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Memorial do Convento, de José Saramago

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Análise da obra

Publicado
em 1982, o Memorial do Convento, de José Saramago, narra o período
de construção de um Convento, em Mafra, em cumprimento de promessa feita pelo
rei D. João V. Concomitantemente, é narrada a construção de uma passarola, sonho
do padre Bartolomeu com os auspícios do rei, mas perigosamente à margem do Santo
Ofício. O padre é ajudado pelo casal Baltasar / Blimunda.

Uma das questões corticais neste romance é a fronteira entre
a história e a ficção. Saramago não se vê como um escritor histórico mas antes
como um autor de uma história na História. O seu argumento traduz-se numa
estratégia narrativa que entrecruza três planos relevando o da ficção da
História e o do Fantástico em detrimento do plano da História.

Memorial do Convento consegue articular um plano da
História (Portugal no século XVIII, durante o reinado de D. João V, com
Autos-de-Fé, procissão de penitentes, casamento dos infantes…) com um plano da
ficção da História (elementos históricos que são moldados pela ficcionalidade
transformando, por exemplo, D. João V e a rainha Ana de Áustria em caricaturas e
elevando, na edificação de Mafra, um herói coletivo e anônimo – os milhares de
trabalhadores) e o plano do Fantástico (construção da Passarola, sonho de
Blimunda, Baltasar, personagens ficcionais e Bartolomeu Lourenço, figura
histórica do tempo).

Neste romance, Saramago transforma Mafra num símbolo do país.

A escrita de Saramago integra-se nos novos caminhos do
romance em Portugal nos últimos anos tendo sabido recriar os caminhos do
Fantástico. Em Memorial do Convento, a vertente fantástica, não sendo
instituída como referência isotópica primordial, funciona pela oposição ao mundo
retratado, como elemento fundamental. No romance, a realidade histórica
encontra-se enleada nas teias da ficção e mais concretamente no fantástico
quando fatos conhecidos pelo leitor são cruzados com elementos meta-empíricos,
como o ânimo que dá ao homem a possibilidade de voar e o jejum que comunica à
filha da feiticeira a capacidade de vislumbrar o interior dos humanos. O
fantástico torna-se em Saramago “um modo de exacerbar a atenção sobre a terra
portuguesa, sobre as suas demasias e os seus golpes.

Estrutura da obra

O romance está dividido em 25 capítulos não-denominados, sem
numeração alguma também, estabelecendo-se como divisão apenas os espaços em
branco entre os que compõem a obra.

Espaço / Tempo

No romance existem alguns espaços nomeados:

1. O palácio que abriga a nobreza de D. João V, por onde o clero transita com
facilidade;

2. As ruas de Lisboa, sempre cheias da “arraia-miúda”, o povo pobre ,
faminto;

3. A quinta (chácara) para onde vão Blimunda e Baltazar construir a
Passarola;

4. A cidade de Mafra e os arredores.

O tempo narrativo é do tipo cronológico e está inserido entre duas datas:
“dezessete de novembro deste ano da graça de 1717” e , como indica o último
capítulo, a data da morte do escritor e comediógrafo brasileiro Antônio José da
Silva, o Judeu, autor das Guerra de Alecrim e Manjerona, em
1739.

Ou seja, a história que vamos analisar tem duração temporal de 22 anos.

O volume percorre um período de aproximadamente 30 anos na
História de Portugal à época da Inquisição. O cenário é rico, registrando não só
o fato histórico, mas reconstituindo a vivência popular, numa viagem a
diferentes povoados ao redor de Lisboa.

Foco
narrativo

A obra, de imediato, traz uma novidade
para o leitor: o narrador, indubitavelmente onisciente, comporta-se de uma forma
inusitada ao apresentar a fala dos personagens. A forma canônica de se
materializar o discurso direto é com a utilização dos chamados verbos dicendi
e de uma notação constituída por dois pontos (:) e travessão (—)
ou aspas (” “). Saramago não se utiliza desse expediente, adotando uma forma
nova:

Blimunda
levantou a cabeça, olhou o padre, viu o que sempre via, mais iguais as pessoas
por dentro do que por fora, só outras quando doentes, tomou a olhar, disse, Não
vejo nada. O padre sorriu, Talvez que não tenha vontade, procura melhor, Vejo,
vejo uma nuvem fechada sobre a boca do estômago. O padre persignou-se, Graças a
Deus, agora voarei.
(p. 124)

O foco narrativo do
romance é do tipo cambiante, também chamado múltiplo, com predominância em 3ª
pessoa. Verifique os exemplos:

1. Foco com terceira pessoa:

“Já se deitaram. Esta é a cama que veio da Holanda quando
a rainha veio da Áustria, mandada fazer de propósito pelo rei, a cama, a quem
custou setenta e cinco mil cruzados, que em Portugal não há artífices de tanto
primor, e, se os houvesse, sem dúvida ganhariam menos. A desprevenido olhar nem
se sabe se é de madeira o magnífico móvel, coberto como está pela armação
preciosa, tecida e bordada de florões e relevos de ouro, isto não falando do
dossel que poderia servir para cobrir o papa. Quando a cama aqui foi posta e
armada ainda não havia percevejos nela, tão nova era, mas depois, com o uso, o
calor dos corpos, as migrações no interior do palácio, ou da cidade para dentro,
rica de matéria e adorno não se lhe pode aproximar um trapo a arder para queimar
o enxame, não há mais remédio, ainda não o sendo, que pagar a Santo Aleixo
cinqüenta réis por ano, a ver se livra a rainha e a nós todos da praga e da
coceira.”
(p. 16)

Observação: Tanto em primeira quanto em terceira pessoas, o
narrador se comporta como uma espécie de “guia” para seus leitores. Usa pronomes
demonstrativos como se apontasse os acontecimentos, os seres e as coisas:

“Esta é a cama que veio da Holanda(…)”

“Este que por desafrontada aparência, sacudir da espada e
desparelhadas vestes, ainda que descalço, parece soldado, é Baltazar Mateus.”

 2. Terceira + primeira: cambiante

“A pontos de há pouco tempo terem soltado uns cento e
cinqüenta de culpas menos pesadas, que então estavam no Limoeiro, por junto,
mais de quinhentos, com as muitas levas de homens que vieram para a Índia e
que acabaram por não ser necessários, e era tanto o ajuntamento, e a fome tanta,
que se declarou uma doença que nos ia matando a todos, por isso
soltaram aqueles, um deles sou eu.”

