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O Menino, de João Uchôa Cavalcanti Netto

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O Menino

é o título de uma coletânea de contos e é também o ponto mais
alto da prosa de ficção de João Uchôa Cavalcanti Netto. O livro tem como epígrafe,
célebre passagem do Evangelho. Jesus diz aos discípulos que o modelo de vida
deve ser o dos meninos: “Não entrareis no reino dos céus se não vos converterdes
e não vos fizerdes como meninos”. Para exemplificar o ensinamento, chama uma
criança e a põe na roda da conversa.

O primeiro conto, “A mãe”, descreve o nascimento. Serve-se de viés absolutamente
original, não no conceito, mas na forma de expressá-lo, já que a dependência
que os meninos têm da mãe tem sido matéria tratada à exaustão por profissionais
de diversos ofícios, alguns até apresentando os meninos como parricidas natos,
como é o caso de Freud ao examinar o mito de Édipo e operá-lo como metáfora
esclarecedora dos conflitos iniciais de nossa existência.

Neste conto o menino vê a mãe como “o primeiro deus”: “Aquele Ser o completa
e apaga num instante todas as dores. E nasce o medo (de perder), o desejo (de
receber), o amor (se integrar, se identificar), o ódio (pela ausência), a culpa
(sim, pois odiou), todos os sentimentos se endereçam àquele Ser indispensável,
poderoso. Poderoso”. O fechamento do conto, um dos três momentos decisivos de
qualquer narração – os outros dois são a abertura e as tramas que se sucedem
para preparar o fim – traz um ensinamento que lembra o “claro raio ordenador”,
de que Drummond fala num poema.

O conto seguinte, “O velho”, trata de junção já famosa em tantas literaturas,
as tais “duas pontas da vida” que Machado de Assis quer atar em Dom Camurro,
quando narra os amores de Capitu, cujo amor é partilhado por dois meninos, Bentinho
e Escobar. As “duas pontas da vida” neste conto celebram outro amor,
aquele que vige entre avô e neto, talvez o mais puro dos amores, já que um dos
mais desinteressados. O avô nada quer do neto, o neto nada quer do avô, querem
apenas o amor um do outro.

Com efeito, o amor dos pais, conquanto incomensurável, não pode contudo deixar
de lado a responsabilidade de educar os filhos, criando um clima de direitos
e deveres mútuos. Para avós e netos, não. O avô pode ter a alegre irresponsabilidade
de deixar a tarefa para os filhos. Eles que eduquem seus filhos. Os avós querem
convívio sem obrigações. Nem todos conseguem, mas este é o projeto.

No conto, porém, o avô tem com o neto, de mãos dadas com ele, o estilo que Dalton
Trevisan disse que o contista busca a vida inteira, o estilo escorreito e sintético
do suicida. Mas o neto já dorme, e o velho fala de si para si mesmo, lembrando
o suicídio do sócio, que se enforcou aos 89 anos. No velório, certa moça dissera:
“nessa idade se suicidar: já não custava esperar”. Mas custava e muito. O avô,
aproveitando que o interlocutor mirim está dormindo, exala recomendação impossível
de ser acolhida: “meu neto, meu neto, um conselho: não cresça, e não há mais
o que acrescentar”.

Em “O cachorro”, a narrativa é simplesmente vertiginosa. Um homem leva ao veterinário
um cachorro atropelado: “o senhor falando em mártires, os mártires, e enchendo
a boca, mas os mártires são felizes, quem me dera ser mártir, duro é sacrifício
sem direção, como o dos meninos e dos bichos, e no entanto reparou? são os únicos
que agonizam mansamente”.

A coletânea O menino, é terna sem ser piegas. Verdadeira e profunda,
nos conduz a uma leitura agradável, entretanto sem concessões. A última frase
do conto que fecha o volume, “A morte”, é: “Deus precisava ter piedade do mundo”.
Deus um dia se fez menino. Naquele tempo, parece que tinha compaixão pelo mundo.
Como os meninos são imortais, pode ser que ainda tenha.

Observação: O Menino tem frases com 78 palavras. Por exemplo: Mas o funcionamento porco
da morte, a preguiça da transformação, a rigidez medonha, a fedentina da carne apodrecida misturada ao
cheiro das flores murchas machucadas, o colarinho branco engomado sob rosto em carniça, o cadáver
sórdido em trajes solenes comido e comido pelos vermes no vazio da tumba, os beiços devorados e a
dentadura exibida, o silêncio brutal enquanto à noite lá fora os vivos, contentes, esqueciam a condição
natural, e a gratuidade do desassistido show infernal
.

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