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Visita (Conto da obra Malagueta, Perus e Bacanaço), de João Antônio

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Em Visita, o anônimo narrador-protagonista foge de seus afazeres, encontrando,
no jogo, um refúgio. Relembra com nostalgia os tempos de desempregado em que se
dedicava ao bilhar e se recorda do antigo companheiro de jogadas, Carlinhos.

A personagem, no anseio de uma evasão às responsabilidades domésticas, resolve, numa
noite, visitar o amigo da época de jogo e, não o encontrando, retorna a um salão de
sinuca. Ao jogar, entretanto, admite que no passado fora grande taco e tivera prestígio;
agora, após ter-se tornado um “bom rapaz”, segundo seus familiares, é incapaz de uma
grande partida e bons lucros:

Mas que jogo triste! Fosse outrora e eu fechava este joguinho num instante.
Hoje tremo, cachaça e medo, peço com os olhos para as bolas caírem. Ora, eu
fazendo este joguinho sovina de cinqüenta cruzeiros a mão! […].

A insatisfação do narrador-protagonista percorre toda a narrativa, desde o instante em
que decide rever o amigo Carlinhos até ao final, quando, bêbado e aborrecido, retorna
à sua casa para dormir.

Após ter-se transformado num trabalhador, ou seja, num “otário”, na concepção da
malandragem, a personagem “fantasia sobre a vida de malandro, responsabiliza as
injustiças sociais pelas suas deficiências, despreza os estrangeiros privilegiados,
refugia-se em salões de sinuca, bebe e fuma em excesso”. E, no caso desse protagonista,
também observa-se a reversibilidade já que, de malandro que fora, no passado,
transforma-se num “otário”, mas, ao mesmo tempo, não deixa de freqüentar o ambiente dos
salões e conviver com os antigos companheiros de boêmia, trafegando assim entre a ordem
e a desordem.

Hoje, empregado em um escritório, questiona o seu salário e admite estar na condição de
um tolo, submisso às ordens de patrões e, ao narrar a sua realidade, admite o
arrependimento em ter-se tornado um trabalhador ou, como ele mesmo se autoclassifica, um
“trouxa”:

O diabo é que não nasci trouxa, aqueles tempos de jogo, quando desempregado,
me ensinaram que eu não nasci trouxa. Agora, o salário minguado dá para
cigarros de vinte cruzeiros e cachaça de quando em quando. Se o mês aperta,
corta-se isso […].
O mundo para mim não tem dado voltas, rolado como dizem alguns. Sempre as
mesmas tiradas. Meus sapatos furam-se, os ternos estragam-se, continuo o
mesmo sujeito. Escritório, taxa de colégio, irmã galinha. Vida xepe, porcaria!
[…].

Outrora, na malandragem, suas vantagens com o jogo eram mais visíveis, já que estava
isento de várias responsabilidades, além de possuir maiores recursos financeiros que
lhe proporcionavam certas regalias, entre elas a boa aparência, como nos assegura o
narrador-protagonista:

Já curti desemprego, cinco meses que só eu sei… Vida do joguinho. O dia na cama,
a noite na rua. Cinco meses. Mas naquele tempo eu fumava cigarros estrangeiros e
mandava polir as unhas. Não engolia um desaforo. Dinheiro? Eu tinha muita cabeça e
era um taco de verdade. Noites de levantar quatro-cinco contos! Mas jogo é jogo e eu
não nego – peguei rebordosas medonhas – não foi uma que deixei o salão sem dinheiro
para o ônibus […]. A casa … a família reunida para as reprimendas que duravam duas
horas […]. Puxava uma, duas das notas maiores e entregava. Preocupação, remorso,
vergonha? Não, não, nada disso. Era sono, que eu passava a madrugada em volta da mesa
me batendo, jogando, suando, arriscando, perdendo, ganhando. Por isso aturava o esporro –
queria dormir. Falassem […].

