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Quais são as motivações de quem opta por um curso superior de tecnologia?

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Tecnólogo em radiologia pode atuar no gerenciamento,
pesquisa e apoio a exames laboratoriais
(Foto: Divulgação/Cefet-SC)

Quais são as motivações de quem opta por um curso superior
de tecnologia? O senso comum diz que os principais atrativos da modalidade são
a formação em um curto espaço de tempo e os custos menores
em comparação ao bacharelado. Mas a realidade parece estar mudando.
É o que aponta a pesquisa Cursos Superiores de Tecnologia: um estudo
de sua demanda sob a ótica do estudante, trabalho desenvolvido pela diretora
de regulação e supervisão da Secretaria de Educação
Profissional e Tecnológica do Ministério da Educação
(Setec/MEC), Andréa Andrade, durante mestrado na Universidade de Brasília
(UnB) e apresentado durante o Seminário Internacional de Cursos Superiores
de Tecnologia, ocorrido em junho em Brasília.

A pesquisa foi realizada em 2009 com 1,2 mil estudantes no momento em que eles
prestavam vestibular. Os candidatos foram questionados sobre os motivos pelos
quais optaram por um curso superior de tecnologia. A razão mais apontada
pelos participantes foi a de que os cursos são “focados em áreas
com boas chances de emprego”. Essa resposta apareceu em primeiro lugar,
citada por 45% dos futuros alunos.

Em seguida, 41% afirmaram que “o mercado está valorizando o diploma
de curso superior tecnológico” e 34% apontaram como vantagem serem
“cursos especializados”. A duração da formação
aparece em sexto lugar e o valor do curso apenas em 11º. “O resultado
foi surpreendente. Minha hipótese era a de que o custo e a duração
seriam as primeiras razões, mas o que faz o estudante escolher o curso
tecnológico é a expectativa por emprego”, analisa Andréa.

Para Andréa, a percepção dos alunos de que um diploma
de tecnólogo pode garantir uma boa inserção no mercado
é resultado da expansão que o setor viveu na última década.
“O grande público não diferencia mais um curso de bacharelado
do tecnológico, que passou a ser visto como mais um curso superior. O
estudo mostra que o aluno valoriza o curso e tem uma expectativa muito positiva.
Eles também falaram muito sobre a questão dessa formação
de ser pioneira e inovadora”, explica a diretora da Setec.

Andréa destaca que as razões para a escolha variam de acordo
com a área de formação escolhida, a renda e a idade do
aluno. Se a questão dos custos só foi citada como motivação
por 6% dos participantes, apareceu com mais peso entre aqueles que optaram por
cursos no eixo de gestão de negócios (19%).

O fator duração da formação foi apontado como relevante
por apenas 20% da amostra. Mas a pesquisa aponta que “a demanda por uma
formação rápida cresce conforme se amplia a idade”.
Enquanto apenas 4% dos respondentes com idade inferior a 18 anos demonstraram
preocupação com essa questão, o índice sobe para
48% na faixa etária acima dos 40 anos.

Mas, independentemente de idade, renda ou se a instituição é
pública ou privada, são altas as expectativas de inserção
no mercado do trabalho a partir da formação tecnológica.
Essa razão foi citada por 45% da amostra.

Andréa aponta outra tendência: entre os que já possuíam
uma graduação, muitos buscavam no tecnológico a reinserção
no mercado de trabalho (39%) ou apostavam na modalidade como “uma forma
de manter-se atualizado” (46%). “O curso tecnológico se configura
como uma segunda graduação e um público muito grande está
fazendo essa escolha. Ou ainda no caso de quem iniciou um curso superior anteriormente,
mas não concluiu. Certamente os professores estão tendo de conviver
com uma dificuldade a mais em sala de aula: alunos jovens junto com alunos com
mais experiência de vida e foco muito distinto”, ressalta Andréa.

Durante o Seminário Internacional de Cursos Superiores de Tecnologia,
ocorrido em junho em Brasília, mais de 200 especialistas, entidades e
representantes de instituições de ensino do Brasil e América
Latina discutiram qual é a visão que o mercado e a sociedade têm
dos tecnológicos e como superar o “complexo de inferioridade”
em relação aos cursos de bacharelado. As discussões apontaram
para respostas semelhantes ao resultado indicado pela pesquisa de Andréa:
é o mercado de trabalho que vai levar os cursos de tecnologia a um novo
patamar. “Não existe uma fórmula mágica, é
um processo contínuo, mas as perspectivas são extremamente positivas.
Percebemos que a necessidade irá forçar essa aceitação
porque não há disponibilidade de profissionais”, defende
Jorge Guaracy, presidente da Associação Nacional dos Tecnólogos
(ANT).

Consuelo Aparecida Santos, presidente do Conselho Nacional das Instituições
da Rede Federal de Educação Profissional e Tecnológica
(Conif), aposta na própria lógica do sistema como principal estratégia
para consolidação da área. “Para fazer esse trabalho
de convencimento da importância dos tecnólogos, a primeira coisa
é os estudantes saírem formados. Hoje esse número já
é bastante grande e eles vão ocupando esses espaços. Quanto
mais estudantes formamos, com certeza eles irão disseminar essa cultura
na sociedade”, acredita Consuelo.

