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Venezuela – Populismo: 5. Chávez ameaçado de ficar sem dinheiro para revolução populista

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“OBRIGADO, SENHOR PRESIDENTE”
Na prova final do curso que alfabetiza
um adulto em sete semanas, mantido pelo
governo venezuelano, pede-se aos alunos
que escrevam uma carta a Hugo Chávez. “Eu
agradeci ao presidente a oportunidade que
ele me deu”, diz Yulibia Serrano, de 43
anos, que agora participa da segunda fase
do curso e está se preparando para fazer
parte de uma cooperativa de costureiras
montada pelo governo. “Ele é o único
político que se preocupa com os pobres.”
Yulibia e seu marido, que está
desempregado, sustentam os seis filhos
alugando duas peças de sua casa, no barrio
La Pastora. Eles vivem com o equivalente a
270 reais por mês. “Nossa situação está
pior do que antes, mas a culpa não é de
Chávez, é do meu marido, que não consegue
emprego”, diz Yulibia.Outubro/2006 – Queda no preço do petróleo ameaça deixar Chávez sem dinheiro para manter sua revolução populista

O presidente Hugo Chávez chegou ao poder, nove anos atrás, embalado pela insatisfação popular provocada por duas
décadas de crise econômica e política. A instabilidade tivera origem na queda do preço do petróleo, que tirou
do governo o principal recurso para comprar a calma social com subsídios. A Venezuela é o quinto maior
exportador mundial de petróleo, mas a concentração da receita do produto nas mãos do Estado, distribuída por
critérios políticos, privou o país da oportunidade de criar mecanismos de mercado e instituições para
diversificar a economia. Apesar das promessas de uma revolução, Chávez deu seqüência ao histórico de
desperdício colossal da receita petrolífera, sem investir em infra-estrutura ou na criação de empregos.
O resultado é que então ele se viu às voltas com um problema recorrente: o preço do barril de petróleo,
que chegou a 78 dólares em julho de 2006, caiu para 56 no mesmo mês. Significou, num cálculo aproximado,
uma queda de 11 bilhões de dólares numa receita daquele ano de 40 bilhões.

Comparado com a década de 90, quando a média do barril andava em 20 dólares, o valor continuou alto. Mas
o governo apostava nos preços exorbitantes para sustentar uma política perdulária de gasto público e
sua diplomacia de subsídios bilionários para ganhar influência no exterior. “Chávez estava agindo
como se a receita com o petróleo fosse aumentar indefinidamente”, disse o economista José Toro Hardy, de
Caracas. “Por isso, se o preço do barril se estabilizar em 50 dólares ou menos, a economia da Venezuela
poderá enfrentar uma crise severa.” A queda de faturamento é recente demais para afetar as eleições
presidenciais marcadas para dezembro, e Chávez provavelmente será reeleito. Se o preço do petróleo voltar
a subir, empurrado por nova crise no Oriente Médio, o coronel poderá se safar. Caso isso não ocorresse,
seriam pequenas as chances de ele reverter o desastre.


Morales: ele depende de Chávez

Em parte, a dificuldade se deveu a outro fator: o sucateamento da indústria petrolífera venezuelana, mascarado
pelo alto preço do produto. Nos últimos nove anos, a receita petroleira da Venezuela quase triplicou, apesar
de a produção ter diminuído. Em 2006, a Venezuela extraiu 2,5 milhões de barris diários de petróleo, segundo
a Agência Internacional de Energia. Chávez, que manteve em segredo o balanço da estatal PDVSA, garantiu que eram
3,5 milhões de barris diários, desempenho próximo do alcançado em 1997. A razão para essa queda foi a transformação
da PDVSA em um cabide de empregos que, em vez de investir na eficiência de sua atividade original, se encarregou
de financiar os programas sociais do presidente. Um novo estudo do americano Norman Gall, diretor executivo do
Instituto Fernand Braudel de Economia Mundial, de São Paulo, deu os detalhes de como isso ocorreu. “O
orçamento atual da PDVSA prevê gastos de 8,2 bilhões de dólares com programas sociais, dois terços mais que
seus investimentos em exploração e produção”, escreveu Gall no ensaio Petróleo e Democracia na Venezuela.

Com o dinheiro da estatal, Chávez sustentou as misiones, projetos assistencialistas que vão desde cooperativas
de trabalhadores sem-terra até supermercados com alimentos a preços subsidiados. Esses programas paliativos tiveram
o efeito inverso ao anunciado na propaganda chavista: eles perpetuaram a pobreza na Venezuela porque não criaram
condições para a população andar com as próprias pernas. Os venezuelanos tinham dinheiro para gastar e manter
a economia aquecida apenas porque o governo aumentou os gastos públicos (124% só em 2006) e distribuiu dinheiro.
Apesar da liquidez elevada, os empresários, sejam venezuelanos, sejam estrangeiros, não investiram em seus negócios
para aumentar a produção industrial e o comércio. A razão para isso foi que poucos quiseram arriscar seu dinheiro
em um país onde o presidente passava suas cinco horas de programa dominical na TV mandando às favas o capitalismo e
a economia de mercado. Em outros países, essa situação levaria a uma inflação galopante. Na Venezuela, isso não aconteceu
porque o governo usou o dinheiro da venda do petróleo para garantir o crescimento das importações, subsidiar
os preços dos produtos básicos e controlar o câmbio.