Somando ao sentimento de perda, e à sensação de troca desvantajosa, já que a vida boêmia
lhe oferecia mais atrativos, a personagem também adquire os hábitos de maldizer as
pessoas, a vila onde reside e apontar algumas injustiças sociais, numa recusa da sua
condição de trabalhador e morador em um subúrbio, descrito por ele como um lugar sempre
desagradável:

A vila é bem mesquinha, rodeada de fábricas, dezenas de bares, três igrejas, um
grupo escolar. O casario feio abriga mal gente feia, encardida, descorada […].
As ruas com seus monturos, cães e esgotos muitas vezes me davam crianças que saíam
do grupo escolar. Não me agradavam aqueles pés no chão movendo corpinhos magros.
Qualquer ignorante podia perceber que aquilo não estava certo, nem era vida que se
desse aos meninos […]. Os meninos iam magros porque iam. Culpada era a vila ou
alguém ou muitos. Eu também engolia aquele pó, igualmente amassava aquele barro,
agüentava aquela vida cinzenta. Podia mudar o quê? Não havia sido um menino como
aqueles, pé no chão, desengoçado? […].
Sapatos cheios de pó, sapatos cheios de pó, vivem sempre empoeirados. Porcaria de
vila! […].

Após esse desabafo melancólico e solitário com os leitores, o narrador-protagonista
conclui que, na manhã seguinte, nada mudará, voltará à sua monótona rotina de um
rapaz “de vida cinzenta”, uma vida sem cores e satisfações, entre tantos outros,
insatisfeito com a escolha tomada, infeliz por ter deixado as facilidades da
malandragem, vista pela personagem como colorida, repleta de surpresas que confirmam
a instabilidade dos jogadores e acabam por colorir, ou melhor dizendo, dar prazer aos
que freqüentam esses ambientes. A malandragem, mesmo não o afastando da pobreza
definitivamente, amenizava sua repulsa através de algumas frivolidades que o dinheiro
pode proporcionar:

Aborrecimento sem motivo. Para final, não vi o excelente Carlinhos, vi as pernas
brancas da irmã, ganhei trezentos cruzeiros (tirante o tempo), deixei o postal, desertei
uma noite das ocupações domésticas.
Mas amanhã, a repetição dos relatórios. Meus olhos viajarão do teclado aos corpos taludos
dos homens da sacaria. E nas paredes brancas do escritório, balbúrdia, persianas
entreabertas, ingleses a perambular […].

Diante dos fragmentos acima, pode-se verificar que o narrador-protagonista encara o
trabalho e o próprio cotidiano de um trabalhador como inútil, desvalorizado e marcado
pela ausência de cores (que simbolizam satisfação e prazer), representado pelo branco
nas pernas da irmã do amigo e nas paredes do escritório onde trabalha. E, como se vê,
manifesta a sua indignação acerca da pobreza e abandono a que estão reduzidos os operários
em geral.

O narrador-protagonista de Visita, após o término de sua vida boêmia, torna-se
uma figura pessimista, desacreditado e, sobretudo, melancólico e capaz de enxergar
o que os demais não conseguem, possuindo uma visão arguta que a própria malandragem lhe
proporcionou.

O tratamento poético do jogo triste de vida daqueles, tragados por um cotidiano
sempre limitador, os apreende, também nessa narrativa, na sua total humanidade. Aqui, um
rapaz conta sobre o desconforto de um trabalho inútil durante o dia e escola precária à noite.
Trabalho antecedido por cinco meses de desemprego, vividos nas “grandes paradas” do jogo
de sinuca, alternando-se entre o “dinheiro grande” e as “rebordosas medonhas”. O narrador
sente falta desse tempo, às vezes “molha o bico” e, mesmo contrariado, sempre volta para o
trabalho e para a família moralista. A realidade é esta, só o sonho aparece como espaço
possível, só o ambiente idílico pode redimi-lo do meio termo:

Sonhei que voltara às grandes paradas. Eu e Carlinhos. Desprezado para
sempre nossos empregos, sozinhos no mundo e conluiados, malandros
perigosos, agora! Vagabundeávamos finos na habilidade torpe de qualquer
exploração. E fisgávamos, zeladores de prédios, engraxates, porteiros de
hotel, meninos que vendem amendoim…
Era quando a branca caía.

