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Seara Vermelha, de Jorge Amado

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Terminado de escrever em junho de 1946, Seara vermelha,
de Jorge Amado, é o segundo romance mais divulgado no estrangeiro, compreendendo
26 idiomas: albanês, alemão, árabe, armênio, búlgaro, chinês, eslovaco, espanhol,
finlandês, francês, grego, hebráico, húngaro, italiano, japonês, lituano, moldávio,
polonês, romeno, russo, sérvio, sueco, tcheco, turco, ucraniano e vietinamita.
Além da edição portuguesa que recebeu prefácio do escritor Álvaro Salema.

A obra está enquadrada na ótica explicitamente ideológica do escritor. Faz parte
de sua fase de militância política. Depois de tecer sobre a sorte do migrante
nordestino que se arrasta rumo à morte querendo chegar em São Paulo, ele mostra como
nasce a violência no campo e, inclusive, o fanatismo religioso. Os cangaceiros e
os novos messias surgem a partir das injustiças sociais e o desprezo do estado.

Há uma importante mudança de cenário: a narrativa não se passa na Cidade da Bahia e
seu Recôncavo, nem à vista dos cacauais do eixo Ilhéus-Itabuna. Jorge Amado abandona
a zona do cacau, e localiza o relato no sertão baiano.

É a saga de uma família de retirantes compulsórios, gente expulsa de terras nordestinas,
que toma o rumo de São Paulo. A pé. A viagem é um rol de aflições, de fome e de morte.
Do grupo inicial de onze retirantes, apenas quatro chegam a uma fazenda de café. Além
disso, Jorge Amado descreve as trajetórias de três filhos do casal de retirantes, que
tinham partido de casa antes dos pais: o soldado João, o jagunço Zé Trovoada e o cabo
Juvêncio, que serve na fronteira com a Colômbia, participa do levante comunista de
Natal (novembro de 1935), vai parar no presídio de Ilha Grande e, depois da anistia,
retoma os passos de sua vida militante.

Seara Vermelha reflete a injustiça e o desamparo dos pobres explorados pelos
senhores feudais do Nordeste brasileiro. A lúcida perspectiva da personagem feminina,
exemplo de esperança, contrapõe-se ao mundo masculino, questionando as decisões que
afastam os homens das suas raízes. Os seus três filhos representam a tríplice resposta
que pode ser dada à crueldade dos poderosos: José vinga-se pela via do cangaço, João
procura as respostas messiânicas e Juvêncio, o grande herói deste romance, reage
aderindo às lutas sociais.

Temática

O romance estampa a realidade brasileira com destaque para injustiça e o desamparo
sofridos pelo povo na terra que não é sua. “A Seara vermelha de sangue e de
fome onde crescem brotos de dor e de revolta”.

Enredo

O novo proprietário de antiga fazenda nos sertões do Nordeste baiano despede
sumariamente todos os agregados ali existentes, admitidos pelo antecessor, inclusive
o velho Jerônimo e sua mulher Jucundina, moradores radicados nas terras havia
vinte anos. Sem outra opção, decide emigrar “em busca do país de São Paulo”
e, entrouxando todos seus pertences nos costados do jumento Jeremias, partem,
a pé, os onze parentes: Jerônimo e a mulher, os dois filhos restantes (Agostinho
e Marta), os três netos (Tonho, Noca e Ernesto) órfãos ainda crianças, sua irmã
insana Zefa e seu irmão João Pedro com a família (Dina e Gertrudes), numa longa
“Viagem de espantos”, eles que jamais se haviam afastado do lugar.

Padeceram perigos, doenças, luto, sede e fome até atingirem Juazeiro, para embarcarem
de navio em demanda a Pirapora pelo rio São Francisco. Ali chegam em péssimas
condições, alquebrados. Aí, ao enfim acomodarem-se numa fazenda de café, restam
da família apenas quatro: Jerônimo, Jucundina, João Pedro e o garoto Tonho –
os outros morreram ou desencaminharam.

Na segunda parte do romance, “As estradas da esperança)”, o eixo narrativo se
desloca para os três filhos homens de Jerônimo e Jucundina: José, João e Juvêncio.
E se ocupa dos destinos dos três filhos do casal que haviam deixado a casa, na
fazenda nordestina, antes da dolorosa retirada.

João, o primogênito, em família apelidado João, deixara o campo para assentar
praça na Força Policial do Estado, sendo posteriormente engajado à tropa mandada
ao sertão para liquidar o acampamento do beato Estêvão, ao qual acorreu também,
mas para defendê-lo, o célebre bandido Lucas Arvoredo, em cujo bando atuava
o famigerado Zé Trevoada, que outro não era senão José, o segundo filho do casal,
que ainda jovem abandonara o lar paterno e se fizera cangaceiro. Ao se dar o
assalto da força pública contra o acampamento dos fanáticos penitentes, em meio
á confusão de gritos, como animais em fúria, e o troar da fuzilaria, corpos
varados a bala, João foi mortalmente atingido e logo em sua percepção os ruídos
se tornaram baixinhos, uma nuvem em seus olhos: a última coisa que viu “perfeitamente
vista era a face de seu irmão José disparando o fuzil”.

O terceiro filho, Juvêncio, deixou os pais ainda adolescente à busca do mundo
distante, tendo-se alistado na Polícia Militar de um Estado vizinho e de pronto
incorporado ao batalhão de partida para sufocar a Revolução Constitucionalista
em São Paulo, onde, depois de tudo apaziguado, ingressa no Exército, indo servir
em Matos Grosso. De Campo Grande, já promovido a cabo, vai para um posto de fronteira
com a Colômbia em que, em condições desesperadoras, assume o comando do sitiado
posto, semidizimado, sistematiza caçadas para o abastecimento, cava novas trampas,
recompõe paliçadas e mantém a resistência aos silvícolas até chegar a expedição
de socorro. Transferido para Natal, conhece Lurdes e participa do levante comunista
como um dos seus líderes.

Preso após a sedição é condenado a cumprir pena no presídio da Ilha Grande,
onde se casa por procuração com Lurdes e cuida de ilustrar-se. Aí recebe a visita
da velha mãe viúva, vinda de São Paulo em companhia do jovem Tonho, com quem
futuramente, após a anistia, participará ativamente da militância comunista
no Brasil.

Texto parcial de O Estado de
São Paulo

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