 “(…) enquanto não vai corporalmente acabar em
Angola, para onde irá degredado por toda a vida, e esta sou eu, Sebastiana
Maria de Jesus
, um quarto de cristã- nova, que tenho visões e revelações,
mas disseram-me no tribunal que era fingimento, que ouço
vozes do céu, mas explicaram-me que era efeito demoníaco(…)

Memorial do Convento consegue articular um plano da
História (Portugal no século XVIII, durante o reinado de D. João V, com
Autos-de-Fé, procissão de penitentes, casamento dos infantes…) com um plano da
ficção da História (elementos históricos que são moldados pela ficcionalidade
transformando, por exemplo, D. João V e a rainha Ana de Áustria em caricaturas e
elevando, na edificação de Mafra, um herói coletivo e anônimo – os milhares de
trabalhadores) e o plano do Fantástico (construção da Passarola, sonho de
Blimunda, Baltasar, personagens ficcionais e Bartolomeu Lourenço, figura
histórica do tempo).

O narrador apresenta uma natureza multímoda. As suas vozes
múltiplas e a dificuldade de distinção entre a sua voz e a das personagens são
ainda fatores ancilares se prestarmos atenção ao distanciamento/aproximação em
relação aos acontecimentos narrados com ironia e humor. O narrador assume o
papel de comentador e de crítico não se furtando a uma relação de cumplicidade
com o narratário, utilizando a primeira pessoa do plural propiciando a este uma
atitude de análise e de crítica relativamente ao tempo representado e o seu
próprio tempo de enunciação.

O autor, na linha da inovação e no caminho da subversão,
consegue criar um ritmo de escrita que lembra a poesia, conjugando enumeração,
comparação e metáfora, introduzindo aforismos, provérbios e ditados, recriando o
uso da pontuação, usando marcas do discurso oral, construindo efeitos irônicos e
humorísticos e entrelaçando o seu discurso com outros discursos literários (como
o de Camões) e jogos de conceitos típicos do Barroco. O próprio Saramago, na
posição de narrador do Memorial do Convento, explica sua opção pela
recuperação da imaginação na escrita: “…fingindo, passam então as histórias
a ser mais verdadeiras que os casos verdadeiros que elas contam…”
(Memorial
do Convento
pág.134).

O narrador utiliza o anacronismo em comentários e críticas
estabelecendo um paralelo entre o passado e o presente, levando a que elementos
atuais se incorporem no passado como acontece com o comentário “diríamos hoje de
gala” quando se refere a um uniforme.

Personagens

A reconstrução do romance histórico em Saramago tem na
personagem, como já indiciamos, outro exemplo de subversão. Na tradicional
ordenação das personagens do romance histórico, podíamos encontrar o
protagonista-tipo, representante das evoluções do momento histórico-social e as
figuras históricas típicas. Estes elementos são a antítese em Saramago.

A personagem neste autor é excêntrica e singular. Destaca-se
pelo insólito e pela diferença, como Baltasar e os seus poderes sobrenaturais ou
Blimunda… Por outro lado, o coletivo dos trabalhadores de Mafra, porventura
esquecidos num romance histórico tradicional, são elevados pela diferença ao
centro das atenções na narrativa, numa nítida intenção de valorização.

Blimunda é uma personagem que se destaca pela dinâmica que
imprime à ação e pelas suas facetas peculiares: em jejum, consegue ver “por
dentro” pessoas e objetos, numa combinação do popular, do fantástico e do
fictício.

O padre Bartolomeu Lourenço é o oposto do clero da época:
acadêmico e intelectual que tem dúvidas, é um inventor que sonha com uma máquina
fantástica.

A subversão conhece o seu grau mais elevado no tratamento das
grandes figuras históricas. Ao contrário do que acontece no romance histórico de
Scott e Tolstoi onde Maria Stuart, Luís XI ou Kutusov são figuras inesquecíveis
de recorte de época, pessoal e humano, em Saramago as figuras históricas perdem
a sua grandeza histórica e são pintadas com as cores da caricatura. São exemplos
máximos o rei e a rainha, meros instrumentos da necessidade nacional em produzir
um herdeiro.

A subversão é ainda transgressão na forma de tratamento das
personagens Baltasar e Blimunda que assumem, no fundo, o centro do romance ao
contrário do que o leitor poderia esperar a partir das páginas iniciais, nas
quais Mafra e o casal real se perfilam como núcleo da narrativa.

A relação entre Baltasar e Blimunda está fora de todos os
códigos, nomeadamente os sociais da época tornando-se este par um símbolo da
transgressão e de mensagem para fora do seu tempo e para todos os tempos. O
casal é instituído em comunhão com o universo numa ligação amorosa ilícita e
desviante, sem cânone ou regra de época, alcançando num espaço sem igual uma
perfeição que não é deste mundo.

1. Personagens
Históricos

D. João Quinto,
rei de Portugal, a quem se atribuía grande sabedoria, mau humor e sexualidade
exagerada. No romance, é retratado como um libertino ignorante, libidinoso e
vulgar, que gostava de montar réplica da Basílica de S. Pedro.

D. Ana Maria
Josefa
, princesa austríaca que se tornou rainha de Portugal, casada com D.
João V. A história a descreve como beata, submissa e medrosa.

Padre Bartolomeu
Lourenço de Gusmão
, brasileiro, nascido em 1685, apelidado de “O Voador” por
ter inventado a passarola (aeróstato); morto em 1724, dado como louco pela
Inquisição.

Domênico Scarlatti,
músico italiano barroco, compôs inúmeras músicas para cravo e esteve realmente
em Portugal por tempos, ensinando música para a infanta D. Beatriz. Ao voltar à
Itália, notabilizou-se e ganhou nome e destaque como compositor e maestro.

2. Personagens
de ficção:

As personagens que
compõem este romance nos encantam pela singeleza de que são compostas, pela
coragem, bravura. Mas sobretudo nos encantam pelo que são de humanas, inquietas
e capazes de ir ao encontro de seu verdadeiro destino.

Blimunda de Jesus
(Blimunda Sete-Luas) –
é uma criatura diferente: enxerga as pessoas “por
dentro” se estiver em jejum. Tem 19 anos, é forte, decidida, ama Baltazar assim
que o vê, sabia que ele seria seu amor para sempre: “Correu algum sangue
sobre a esteira. Com as pontas dos dedos médio e indicador umedecidos nele,
Blimunda persignou-se e fez uma cruz no peito de Baltazar, sobre o coração.
Estavam ambos nus.”

Baltazar Mateus
(Baltazar Sete-Sóis) –
fora soldado e, na guerra, perdera a mão esquerda:
“Foi mandado embora do exército por já não ter serventia nele, depois de lhe
cortarem a mão esquerda pelo nó do pulso, estraçalhada por uma bala em frente de
Jerez de los Caballeros.”
Tem 26 anos, é forte e destemido. Também sabe que
terá Blimunda para sempre: “Baltazar Mateus, o Sete-Sóis, está calado, apenas
olha fixamente Blimunda, e de cada vez que ela o olha a ele sente um aperto na
boca do estômago, porque olhos como estes nunca se viram, claros de cinzento, ou
verde, ou azul, que com a luz de fora variam ou o pensamento de dentro, e às
vezes tornam-se negros noturnos ou brancos brilhantes como lascado carvão de
pedra.”