A narrativa se inicia num plano onírico que se configura como o contrário da sua
realidade cambiante, ou seja, uma postura que deseja a malandragem genuína, mas que é
cooptada pelo seu contexto. Essa oposição entre o eu e o ser ideal, materializa-se na idéia do
eu-narrador e no personagem Carlinhos, respectivamente. Dessa forma, desenha-se, então,
uma idéia matizada entre a realidade e a utopia. A branca que cai se interpõe entre essas duas
instâncias, como a representação do “anjo caído”, que tenta se elevar, mas que é derrubado
pela implacável realidade. É a lei da gravidade que o traga do sonho possível, como a caçapa
que deglute a branca no seu buraco negro. A branca seria a metáfora da saída, que não deveria
cair, mas que cai sempre.

O próximo parágrafo vem reforçar essa dicotomia:

No jogo, no quente jogo aberto das parceiradas duras, partidas caríssimas,
eu tropicava, tropicava, repetidamente. Aquilo não se explicava! A tacada
final era dolorosa e era invariável – era a minha – e eu me perdia. Aquilo,
aquilo nos arruinava. Quem me visse e não soubesse diria que eu estava
traindo. O ótimo Carlinhos não se desnorteava, fazia fé, dava-me o embalo,
imprimia moral.
— Firma e joga o jogo!
Mas nada. Ajeitasse giz no taco, estudasse os efeitos das tabelas, caçasse
combinações, lavasse o rosto para a tacada – não me salvava. A bola branca
caía.

O narrador não se adequa a nenhuma das possibilidades, nem à malandragem, nem às
instituições: família, trabalho, escola, religião. É um desajustado, que participa da partida
ininterrupta: o eu contra o mundo, se movimentando como a bola branca, sempre na
iminência de cair. A sua atitude carrega um implacável fracasso para o “jogo de vida”,
em contraponto com a habilidade de Carlinhos.

Nesse jogo de vida ele só perde, não se acha, se procura, mas não se encaixa:

Diabos, toda noite esta história. Mal entro em férias, é isto. Não basta o
escritório, não basta. Os chefes, as idiotices. Tudo em promiscuidade e eu a
aturar. Quando a noite chega, hora da gente descansar, cinema, mulher,
qualquer coisa… não.
Latinha de flite, sabonete, caixa de alfinetes, nem, sei. Minha mãe tem a
mania de me arranjar estes probleminhas domésticos. Pelo ano inteiro, este
tonto trabalha e agüenta escola noturna. Dorme seis horas, acorda atordoado
de sono, vai buscar dinheiro numa profissão inútil […]. Os dedos pretos de
fumo são fins de braços sem bíceps, sem tríceps, nada. Pudera! Às vezes
vejo na expedição homens da sacaria, braços enormes. Imagino-me vivendo
à sombra deles. Parece-me que a vida teria músculos e sossego, não
cálculos e ocupações domésticas.

Nesse sentimento bipartido, no qual se quer ver melhor sendo o outro, o sujeito
narrativo parece ser dois: um que pensa e outro que faz, um que critica e sofre, o outro que
agüenta: “este tonto”, “dorme seis horas”, “acorda atordoado”, “vai buscar dinheiro”, “os
dedos pretos de fumo”. Estaria melhor como saqueiro, sossegado e forte, porque “sem bíceps,
sem tríceps, nada”, há uma ausência de conexão entre o homem e suas mãos ambíguas, do
boêmio – pretas de fumo e do trabalhador que faz contas inúteis. Colocadas num mesmo
parágrafo, as imagens da família, do trabalho, da própria malandragem, se nivelam numa
significação negativa, nas quais o narrador se vê encurralado. O narrador não realiza
nada, só vislumbra a multiplicação das portas do seu labirinto íntimo e social, reforçando
a angústia ambivalente de um otário.

