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Penélope (Conto), de Dalton Trevisan

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No conto Penélope, de Dalton Trevisan, a aparente banalidade
do enredo que gira em torno de um casal de velhos que tem sua vida metódica
abalada por uma série de cartas anônimas que promovem o ciúme
paranóico do marido e o suicídio da mulher, se desfaz quando se
observa a construção da linguagem e a maneira como o autor apresenta
os fatos, criando um clima de suspense e expectativa. É notável
seu intertexto com a personagem Penélope, esposa de Ulisses, não
só pelo nome do conto e da personagem, mas, sobretudo, pela simbologia
da fiação. O autor vale-se do mito de Penélope para “reinventar”
a história por meio do recurso parodístico e criar uma nova história,
uma nova situação condizente com os novos tempos e rumos da sociedade
e do homem moderno.

A Penélope de Dalton é um espectro daquilo que já foi
mais nobre e elevado na arte; espectro que não implica, necessariamente,
morte, mas prorrogação e repetição (degradadas).

Ao parodiar o mito da personagem Penélope, Dalton Trevisan inaugurou
um “novo paradigma”, pois faz uma gozação irônica
às “novelas exemplares”, de Cervantes, e instaura uma inversão
de sentido, proporcionando ao leitor uma versão diferente, em que a instituição
familiar e o matrimônio não são vistos como instituições
sagradas, mas passíveis de dissolução pelas atitudes do
ser humano. É evidente, portanto, o diálogo intertextual e parodístico
que o autor faz com o mito grego de Penélope, personagem famosa por sua
fidelidade ao marido, posta à prova numa espera de vinte anos enquanto
Ulisses estava ausente, lutando em Tróia e, na viagem de volta para Ítaca,
ele se envolve em uma série de aventuras que retardam sua volta. Durante
sua ausência, Penélope é disputada por vários pretendentes
e, para despistá-los, urde um plano: tecer, antes da escolha, a mortalha
de Laerte, pai de Ulisses. Porém, para ganhar tempo, desfazia à
noite o bordado feito durante a dia, até o regresso do marido, quando
é recompensada por sua fidelidade. Embora Trevisan faça referência
à personagem da mitologia, no conto, o autor faz uma inversão
irônica deste mito, pois, se na versão mitológica, o que
está em jogo é o amor, o encontro, a fidelidade e a indissolubilidade
do casamento, no conto, os elementos são outros: a morte, o drama da
infidelidade e a dissolução do casamento. Não há
possibilidade de reencontro amoroso, porque não existe mais este “modelo”
de casamento feliz. Trevisan apresenta uma característica negativa da
instituição familiar e inverte os famosos “finais felizes”,
apresentando a miséria comum, os dramas e as frustrações
do homem em sociedade. O autor parodia estes “finais felizes” e
desenvolve um contra-canto, demonstrado que, na sociedade moderna, as pessoas
convivem com traumas, paranóias e medos. Mas, apesar de mostrar este
lado mais “nefasto” do ser humano, Trevisan o faz de uma maneira
surpreendente, pois ele não aponta, não culpa nem defende o marido
por seu ciúme paranóico e doentio, ele limita-se a apresentá-lo,
afinal, ele é “homem” e o ser humano comete falhas e enganos.

Esta apresentação “sem juízo de valor” do
drama do marido chega ao leitor pela voz de um narrador onisciente, que penetra
na consciência da personagem de tal modo que, em certos momentos, não
fica evidente se é a voz do narrador ou o pensamento do marido: uma voz
que se introjeta entre o discurso do narrador e do protagonista e que segue
o fluxo de consciência.

Acendeu o abajur de franja verde. Sobre a poltrona, as agulhas cruzadas
na cestinha. Era sábado, recordou-se. Pessoa alguma tinha poder de fazer-lhe
mal. A mulher pagara pelo crime. Ou – de repente o alarido no peito –
acaso inocente? A carta jogada sob outras portas… Por engano na sua
.
(TREVISAN, 1979, p. 176).

A narrativa reconstitui o processo de construção de ciúme
percorrendo o “itinerário” que vai do fluxo de consciência
e da imaginação do marido aos acontecimentos concretos –
a série de cartas anônimas deixadas na porta do casal todos os
sábados enquanto saiam ao passeio rotineiro. Entre a evidência
das cartas e a incerteza da traição, o narrador acompanha o conflito
do marido e penetra em seu inconsciente afetado pelo ciúme, mas deixa
a mulher numa redoma de mistério. Os pensamentos de Penélope são
uma incógnita, pois não se sabe seu ponto de vista em relação
aos fatos, ela aparece sempre tricotando sua toalhinha, envolta numa rede na
qual é tanto senhora quanto objeto da trama.

