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Seara de Vento, de Manuel da Fonseca

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Manuel da Fonseca, verdadeiro clássico do romance neo-realista
português, além de poeta e contista, escreveu o romance Seara
de Vento
(1958), obra famosa pela apreensão de aspectos da vida
dos camponeses no plano da ficção, em que o tratamento da antinomia cidade-campo
é bem diverso do uso tradicional. A obra, dentro da estética neo-realista, é
ainda notável porque nela o próprio sentimento da morte passa a segundo plano
em face de uma realidade social insustentável do ponto de vista humano.

Mas não apenas na temática o Neo-Realismo introduziria
inovações na estrutura tradicional do romance. Também no modo de apresentar as
personagens, talvez por influência da técnica de montagem cinematográfica, elas
se apresentam a si próprias, pelo método implícito ou dramático. Daí
encontrar-se a psicologia do comportamento como base da técnica de construção
das personagens.

Não é mais o método introspectivo que predomina, mas a observação
quase diríamos científicas das formas e variáveis do comportamento humano.

Em Seara de Vento, de
Manuel da Fonseca, dois personagens se impuseram: o vento (antropomorfizado) e
Amanda Carrusca, mulher pequena, esquelética, mas indomável na força anímica que
desde o inicio evidencia.

Amanda Carrusca tem esse perfil
psicológico: a violência do ódio acumulado, a rapidez felina dos movimentos,
o olhar faiscante de uma intuição invulgar, tudo se exprimindo numa fragilidade
física inquebrantável.

Esta mulher não tem nada: vive
num casebre, trabalhou toda a vida e agora sente-se um “farrapo”, um peso para o
resto da família, mas é, malgré tout, uma lutadora. Dir-se-ia que espera
a sua morte como quem espera uma libertação mas nem essa lhe deixam aguardar com
tranqüilidade pois luta até final porque lutar é para esta mulher um destino.
Esta mulher aceita o sofrimento mas não o deseja. Não é para matar (…)
que a gente deve unir-se, é para podermos viver
.

Aqui, toda a ação se desenrola
no Baixo Alentejo, nas proximidades das Minas de S. Domingos.

A esta obra se referiu Mário
Sacramento nos seguintes termos “É esse vento a personagem reflexiva
da obra-prima que Manuel da Fonseca agora produziu, vento que isola o casebre
miserável, cercando-o e batendo-o da telha vã ao forno da cal; vento que
acompanha a intriga duma ponta à outra contraponteando-a de lance em lance,
através dum fundo musical, lúgubre e sinistro, que só ensurdece no curto lapso
em que o contrabando traz àquele lar
(…) um breve hiato de desafogo
(…), para recrudescer pelo suicídio de Júlia (…) e desfraldar os
crepes da tragédia, enfumando os andrajos escuros de Amanda Carrusca e
modelando-lhe um
corpo seco e chato, só ossos.

Mas se o vento ascendeu,
finalmente, ao topo da simbologia que a obra anterior de Manuel da Fonseca lhe
preparava, todos os personagens deste livro são tipos depurados que vêm ocupar
lugares inconfundíveis na galeria das nossas letras. Amanda Carrusca
(…)
é o ódio milenário da fome: uma face imperativa num molho de ossos
”.

Há logo na primeira página da
obra um primeiro cotejo entre o vento e a velha; a ventania corre livremente
e em toda a obra é a única coisa que é livre. Todos os outros, exploradores e
explorados se encontram ligados por elos suficientemente fortes para que o
movimento de uns afete de alguma maneira o movimento dos outros. O motor dessa
ligação é o ódio (o ódio milenário da fome como lhe chamou
Sacramento). Essa ligação fica selada desde o início quando a velha Amanda diz:
Raios partam esse vento.

A força anímica desta velha
só ossos
é excepcional e dificilmente se encontrará outra do mesmo quilate
na ficção portuguesa do século XX. Ela representa a todo o momento o não
que é preciso opor em certas situações embora para isso seja preciso a
coragem que falta à grande maioria dos mortais. Note que, quando todos se
recusam a pedir para o neto, um deficiente mental, cujo nome nunca chegaremos a
saber pois em boa verdade ele não é nada, ela enfrenta o genro, um gigante:
Amanda Carrusca ergue-se, bruscamente, de cabeça empinada. Pequeninos e negros,
os olhos reluzem-lhe, intensos. Pois vou eu! – grita ela, afastando-se, de
perfil adunco inclinado para a frente. – Vou eu pedir para o meu neto!