Outras personagens

– João Elvas, Manuel Milho, José pequeno, Álvaro Diogo e Inês Antônia (cunhado
e irmã de Baltazar), Marta Maria (mãe de Baltazar) e João Francisco (pai de
Baltazar).

Enredo

José Saramago volta a apresentar no romance, um contador de histórias, Manuel
Milho, trabalhador na construção do Convento de Mafra e amigo de Baltasar
Sete-Sóis, um dos protagonistas da narrativa. Em volta de uma fogueira, antes de
dormir, sentavam-se os amigos para ouvir a história contada  por Manuel Milho
por etapas, deixando o melhor da história sempre para o dia seguinte, acirrando,
assim,  a curiosidade dos ouvintes que resistiam contra a postergação do fim da
narrativa:  “… O José Pequeno protestou, Nunca se ouviu história assim, em
bocadinhos, e Manuel Milho emendou, Cada dia é um bocado de história, ninguém a
pode contar toda… (Memorial do Convento – pág. 253). A história de
Manuel Milho acaba com uma lição moral que ensina aos ouvintes o exemplo
daqueles que perseguiram tenazmente as suas vontades.

D. João V está casado com D. Maria Ana Josefa há mais de dois
anos, mas ela ainda não engravidou. A rainha reza novenas e, duas vezes por
semana, recebe o rei em seus aposentos.É preciso dizer aqui que o rei, quando
ambos se casaram, dormia com ela todos os dias, mas resolveu separar os
aposentos por causa de um cobertor de penas de ganso que trouxe ela da Áustria,
e, com o passar do tempos, somando-se a ele humores de ambos, passou a ter
cheiro insuportável. O rei não fez ainda 22 anos e monta, para se distrair e
porque gosta, a réplica da Basílica de S. Pedro.

Mas, O cântaro está à espera da fonte, metáfora para
definir que a rainha está à espera do rei como se fora um vaso onde ele
depositará seu sucessor. E para os aposentos da rainha o rei se dirige, mas,
como se fosse um apresentador, o narrador nos informa que chegou ao castelo D.
Nuno da Cunha, bispo inquisidor, e traz consigo um franciscano velho. Afirma o
bispo que o frei Antônio de São José assegurou que se o rei se dignasse a
construir um convento em Mafra, teria descendência:Enquanto isso, a rainha
conversa com a marquesa de Unhão, rezam jaculatórias e proferem nomes de santos.
Saído o bispo e o frei, o rei se anuncia D. Maria tem que “guardar o choco”, a
conselho dos médicos e murmura orações, pedindo ao menos um filho que seja.
Sonha com o infante D. Francisco, seu cunhado e dorme em paz. Em paz? Os
percevejos, mal cessam as mexidas no colchão real, “começam a sair das
fendas, dos refegos, e se deixam cair do alto do dossel, assim tornando mais
rápida a viagem.”
D. João também sonhará esta noite, em seu quarto. Sonhará
com seus descendentes, com o filho que poderá advir da promessa da construção do
convento de Mafra. Um convento, conforme disse frei Antônio de S. José, só para
franciscanos…Frei Miguel da Anunciação morreu de tifo (ou febre tifóide) e seu
corpo exalou, durante três dias, nas cerimônias, um suavíssimo cheiro: “(…)
se vivo fizera caridades, defunto obrava maravilhas.”
A notícia correu e,
antes que invadissem a igreja à procura de milagres, levaram o corpo às ocultas,
e às ocultas o enterraram:

O narrador enfatiza que Lisboa é terra de ladrões que pilham
as igrejas e acrescenta que outros lugares também foram roubados: Guimarães, por
exemplo. Um outro caso que é narrado sobre milagres é o de ladrões que foram
roubar a igreja de S. Francisco e que lá foram recebidos pelo próprio santo, em
pessoa. Um dos ladrões, tomado pelo pavor, sofreu um choque tão grande que ficou
como morto, estatelado, no chão. Socorrido por fiéis que o colocaram sobre o
altar, recuperou-se. O santo transpirou demasiado e para fazer acordar o homem
que estava dado como morto, passaram nele uma toalha umedecida com o suor do
santo. O ladrão se recuperou e, levantou-se e foi embora, “salvo e arrependido”.

Outro caso contado pelo narrador é o do furto de três
lâmpadas de prata do convento de S. Francisco de Xabregas no qual entraram
gatunos pela clarabóia e, passando junto à capela de Santo Antônio, nada ali
roubaram . Entrando na igreja, os frades deram com ela às escuras. Constato que
não era o azeite que faltava, mas as lâmpadas que haviam sido levadas; os
religiosos ainda puderam ver as correntes de onde pendiam as lâmpadas se
balançando e saíram esbaforidos pelas estradas, atrás dos ladrões.

E então, desconfiados de que os ladrões pudessem estar ainda
escondidos na igreja, deram volta a ela, palmilharam-na e só então viram que no
altar de Santo Antônio, rico em parta, nada havia sido mexido.O frade, inflamado
pelo zelo, culpou Santo Antônio por ter deixado ali passar alguém, sem que nada
lhe tirasse, e ir roubar ao altar-mor: O frade deixou que o Menino “como
fiador”, até que o santo se dignasse a devolver as lâmpadas. Dormiram os frades,
alguns temerosos que o santo se desforrasse do insulto… Na manhã seguinte,
apareceu na portaria do convento um estudante que, querendo falar ao prelado,
revelou estarem as lâmpadas no Mosteiro da Cotovia, dos padres da Companhia de
Jesus. O narrador faz-nos desconfiar que tal estudante, apesar de querer ser
padre, fora o autor do furto e que, arrependido, deixara lá as lâmpadas, posto
não ter coragem de restituí-las pessoalmente.

Voltaram as lâmpadas a S. Francisco de Xabregas… Retoma o
narrador o caso do frei Antônio de S. José, observe que ele (o narrador) faz-nos
de novo desconfiar de que o frei, através do confessor de D. Maria Ana, tinha
sabido da gravidez da rainha bem antes de que o rei.