Que irmã, vejam. Uma tonta. Sabe é ouvir novela, ler romancinho para
moças, discutir babados. Uma camisa nunca sabe onde está. Chateado, abro
o guarda-roupa. Há um estalo na porta, que a fechadura está velha, que é
preciso trocá-la, eu vivo falando nisso. Não encontro camisa esporte.
— Mas onde enfiaram?
— Nossa! Você vive sempre amolado. Ora, vou com esta. Sem gravata, tudo
arranjado.

Ele sabe que precisa trocar a fechadura que está velha, mas nunca o faz. É sua vida que
se enferrujou numa criticidade sem ação. Procura uma camisa esporte para ir visitar
Carlinhos, amigo do tempo do joguinho, mas não acha e pega uma camisa sem gravata.
Sempre o meio termo, nem a libertação total da malandragem (camisa esporte), nem a
inserção social no trabalho (terno e gravata). O que lhe cabe é um pé lá, outro aqui, uma
camisa sem gravata.

Chateado com “probleminhas domésticos”, impostos pela mãe, lembra de Carlinhos:

[…] Num Natal dera-me um postal. A aproximação de dezembro, agora,
trouxe-me a lembrança de revê-lo e levar um cartão. Carlos se alegraria,
abraços, café, apresentar-me ia sua irmã (ele deveria ter uma irmã linda);
bate-papo sobre futebol, a velha sinuca, umas horas longe de latinhas de
flite e sabonetes.

Carlinhos é a idealização da fuga do narrador, nele se condensa o oposto positivo de
todas as suas impossibilidades. O narrador age em uma realidade circunscrita e se apóia nesta
saída rarefeita. Dessa maneira, a visita ao amigo cresce na narrativa como a metáfora do
desejo.

O texto se desenrola num fluxo entrecortado entre a consciência e o presente da
narrativa, que desenha no ir e vir de idéias, a inquietação do narrador:

Uma calma gostosa.
O ônibus quase vazio me dá calma. Entrando vento pela janela. Bom. Mãos
cruzadas, olhando coisas lá fora. A casa do ótimo Carlinhos — perto.
Poderia ir a pé. Prefiro o ônibus; basta a canseira do dia. Gente como eu,
bobagem economizar níqueis. Jamais se tem alguma coisa. A taxa do
colégio, uma farra qualquer, levam tudo. O diabo é que eu não nasci trouxa,
aqueles tempos de jogo, quando desempregado, me ensinaram que eu não
nasci trouxa. Agora, o salário minguado dá para cigarros de vinte cruzeiros
e cachaça de quando em quando. Se o mês aperta, corta-se isso.
— Só mesmo vendo aquele vestido.
Calculem. E eu a aturar. Se perco as estribeiras, meto a boca no mundo, é a
velha história — estou dando escarcéu, acordando a boa vizinhança, mau
exemplo. Quietinho. Feito um menino, feito criado.

Sente-se calmo quando, no ônibus quase vazio, sem pessoas e reprimendas, é acariciado
pelo vento, símbolo de um tempo não demarcado. Ele é envolvido por um tempo onírico,
propiciado pela expectativa do reencontro idealizado. Sente-se sossegado num sonho bom, de
mãos cruzadas sem fazer contas. É um momento alheio à sua realidade, ao seu tempo
demarcadamente triste. É o seu desajuste social que o empurra, que o impele a uma ação desgovernada,
personificando-o no próprio choque entre a “ordem e a desordem”. O narrador rola pela vida
como bolas na mesa de sinuca; não por sua vontade, mas pela sorte do jogo da vida:

O cobrador. Tiro vinte cruzeiros, espero o troco. Gostosa, a noite. O ônibus
roncava, ganhava esquinas, passou a serraria, a fábrica de tubos. Passada a
ponte, eu desceria. Sentou-se a meu lado um tipo de chapéu, olhando de
esguelha. Assim fazem nos ônibus, parecem não ter coragem de encarar
uma pessoa. Caras de gente apoquentada nestes lados, que me parecem uma
indústria de neurastênicos.
O ônibus rolava pelo viaduto. Rio sujo lá embaixo. Ainda dizem ser grande
coisa lá na escola. Asnos engravatados! Não sei. Li, dia desses, a biografia
de um escritor morto há pouco, também professor. Coitado, mal tinha para
os quatro filhos, e um dia foi detido, trancafiado, por meter-se em política,
mesmo não sendo da esquerda. Homem admirável. Mas dizer-se maravilha
do rio fedorento, lá isto é asneira grossa. Até um ignorante como eu,
percebe. Xingam isto de nome indígena…

