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Autores: 8. Romantismo – José de Alencar e Lucíola

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José de Alencar, autor de Lucíola

Este artigo visa fazer um panorama do diálogo de José de Alencar
com alguns autores estrangeiros na construção do romance Lucíola,
publicado em 1862. Caracterizado como uma obra romântica, Lucíola
apresenta alguns traços de autores como Balzac e até mesmo dos
contos de fadas, mas será com a obra A Dama das Camélias,
de Alexandre Dumas Filho, que o escritor brasileiro, por muitos considerado
um dos construtores da nacionalidade através dos textos literários,
que o romance vai travar forte diálogo.

Lucíola: a cortesã do Império

Lucíola é o quinto romance de Alencar e o primeiro da
trilogia que ele denominou de “perfis de mulheres” (Lucíola,
Diva
e Senhora).
O romance está situado no rol dos romances urbanos de José de
Alencar, que narrou com bastante ousadia nossa vida burguesa do século
passado. Senhora é o romance mais conhecido dentro deste perfil,
portanto, Lucíola apresenta traços bastante característicos
da carreira do escritor, e por isso, o abordaremos neste especial.

É um romance de amor bem ao estilo do Romantismo, embora uma ou outra
manifestação do estilo Realista aí se faça presente.
O narrador da história é Paulo Silva. E ele a narra em cartas
dirigidas a uma senhora, G. M. (pseudônimo de Alencar), que as publica
em livro, intitulado Lucíola. Surge o Rio de Janeiro da época,
com a sua fisionomia burguesa e tradicional, com uma sociedade endinheirada
que freqüentava o Teatro Lírico, passeava à tarde na Rua
do Ouvidor e à noite no Passeio Público, morava no Flamengo, em
Botafogo ou Santa Teresa e era protagonista de dramas de amor que iam do simples
namoro à paixão desvairada.

No dia mesmo de sua chegada à corte (Rio de Janeiro), após o
jantar, sai em companhia de um amigo para conhecer a cidade. Na rua das Mangueiras
vê passar em um carro, uma jovem muito bela. Um imprevisto faz parar o
carro, dando a Paulo a oportunidade de repará-la melhor. No outro dia,
em companhia de outro amigo, o Dr. Sá, Paulo participa da festa de N.
Senhora da Glória, quando lhe aparece a linda moça. Informando-se
do amigo, fica sabendo tratar-se de Lúcia, a prostituta mais bela, requintada
e disputada da cidade. Mas ele se impressiona com a “expressão cândida
do rosto e a graciosa modéstia do gesto, ainda mesmo quando os lábios
dessa mulher revelam a cortesã franca e impudente.”

Mais ou menos um mês após sua chegada, Paulo vai à procura
de Lúcia, levado, é claro pelo desejo de possuir aquela linda
mulher. Após longa e agradável conversa, acaba se surpreendendo
com o “casto e ingênuo perfume que respirava de toda a sua pessoa”.
A um mínimo lance de seus seios, “ela se enrubesceu como uma menina
e fechou o roupão” discretamente. E ele, que fora quente de desejos,
agora, na rua, se acha ridículo por não haver ousado mais. Além
do que, o Dr. Sá lhe confirmara que “Lúcia é a mais
alegre companheira que pode haver para uma noite, ou mesmo alguns dias de extravagância.”
Daí adiante, constrói-se toda a intriga do romance. A liberdade
na evolução da intriga e do tempo era novidade no romance brasileiro
daquele período, e só um autêntico romancista poderia realizar.
José de Alencar era metonímia dessa “autenticidade”.


Alexandre Dumas, autor de
“A Dama das Camélias”

Resgatando algumas técnicas de Honoré de Balzac e Walter Scott,
é com a obra de Alexandre Dumas Filho que Lucíola vai
dialogar diretamente. Acusar o escritor de plágio seria injusto, visto
que, após a leitura e confronto das duas obras, pode-se inferir que Alencar
construiu uma cortesã de acordo com os parâmetros daquele Brasil
ainda em formação, importando a cortesã e a construindo
com mais sagacidade que o exemplar estrangeiro.