Os homens vão à procissão e as mulheres ficam à janela, “esse
é o costume.” Os penitentes passam com grilhões enrolados às pernas, os ombros
suportando grossas barras de ferro; chicoteiam-se com cordões em cujas pontas
prendem-se bolas de cera dura Depois de rezar, D. Maria Ana, acompanhada das
damas, começa a adormecer. Sonha com o sudário e quando adormece profundamente
aparece-lhe o cunhado Francisco, montado em um cavalo enfeitado, voltando da
caça: Sem a mão, que ficara metade em Portugal, metade na Espanha, Baltazar não
se dobrara: mandara fazer um gancho e um espigão, perambulara pelo interior de
Portugal, soubera que o exército de que fizera parte andava agora roto e
disperso, a tropa andava descalça e violentando mulheres.Baltazar dirigia-se
agora para Lisboa, credor de uma mão que perdera na guerra. Leva os ferros no
alforge porque, em dados momentos, sente que ainda tem a mão e, por isso, se
sente mais livre e feliz. É como se escondesse de si mesmo esta infelicidade.
Passa por Pegões e ali matará um homem, entre dois que o quiseram roubar, mesmo
que os avisasse que nada portava de valor.Baltazar sonha freqüentemente que
ainda tem a mão que perdera; anda descalço. De barco, terminou o percurso e
chegou a Lisboa, finalmente. O cais imundo, com seus cheiros, aguça os sentidos
de Baltazar e torce-lhe o estômago, mas ele tem esperanças de que o indenizem
pela mão perdida. De longe, vê o palácio de D. João V e vendo passar as pessoas,
dá-lhe uma enorme saudade da guerra. Andou por bairros e praças e, por fim, à
tarde, foi beber um caldo à portaria do convento de São Francisco. Conhece João
Elvas, soldado como ele, um pouco mais velho. Ambos pobres, perdidos por Lisboa,
procuram um lugar para dormir: dormiram entre homens, uns temendo os outros,
contando casos de assassinatos e mortes.

D. Maria Ana está de luto pela morte do irmão José, imperador
da Áustria, que morreu de varíola. Apesar de grávida, sangraram-na três vezes e
deixaram-na tão debilitada a ponto de estar abatida. O palácio também está
triste, o rei declarou luto oficial; mas a cidade, esclarece o narrador, está
alegre: Hoje vai haver um auto-de-fé, é um domingo e os moradores gostam de
assistir aos tormentos impostos aos condenados. O rei jantará na Inquisição
junto com os irmãos, os infantes, a rainha, pelo motivo exposto, não participará
da festa. Abunda a comida, o rei é sóbrio e não bebe vinho.O povo furioso grita
impropérios aos condenados, as mulheres, debruçadas nos peitoris, guincham:
“a procissão é uma serpente enorme”
. Entre as pessoas, está Sebastiana Maria
de Jesus, a mãe de Blimunda. Procura aflitamente pela filha, que imaginava estar
condenada também a degredo e de quem não ouviu o nome. Vê a filha entre as
pessoas que acompanham o auto, mas sabe que ela não poderá falar-lhe, sob pena
de condenação. padre e Baltazar estavam com ela em casa:

Baltazar nem sabia por que viera àquela casa; depois do
auto-de-fé viera a ela com padre Bartolomeu Lourenço; Blimunda deixara a porta
aberta para que Baltazar entrasse. Ele viera atrás, o padre acendera a candeia e
Blimunda esquentou a sopa para os três.Havia somente uma colher. O padre comeu
primeiro e passou-a a Baltazar e, depois, pegando a colher de que se servira o
soldado, dirigiu-se à Blimunda: Casados…O padre deitou a bênção em tudo quanto
cercava o casal e saiu.Blimunda jura que nunca olhará por dentro de Baltazar,
ele retruca que ela já o fez: “Juras que não o farás, e já o fizeste.”
Deitaram-se. Blimunda era virgem e entrega-se a ele. Com o sangue que correu
dela, persignou-se, fez uma cruz sobre o peito de Baltazar. E quando amanheceu,
ele viu Blimunda deitada a seu lado, de olhos fechados, a comer pão. Quando
terminou de comer, abriu os olhos e disse: “Nunca te olharei por dentro.”

Corre um boato de que os franceses estão para invadir
Portugal, mas chega, na verdade, uma frota francesa trazendo bacalhau, o que
andava em falta. Baltazar imagina como se sentem os soldados que esperavam pela
batalha,o soldado que mora em Baltazar sente saudades da guerra, mas imagina que
se para lá fosse teria muitas saudades, demasiadas, de Blimunda, de quem ainda
não consegue decifrar direito a certa cor dos olhos.Estavam Baltazar e João
Elvas no Terreiro do Paço, conversando, quando viram sair do palácio o padre
Bartolomeu de Gusmão; João Elvas o aponta como “o Voador”. O padre chama
Baltazar a um lado e diz que, após ter falado aos desembargadores sobre a pensão
de guerra pretendida pelo soldado, por ter perdido nela a mão, responderam a ele
que “iam ponderar o teu caso, se vale a pena fazeres petição, depois me darão
uma reposta.”

Baltazar pergunta quando poderá obter a resposta e Bartolomeu
diz que não sabe, mas promete pessoalmente falar ao rei, “que me distingue
com sua estima e proteção.”
O soldado espanta-se ao saber que o padre
privava da amizade do rei e nada fez para salvar a mãe de Blimunda, que também
era sua conhecida.Baltazar pergunta a ele por que o apelidaram O Voador. O padre
diz porque voara:

Bartolomeu se queixa de que as pessoas não o compreendem e
diz temer o Santo Ofício, por isso tem amizades que o defendam e é cheio de
precauções. O soldado, então, pergunta a ele, que conhecia a mãe de Blimunda e
sabia-lhe as artes, por que a moça sempre come pão antes de abrir os
olhos.Bartolomeu convide Baltazar para ir a S. Sebastião da Pedreira ver a
máquina que estava construindo; aluga uma mula, mas Baltazar vai a pé; o padre
lhe diz que chama por ironia o seu objeto voador de “passarola”. Ao chegar ao
portão da quinta do duque, onde está a máquina voadora, o padre tira a chave do
bolso e abre o portão, depois conduz Baltazar até o celeiro.Bartolomeu
indica-lhe leme, velas e mastro e o convida para trabalhar para ele, o que
assusta o soldado, que se considera, na realidade, um homem do campo e, ainda
por cima, maneta. Sete-Sóis ouvira com atenção a explicação do padre e
levantando um pouco os braços, tomado de coragem, disse.

O padre arranjou emprego para Baltazar, enquanto não pode,
por falta de dinheiro, continuar a construir a passarola. O Sete-Sóis trabalha
num açougue do Terreiro do Paço, transportando peças de carne nas costas. Podem,
então, ele e Blimunda, comer melhor, com o que ganha de resto. D. Maria Ana está
no fim da gravidez, bojuda “como uma nau da Índia”. Holandeses invadem
Pernambuco, naus trazem carregamento da China, há lutas no Recife, mas nada
disso interessa à rainha que batizara a princesa, no dia de Nossa Senhora do Ó,
sete bispos e “ficou a chamar-se Maria Xavier Francisca Leonor Bárbara, logo
ali com o título de Dona adiante, apesar de tão pequena ainda, está ao colo,
baba-se e já é dona(…)”
Do tio e padrinho, D. Francisco, ganhou uma cruz
de brilhantes, pouco, perto do que a mãe recebera do cunhado: brincos de
diamantes, de alto valor.Baltazar e Blimunda foram ver a festa, ele mais
cansado, de tanto carregar tanta carne para o banquete; e dói-lhe a mão
esquerda, na qual usa o gancho para tais finalidades; Blimunda segura-lhe a mão
direita. Frei Antônio morrera pouco antes, sem ter visto o fruto de sua
premonição.