Todo o contexto desse trecho recai sobre o significado da capturação, seja a das relações
humanas pela produção industrial, seja a da liberdade pela repressão política, seja a da
criticidade pela escola, e isto se expandindo para todas as instituições sociais cujas
reprimendas recaem também sobre um narrador. Ele identifica um estrato da população que
tem a suas vontades roubadas e cuja abulia é conseqüência desse seqüestro social, no qual se
insere. Nesse espaço industrializado, o narrador capta, por meio do olhar de esguelha e
pelo próprio figurino (chapéu) do anônimo, as incongruências das relações sociais. Numa
visão pretensamente oposta, a ponte aparece como a passagem para a concretização de um
sonho bom. Mas o rio, o símbolo da vida, sobre o qual o “ônibus rola”, é sujo, tal qual
o meio hipócrita e desigual em que vive. Assim, o narrador figura-se como uma bola branca
de sinuca, que rola sobre essa mesa triste, sempre arriscado a quedas. Enfim chega:

Dou o sinal, pulo. Ganho a rua de paralelepípedos, dobro esquinas, olho o
endereço num cartão, entro por um corredor, rumo a um cortiço. A casa era
a última duma fileira de moradas de ferroviários. Na varanda, um casal em
namoro. Um pegadio sem modos. Avistando-me vem a moça atender.

Ainda, os obstáculos se sucedem até sua almejada alegria, pela sucessão de verbos,
que conotam sua dificuldade, seu caminho tortuoso, rumo ao reencontro.
Depois de rolar, rolar, pular, ele cai, como a bola branca: Carlinhos não está. O jogo
está perdido, seu sonho diluído em impossibilidades. O jogo da vida poderia ser mais leve
com a força do amigo; com um igual poderia caminhar mais leve: “Ótimo Carlinhos não se
desnorteava, fazia fé, dava-me o embalo, imprimia moral./ — Firma e joga o jogo!”.
A moral de Carlinhos é a do conluio, é seu cúmplice no desacerto social, na
indignação, ao contrário dos engravatados, da escola, da família: “Moral para a família
rezadeira é agüentar máquina de cálculos oito horas por dia, agüentar chefe estrangeiro,
bitola, manha, idiotice e ganhar seis contos no fim do mês. Hoje sou um bom rapaz…”.

Ele agüenta a sua profissão para responder a um padrão social, vivenciando um
descompasso entre a imagem que passa, que responde à sociedade e seu verdadeiro eu. E é
num tom de ironia que essa idéia deságua, para demonstrar o conflito entre a obrigação social
e o desejo íntimo.

O desencontro com o amigo realça o desencontro consigo mesmo, mais portas no seu
labirinto: “Despeço-me, deixo-os sossegados. Curvo as esquinas, subo ladeiras, acendo
cigarros maquinalmente. Encabulado. Pena não ter encontrado o excelente Carlinhos.
Chateado. Perdi uma noite agradável”. O autor retesa o sentimento de frustração em
frases unimembres, evitando, com a concisão, o tom sentimental ou pueril que poderia ter a
imagem. Mais uma vez ele perde algo que nem teve e o seu descompasso com a vida, o seu
despreparo para esse jogo, o inquieta: “Talvez por isso não arranje bom emprego. Mas… e se
não tenho jeito?”; “me desajeito ante mulheres”; “— Também… isso não deve ser hora de
visitas.”; “É. Quem sabe… não entendo dessas coisas”. As reticências, aqui, vêm figurar suas
inseguranças e a impossibilidade de verbalizá-las.