Note com que contenção Manuel
Fonseca caracteriza a energia da velha: Pequeninos e negros, os olhos
reluzem-lhe, intensos.

Este ato de coragem não
significa que a velha tenha consciência política. Quem a tem é Mariana, a neta.
A prova disso é que quando resolvem os camponeses unir-se e ir à vila pedir
trabalho, Amanda Carrusca censura a neta com ironia: – Juntem-se todos,
juntem-se, e vão-se meter na cova do lobo! – agoira Amanda Carrusca, levantando
os braços, com um sorriso azedo. – Depois, se lhes acontecer alguma, não se
queixem!

Apesar dessa falta de
consciência política, a velha defende os seus sem medos nem tibiezas pois não
tem mais nada a perder. Quando a guarda vem para prender António de Valmurado, o
Palma, genro de Amanda, só encontra esta e Júlia, a filha, que é levada não sem
que a velha se lhes oponha: Amanda Carrusca consegue libertar-se. Rápida,
atira-se para diante com todo o peso do corpo, e dá um empurrão ao sargento.

– Se lhe tocas, (na
filha Júlia), o meu genro mata-te, cão. E quando o polícia pretende levar
a filha, o elemento mais frágil da família: –Vou eu! – Amanda Carrusca atira
uma punhada contra o peito. – Prende-me a mim, vá! Prende-me, se és capaz!
E
como não consegue evitar a detenção de Júlia volta-se para a neta e diz:
Cuida aí no teu irmão. Eu vou encher as ruas de gritos, vou acordar a vila toda!

É talvez altura de dizer que os
Palmas na seqüência de um empréstimo feito por Elias Sobral ao pai de António
Valmurado ficam sem a sua única courela por não poderem pagar a dívida. Este,
que trabalha para o Elias Sobral vai confrontar-se com o suicídio do seu pai e
logo a seguir é preso durante alguns meses sob a acusação de ter roubado umas
sacas de cevada, roubo que foi feito por Diogo, filho do latifundiário Elias
Sobral. Percebesse então todo o ódio acumulado no seio da família Palma contra
Elias Sobral.

O Palma ainda não foi preso
pela segunda vez e é Júlia que é detida para interrogatório. Entretanto, Júlia,
ao dar-se conta de que afinal traiu o marido quando o queria salvar, suicida-se
no calabouço e há um momento em que avó e neta estão juntas. Poucas palavras.
Manuel da Fonseca narra esses momentos: O ar frio que as envolve, como que se
confrange, arrepiado. Amanda Carrusca começa a erguer-se. Todo o corpo lhe
treme.

– Estou
cheia de ódio.
(palavras de Amanda Carrusca)
– Não diga isso!…
(são palavras da neta)
A velha dá um passo em frente, de punho esticado para o chão.
– Digo, sim, digo!
E, algumas linhas adiante, mas agora num tom de assumida derrota:
Vê, filha, vê! O que esta vida fez de mim!… Ódio, só ódio!

Finalmente quando a família
fica encurralada com a polícia a tentar prender o Palma, Amanda Carrusca faz um
curativo no genro e propõe-se fazer cartuchos, isto é, pretende ainda dar algum
sentido à sua vida, solidarizar-se:

– Queres que te ajude? Eu
sei fazer cartuchos, e atirar. O meu marido também era caçador
e mais
adiante quando se processa o assalto final ao casebre com o sargento Gil a
tentar atirar sobre o Palma através de uma abertura feita no telhado, Amanda
compromete-se definitivamente neste jogo sem disfarce de vida e morte:

– Olha quem é ele… cicia
ela. – O sargento Gil…

A inesperada aparição
rasga-lhe um sorriso feroz na face escaveirada. Rápida, pega na arma, leva-a ao
ombro apoiado contra a parede da lareira. O ribombar do tiro estremece o
casebre.

Todas as contradições
decorrentes do conflito: respeitar uma lei que foi feita pelos ricos ou
subverter a ordem estabelecida Amanda Carrusca, ainda assim, aceita colocar-se
ao lado do genro e morrer com ele se for caso disso.

Diz o Palma:

– Ainda
aí, mulher?
–Fico – rouqueja ela, inteiriçada. – Quero ficar contigo.
– Não a percebo… Você, há pouco, achava que a Mariana tinha razão
– E ainda acho. Ainda acho, embora ela fale noutro sentido. Não é para matar que
ela sustenta que a gente deve unir-se, é para podermos viver. Todos unidos para
podermos viver, percebes? Mas… isto aconteceu-te, e eu fico. Poderei
ajudar-te, já não estarás tão só.