A narrativa faz uma intersecção com o pensamento do marido e
nesta paranóia de ciúme acaba deixando insinuações
de que Penélope não seria tão inocente assim. De acordo
com Kury, numa versão aberrante da lenda, “Penélope
ter-se-ia entregue a todos os pretendentes (mais de cem), e desse adultério
com todos eles teria concebido o deus Pan
” (1999, p.313). No conto,
o narrador intercala um discurso indireto livre que gera estas suspeitas da
possível traição de Penélope, mas ficam apenas no
plano do interdito, uma vez que não se conhece o ponto de vista da mulher.

Voltando as folhas, surpreendia o rosto debruçado sobre as agulhas.
Toalhinha difícil, trabalhada havia meses. Recordou a legenda de Penélope,
que desfazia de noite, à luz do archote, as linhas acabadas durante o
dia e, à espera do marido, assim ganhava tempo de seus pretendentes.
Calou-se no meio da história: ao marido ausente enganara Penélope?
Para quem a mortalha que trançava? Continuou a estalar as agulhas após
o regresso de Ulisses?
(TREVISAN, 1979, p.173).

O narrador apresenta o discurso de um homem sem nome atormentado pela desconfiança
da traição da mulher e que conhece o legendário de Penélope.
O conto torna-se altamente significativo pelas associações entre
as duas personagens que, propositalmente, chamam-se Penélope e igualmente
aparecem relacionadas às fiandeiras, mas se distanciam pela oposição
crucial entre vida e morte. Se, no mito, o que está em jogo é
o amor que leva à vida conjugal, no conto, é a morte e a desconfiança
que provoca a fatal separação do casal.

Pelas características das personagens do marido e da mulher que o narrador
deixa entrever, há no conto uma forte oposição entre Eros
e Thanatos, não só em termos de inversão mítica,
mas também na estrutura interna da narrativa e do comportamento das personagens:
amor e morte se entrelaçam o tempo todo na trama da vida. Na descrição
do marido, por exemplo, ele é fortemente influenciado por Thanatos, pois
ele está sempre de mal com a vida, veste-se de preto e planta cacto feroz
– “Nem a uma rosa se atrevia a dar seu resto de amor
(TREVISAN, 1979, p. 171). Embora apresente esta característica sombria,
o resto de amor que lhe sobrava era dedicado à mulher – a sua única
companheira, descrita por ele com um tom de carinho e afeição
que lembra o cantar de namorado das cantigas de amigo. Este sentimento que nutre
pela companheira é quase uma “dependência”, uma vez
que a simples possibilidade de a mulher o estar traindo gera toda a crise de
desconfiança que o afastará para sempre da mulher e culminará
com a perda definitiva do resto de amor que ele nutria – “Por
cima do jornal admirava a cabeça querida, sem cabelo branco, os olhos
que, apesar dos anos, eram azuis como no primeiro dia
”(TREVISAN,
1979, p. 172). Mas o comportamento do marido demonstra ser o de uma pessoa insegura,
que se fechou para a vida e “contamina” de uma carga “negativa”
todos que convivem com ele. A visão um tanto pessimista da vida e o ciúme
incontrolável e doentio em relação à mulher provocam
a supremacia da morte sobre a vida, o que faz com que sua vida seja influenciada
pela regência de Thanatos. A semente da desconfiança é plantada
pelas cartas que funcionam como um “canto de sereia” traiçoeiro
que enfeitiçou e seduziu o coração do velho, tornando-o
cego e atraindo-o para as armadilhas de uma morte em vida ou da vida.

A esposa, no entanto, apresenta indicativos de que é um pouco mais feliz,
ou de resquícios de felicidade, pois conserva, ainda, sinais de caridade
e amor e de uma visão mais positiva da vida: usava vestido branco; na
ausência do marido, trazia um osso para o cão vagabundo, era incapaz
de matar uma galinha. Apesar destes indicativos, Penélope tem sua voz
limitada e seus pensamentos silenciados, como se a influência de Eros
fosse perdendo forças, ao longo do tempo, diante do “coração
de ferro” de Thanatos.