Baltazar acorda sempre cedo, antigo hábito de soldado, e o
narrador nos anuncia que o ano mudou já, distante aquele dia em que ambos se
conheceram e se amaram pela primeira vez. Todos os dias, antes que nascesse o
sol, Blimunda acordava e, antes de abrir os olhos, comia o pão que deixava de
propósito no alforje.Baltazar, hoje, escondera-lhe o pão: “Hoje se saberá.”,
anuncia o narrador pondo-a diante de nós a buscar e tatear o que o soldado havia
escondido. Baltazar avisa a mulher que escondera o pão; ela grita, apavorada,
brava. Confessa a ele que “enxerga as pessoas por dentro”, caso esteja em
jejum, por isso come o pão, mastigando-o vagarosamente antes de abrir os
olhos.Durante todo o dia, no trabalho, duvidou Baltazar se tivera ou não tal
conversa com a mulher que amava, achando que sonhara. À noite, combinaram que ,
dia seguinte, sairiam cedo, ela na frente, sem comer, ele atrás, sem ser visto
por dentro e caminhariam pela cidade. Assim foi. Blimunda indica o lado de
dentro das pessoas: uma mulher com uma criança no ventre, mas o bebê tem duas
voltas do cordão enrolado no pescoço; vê um um peixe gigante, fossilizado, sob o
granito, um frade com suas bichas. E indica-lhe um lugar, onde pede que ele cave
com o gancho, à procura da moeda que ali se encontra.

Pede que a leve para casa, não quer mais ver. Da tença que
pediu ao padre Bartolomeu, nada de notícias ainda; e sabe que o mandarão embora
do açougue logo que possam se livrar dele; restará, no entanto, a portaria dos
conventos onde se oferecem caldos: é difícil morrer de fome em Lisboa. O infante
D. Pedro é nascido e quatro bispos o batizaram..O rei foi a Mafra escolher onde
se construiria o convento prometido.

Blimunda e Sete-Sóis foram trabalhar na quinta do duque de
Aveiro, a pedido do padre. Levavam um quase nada como mudança, tão pouco os
haveres dos dois; e a moça deixou para sempre o lugar em que nascera, onde viveu
Sebastiana Maria de Jesus.Passam a morar ali; Blimunda cata os bichos do cabelo
de Baltazar, mas ele pouco pode ajudá-la: falta-lhe a mão com que mate o inseto.
Mas nem sempre o trabalho pode ser completo para Sete-Sóis.
Uma vez ou outra, levanta-se Blimunda mais cedo, e sem pôr os
olhos em Baltazar, vai inspecionar o trabalho da passarola, a ver se descobre
bolha de ar entrançada nos escondidos do ferro utilizado. Vai desvendando onde o
ferro é frágil e disso gosta o padre. De vez em quando, o padre vem por lá a
experimentar para aquelas paredes os sermões que compõem, enquanto Blimunda
varre o pátio e Baltazar bate os ferros que compõem a passarola. O padre observa
que precisa construir ali uma forja para que possam fundir os
ferros.Anuncia-lhes, ainda, que vai para a Holanda, onde pretende aprender a
arte de comandar o éter, o que fará subir a nave até onde queira.Baltazar e
Bliunda despedem-se de Lisboa e vão a uma tourada; na madrugada seguinte,os dois
partem para Mafra.
Baltazar foi recebido pelo pai e pela mãe, que demonstraram
por ele muitas saudades. Contou-lhes a guerra, a mão perdida e apresentou-lhes
Blimunda. Tiveram alguma dúvida sobre ela, mas esta contou-lhes a vida, a de sua
mãe, negou ser judia e acabou tocando o coração de Marta Maria, a sogra. A única
irmã de Baltazar, Inês Antônia, casara-se com Álvaro Pedreiro e já tinha dois
filhos.Baltazar dispõe-se a arrumar trabalho para si e Blimunda, mas Marta diz
que prefere que ela fique, para que possa conhecê-la devagar. Blimunda, ao ver
os filhos de Inês, sabe que o mais velho vai morrer de bexigas (varíola) e que
só o mais novo sobrará.Em Lisboa, a rainha engravida novamente. D. Pedro morrerá
e o novo infante será rei .

Baltazar ajuda o pai no campo, onde, por força da mão
perdida, tem que reaprender cada coisa. Ainda tenta auxiliar o cunhado na
construção da quinta dos viscondes de Vilanova e pela primeira vez lhe ocorre
que poderia ter perdido uma perna, em vez do braço, seria bem mais fácil, dessa
forma, viver. Todos esperam que se inicie a construção do convento, aí, sim,
haverá trabalho para todos.Em Lisboa, o rei anda doente e de vez em quando lhe
dão confissão e extrema-unção; vai para Azeitão ver se com mezinhas se curam
estas melancolias de que sofre. D. Francisco fica em Lisboa, a tramar a sua vida
e a do próprio irmão; pela cabeça dele passam pensamentos esquisitos como
casar-se com a cunhada. Por sua vez, D. Maria Ana tem sonhos que considera
.Confessam-se ambos o amor que nutrem um pelo outro, mas D. João se salvará e
nunca mais D. Maria reviverá tais sonhos ou conversas com o cunhado.

O padre Bartolomeu regressou da Holanda, não sabemos se
trouxe ou não os segredos que buscava. Foi à Quinta de S. Sebastião da Pedreira:
três anos inteiros haviam se passado e tudo estava abandonado, o material que
trabalhara disperso pelo chão, “ninguém adivinharia o que ali se andara
perpetrando.”
O padre vê rastros de Baltazar, mas não os vê de Blimunda e
julga que ela morrera. Depois, parte para Coimbra, não sem antes passar por
Mafra, onde vai ver os homens que iniciam o trabalho do Convento.Procurou por
Baltazar e Blimunda, ao pároco, informa que os casara em Lisboa. Blimunda veio
abrir a porta e reconheceu-o pelo vulto, quando desmontava. Beijou-lhe a mão.
Marta Maria estranhou que sua nora fosse abrir a porta a quem não batesse ainda.
Mais tarde, chegam Baltazar e o pai e aquele, por convivência com Blimunda, ao
ver a mula adivinha tratar-se do padre. Marta Maria, que já desconfiava ter uma
“nascida” (tumor) no ventre, lamenta nada ter a oferecer ao padre, nem comida —
a não ser o galo -, nem abrigo para passar a noite. O padre Bartolomeu dorme na
casa do pároco e, pela madrugada, chegam Blimunda e Baltazar. Ela sem comer.
Bartolomeu os ama, eles sabem:Baltazar pergunta se o éter é a alma e o padre diz
que não, que é da vontade dos vivos que ele se compõe. Blimunda espantou-se e o
padre pediu que ela o olhasse por dentro. Ela viu uma nuvem escura, à altura do
estômago. Era a vontade, diferente da alma, o que faria voar a passarola.
Bartolomeu montou na mula, disse que ia a Coimbra e que, quando retornasse à
Lisboa, mandaria avisar os dois para que lá tivessem. Baltazar ofereceu o pão à
Blimunda, mas ela pediu, primeiro, pra ver a vontade dos homens que trabalhavam
no convento.

