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O confronto no Rio de Janeiro

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A quinta-feira, 25 de novembro de 2010, entrou para a história do Rio
de Janeiro como o dia em que a cidade se insurgiu contra o tráfico. Hipnotizada,
a população parou para assistir em casa e na rua às cenas
de sua guerra particular, transmitidas ao vivo pela televisão. Pela primeira
vez na história, veículos militares blindados da Marinha trafegaram
pelas vielas de uma favela. Seis tanques de guerra, do mesmo modelo usado no
Iraque, e dois veículos anfíbios abriram caminho para a entrada
de homens do Bope na Vila Cruzeiro, o principal bunker do Comando Vermelho,
maior facção criminosa do Estado. A Vila Cruzeiro, ao lado dos
complexos de favelas da Penha e do Alemão, era considerada uma fortaleza
inexpugnável, refúgio seguro para bandidos e traficantes.

Todos assistiram à ação da polícia como se estivessem
diante do filme “Tropa de elite”, versão 3. A incursão
envolveu 510 policiais e 88 fuzileiros navais. Foi uma resposta fulminante e
bem coordenada aos atentados terroristas que, ao longo da semana, incendiaram
pelo menos 95 veículos nas ruas. A polícia esperava conflito com
os traficantes da Vila Cruzeiro, mas o que se viu foram dezenas de bandidos
fugindo pela mata, de moto, picape ou a pé, rumo ao Complexo do Alemão.
Moradores acenavam com panos, toalhas e lençóis brancos, pedindo
paz e ajuda. Na sexta-feira, chegou um reforço com 800 soldados do Exército
– e a ocupação dos morros era dada como certa. A dúvida
era quando e como seria retomado todo o território em poder dos bandidos.

Estava em jogo ali a confiança do mundo na capacidade do Rio de Janeiro
de sediar as Olimpíadas de 2016 e a Copa de 2014. E também o futuro
da política de segurança da cidade, em especial de um projeto
que, ao menos parcialmente, devolveu nos dois últimos anos a paz a vários
pontos da cidade: as Unidades de Polícia Pacificadora, ou UPPs. Formadas
por jovens policiais, treinados durante seis meses, as UPPs já retomaram
o território de 12 favelas antes dominadas por traficantes. Acompanhadas
de ginásios, creches, postos de saúde, bancos, elas tentam garantir
a presença do Estado na área. Sua implantação enfrentou
seu maior teste no epicentro do tráfico. Com o sucesso nas opeaçãoes,
o Rio poderá se tornar um exemplo para o Brasil e para todo o mundo.

RESISTÊNCIA
Armado de fuzil, bandido ameaça os policiais que avançavam
por uma das entradas do Complexo do Alemão, no dia 26. Foto: César
Guimarães/UOL/Folhapress

Em uma semana, PM prende 118 em operações no Rio; mortos
passam de 50

As operações policiais para tentar conter a onda de violência
que atingiu o Rio a partir do dia 21 de novembro resultaram em 118 prisões
e na apreensão de 164 armas e 77 granadas ou bombas caseiras, de acordo
com balanço parcial da Polícia Militar. No período, ao
menos 51 pessoas morreram durante as operações. Deste total, foram
37 mortes de suspeitos registradas pela PM, 7 mortes registrados pela Polícia
Civil e 7 registradas pelos hospitais públicos do Rio.

Segundo balanço da PM, 130 pessoas também foram detidas para
averiguação. Durante as buscas, foram apreendidos coquetéis
molotov, além de material combustível. Mais de cem veículos
foram incendiados em ações criminosas.

Com o apoio das Forças Armadas, a polícia ocupou o Complexo do
Alemão praticamente sem resistência dos traficantes na manhã
de domingo (28), após uma série de atentados ocorridos na cidade.
Na quinta-feira, policiais já tinham entrado na Vila Cruzeiro, favela
vizinha ao complexo.

Os militares ainda fazem varredura em casas do Complexo do Alemão e
revistam quem entra e quem sai da comunidade.

A presidente eleita, Dilma Rousseff, e o governador Sérgio Cabral devem
se encontrar na noite de hoje para discutir as ocupações e os
ataques do crime organizado no Rio.

Apreensões

Após receber denúncias de moradores, a polícia localizou,
na manhã desta segunda-feira, uma casa no Complexo do Alemão em
cujo porão havia armas. Segundo a polícia, foram apreendidos cinco
fuzis, um rifle, duas granadas, munição, carregadores de armas
e um colete camuflado.

Como o porão é muito estreito, cachorros serão utilizados
para farejar o local e descobrir se há mais material.

UPP

Cabral afirmou que acertou com o Ministério da Defesa a permanência
das Forças Armadas nos complexos de favelas do Alemão e da Penha
de três a sete meses. Militares do Exército ficarão até
que sejam instaladas UPPs (Unidades de Polícia Pacificadora) na região.

O governador disse que o acordo ainda é verbal, mas que as questões
técnicas serão resolvidas e um documento, assinado.

Após a ocupação, o secretário de Segurança
Pública do Rio, José Mariano Beltrame, afirmou em entrevista coletiva
que a polícia vai permanecer ocupando o Complexo do Alemão, ‘o
coração do mal’ em suas palavras.

Serviços

O prefeito do Rio, Eduardo Paes, apresentou nesta segunda-feira um pacote de
serviços públicos para os complexos de favelas do Alemão,
da Penha e para dez bairros da região, ocupados desde domingo por forças
policiais. A “invasão de serviços” foi definida numa
reunião pela manhã com diversos secretários municipais.

As ações emergenciais, no entanto, ainda aguardam a autorização
da Secretaria Estadual de Segurança Pública para que sejam concretizadas.