Mas este “silêncio” de Penélope não invalida
a importância da personagem na trama, uma vez que, pela paródia,
é possível resgatar informações adicionais que não
se encontram explícitas na narrativa. No conto, Penélope ora se
aproxima ora se afasta da Penélope mítica pela oposição
Eros/Thanatos que remete à simbologia do ato de fiar. A ação
de tecer representa criação e vida, abrange o domínio do
ritmo e da continuidade, aos movimentos de ir e vir, fazer e desfazer: os elementos
vida e morte correspondem ao vaivém da urdidura. Assim como no mito,
Penélope tece/borda uma toalhinha, fazendo e desfazendo pontos, num trabalho
que exige tempo e paciência. Porém, se no mito, ao bordar a mortalha
do sogro, Penélope perpetua o amor ao marido, tecendo de longe a trama
da vida e do encontro; no conto, Penélope tece, perto do marido, a mortalha
da morte e da separação – “Entrou na sala, viu
a toalhinha na mesa – a toalhinha de tricô. Penélope havia
concluído a obra, era a própria mortalha que tecia – o marido
em casa
” (TREVISAN, 1979,p. 175).

Segundo Chevalier e Gheerbrant, o trabalho de tecelagem é um ato de
criação, pois “Quando o tecido está pronto, o
tecelão corta os fios queo prendem ao tear
” (2001, p. 872).
O tecido, o fio e o tear são símbolos do destino, servem para
designar tudo que rege ou intervém no destino. O simbolismo do fio é
o agente que liga todos os estados da existência entre si, liga um mundo
e um ser a outro mundo e outro ser e, sobretudo, liga, conduz e fia o destino
dos homens.

O ato de fiar representa um eterno retorno pelo processo de tecer e desfazer
o trabalho começado, recomeçado e interminável. A escolha
de Penélope por desfazer à noite o que fizera de dia garante-lhe
tempo para fabricar suas próprias defesas contra o homem, o esposo e
o pai […] É uma fiandeira prevendo o futuro. Também no conto,
Penélope é uma fiandeira, uma parca ou moira que borda a própria
mortalha, decidindo o momento em que o trabalho ficará pronto e, finalmente,
cortará os fios que a prendem à vida, determinando, assim, o momento
de sua morte. Ao contrário do mito, Penélope não suporta
a longa espera, o momento em que o marido “voltaria” a si, superando
a paranóia do ciúme e reconhecendo sua fidelidade. Antes, decide
por fim ao drama, sendo senhora de seu destino ao cortar os fios que a ligam
à vida, embora ainda dê um tempo ao marido, pelo processo fazer
e desfazer a toalhinha. Em sua “reclusão”, Penélope
é uma fiandeira, e, a exemplo de Átropos, corta o fio da vida.
Ao fazer isso, ela torna-se uma espécie de fiandeira que tece, mede e
corta, no mistério, seu destino e o destino dos homens. E é por
ser uma fiandeira que ela embaralha a vida do marido, pois ele estará
condenado ao remorso e à culpa por seu suicídio.

Saiu de casa, como todo sábado. O braço dobrado, hábito
de dá-lo à amiga em tantos anos. Diante da vitrina com vestidos,
alguns brancos, o peso da mão dela. […] Os dois degraus da varanda
– “Fui justo”, repetia, “fui justo” –, com
mão firme girou a chave. Abriu a porta, pisou na carta e, sentando-se
na poltrona, lia o jornal em voz alta para não ouvir os gritos do silêncio.

(TREVISAN, 1979, p. 176).

No conto, Penélope corta o fio de forma definitiva, sem que haja qualquer
possibilidade de reatar o fio partido, pois sua morte representa uma separação
sem volta. No caso de Penélope, o fio não parte por vontade divina,
e sim por vontade humana, por sua própria vontade; o fiar não
é criação e sim separação, pois representa
o fim da espera de que Eros poderia voltar a habitar a vida do casal.

A simbologia da fiação enquanto este eterno recomeçar
ou criação aparece no conto às avessas, uma vez que o trabalho
de “fiação” de Penélope, embora sirva para
ganhar tempo e avaliar a situação, não está voltado
ao eterno retorno ao mesmo: há um fim e este fim não implica o
retorno do marido e a reconciliação, mas ao contrário,
a sua solidão e o remorso. Não há possibilidade de reencontro
amoroso neste mundo constituído de “homens” frustrados e
inseguros, que se deixam conduzir por forças que se opõem à
vida e ao amor. Dalton Trevisan parte de um mote que, na tradição
literária, seria uma “novela exemplar” da capacidade vivificante
do amor e da felicidade conjugal e parodia-o, criando uma “novela nada
exemplar”, mas que reflete a sociedade contemporânea. E, nesta perspectiva,
a criação literária do autor está em sintonia com
a proposta moderna: a ruptura com a tradição e ao mesmo tempo
o resgate da mesma para compor o novo e (re) criar.