O filho mais velho de Inês Antônia e Álvaro Diogo morreu há
três meses, de bexigas. Álvaro tem a promessa de conseguir emprego na construção
do convento; Marta Maria sofre de dores terríveis no ventre. João Francisco está
infeliz porque o filho partirá novamente para Lisboa, e o convento dará trabalho
a muitos homens. Blimunda foi a missa em jejum e viu que dentro da hóstia também
havia a tal nuvem fechada, vontade dos homens… O padre Bartolomeu de Gusmão
escreve de Coimbra e diz ter chegado bem, mas agora viera uma nova carta para
que seguissem para Lisboa “tão cedo pudessem”. Partiram em dois meses, porque o
rei vinha a Mafra inaugurar a obra do convento. Sete-Sóis e Blimunda conseguiram
lugar na igreja. No dia seguinte formou-se a procissão, o rei apareceu. A pedra
principal foi benzida; foi tanta a pompa que gastaram-se nisso duzentos mil
cruzados. Partiram Baltazar e Blimunda para Lisboa. A mãe Marta Maria se despede
do filho dizendo que não o tornará a ver. Blimunda e Sete-Sóis dormem na
estrada. Por fim, chegaram à quinta onde esperariam o padre voador. Mal
chegaram, choveu.

Os arames e os ferros enferrujaram-se e os panos da passarola
cobrem-se de mofo; o vime, ressequido, destrança-se: “obra que em meio ficou
não precisa envelhecer para ser ruína.”
Baltazar experimenta os ferros, tudo
perdido, melhor começar outra vez. Enquanto o padre não chega, constrói-se a
forja, vai-se a um ferreiro e vê como se faz o fole. Quando Bartolomeu de Gusmão
chegou e viu o fole pronto, peça por peça desenhada e feita por Sete-Sóis, ficou
contente e disse: “Um dia voarão os filhos do homem.” Encomendou a
Blimunda duas mil vontades dos homens e mulheres que morreriam a fim de que,
junto com âmbar e ímãs, pudessem fazer subir a nau que agora construíam. O padre
distribui tarefas, indica a Sete-Sóis onde comprar ferro, vime e peles para os
foles, pede segredo absoluto de tudo o que estão a fazer. Trabalham na passarola
quase um ano inteiro, procissões passam em delírio pelas ruas, povo misturado ao
clero, clero misturado aos nobres.

O padre Bartolomeu Lourenço voltou a Coimbra já doutor em
cânones, e agora pode ser visto na casa de uma viúva. D. João manda vir da
itália o maestro barroco Domênico Scarlatti, a fim de dar lições de música a sua
filha, a infanta D. Maria Bárbara. Maestro e padre tornam-se amigos, comungando
as mesmas idéias e sonhos. Confiante no amigo, o padre leva-o a S. Sebastião da
Pedreira. Padre Bartolomeu apresenta os amigos e a passarola a Scarlatti.
Blimunda chega da horta trazendo “brincos de cereja”, a fim de brincar com
Baltazar. Quando os viu, o músico pensou: Vênus e Vulcano… É bom você se
lembrar disso também: o mito que rege o livro é exatamente este: Vênus e Vulcano,
a deusa da beleza e o feio e desengonçado, manco Vulcano, filho feito somente
por Hera, a quem horrorizou o nascimento de filho tão feio… O padre diz a
Scarlatti que ele e Baltazar têm, ambos, 35 anos e que não poderiam ser pai e
filho, mas poderiam ser irmãos; portanto, desde o começo da história, o tempo
que se passou pode ser contado: nove anos.Mostrada a passarola por dentro,
retira-se o músico, mas promete voltar e trazer o cravo, que tocará enquanto
Blimunda e Baltazar trabalham. O padre lá permaneceu, onde treinou seu sermão
para que os dois ouvissem. Discutem sobre Deus uno, trino. Blimunda adormeceu,
com a cabeça apoiada no ombro de Baltazar; um pouco mais tarde ele a levou para
dormir. O padre saiu para o pátio, e toda a noite ali permaneceu, tomado por
tentações.
Muitas vezes voltou o maestro à quinta e pedia que não
parassem o trabalho; ali, em meio aos ruídos e grandes barulhos, confusão,
tocava seu cravo.Há um surto de varíola em Lisboa, oriundo de uma nau vinda do
Brasil. O padre pede à Blimunda que vá à cidade e recolha as vontades das
pessoas. É assim que ela, em jejum, um dia inteiro se põe a recolher tais
vontades. Um mês depois, são mais de mil vontades presas ao frasco em que
Blimunda as recolhia; e quando a epidemia terminou, ela havia aprisionado duas
mil vontades.Foi então que Blimunda caiu doente. Nada a curava da extrema
magreza; mas um dia, Scarlatti pôs a tocar e ela abriu os olhos e chorou. O
maestro veio, então, todos os dias, havendo chuva ou sol; e a saúde de Blimunda
voltou depressa.Um dia , Baltazar e Blimunda vão à Lisboa e encontram Bartolomeu
doente, magro e pálido. Parecia ter medo de algo.

O duque de Aveiro está por voltar, Blimunda e Sete-Sóis
querem saber que destino darão às suas vidas. Morre o Infante D. Miguel por
salvar D. Francisco, dizem que o reino está mal governado. Blimunda diz ao padre
saber que o Santo Ofício se aproxima dele e Bartolomeu fica com medo de que o
acusem de haver se convertido ao judaísmo (isso realmente aconteceu na história
real de Bartolomeu Lourenço de Gusmão), que se entrega a feitiçarias. Presos à
quinta, os dois vêem passar os meses; um dia, ouvem a mula do padre bater os
cascos nas pedras.

