer. A neta Maria Adelaide vem para
se despedir do avô e, ao se olharem, é como se “tivessem
trocado de olhos
“.

A menina está crescida e desde cedo começa a trabalhar longe.
Já tem 19 anos e percebe que não foi criada para ser princesa,
mas tem sonhos. Um dia, quando está voltando do trabalho para casa, percebe
que algo mudou. Pressente que a ditadura chegou ao fim pela revolução
do povo. “é como se tivesse vivido sempre com os olhos fechados
e agora, enfim, os tivesse ‘abrido’ …é dona da sua liberdade
.”
Maria Adelaide começa a chorar e a gritar: “Viva Portugal“.
No dia 1º de maio, dia do trabalho, ela caminha pelas ruas de seu país:
está aqui escrito que o primeiro de Maio será festejado livremente,
é dia feriado em todo o país “Tanto se apregoou de mudanças
e de esperanças, saíram as tropas dos quartéis, coroaram-se
os canhões de ramos e de eucalipto e os cravos encarnados, diga vermelhos,
minha senhora, diga vermelhos, que agora já se pode
“.

Depois se Maria Adelaide começar a chorar não se admirem,
chorará nesta mesma noite quando ouvir dizer a voz na rádio, Viva
Portugal, será nesse mesmo instante, ou já terá sido antes,
às primeiras notícias de ontem, quando atravessou rua para ver
mais perto os solados…ela sabe, percebe que a vida mudou.
” No meio
da festa do povo e junto de Maria Adelaide, estão Domingos, Sara, João,
Faustina, e tantos outros que morreram na luta pela liberdade e pela reforma
agrária. Todos vieram ver de perto esse dia “levantado e principal“.

COMENTÁRIOS

Mau-Tempo – Família que representa o sofrimento do
homem do campo português e o mau tempo da ditadura. “
quem diga que sem o nome que temos não saberíamos quem somos,
é um dito que parece perspicaz e filosófico
.” “Esta
família Mau-Tempo parece escolhida pelo destino para negros casos
“.

Olhos Azuis – Certas pessoas dessa família nascem com
olhos azuis. “…outra rapariga, quase quinhentos anos antes, que estando
um dia sozinha na fonte a encher sua infusa, viu chegar-se um daqueles estrangeiros
que…desatendendo aos gritos e rogos da donzela, a levou a uma espessura de
fetos, onde, a seu prazer, a forçou. Era um galhardo homem de pele branca
e olhos azuis, que não tinha outra culpa que o atiçado no sangue…
Assim, durante quatro séculos estes olhos azuis vindos da Germânia
apareceram e desapareceram, tal como cometas que se perdem no caminho e regressam
quando com eles já não se conta…

História de Portugal – Monarquia / República:
O trono caíra, o altar dizia que por ora não era este
reino o seu mundo, o latifúndio percebeu tudo e deixou-se estar, e um
litro de azeite custava mais de dois mil réis, dez vezes a jornada de
um homem. Viva a República! Viva o patrão!

Guerra – É a guerra aquele monstro que primeiro
devore os homens lhes despeja os bolos, um por um, moeda atrás de moeda…
Em alguns lugares ao redor houve gente que pôs o luto, o nosso parente
morreu na guerra. O governo mandava condolências, sentidos pêsames
e dizia que a pátria
.”

Ditadura de Salazar –Viva Portugal…estamos aqui
reunidos….como continuadores da grande gesta lusa e daqueles nossos maiores
que deram novos mundos ao mundo e dilataram a fé e o império,
mais dizemos que ao toque do clarim nos reunimos como um só homem, ao
redor de Salazar, o gênio que consagrou a sua vida, aqui tudo grita Salazar
Salazar, …abaixo o comunismo, morram os traidores da pátria , morram…

Fim da Ditadura – Revolução dos Cravos.

Posição da Mulher – Percebe-se que a mulher
também se levanta do chão. Sara é oprimida pelo mundo masculino;
Faustina tem maior participação na vida da família e na
vida do marido; Gracinda é mais decidida e tem opinião forte,
personalidade; Maria Adelaide marca o levantar da mulher na sociedade, porque
é independente, trabalha desde cedo e recebe a missão de mudar
(olhos azuis).

De mulheres nem vale a pena falar, tão constante é
o seu fado de parideiras e animais de carga
” (Sara).

De homens se continuará a falar, mas também cada vez
mais de mulheres… é que os tempos vêm aí…

(Faustina).

…afinal não é tão grande a diferença
assim entre mulher e homem, a não ser o salário.
” (Gracinda).

…ela sabe, percebe que a vida mudou.” (Maria Adelaide).

Latifúndio X mar

“O latifúndio é o mar interior. Tem seus cardumes de peixes
miúdos e comestíveis, suas barrancudas e piranhas de má
morte… É mediterrâneo…dizer que o latifúndio é
um mar…se esta água agitarmos , toda a outra em redor se move, às
vezes de tão longe que os olhos o negam, por isso chamaríamos
enganadamente pântano a este mar, e o que fosse.. Este é o grande
mar do latifúndio… A este mar do latifúndio chegam ressacas,
pancadas, empurrões das águas e quando às vezes basta derrubar
um muro, ou simplesmente saltá-lo…muito se irá falar do latifúndio,
qual mar, qual nada, o que isto é, é terra as mais das vezes seca,
por isso é que os homens dizem Quando será que matamos a sede”.

Saramago inova, porque com o livro Levantado do chão, demonstra
que a única solução para Portugal é ‘levantar
do chão’. Deixar de aguardar soluções maravilhosas
e míticas e lutar pelo país.

Fontes: Vima Lia Rossi Martin, USP | Camile Tesche, Mestra
em Literatura Portuguesa na Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências
Humanas, USP

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