O marido, no conto, é um misto de homem frustrado e infeliz, apresentando
características culturais patriarcais em seu comportamento possessivo,
como, por exemplo, o fato de a mulher só sair de casa em sua companhia
e de ela estar sempre no espaço fechado da casa, fazendo atividades do
âmbito doméstico: tricotar, limpar a casa, molhar as flores. Tal
comportamento corrobora para o esmaecimento das forças de Eros na vida
do casal, a tal ponto que ela decide por fim ao fio da vida e terminar de uma
vez por todas com seu suplício em ter que conviver com a desconfiança
do marido.

Os traços remanescentes da cultura patriarcal são perceptíveis,
também, na forma como o marido, após a morte de Penélope,
sente sua alma lavada, como se tivesse “lavado sua honra com sangue”,
embora não sendo ele o agente direto da morte – “Não
sentiu piedade, havia sido justo
” (TREVISAN, 1979, p. 175). No final,
a voz da consciência, como um “superego” acusador, repetirá
para sempre em sua memória que ele não fora justo, uma vez que
continuara recebendo as cartas anônimas – as mesmas que implicaram
seu ciúme e o conseqüente suicídio da mulher – mas era tarde
demais para redimir-se, estava condenado a viver com o peso da injustiça
cometida com a mulher: a amiga que ele amava e que sua paranóia levou
à morte. A morte não trouxe alívio nem a sensação
de ter a
honra – lavada -, ao contrário, trouxe desespero e a certeza de uma mancha
que jamais poderia ser apagada, já que estava marcada pela tragédia
e o sangue da mulher, repetindo, a cada instante, na sua solidão, na
memória, no silêncio e no vazio da casa que fora injusto.

Numa literatura sem ilusões, Dalton Trevisan faz um contra-canto, no
qual resgata e se afasta do mito grego, ao propor um mito às avessas,
em que se observa, ao invés da fortaleza conjugal, a fragilidade dos
laços matrimoniais e do ser humano, expondo o lado mórbido desses
homens sem nome da sociedade moderna, que se deixam reger pela influência
do Filho da Noite, Thanatos, limitando o campo de influência de Eros,
o deus do amor que rege e gera a vida.

Leia o conto na íntegra:

Na rua de casas iguais morava, há muitos anos, um casal de velhos. Ela
o esperava, costurando na cadeira de embalo da varanda e, quando ele vinha pela
rua, com um pacote no braço, descia, de chinelos, os dois degraus da
varanda e lhe sorria, com o portão aberto. Cruzavam o pequeno jardim
e, apenas na porta, por causa dos vizinhos, mas ainda antes de entrar, ela lhe
erguia a cabeça, sem nenhum fio branco, e ele a beijava na testa. Estavam
sempre juntos, lidando no seu quintal, ele com as couves, ela com sua coleção
de cactos. Quando deixavam aberta a porta da cozinha, os vizinhos podiam ver
que ele enxugava a louça para a mulher. E, aos sábados, saíam
para o seu passeio diante das vitrinas, ela, gorda, ainda bonita, de olhos azuis
e ele, magro, baixo, de preto. Nas noites de verão, ela usava vestidos
brancos, de pernas nuas, ele não, sempre de preto. Havia um mistério
na vida deles, que nenhum vizinho conhecia. Sabia-se vagamente que os filhos
tinham morrido num desastre, há muitos anos. O casal de velhos abandonou
tudo, casa, túmulos, bichos e se mudara para aquela cidade, naquela rua.
Eram os dois, sem cão, gato, passarinho, nem mesmo galinhas. Tinham medo
de se afeiçoar a qualquer coisa. Algumas vezes, na ausência do
marido, ela trazia ossos para os cães vagabundos que cheiravam o portão.
Quando engordavam uma galinha, a mulher se enternecia por ela e não tinha
coragem de matá-la. Então, o velho desmanchou o galinheiro e,
no seu lugar, plantou uns pés de couve. Arrancou a única roseira
que crescia num canto do jardim; nem a uma rosa se atreviam a dar os seus restos
de amor.