Eram duas horas da tarde e havia muito trabalho a fazer, não
poderiam mais perder sequer um minuto. retiraram as telhas, colocaram as bolas
de âmbar nos cruzamentos dos arames, abriram as velas superiores. Blimunda está
calma, como se em toda a sua vida nada mais tivesse feito senão voar. Às quatro
horas está tudo pronto; o cravo ficará lá, a fim de despertar a curiosidade dos
inquisidores. Subiu a passarola. Baltazar e Blimunda foram lançados ao chão,
Bartolomeu controlou-a e chamou os dois:

Já não tinham medo de nada, ela e Baltazar. Quando Sete-Sóis
viu que voavam tão belamente, pôs-se a chorar; aquele homem tão forte, que já
estivera na guerra e já matara um homem com seu espigão, chorava agora de
felicidade. Abraçaram-se os três e ainda tiveram tempo de ver, do alto, os
homens que os perseguiam. Nada foi achado na quinta a não ser vestígios, nem o
cravo se achou porque Scarlatti, indo visitar a quinta, viu quando os três
fugiam às pressas na passarola. Entrando, deu fim ao cravo, jogando-o no poço.
Quando, finalmente, passam por sobre Mafra, velejam sobre as obras do convento e
as pessoas, tantas, julgam ter visto ali, naquela hora, passar sobre eles o
Espírito Santo. A máquina pousara, o padre, falando a pessoas invisíveis, parece
ter enlouquecido. Quando ambos dormem, o padre tenta atear fogo à máquina , mas
Baltazar e Blimunda, sacudidos do sonho, salvam a passarola. Ao amanhecer, dão
pelo desaparecimento de Bartolomeu de Gusmão. Fingindo vir de Lisboa, chegam a
Mafra. Ouvem os homens estarrecidos contarem sobre a passagem do Espírito Santo
sobre o convento.

Num tempo em que sucedem tantos prodígios, Blimunda e
Sete-Sóis não podem comentar que voaram porque estariam perdidos. Estavam todos
na casa dos pais de Baltazar, o pai estava triste pela morte da mãe, mas Inês
Antônia contou-lhes, maravilhada, os prodígios do Espírito Santo. Na manhã
seguinte, Baltazar sai de casa com o cunhado e vai em busca do emprego na obra
da construção do convento. A Mafra, chegam notícias de que Lisboa sofreu um
terremoto, não muito danoso, apenas caíram beirais: Cuida dela, esconde-a
melhor. Dois meses mais tarde, vê Blimunda que, como sempre, vem esperá-lo no
caminho. Ao vê-la toda trêmula e nervosa, presume que o pai está doente, mas
não. Blimunda lhe conta que Scarlatti está na casa do visconde. No outro dia,
desconfiada de que ele viera delatá-los, rondou o palácio. Scarlatti tinha feito
um pedido ao rei para que pudesse pôr os olhos sobre a construção do convento e
o visconde o hospedara, apesar de não gostar de música. Mas encontram-se, e se
falam. No dia seguinte, o música vai embora, mas no caminho esperam-no, para se
despedirem, Baltazar e Blimunda. Scarlatti vai triste.
O reino português vai cada vez melhor: diamantes,
especiarias, impostos, milhões de cruzados se arrecadam. D. João V pensa o que
fazer com tanto dinheiro, mas conclui que deve ser a alma a primeira a ser
cuidada. Em Mafra, continua a construção do convento.Cada um deles conta, em
primeira pessoa, a sua história de família, destino e expectativas, e cada um
deles é narrador em foco cambiante.Durante muitos meses, Baltazar havia puxado e
empurrado carros de mão, até que um dia, com a promoção e ajuda de João Pequeno,
começou a puxar uma junta de bois, fazendo companhia ao amigo corcunda. Se lá
podia funcionar como boieiro um aleijado, podiam, então, ir dois. Quando
amanhece, logo que o dia nasceu, em meio ao calor de Junho, os homens saem a
cumprir três léguas até o lugar onde está a pedra. Pelo tamanho, tal pedra
espanta a todos que confessam nunca ter visto coisa igual na vida. Todos se
dispuseram a cavar, a achar caminho, maneira ou jeito de levá-la a Mafra sem que
quebrasse. O narrador lembra Arquimedes: “Dêem-me um ponto de apoio para
vocês levantarem o mundo”
, parodia. Puxada a braço, lá vinha a pedra, em
meio a um grande alarido das pessoas; depois, como que transportado para a
guerra, Baltazar viu, num átimo de segundo, um esguiço de sangue: um homem se
ferira, mas os esforço continuam.

É extenuante ler o capítulo, pleno de descrições dos esforços
para que tal pedra fosse removida: no primeiro dia, não avançaram mais do que
quinhentos passos. Os homens dormem quando anoitece, alguns contam histórias
sobre reis e rainhas. Continuam as histórias contadas pelos homens, história sem
pé nem cabeça, meninas com estrelas na testa, princesa que guardava patos.
Francisco Marques, distraído, foi atropelado e morto pelo carro, a roda passou
sobre o ventre, que ficou uma pasta de vísceras e ossos. Depois, ao chegarem ao
fundo do vale, a plataforma desandou e atingiu dois animais: foi preciso que os
matassem.Baltazar tinha ido seis ou sete vezes ao Monte Junto, a fim de ver a
passarola, remediar-lhe os estragos que o tempo ia causando nela; como se se
enferrujassem as lâminas de ferro, levou para lá uma panela de sebo e untou
cuidadosamente as juntas

Pela primeira vez em três anos, Blimunda diz que quer ir
junto para aprender o caminho. No caminho, cortou os vimes, colheu lírios d’água
para Blimunda que fez deles uma guirlanda para enfeitar o burro. O tempo é de
primavera e as flores cobrem o campo, e Blimunda toma nota do caminho para, se
precisar, reconhecê-lo depois, quando sozinha. Chegaram ao monte; Baltazar
trabalhou, ferindo-se na mão. Tudo está em estado de decomposição; enquanto ela
cosia as velas, ele azeitava as engrenagens. Dormiram depois de se procurarem
cheios de amor um pelo outro e, ao amanhecer, sem olhar seu homem por dentro,
Blimunda foi olhar as esferas e viu dentro delas as vontades presas. Comeu pão,
Baltazar acordou e fizeram amor novamente.Pelo meio da manhã, acabaram o
trabalho: por serem dois, a máquina estava como que renovada e se foram para
Mafra outra vez.Morreu o pai de Baltazar, João Francisco.D. João V continua a
montar e desmontar a basílica de S. Pedro, “um lugar de fingimento onde nunca
serão rezadas missas verdadeiras, embora Deus esteja em todo o lado.”
E
mandou chamar o arquiteto de Mafra, um tal João Frederico Ludovice, a fim de
pedir-lhe que construísse em Portugal uma basílica igual ao do Vaticano. O
arquiteto concordou, mas achou-o néscio porque a obra exterior poderia ser a
mesma, mas teria ele, o rei, que fazer nascer um pintor como Rafael, um Sangallo,
um Peruzzi , para a fazer valer algo.