A cena
final, teatral, com a guarda de um lado e os camponeses do outro:

Por todos os lados, o confuso clamor
de imprecações, apelos, pragas, aumenta cada vez mais. Exaltados, os camponeses
tentam vencer a barreira formada pelos guardas.

– Oiçam!

O grito obriga-os a levantarem a
cabeça. No alto do cerro, junto da orla das estevas, Amanda Carrusca aparece, de
mãos erguidas.

– Digam à minha neta! Digam-lhe que
ela tem razão! Um homem só não vale nada!

Ouve-se como que um gemido soltado por
dezenas de bocas, e os camponeses atiram-se para diante.

Com a coronha da carabina no ar, um
guarda avança para Amanda Carrusca.

A velha volta-se, cresce, firme sobre
as pernas entesadas, e os andrajos negros, batidos pelo vento, modelam-lhe o
corpo seco e chato, só ossos.

O vento é uma metáfora da mudança, é um
agente destruidor, um agente da erosão. Numa palavra o vento é a metáfora da
agressão. Mas essa agressão tem um valor ambíguo: mais imediatamente
identificável com a fúria do poder, com o ataque do rico sobre o pobre, ela
indica também a cólera pura, o anúncio do dies irae  que se irá abater
sobre o pecado e a iniqüidade. Amanda Carrusca é a ponte entre o passado e o
futuro que não será o seu, mas será talvez o da sua neta.

Estamos perante uma narrativa diacrónica,
linear, parca de adjetivos porque ali tudo é essencial, tudo é substantivo. As
pessoas (os personagens) vivem no limite da subsistência mínima, no limiar da
fome.

Esta mulher está só no meio da desolação
alentejana, num tempo de “vacas magras”: tem de aturar um neto, atrasado mental,
que de quando em vez a morde, com freqüência opõe-se ao genro, a filha é uma
mulher frágil com a qual não se pode contar muito, a neta (a única que tem
consciência política) não é entendida pela velha que desconfia das reuniões em
que ela participa e que podem comprometer o único ganha-pão da família.

Apesar disso, Amanda Carrusca, esse vento
que varre um certo Alentejo, tira dos sobreiros que não lhe pertencem aquela
postura vertical que é o que resta de uma dignidade afrontada e porventura
quixotesca embora os guardas não sejam, propriamente, moinhos de vento e o vento
continue a sibilar.

Ambos (o vento e Amanda Carrusca) estão
ali para “desarrumar”, para pôr tudo em questão, para dizer que, apesar de tudo,
o mundo pula e avança.

Mas não deixa de ser, apesar de tudo e
sempre, uma luta contra uma certa forma de solidão. A paisagem alentejana, de
algum modo condiciona o caráter dos conflitos sociais, sobretudo o das décadas
de 40 e 50, conflito entre um proletariado rural e os terratenentes na sua
grande maioria absentistas.

As raízes mais fundas destes conflitos
encontram-se não apenas no clima mas também no modo como desde há séculos se fez
a divisão da propriedade, problema sobre o qual se debruçou Orlando Ribeiro com
a enorme competência que todos sempre lhe reconheceram.

Resta aceitar então, esta forma de
intervenção quando ela se fundamenta com seriedade na observação e no estudo dos
fenômenos reais (passe o pleonasmo) e é esse o caso de Manuel da Fonseca que
conhecia como ninguém o drama do homem alentejano.

É possível (e desejável, acrescento eu)
encará-los não só pela vertente científica mas também pela via polissêmica da
arte. É possível encarar a suja realidade recriando essa mesma realidade e
dando-lhe a maioridade estética a que tem direito. O que, porventura perde em
objetividade ganha em humanidade e por conseguinte não só equaciona os problemas
dos homens como os aproxima.

Quando Palma está irremediavelmente
perdido, Amanda Carrusca está mais próxima dele do que alguma vez esteve. Quando
os camponeses fazem frente à guarda em manifesta insubordinação, Amanda Carrusca
está mais próxima deles e é através deles que envia a sua mensagem, aquela que
constitui o recado do autor, de que a personagem é, pelo menos em parte, o seu
alter-ego.

Amanda Carrusca é um símbolo, não apenas
da resistência mas também da velhice menosprezada, vilipendiada, aquela que se
atira fora porque definitivamente se esgotou. Nesse sentido, o seu alcance
ultrapassa largamente as fronteiras do Alentejo e do país para se erguer a um
estatuto de universalidade que não é possível destruir mau grado os outros
ventos que não são de bom agouro e com que nos confrontamos.

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