O movimento da narrativa parece se dar ao longo das ruas que, análogas a sua casa,
não o acolhem, mas a movimentação do narrador acontece numa fissura dos dois ambientes.
João Antônio pôde descrever as paisagens sem recorrer à ficção, mas o que a ficção dessa
narrativa traz nas descrições é a descoberta perturbadora, por um personagem subjugado,
tentado por um tipo de lembrança, uma busca no outro das suas próprias possibilidades. O
cenário se interpõe entre o narrador e Carlinhos, entre o eu e o outro: a visita não concretizada
acaba por recair numa profunda visita de si mesmo, que destrói a idealização do outro. Assim,
a viagem é, na verdade, interior: o movimento entre a sua casa e a do amigo constitui uma
metáfora da peregrinação dentro do “eu”.

Depois do seu encontro frustrado, do desejo não realizado, sua capacidade de ação se
encerra numa busca, típica dos personagens de João Antônio. A descrição do cenário, que
acomoda esse andante, é desenhada por adjetivos pospostos, que reforçam a imagem que se
quer imprimir. Esta variação e encadeamentos de adjetivos com a mesma conotação fixam a
imagem, enchem a página de cinza:

Bato a cinza do cigarro. A vila é bem mesquinha, rodeada de fábricas,
dezenas de bares, três igrejas, um grupo escolar. O casario feio abriga mal
gente feia, encardida, descorada. Nos meus cinco meses de vagabundagem
eu me acordava tarde, tarde e podia ver melhor aquilo. Tacos, bares. As ruas
com seus monturos, cães e esgotos, muitas me davam crianças que saíam do
grupo escolar. Não me agradavam aqueles pés no chão movendo corpinhos
magros. Qualquer ignorante podia perceber que aquilo não estava certo,
nem era vida que se desse aos meninos. Eu saía do botequim, chateado e
fatalmente enveredava mal. Encabulação, cachaça, erradas, desnorteava-me
no jogo. Um sentimento confuso, uma necessidade enorme de me impingir
que não era culpado de nada. Os meninos iam magros porque iam. Culpada
era a vida ou alguém ou muitos. Eu também engolia aquele barro,
agüentava aquela vida cinzenta. Podia mudar o quê? Não havia sido um
menino como aqueles, pés no chão, desengonçado? Nos dias de chuva eu
não me encolhia nessas ruas feito um pardal molhado? Sem eira nem
beira. Eu tinha culpa de quê?

Acontece mais uma vez a falta de perspectiva, a imobilidade que a situação social lhe
impõe. A imagem dos meninos descalços e magros se mistura a esgotos e cães e os coloca no
mesmo nível de significação. Na sua dolorosa cumplicidade, o narrador se confunde em
passado e presente: hoje vê de dentro aquilo que lhe parece fora e, por isso, o desamparo se
amplia. A imagem, em sua profusão de significados, arrebata-o numa culpa inerente que o
confunde. Num corpo-a-corpo com o espaço, conflitante, ele se debate com sua própria
consciência. Numa complacência com o que vê, o narrador acaba decretando uma
autocomplacência, perante uma violência que se perpetua. A estética do feio, nesse trecho,
potencializa a fusão entre forma e conteúdo. Num único parágrafo, ele desenha uma mancha
impressionista, na qual subtrai os contornos, em pinceladas nervosas que se entrevêem na
redução metonímica, do todo pela parte, nas sinonímias, nas anáforas, provocando uma
imprecisão fotográfica. Em conseqüência desse processo, a estrutura difusa ressalta o
“sentimento confuso” do narrador que se encerra nas múltiplas indagações sem resposta, a
fluidez da imagem e a frustação do eu-narrativo, respectivamente.
Sua expectativa não se lança além de minutos:

Quis seguir estrada, o atalho me surpreendeu. Uns dez minutos e estaria na
vila. Sapos, nas pocinhas das beiradas do campo de futebol. Até há pouco,
aquilo era do futebol da molecada. Indústrias querem surgir acompanhando
a estrada de ferro, acompanhando tudo, provavelmente serão usinas de
concreto.