Ela também defendeu, durante o seminário, que as instituições
façam um “marketing” dos tecnólogos. “Não
é o marketing do tipo “faça um curso em dois anos”.
As instituições precisam chamar a atenção para os
conteúdos ensinados e as competências que os tecnólogos
desenvolvem, que são importantíssimas. É preciso chamar
a atenção para a concepção desses cursos”,
recomenda Consuelo, que também é reitora do Instituto Federal
de Santa Catarina (IFSC).

O presidente da ANT acredita que as instituições hoje, “na
média”, entendem quais são as demandas que estão postas
pelo mercado. “No início houve uma empolgação por
vender a ideia de fazer um curso superior em dois anos e isso causou um certo
refluxo. Acredito que há uma tendência natural das instituições
de ensino de irem buscando um aprimoramento do que oferecem, não cursos
que se coloquem como uma solução tapa-buraco, mas de fato abraçando
os cursos tecnológicos”, diz Guaracy.

Durante o seminário, duas questões apareceram como barreiras
a serem superadas: a inclusão de cargos para tecnólogos em editais
de concursos públicos e a superação das limitações
impostas pelos conselhos federais para a atuação desses profissionais.
Segundo os participantes, muitas seleções de emprego ainda exigem
diploma de engenheiro para cargos e funções que podem ser ocupadas
por tecnólogos. “A discriminação existe em relação
à regulamentação, principalmente para os tecnólogos
que estão ligados a conselhos federais. Nesses casos o exercício
profissional fica restrito à atribuição que o conselho
admite que ele faça”, aponta Guaracy.

Mas o sentimento geral é de que com o tempo – e o esforço conjunto
de instituições privadas, Ifets, MEC e Sistema S para valorizar
e promover os cursos tecnológicos – essas barreiras serão superadas.
Seja pela necessidade do mercado ou dos próprios anseios da população
por uma formação que seja mais conectada com o mundo do trabalho.

“A primeira reação a tudo que é novo é a desconfiança.
Por isso, digo que os maiores problemas dos cursos superiores de tecnologia
são o desconhecimento e o preconceito”, avalia Fernando Leme do
Prado, presidente da Associação Nacional da Educação
Tecnológica (Anet). Na avaliação dele, o trabalho de “convencimento”
da importância desse nível educacional precisa começar pela
instituição de ensino.

“Esse preconceito nasce muitas vezes dentro da própria instituição.
Ela não valoriza os profissionais que está formando e passa para
os estudantes essa mesma sensação. Essa cultura precisa ser superada”,
aconselha. (A.C.)

“Os tecnólogos precisam se integrar
à educação continuada”
Durante o Seminário também foram apresentadas
expe­riências internacionais na área. Fernando Vargas,
especialista do Centro Interamericano para Desenvolvimento do Conhecimento
na Formação Profissional (Cinterfor), ligado à Organização
Internacional do Trabalho (OIT), apresentou um panorama da formação
tecnológica na América Latina e destacou que os países
da região vivem momentos semelhantes. O desafio é consolidar
os cursos superiores de tecnologia como uma ferramenta para o desenvolvimento
econômico da região. Para ele, essa não é uma
demanda só do mercado, mas da própria juventude.

Revista Ensino Superior: Em outros países da
região também existe esse embate entre o bacharelado e o
tecnológico?
Sim, em alguns países as universidades têm reclamado aos
ministérios da educação dizendo que as instituições
de ensino técnico “não têm de fazer tanto”,
que estão “invadindo a praia” das universidades. Isso
é um erro. Os tecnológicos se desenvolveram mais pela facilidade
dos formados de ingressar no mercado e os jovens preferem uma experiência
educacional mais próxima da realidade. Muitas universidades fecharam
suas portas na ideia do conhecimento per se [por si mesmo]. Isso precisa
ser revisto.

Revista Ensino Superior: E quais são os principais
desafios dos cursos superiores de tecnologia para o futuro?
Eles precisam ser integrados com a concepção de educação
ao longo da vida. Não podem ser vistos como um objetivo que o estudante
tem para chegar a um nível e parar ali. Depois de cinco anos de
formado um tecnólogo já fica obsoleto. O principal desafio
dos países é não criar a exclusão entre os
diferentes níveis de ensino como se cada um fosse uma praia particular.

Mudanças na avaliação
O Ministério da Educação finalizou em abril o
novo Instrumento de Avaliação dos Cursos Superiores de Tecnologia,
que servirá de parâmetro para a avaliação e
reconhecimento dessas graduações no Sinaes. A grande queixa
do setor era de que os tecnológicos não poderiam ser avaliados
a partir dos mesmos critérios dos bacharelados. Reivindicavam,
por exemplo, mais valorização da experiência profissional
do corpo docente do que do número de mestres e doutores.

Composto por três dimensões – projeto político-pedagógico,
corpo docente e instalações físicas – o documento
manteve a valorização do número de mestres e doutores.
O curso pode ganhar nota 1 a 5 de acordo com o percentual de docentes
que possuem pós-graduação stricto sensu. Mas também
considera a experiência profissional dos professores “no eixo
tecnológico do curso”. Também numa escala de 1 a 5,
a instituição será avaliada de acordo com o percentual
de docentes que possuem experiência mínima de pelo menos
três anos no mercado, excluindo-se o magistério.

Mas o instrumento manteve a pesquisa e a produção científica
como um critério de avaliação, o que foi criticado
por especialistas durante o Seminário. O setor defende que essa
é função da universidade. O documento está
disponível para consulta no site do InInep: www.inep.gov.br.

Fonte: Revista Ensino Superior

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