Afora a viagem, que faziam uma vez por ano para visitar o túmulo dos
filhos, não saíam de casa, o velho fumando seu cachimbo, a velha
trançando as agulhas de tricô, a não ser no seu clássico
passeio dos sábados. E foi num sábado que, ao abrir a porta, eles
acharam a seus pés, uma carta. Era estranho, porque ninguém lhes
escrevia, os dois sozinhos no mundo, e confabularam antes de se decidir a abri-la.
Era um envelope azul, sem qualquer endereço. A mulher propôs rasgá-lo,
sem ler. Já tinham sofrido demais. Ele respondeu que ninguém podia
mais fazer-lhes mal. Não queimou a carta, não se apressou de abri-la,
deixou-a sobre a mesa. Sentaram-se um diante do outro, sob o abajur azul da
sala, ela com seu tricô, ele com seu jornal. As vezes, ela curvava a cabeça,
mordendo uma agulha na boca e com a outra contando os pontos. Quando cbegava
ao fim, tinha de contar a linha de novo: pensava na carta sobre a mesa. O homem
lia com o jornal dobrado, no joelho, e leu duas vezes cada linha para entendê-la:
pensava na carta sobre a mesa. O seu cachimbo apagou, não o acendeu,
os olhos parados na mesma notícia, ouvindo apenas o seco bater das agulhas
entre os dedos da mulher. Então, pegou a carta e abriu-a. Achou um pedaço
de papel dobrado, com duas palavras: cOrNo MaNsO, escritas com grandes letras
recortadas de jornal. Nada mais, data ou assinatura. Entregou o papel à
mulher que, depois de ler, o olhou. Nenhum falou. A mulher se ergueu, segurando
a carta na ponta dos dedos. Onde é que você vai? o homem perguntou.
Queimar… ela respondeu. Não, ele disse. Dobrou o papel dentro do envelope
azul e guardou-o no bolso. Juntou para a mulher a toalhinha que tinha caído
no chão e continuou a ler o jornal e em cada linha, aquela noite, leu
as duas palavras da carta.

Não estava mais certo de que ninguém podia fazer-lhes mal. Antes
da mulher se erguer e guardar a cestinha com os fios e as agulhas, segurou-lhe
a mão para consolá-la: aposto, minha velha, disse, que a mesma
carta foi jogada sob a porta de todas as casas da rua. As vozes das sereias
cantam ainda no coração dos velhos? Nem mesmo um pobre casal de
velhos estava a salvo. Haviam-lhes tirado os filhos, os bichos, a cidade. Agora,
queriam separá-los um do outro.

O homem esqueceu a carta no bolso e passou-se outra semana. No sábado,
de volta do seu passeio, antes de abrir a porta, sabia que ela estava ali, azul
sobre o capacho. A mulher pisou na carta, fingindo que não a via. Ele
a juntou e guardou no bolso. Quase no fim do serão, sem erguer a cabeça
da toalhinha, contando sempre a mesma linha, ela perguntou: você não
vai ler a sua carta? Olhava-a, fingindo que lia o jornal, admirando-lhe a bela
cabeça, sem nenhum cabelo branco, os olhos que, apesar dos anos, eram
azuis como no primeiro dia. Eu já sei o que diz, ele respondeu. Então
por que não a queima? É um jogo, minha velha, disse, mostrando
o envelope azul entre os dedos: nenhum sobrescrito e fechado. Rasgou-o numa
ponta e tirou o papel dobrado: duas palavras, as mesmas, nas letras recortadas
de jornal. Soprou o envelope, sacudiu-o sobre o tapete, mais nada. A mulher
tricoteava, como se não visse a carta. Ele a guardou no bolso, com a
outra e continuou a ler em cada linha do jornal aquelas duas palavras. Ela não
lhe perguntou, como se soubesse. Tinha o rosto oculto pela sombra do abajur.
O homem reparou que ela desmanchava um ponto errado na toalhinha. Eram os dedos
que tricoteavam ou as mãos que tremiam?

Ele acordou com dor de cabeça, no meio da noite, levantou-se da cama
e foi beber água no filtro. Afastou a cortina e, na rua deserta, viu
na sombra dum muro, o vulto daquele homem. Ficou ali, com a mão crispada
na cortina, até o homem ir-se embora. Deitou-se, de costas para a mulher,
(sabia que estava acordada e de olhos abertos para ele), imaginando quem seria
o homem na sombra do muro. E pensou, pela primeira vez, se a carta não
podia ser para ele mesmo.

De manhã, esqueceu a idéia e, deitado na cama, observava de olhos
meio fechados a mulher, que se vestia para ir às compras. Diante do guarda-roupa,
ela escolhia um vestido. Os seus vestidos brancos a deixavam mais gorda. Esperou-o
para tomarem café juntos, como todas as manhãs e, quando ela fechou
a porta, foi olhá-la pela janela. Era ela mesma, a sua mulher. O homem
se sentiu envergonhado e fechou os olhos, dizendo: minha velha, me perdoe…
Quando os abriu, notou que a mulher olhava para a janela, ainda que não
pudesse vê-lo, atrás da cortina. Por que olhara a janela? Para
dar-lhe adeus, se ele ali estivesse ou para saber se desconfiava dela?