Paralelos à ficção, os acasos do itinerário sucedem a intriga. Ao mesmo tempo, ao lado
da narração, percebemos os acasos da escrita, que é a versão consciente da escritura
automática. Da mesma forma que o atalho surpreende o narrador, a poeticidade acomete com
igual intensidade a construção narrativa. Assim, tanto para o primeiro no seu percurso quanto
para o segundo na sua escritura, seguir pelas fissuras é inevitável, o atalho surpreende o
narrador, a poesia, o escritor. A estrada é descartada numa escolha à revelia do narrador, a má
sorte o conduz pelo jogo de vida. O convencional, o previsível, o seguro dá lugar ao
ilegitimado. Meandros ilegítimos escondem homens (molecadas) e bichos (sapo), que
compartilham o mesmo espaço, numa unidade animalizada, em detrimento da personificação
das indústrias que “querem surgir acompanhando a estrada de ferro, acompanhando tudo”. O
verbo “querer” dá ao objeto personificado a vida tirada dos homens que ali habitam. A
indústria se sobrepõe ao espaço lúdico: “Até há pouco, aquilo era do futebol da molecada.”,
metalizando-o, capturando o contato direto com o natural.

É, portanto, por meio do espaço exterior que o narrador se deixa visualizar na sua
subjetividade, cuja exploração não se define pelo culto ao eu. Sem essa ode intimista, os
vários traços deste se fazem sempre em ligação com as revelações da rua. É o ser esfacelado
na dúvida, pois está inserido no paradigma da encruzilhada, da busca sem um ancoradouro.
Essas paisagens são, também elas, apenas seres de linguagem. Sendo assim, a virtuosidade
que as faz desdobrar obedece a um duplo fim, a imitação do romanesco e o prazer poético.
Numa gradação de tons, a “vida cinza”, na “várzea escura”, se torna “breu” e o submundo
vai se esboçando:

Várzea escura, breu. Meu pai disse-me que, quando menino na Europa,
transpunha vales escuros para pastoreio, onde lobos invadiam. Aqui há
mosquitos e fartum do cortume próximo. Luzes ao longe, luzes da serraria.
Posso caminhar olhando-as. Às vezes, faço de conta que são guias que eu
sigo para alcançar a vila. Pena não encontrar Carlinhos, não estaria tateando
este breu.

As luzes distantes também simbolizam esperanças distantes. Luzes transformadas em
guia na falta de Carlinhos, única pessoa que lhe lembra uma possibilidade de norte.
A sinestesia, “tateando este breu”, dá a densidade da escuridão, da falta de
perspectiva, que, entranhada no seu ser, mistura sentidos, revelando uma sensibilidade
à deriva.

No vale há lobos, nas veias noturnas da vila há “mosquitos bravos”: o narrador chega
ao bar, ambiente no qual se relacionam sinuca e lobos:

Os quatro se entreolharam. Também a sentinela e a maloqueira
entreolharam-se quando apareci. Na várzea havia mosquitos bravos, não
lobos. Um tipo musculoso mediu-me de soslaio, tinha a camisa apertando
braços enormes, uma cara enorme, um queixo enorme de gringo.

O inimigo cresce aos seus olhos. A grandiosidade deste rapta as
possibilidades do narrador, pois tanto no jogo, quanto na embriaguez:

Angústia me vem, cada vez que penso em coisas sérias, quando bebo.
Começo de desmaios, muita vez, quando bêbado penso em coisas sérias;
com um estremecimento empurro a idéia de tê-los agora. Lassidão, o
amargo começando na boca, a canseira nas coxas e nas barrigas das pernas.

A debilidade física desvela uma identidade humilhada, aproximando a idéia de morte e
vida no jogo de sinuca. Sempre desajustado na situação em que vive, o otário é sensível
demais para ser malandro, bêbado (“penso em coisas sérias”) e crítico demais para um
assalariado; ele não tem lugar.