A vila olímpica do complexo do Alemão servirá de base
para a realização dos serviços, para o quais Paes pediu
ao Tribunal de Contas do Município agilidade na liberação
de verbas e licitações.

Diante de ruas depredadas e da construção de barricadas por traficantes
para impedir a entrada das forças policiais, a Secretaria Municipal de
Conservação e Serviços Públicos concentrará
esforços na pavimentação e drenagem das vias. A limpeza
imediata da área será feita por 600 garis da Comlurb. Depois,
a ideia é que cem homens façam a varredura e coleta de lixo permanente
da região. Também terá início a limpeza de quatro
rios que cortam a área.

Com 14 equipes, a Rio Luz vai restabelecer a energia no local e reformular
o sistema de iluminação dos dois complexos.

Militares patrulham vias do Complexo do Alemão,
na zona norte do Rio

O ministro da Justiça, Luiz Paulo Barreto, anunciou nesta segunda-feira,
dia 29 de novembro, um plano de cooperação internacional, envolvendo
Peru e Bolívia, para combater o narcotráfico não só
no Brasil, mas em todos os países da América do Sul. “Chegou
a hora de um plano de combate ao crime organizado na América do Sul”,
afirmou o ministro ao tratar do acesso de traficantes do Rio de Janeiro a drogas
e armamentos.

Barreto concedeu a entrevista ao lado do ministro do Interior boliviano, Sacha
Lorenty. Eles se reuniram para discutir políticas de fronteiras e ações
conjuntas, que poderá resultar na assinatura de um acordo de cooperação
entre países da América do Sul.

De acordo com Barreto, o governo também vai já conversou com
representantes da Argentina e do Paraguai e vai se reunir com autoridades do
Peru, Colômbia, Venezuela e Uruguai.

A ideia, segundo o ministro, é garantir a integração,
mas também o firme combate ao tráfico de drogas e armas nas regiões
de fronteira.

Integração

De acordo com Barreto, mesmo se todos os policiais disponíveis fossem
colocados nas fronteiras ainda há a possibilidade de entrada de drogas
e armas por via aérea. “A integração entre toda a
América do Sul, com um sistema eficiente de proteção, é
o melhor caminho para um efetivo combate ao crime nos 16 mil quilômetros
quadrados de fronteira do Brasil e em toda a região”, concluiu
o ministro, lembrando a importância do uso da tecnologia e da inteligência.

O ministro afirmou que o Brasil vai enviar uma equipe técnica à
Bolívia para ajudar no treinamento de agentes para combater o tráfico
de drogas e de armas.

Ele defendeu uma ação “dura e firme” das Forças
de Segurança no combate ao crime organizado no Rio, mas aliada à
política de pacificação das comunidades com maiores índices
de violência. “Essa é a linha de segurança pública
que temos que ter no Brasil, a política de pacificação”,
afirmou.

Plano municipal

Ainda nesta segunda-feira, o prefeito do Rio, Eduardo Paes anunciou um conjunto
de ações para os Complexos do Alemão e da Penha, incluindo
melhoria nos serviços e obras de urbanização.

A prefeitura terá duas bases operacionais – uma na Vila Cruzeiro e outra
no Complexo do Alemão – que funcionarão como uma espécie
de quartel-general dos serviços municipais, servindo de apoio aos funcionários
e de referência para população.

Paes disse também que vai assinar um decreto municipal tornando o dia
28 de novembro o da refundação da cidade. “É uma
data histórica para o Rio, o Estado e o país. Nada mais justo.”

Cronologia dos confronto no Rio de Janeiro

DOMINGO (21/11)
* 2 veículos são incendiados e 1 carro da Aeronáutica
é metralhado na Linha Vermelha por homens armados com fuzis
* Outros dois ataques ocorrem na Pavuna e em Laranjeiras
SEGUNDA-FEIRA (22/11) * 4 veículos incendiados
* 1 ataque a cabine blindada da PM no Irajá, na zona norte do Rio
TERÇA-FEIRA (23/11) * Na madrugada, quatro são flagrados em Copacabana colocando bombas
em carros
* PM inicia operações em 18 favelas em toda a cidade
* Dezenas de veículos queimados à noite
QUARTA-FEIRA (24/11) * 31 veículos incendiados, maior parte na zona norte do Rio
* 50 homens do Bope entram na favela Vila Cruzeiro, no Complexo da Penha
QUINTA-FEIRA (25/11) * 37 veículos incendiados
* 1 ataque a posto de polícia em Mesquita
* Operação conjunta do Bope, das polícias Militar e
Civil, com apoio logístico da Marinha, expulsa o tráfico da
Vila Cruzeiro
* Debandada dos traficantes para o vizinho Complexo do Alemão é
transmitida ao vivo pelas TVs
SEXTA-FEIRA (26/11) * 9 veículos queimados
* 800 homens da Brigada Paraquedista do Exército entram na guerra
contra o tráfico e iniciam cerco ao Complexo do Alemão
SÁBADO (27/11) * 4 veículos incendiados em dois pontos diferentes de Nova Iguaçu,
na Baixada Fluminense
DOMINGO (28/11) * cerca de 30 presos
* 40 toneladas de maconha apreendidas
* cerca de 50 fuzis apreendidos
* 10 mil munições apreendidas
* mais de 50 coletes à prova de bala apreendidos
SEGUNDA-FEIRA (29/11) * 5 presos
* 31 armas apreendidas
* 54 granadas e explosivos apreendidos
* diversas peças de carros roubados encontradas

Fontes: Revista Época | BBC Brasil | Jornal Folha
de S. Paulo

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