No sábado seguinte, quis propor-lhe ficarem em casa, de luzes apagadas
e surpreenderem o autor das cartas. Ao vê-la tão alegre, porque
iam passear, não teve coragem e saíram. Durante o passeio pensou
o tempo todo se era apenas ele que recebia as cartas. Não podia abordar
um dos vizinhos no portão e perguntar-lhe aquilo. As casas da rua, de
aluguel, eram todas iguais. Podia ser engano, o envelope não tinha endereço.
Se, ao menos citasse nomes, horas, lugares… Quando abriu a porta, lá
estava ela: a carta azul. Desta vez, não a leu diante da mulher. Guardou-a
no bolso, junto com as outras e pôs-se a ler o seu jornal, sob o abajur.
Quando virava as páginas, surpreendia o rosto da mulher debruçado
sobre as agulhas. Era uma toalhinha difícil, porque há meses trabalhava
nela. Como se lesse no jornal, ele lhe contou a história de Penélope,
que desfazia de noite, à luz das velas, as linhas trançadas durante
o dia, para ganhar tempo dos seus pretendentes, esperando a volta do senhor
seu marido. Pela primeira vez, pensou se Penélope não teria enganado
ao marido ausente. Para quem era a mortalha que ela bordava? Teria continuado
a trançar suas agulhas após a volta de Ulisses? Homero não
fala. Nem a mulher, que não perguntou sobre a carta.

No banheiro, fechando a porta à chave, abriu a carta. As duas palavras…
Ele tinha o seu plano: guardou a carta no envelope e dentro dela um fio de cabelo.
Pendurou o paletó no cabide, com a carta visível num dos bolsos.
Foi-se deitar, enquanto a mulher punha o saco de pão na janela e a garrafa
vazia de leite na porta. No dia seguinte, após o café, quando
ela saiu, com a sacola das compras no braço, examinou a carta: estava
no mesmo lugar, parecia intacta. Abriu-a e procurou o pequeno fio de cabelo,
não estava mais.

Então, revolveu no fundo das gavetas. Não tinha tempo, ela voltaria
logo. No emprego, imaginava os passos de sua mulher pela casa. Quando a encontra
no portão descobre nos seus olhos o reflexo da gravata azul do outro.
Observando-a, de manhã, na penumbra do quarto, suspeita que as sombras
no seu gordo corpo nu são de abraços do outro. Ele quer erguer-lhe
o cabelo da nuca para ver se não tem a tatuagem dos dentes do outro.
Na sua ausência, abre o guarda-roupa da mulher, cobre a cabeça
com seus vestidos e cheira-os. Espreita os homens que passam diante da casa,
atrás da cortina. Conhece agora o leiteiro e o padeiro, jovens, de olhos
falsos.

Pode contar, na volta do emprego, quais foram os passos da mulher pela casa:
se os móveis têm pó ou não, se a terra nos vasos
de flores está molhada ou seca… Ele marca o tempo pela toalhinha. Sabe
quantas linhas a mulher tricoteou. Sabe quando ela erra os pontos e deve desmanchá-los,
antes mesmo de contá-los com a ponta da agulha.

Nada tem contra ela e o homem ficou silencioso. Come de cabeça baixa,
sem falar. Lê o seu jornal, de noite e, em vez de ler para a mulher as
notícias divertidas, como antes, lê apenas em voz alta as histórias
de crimes. Enquanto lê, vigia o rosto curvado da mulher, na sombra azul
do abajur. Se ouve passos de noite na calçada vai espreitar pela janela,
de pijama e pés descalços; a cortina está amarrotada no
canto pela sua mão crispada.

Houve somente uma cena entre eles, quando comprou um revólver. Ele o
guardou sobre o guarda-roupa da mulher. Ela perguntou: você está
louco, meu velho? Para que um revólver? Há muito ladrão
nesta cidade. E olhou como se ela fosse um ladrão. Meu Deus, a mulher
gemeu, você não pensa que eu… e quis abraçá-lo,
com as mãos estendidas, quando o homem, para desvencilhar-se, empurrou-a
e, como não o soltasse, lhe golpeou o rosto com toda a força.
Ela cobriu o rosto com uma das mãos e com a outra pegou a sua, ainda
fechada. Pensou que fosse mordê-lo. Ela lhe beijou a mão, antes
que pudesse retirá-la. O homem sentiu pena, mas não lhe pediu
perdão. Foi a única cena e, depois dela, a mulher aceitou tudo.