Finalizado esse jogo, a idéia de voltar para a família, o trabalho, a escola, o
atualiza no seu labirinto, cujas várias portas o colocam desconfortavelmente num
não-lugar. Um sentimento de falência o impele a uma última fuga: um modo interino de
morrer: “Os olhos pescam. As mãos ásperas de giz, os olhos estão miúdos. Muito sono,
muito urgente é dormir, luz apagada, travesseiro, solidão, nada…”.

Para conseguir uma ligação entre o sono e o estado mórbido, o autor faz emergir essa
sensação sincrônica, a partir da disposição gráfica, da musicalidade. As misturas dos focos
narrativos, primeira e terceira pessoa, promovem ao mesmo tempo uma visão de dentro e de
fora, cuja perspectiva põe essa narrativa, como todas as outras da obra, em contato direto com
a relação entre o sujeito e o objeto das pinturas impressionistas. A imagem se dá por uma
substantivação acirrada, que privilegia o sentir em detrimento do ver. A saturação de
nomeações, que recobre todo o trecho de um teor abstrato, justapõe gradativamente
substantivos concretos e abstratos. Estes últimos prevalecem pela duplicidade que se resume
em duas abstrações crescentes. Trata-se da captação de um sentimento que avança da solidão
para o niilismo e se prolonga nas reticências. Essa construção deixa ver esse vácuo por um
trabalho imagético que se auto-destrói.

A visita não concretizada possibilita uma visita a si mesmo, cuja concretude se
desenha, ironicamente, por um niilismo, que se encerra num vislumbre de uma saída rarefeita
– o sonho. Ele não encontra Carlinhos, assim como não encontra saída, por isso seu porto se
dilui num nada. A mesma consciência crítica que o resgata de um ostracismo íntimo, o impele
a uma constatação da sua falência, sugerida pela consciência de um espaço degradado que
reflete os destroços de si mesmo. O espaço se interpõe entre ele e a idéia utópica: “Mas
amanhã a repetição dos relatórios. Meus olhos viajarão do teclado aos corpos taludos dos
homens da sacaria. E nas paredes brancas do escritório, balburdia, persianas entreabertas,
ingleses a perambular”.

Nesse processo de inversão de papéis, o homem se torna cenário, e o cenário, super-homem.
Mas, nesse caso, o homem é suprimido pelo espaço e não consegue suplantá-lo nem pelo seu olhar
poético, nem pela sua humanidade. Aqui, o olhar do narrador serve apenas para reafirmar
que ele está fadado à posição de otário cuja movimentação é, parodoxalmente, imobilizadora,
pois se dá num intervalo entre o descontentamento com a sua situação e a fraqueza para sair
dela. É, portanto numa fissura entre o espaço interno e externo, entre o mecânico e o
humano, que seu olhar demarca sua implacável contradição.

Quando o narrador-otário volta para aquele trabalho que mata a sua criatividade
(“repetição dos relatórios”), frio (“as paredes brancas”) e artificial (“ingleses a perambular”),
ele definitivamente perde os contornos humanos que só podem ser vistos fora, nos “corpos
taludos dos homens da sacaria”, pois, ali dentro ele se torna mais uma peça do escritório.

A linguagem configura a engrenagem capitalista que desumaniza, e
ao fazê-lo engendra o avesso, resgata o homem da coisa pela poesia da imagem.
Percebe-se, enfim, que a coisificação do homem é tecida num plano sensacional, cujo
acordo subjetivo entre as reações íntimas do personagem e o modo de articulação dos
fonemas e das frases é balizado por um ritmo psicológico. Esse procedimento é capaz de
promover um movimento duplo, no qual o tema da visita se reverbera numa forma que
vistoria as emoções do visitante, delineando os ecos da sua falência. Levado e trazido pela
maré rítmica de uma narrativa poética, o narrador é ameaçado pelo nada. Somente a fala
poética habita o sobrevivente desse personagem.

Texto proveniente de:
Jane Christina Pereira
– Doutoranda em Letras da Universidade Estadual Paulista (UNESP)
Luciana Cristina Corrêa – Pós-Graduada em Letras da Universidade Estadual
Paulista (UNESP)

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