Home EstudosSala de AulaAtualidades Prof. Milton Moura nos fala sobre esteriótipos de baianidade

Prof. Milton Moura nos fala sobre esteriótipos de baianidade

by


Milton Moura

Prof. Dr. Milton Moura desenvolve trabalhos sobre a História
do Carnaval de Salvador, os festejos do Caboclo de Itaparica e a Música
Popular no Brasil. Interessa-se também por estudos sobre construções
de identidades e diversidade cultural. Coordena o grupo de pesquisa O Som do
Lugar e o Mundo. Fez Bacharelado e Licenciatura em Filosofia na Pontifícia
Universidade Católica do Rio de Janeiro (1981) e Mestrado em Ciências
Sociais (1986) e Doutorado em Comunicação e Cultura Contemporâneas
(2001) na Universidade Federal da Bahia. É Professor Associado do Departamento
de História da UFBA.

Confira entrevista onde ele nos fala sobre os esteriótipos
de baianidade:

Leonardo Campos – A primeira pergunta é básica
mas faz uma definição do conteúdo da entrevista: o que
seria a dita “baianidade”?

Milton Moura – Chamo baianidade a um quadro de referências
de um modo de ser baiano, cujas origens remontam ao século XIX. Foi se
desenvolvendo no plano da mídia – sobretudo da música – e da literatura,
e alcançou o máximo de cultivo entre os anos 80 e 90. Encontra-se
hoje em refluxo. Baseia-se na caracterização do modo de ser baiano
sobre três pilares: a religiosidade, a sensualidade e a familiaridade.
Convencionalmente, a baianidade se refere a Salvador e o Recôncavo.

LC – Existe diferença entre nordestinidade e baianidade.
Em sua opinião, qual seria o ponto de diferenciação entre
ambas noções?

MM – A nordestinidade (esta palavra não é muito
usada) é o equivalente à baianidade em escala correspondente à
chamada Região Nordeste. Este quadro de referências também
corresponde a uma certa caracterização. Não é simplesmente
“a cara do Nordeste”, mas “a cara de um Nordeste”.

LC – O senhor possui um trabalho acadêmico sobre o assunto.
Poderia comentá-lo?

MM – Na minha Tese de Doutorado, discorro longamente sobre
a formação deste quadro de referências e sobretudo sua relação
com a cultura de Carnaval. Chama-se “Carnaval e Baianidade – Arestas e
Curvas da Coreografia de Identidades do Carnaval de Salvador”. UFBA, 2001.

LC – Os especialistas julgam que Dorival Caymi e Jorge Amado
são os principais responsáveis pela invenção da
baianidade. Haveria outros “culpados”?

MM – Tanto Dorival quanto Jorge atuaram decisivamente no
sentido de contribuir para reforçar a importância da Bahia (refiro-me
a Salvador e Recôncavo) no cenário nacional e, no caso de Jorge,
também na relação com o mundo. Jorge explorou isto a partir
dos romances da década de 60; de certa forma, isto já está
presente nos romances anteriores à sua fase de militante comunista e
em Gabriela (1958).

LC – Na contemporaneidade, quem seriam estes responsáveis
pela disseminação dos estereótipos de baianidade através
da música?

MM – A narrativa da baianidade está em refluxo. O
pagode e o arrocha são hoje os estilos musicais mais cultivados pela
população, e também o gospel, em diversas cidades. A música
de Carnaval, hoje, fala menos da Bahia. Daniela Mercury, de dois em dois anos,
grava uma ou duas canções em disco falando da Bahia. Ivete não
faz mais isto. Margareth ficou menos visível. Para além da música
de Carnaval, os casos mais emblemáticos são os compositores do
tipo Roberto Mendes.

LC – Na televisão, quais são os principais
programas que focam nessa reiteração de baianidade estereotipada?

MM – Os estereótipos veiculados na televisão
são bem diferentes daqueles formatados aqui. Trata-se de tipos muito
grosseiros, como de personagens do Caceta e Planeta ou, às vezes, de
Zorra Total. Não têm a ver com a baianidade tal como dita pelo
Carnaval de Salvador, ou por artistas como Dorival e Jorge. Seria um equívoco
colocar tudo isto junto. A baianidade dos anos 80 exalta o ser baiano, faz apologia
de nossa sensualidade, de nosso ritmo, de nossa inteligência. A televisão
dos programas chamados “nacionais” faz um debique preconceituoso com
relação a tudo que não é o brasileiro considerado
“central”. Isto acontece também com outras regionalidades.

LC – O que o senhor diria para os vestibulandos
que desejam ingressar na área de Comunicação e afins? Há
espaço suficiente ou trata-se de uma área atualmente saturada?

MM – É uma área que permite atuar em diversas
frentes. Produção cultural, assessoria, consultoria, mídia
etc. Como tudo na vida, é preciso ser competente.

Créditos: Leonardo Campos, graduando em Letras Vernáculas
com Habilitação em Língua Estrangeira Moderna – Inglês
– UFBA | Pesquisador do grupo “Da invenção à reinvenção:
imagens do Nordeste na mídia contemporânea” – Letras
– UFBA | Pesquisador na área de cinema, literatura e cultura

Posts Relacionados