Ele quer saber o destino de velhos presentes, de jóias sem valor (desconfia
que o outro é moço, ela deve dar-lhe presentes). Quem sabe, faça
toalhinhas de tricô, para o outro vender. No serão, os dois sob
o abajur, em vez de ler o jornal, vigia a mulher – o rosto, o vestido, as mãos
– atrás dos dedos do outro. Crava-lhe os olhos na mão (as mãos
que acariciam e não têm memória dos carinhos) até
que ela erra o ponto, tem que desmanchar a linha.

Às vezes, quando chega em casa ela não o espera mais no portão,
(porque finge não vê-la e passando por ela sobe os dois degraus,
como se estivesse ali no portão à espera do outro) a casa está
silenciosa, ele aspira os odores no ar, passa a mão sobre os móveis,
apalpa entre os dedos a terra dos vasos. Adivinha onde a mulher está.
Esconde-se dele, nos cantos escuros da casa e dá-lhe as costas, para
que não veja os seus olhos vermelhos. Eram olhos azuis que sorriam a
vida inteira para ele. Estão vermelhos de chorar pelo outro, por não
ter podido vê-lo.

Uma noite, acordou e achou o outro travesseiro vazio, ainda quente da cabeça
da mulher. Sob a porta, viu uma luz na sala. Pé ante pé, agarrou
o revólver sobre o guarda-roupa e abriu de súbito a porta. Sob
o abajur, a mulher fazia o seu tricô – sempre a toalhinha para a mesa
da sala. Era ela Penélope, desfazendo na noite o trabalho executado de
dia? Tecia a mortalha para o marido antes de casar-se com o outro?

Erguendo os olhos da toalhinha, viu o revólver na mão do homem,
mas não disse nada. As suas agulhas batiam uma na outra, embora não
tricoteasse e estivesse olhando para o homem. Ele voltou para o quarto, fechando
a porta, não sabia por que não a matava.

No meio de uma refeição, ele a interroga sobre seus velhos namorados,
do tempo de solteira, de um primo que queria casar com ela. Ela responde, enquanto
ele aprova com a cabeça, fumando seu cachimbo, de olhos meio fechados.
Agora sabe, tem todas as provas: ela o enganava com o primo. Se não fosse
culpada, protestaria, fugiria de casa. Mas não: ouve tudo, conta tudo.
Se ela se contradiz, corrige-a batendo com a ponta do cachimbo apagado no seu
prato.

— Mas faz tanto tempo, meu…

Não tem coragem de chamá-lo “meu velho”. Enquanto ela
vai, com sua sacola, de cabeça baixa, fazer suas compras, o velho revolve
as cinzas do fogão, para saber se ela queima os bilhetes do outro.

De súbito, no meio da leitura em voz alta de um crime, ele tira as cartas
do bolso – são muitas, uma de cada sábado – e lê, uma por
uma, como se fossem todas diferentes. Guarda-as de novo no bolso, porque não
se separa delas, e prossegue a leitura do jornal em voz alta.

Achou, numa caixa de sapatos, cheia de fotografias, uma dela, menina, com o
primo, o outro. Ele colocou a fotografia sobre a mesa da sala, de pé,
contra um vaso de cacto. Assim que a mulher abriu a porta, olhou para a mesa
e viu a fotografia. Ela começou a chorar. Tinha pacotes nas mãos
e não podia esconder as lágrimas, nem enxugá-las. Olhava
para o homem e para a fotografia, e chorava. Ela nada disse, aquelas lágrimas
eram de culpada. O homem se deu por satisfeito. Eram provas que reunia, queria
ser justo.

O passeio aos sábados era seu único vício de velhos. Ela
se arrumava, punha seu melhor vestido, seu chapéu fora de moda. Fumando
seu cachimbo atrás da janela, deixou-a que se arrumasse. Ela sentou-se
na poltrona da sala, com seu chapéu de flores na cabeça, a bolsa
no braço, e ficou esperando. Não se virou, enquanto ela esperava,
com as mãos cruzadas. Ele então se voltou, olhou o chapéu,
a bolsa, as mãos vazias da toalhinha e disse:

— Meu Deus, que chapéu feio… Não posso sair na rua com
uma mulher que usa um chapéu desses!