Se o petróleo se mantivesse barato, essa equação desandaria. De quebra, colocaria em risco a política externa de
Chávez, baseada na distribuição de dinheiro e de favores a governos de outros países. Naquele momento, o presidente
venezuelano estava em campanha para conquistar uma das vagas temporárias do Conselho de Segurança da ONU, a ser
escolhidas naquele mês. Para isso, teve o apoio do governo do Brasil e de algumas das piores ditaduras que
existem, como o Irã, a Coréia do Norte e a Bielo-Rússia. A médio prazo, o objetivo de Chávez é se tornar o líder
do bloco dos países subdesenvolvidos. Na empreitada, comprou 3,1 bilhões de dólares em títulos da dívida argentina,
fez um fundo de 10 bilhões de dólares dedicado aos pobres do continente e financiou candidatos populistas em
vários países da região, entre os quais Evo Morales, da Bolívia.

O investimento no aumento da capacidade da produção petrolífera poderia salvar a Venezuela da sangria dos recursos públicos.
Chávez não se preparou para isso. Praticamente todas as suas decisões nesse setor foram equivocadas, como mostrou o
estudo de Norman Gall. A começar pela demissão de 20.000 funcionários da PDVSA, punidos por uma greve de dois meses
entre 2002 e 2003. A estatal perdeu, assim, boa parte dos técnicos e engenheiros que lhe garantiam a eficiência.
“Desde então, a PDVSA já teve seis executivos-chefes, enquanto Chávez lotava seus quadros superiores com indicados
por razões políticas”, escreve Gall. Resultado: os acidentes e incêndios nas refinarias multiplicaram-se e 21.000
poços da estatal foram fechados por falta de pessoal qualificado para fazer sua manutenção. O quadro agravou-se pela
decisão de Chávez de enviar 200 funcionários da PDVSA à Bolívia. O país andino não tem técnicos suficientes para
pôr em prática a nacionalização do gás natural e do petróleo, decretada em maio deste ano. A Bolívia mimetizou a
situação venezuelana: sem funcionários capacitados nem novos investimentos na exploração, o país correu o risco
de não conseguir fornecer ao Brasil e à Argentina a quantidade de gás natural estipulada em contrato. Por problemas
na sua produção petrolífera, a Venezuela teve de importar óleo para cumprir um contrato de venda para os Estados
Unidos, seu principal comprador. Essa é a realidade incômoda para Chávez: a Venezuela tem um superávit comercial de
27,6 bilhões de dólares com o país cujo governo ele demonizou. Apenas pelo capricho de tentar vender menos aos
Estados Unidos, Chávez queria exportar mais petróleo para a China, o que vai lhe custaria quatro vezes mais em
transporte. O comportamento do preço do petróleo deverá ditar os próximos passos do venezuelano.

RESUMO

O coronel tem poder total. E avisa que é socialismo ou morte.

Hugo Chávez, o Fidel com petróleo, quer seu terceiro mandato para arrastar o país ao “socialismo do século XXI”.
Quem não gostar será esmagado pela máquina.

LÍDER
Originalmente militar, Hugo Chávez era coronel pára-quedista quando entrou na política. Primeiro, tentou um golpe de
estado, em 1992, mas acabou preso. Em 1998, chegou à Presidência pelo voto, sendo duas vezes reeleito.

RETÓRICA
Fã incondicional e seguidor de Fidel Castro, Chávez imita o líder cubano nos pronunciamentos intermináveis e no
uso constante do rádio e da TV para defender sua popularidade. Tem um programa diário em que aparece discursando
entre camponeses e operários.

AMEAÇAS ÀS INSTITUIÇÕES NACIONAIS
Nos últimos anos, Chávez trabalhou para reduzir influência da oposição: lançou mão de plebiscitos para enfraquecer
o Congresso, sufocou adversários políticos, aparelhou o Executivo e o Judiciário com colaboradores e intimidou a
imprensa, usando artifícios de censura como cancelar concessões de canais de TV. Em 2007, recebeu do
Congresso poderes para governar por decreto, o que lhe garante o direito de concentrar ainda mais poder na
Presidência e estatizar os setores elétrico e das comunicações.

AMEAÇA À REGIÃO E À COMUNIDADE INTERNACIONAL
Com o dinheiro do petróleo e planos de exportar sua revolução, o caudilho venezuelano financiou insurreições
nos países vizinhos como Bolívia, Equador e Nicarágua – foi derrotado no México e no Peru. Como um inimigo
declarado da globalização e do livre-comércio, pode dificultar as negociações comerciais do Mercosul com
blocos importantes, como União Européia e Estados Unidos.

PERSPECTIVAS
Com exceção das pequenas repúblicas latino-americanas, as medidas de Chávez são irrelevantes para os vizinhos.
Seu projeto contra a modernidade e a integração econômica acabará por isolar a Venezuela no cenário mundial.
Internamente, os efeitos disso já podem ser vistos: nos últimos anos, os investimentos estrangeiros diretos
caíram pela metade.

RELAÇÃO COM O BRASIL
Nos primeiros momentos, o governo brasileiro apoiou Chávez. As relações, porém, esfriaram bastante. O governo
brasileiro adotou a tática de ter Chávez por perto para mantê-lo sob relativo controle, já que acredita que
acolher Venezuela e Bolívia no Mercosul é uma maneira de trazer estabilidade para a região.

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