Inconsolável, melancólico, o rei resolve, então, ampliar o
convento de Mafra e se reúne, no dia seguinte, com o provincial dos franciscanos
que, ouvindo tão boa notícia.Assim que saíram o provincial e o arquiteto, mandou
D. João V vir à sua presença o guarda-livros. E dobra o rei o salário do
guarda-livros. A Mafra, manda o rei um vedor, doutor Leandro de Melo, para que
encontre João Frederico Ludovice e lhe entregue uma carta. O engenheiro beija o
selo real e empalidece: não bastava o que havia combinado com o rei e este já
lhe envia outro aumento para o prédio, quer agora um novo corpo da construção,
que abrigue trezentos frades e que se arrase logo o monte por detrás da obra e
tudo o que ao redor dela está. O rei escreveu a Baltazar e João Pequeno. Então,
o rei sabia de tudo… Baltazar pensa em responder, tem vergonha, mas pensa no
seu rei. Sabedor de que poderia morrer sem ver o convento inaugurado, D. João V
dá uma ordem ao corregedor: buscar e intimar todos os homens de Lisboa, quiçá de
Portugal, para que fossem todos trabalhar em Mafra. O trecho se parece com a
despedida dos parentes, na Praia do Restelo, por ocasião da saída das naus de
Vasco da Gama para as Índias.

De todo Portugal chegam homens e são escolhidos um a um. A
Infanta Maria Bárbara casa-se com Fernando da Espanha. Esta é a marca do tempo
narrativo de Saramago: os fatos históricos. O noivo tem dois anos a menos que
ela, e nunca será rei, pois é o sexto na linha sucessória. Domênico Scarlatti
toca seu cravo para uma multidão de ignorantes, por ocasião do casamento da
Infanta Dona Maria Bárbara, na fronteira com a Espanha. Neste capítulo, o
narrador fala da procissão que levará os santos para serem colocados nos altares
do convento de Mafra: S. Francisco, Santa Teresa, Santa Clara, S. Vicente, S.
Sebastião e Santa Isabel. Seguem também para Mafra frei Manuel da Cruz e seus
noviços, trinta, e ali, quando chegam cansados, são recebidos em triunfo.
Baltazar vai para casa, o narrador nos anuncia que ele está velho: Depois da
ceia, quando todos dormem, Baltazar leva Blimunda para ver as estátuas; juntos,
vêem a lua nascer enorme, vermelha. Ele anuncia que vai ao Monte junto na manhã
seguinte, ver como está a passarola. Ela pede cuidados, ele responde que ela
fique sossegada, que seu dia ainda não chegou.Olham os santos inertes, o que
seria aquilo? Morte, santidade ou condenação? Quando amanheceu, Blimunda se
levantou e pegou a comida para o farnel do marido que ia ao Monte Junto,
acompanhou-o até fora da vila: “Adeus, Blimunda, Adeus Baltazar.” E se
separam.Ao chegar ao lugar onde está a passarola, Baltazar come as sardinhas que
lhe pusera a mulher no alforje: havia tanto trabalho a fazer.

Baltazar não voltou para casa, o que fez Blimunda não dormir
aquela noite. Esperara que ele voltasse ao cair do dia, haveria os festejos da
sagração da basílica, mas ele não voltara. Em jejum, olhando as pessoas que
passavam para a festa, estava sentada numa vala e ali ficou, vendo o que os
seres carregavam por dentro; recebendo xingamentos, dizendo outros. Voltou para
casa, ceou com os cunhados e o sobrinho. Também não dormirá. O rei virá a Mafra
e Blimunda não o verá; vai esperar Baltazar pelos caminhos, desesperadamente
tentando encontrá-lo. Grita inúmeras vezes por ele. Viu os arbustos arrancados,
a depressão que o peso da máquina fizera no chão e o alforje de Baltazar.
Procurou por todo lado, os pés sangrando nos espinhos. Começou a subir ao cume
do monte, a fim de poder ver tudo ao redor. Mas no caminho estacou, à sua frente
caminhava um frade dominicano, corpulento, a quem perguntou pelo seu homem,
faltava-lhe a mão esquerda, não o tinha visto? Viera cá por ouvir dizer que aqui
habitava um enorme pássaro…

O frade aconselha-a a procurar abrigo, vai anoitecer, poderia
dormir ali, nas ruínas do mosteiro. Sentada à beira do caminho, o cabelo
desgrenhado, vazia do homem que ama, Blimunda chora e pensa em Baltazar, se
morto, se vivo. Depois vai se refugiar nas ruínas onde o frade a busca tentando
saciar seus instintos. Mas Blimunda o mata com o espigão de Baltazar. E depois,
arrancando o espigão que se fincara entre as costelas do frei, pôs novamente a
andar.Depois, imaginou ela a caminho de Pedregulho que ele poderia estar em
Mafra, que tinham se desencontrado no caminho e pôs-se a correr como uma doida.
À tardinha, chegaram Inês Antônio e Álvaro Diogo e a encontraram dormindo. Pela
manhã, esquecida de comer o pão, viu-os por dentro, vomitou e Inês achou que ao
fim de todo este tempo poderia ela estar grávida. O narrador nos anuncia que D.
João V fez quarenta e um anos e que era 22 de outubro de 1730. Durante nove
anos, Blimunda perambulou pelos caminhos de pó e lama, de branda areia e pedra
aguda, neve. Ainda não queria morrer. Sabia que Baltazar estava vivo e se
dispunha a procurá-lo por onde quer que fosse.

Julgavam-na doida, mas ouvindo-lhe as demais sensatas palavras e ações, ficavam
indecisos se aquilo que dizia era ou não falta de juízo completo. Passou a ser
chamada de A Voadora, e sentava-se, então, às postas, ouvindo das mulheres as
queixas. Por onde passava, as mulheres lamentavam, depois, que seus homens não
tivessem também sumido, para que elas pudessem, ao menos, devotar-lhes um amor
tão grande quanto o de Blimunda a Baltazar. E os homens, quando ela partia,
ficavam tristes inexplicavelmente tristes.Pouco faltou para que a tomassem como
santa. Milhares de léguas andou Blimunda, quase sempre descalça, “Portugal
inteiro esteve debaixo desses passos”
. Voltava aos lugares por onde
passara, sempre indagando. Seis vezes passara por Lisboa, esta, a que vinha
agora, era a sétima. Sem comer, o tempo era chegado para ela. No Rossio, finalmente
encontrou Baltazar. Havia lá um auto-de-fé. Eram onze os condenados à fogueira;
entre eles, estava o brasileiro Antônio José da Silva, o Judeu, comediógrafo
autor das Guerras de Alecrim e Manjerona.

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