Abriu o jornal e começou a ler as notícias policiais em voz alta,
enquanto a mulher ouvia, sem tirar o chapéu, já com o tricô
na mão. Aquele sábado não veio nenhuma carta. Foi até
a porta, abriu-a, olhou para o capacho e para a mulher. Era vigiado, ele também,
o corno manso, pelo outro. Sentia falta daquela carta. Era uma correspondência
inteligente entre outro e ele, um jogo, como tinha dito uma vez à mulher.
Um dia, o outro revelaria tudo, era preciso não interromper as cartas.
Então, continuaram a sair nos sábados.

Eles saem, dá o braço à mulher no portão e não
falam durante todo o passeio, passam diante das vitrinas sem parar. Como é
gorda, ela cansa mais depressa, mas não se queixa, nem ele diminui o
passo. Na volta, sob a porta, junta a carta azul e, antes de abri-la, passeia
com ela na mão pela casa, pára diante da mulher, de rosto azul
sob o abajur. Ele a lê escondido, de porta fechada, no banheiro, e guarda
com um cabelo no envelope e deixa sobre a mesa. Em todas encontra depois o cabelo,
a mulher nunca mais leu as cartas. Ou – ele pensa, com uma nova ruga na testa
– descobriu o seu segredo e lê as cartas substituindo o cabelo por um
dos dela?

Uma tarde, de volta do emprego, abriu a porta e aspirou o ar, como fazia antes
de entrar. Passou a mão no canto dos móveis: pó. Apalpou
a terra dos vasos: seca. O coração batia na ponta dos pés,
enquanto avançava pela casa. Entrou, ante pé, no quarto escuro
e acendeu a luz: a mulher estava deitada na cama de casal, de chapéu
de flores na cabeça, a bolsa no braço, segurando o revólver
na mão direita. Ele não pôde fechar os seus olhos, outra
vez azuis. Eles sorriam de novo para o velho.

Não sentiu piedade, estava vingado. Chamou a polícia que o deixou
em paz, estava no emprego na hora em que a mulher se suicidou. Quanto o enterro
saiu, os vizinhos repararam que, embora fosse um casal tão unido de velhos,
ele não chorou nenhuma vez. Segurou na alça do caixão e
ajudou a empurrá-lo no túmulo, (como fazem os velhos, ele o tinha
construído há anos) e antes mesmo de o pedreiro, erguer a sua
parede de tijolos, ele deu as costas para a mulher e foi-se embora.

Quando entrou em casa, reparou em qualquer coisa estranha: a toalhinha sobre
a mesa era nova. Era a toalhinha de tricô! A mulher esperou terminar a
toalhinha antes de se matar. Ela trançara sua própria mortalha.
Penélope concluiu sua obra, o marido chegou em casa. Ele a tocou, na
ponta dos dedos, estava lavada e engomada. Não tinha mancha de lágrimas,
nem ruga de dedos trêmulos. Acendeu a lâmpada do abajur azul. Sobre
a poltrona da mulher, diante da sua, vê as agulhas de tricô cruzadas
na sua cestinha.

Era sábado, o velho pensou. Nada tinha a recear, nenhuma carta chegaria.
Ninguém mais podia fazer-lhe mal. A mulher estaca morta, pagara pelo
seu crime. E, então, pensou que a mulher podia ser inocente. A carta
poderia ser jogada sob todas as portas da rua. Ou ser atirada sob a sua porta,
por engano, eram todas as casas iguais. Havia um meio de saber: se fossem destinadas
a ele, com a mulher morta, não viriam nunca mais. Não as acharia
sob a porta, encostadas no capacho. Aquela fora a última: o outro teria
visto, de tarde, a casa de portas e janelas abertas para sair o enterro. Teria
visto ao crepúsculo o carro funerário saindo do portão.
Teria seguido, ninguém sabe, o enterro, era um dos que o acotovelavam
para ver o caixão entrar, rangendo sobre os grãos de areia, no
túmulo.

O velho saiu de casa. Andava com um braço dobrado, pelo hábito
de dá-lo à mulher por tantos anos. Diante de uma vitrina de vestidos,
alguns brancos, sentiu no braço a mão de sua mulher. Ele tinha
razão, aquela carta fora a última. Nunca mais viria outra. Subiu
os dois degraus da escadinha, parando com o pé no ar diante da porta.
Eu fui justo, ele se disse e abriu a porta para ver a carta azul.

Autor: Sueli Aparecida da Costa, Mestra em Letras – Área de
concentração em Linguagem e Sociedade (Unioeste – PR)

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