Tecendo o romance: diálogos da obra alencariana com o romance
francês

A literatura comparada designa uma forma de investigação literária
que confronta duas ou mais literaturas, analisando a migração
de temas. Não pretendo me firmar nas teorias da literatura comparada
para construção desse artigo. Pretendo apenas atualizar Lucíola,
romance que considero essencial para pessoas que almejam entender todo processo
de formação da literatura brasileira, visto que, como dito, José
de Alencar foi um idealizador desse “projeto de definição
do Brasil”. Aqui, não dou a Lucíola o status de
exclusividade: apenas reafirmo a importância de sua leitura para a ideia
supracitada, além de considerar a estrutura do romance uma boa aula de
produção de textos.


Honoré de Balzac, uma das
referências de José de Alencar

Alfredo Bosi afirma que Balzac é um dos modelos do Alencar urbano. Muita
polêmica circundou o lançamento e a consolidação
de Lucíola no cânone da literatura brasileira. José
de Alencar mantinha, através das leituras, contato com as publicações
estrangeiras. Em sua autobiografia, intitulada Como
e porque sou romancista
, ele diz:

Dessa invasão entre o espírito conterrâneo e
a invasão estrangeira, são reflexos Lucíola, Diva, A Pata
da Gazela, e tu, livrinho, que aí vais correr o mundo com o rótulo
de Sonhos D´ouro.

O tradicional A
Dama das camélias
conta a história de uma elegante cortesã
francesa, em meados do século XIX, que encanta Paris com sua beleza,
suas artimanhas no amor e no sexo, sua vida luxuosa e perdulária, mantida
por ricos progenitores da emergente burguesia urbana. A Dama das Camélias
e Armando vivem uma paixão impossível pela segregação
social da burguesia. O pai de Armando trama a separação e convence
a Dama das Camélias que aquela relação é uma ruína
para a família e para o futuro do filho.

José de Alencar, um bandeirante da linguagem, andou muito às
voltas com o tema da mulher perdida, segundo a pesquisadora Valéria de
Marco, da USP, que ainda afirma que Lucíola se revela como uma
das obsessões de Alencar frente às transformações
da vida no Rio de Janeiro.

Alencar e o interesse em adotar para o Brasil uma cultura própria

Em um momento de consolidação da Independência, José
de Alencar apresentou esforços patrióticos para povoar o Brasil
com conhecimento e cultura próprios, construindo assim, novos caminhos
para a literatura no país.

José de Alencar também vai se basear em alguns contos de fadas
para construção de seus romances (não todos): sabe-se que
os contos de fadas derivam de contos orais de tradição popular,
sendo na França do século XVII, com Charles Perrault, publicador
dos primeiros contos clássicos, os quais, de início, não
se destinavam ao público infantil.

Podemos destacar que os textos de Perrault e os dos irmãos Grimm trazem
em si muitos dos valores da sociedade burguesa, sendo destaque a valorização
do casamento e da afetividade. Os contos de fadas, assim como os romances românticos,
adequavam-se bem como um meio de veicular os valores dessa nova classe dominante.

Em Lucia, protagonista do romance Lucíola, vemos claramente
como se dá a identificação entre personagem e leitora (assim
como A Dama das Camélias). É válido observar que
essa identificação ocorre dentro do universo ficcional, pois é
a heroína da história que vai se identificar com as personagens
de suas leituras, e geralmente, não são feitas de forma passiva,
pois tem sobre ela um efeito impressionante. Lúcia, por mais de uma vez,
se identifica com Marguerite, a transgressora Dama das camélias. Em determinados
momentos, as personagens representavam o que ela gostaria de ser, um modelo
que deveria ser imitado.

Como e porque sou romancista: Alencar e suas idéias

Como e Porque Sou Romancista, escrito em 1873 e publicado postumamente
em 1893, é a autobiografia intelectual de José de Alencar, importante
para o conhecimento de sua personalidade e dos alicerces de sua formação
literária.

É um autêntico roteiro de teoria literária, o qual, reunido
a outros ensaios, pode bem constituir um corpo de doutrina estética literária,
que o norteou em sua obra de criação propriamente dita, sobretudo
no romance.

O autor enfatizou, em sua formação escolar, a importância
dada à leitura, com a correção, nobreza, eloqüência
e alma que o mestre Januário Mateus Ferreira sabia transmitir a seus
alunos. Ainda menino, como ledor dos serões da família, teve oportunidade
de contínuo e repetido contato com um escasso repertório de romances,
cujos esquemas iam ficando gravados em seu espírito. Alencar conta que
ainda com pouca idade, comovia familiares e amigos com suas leituras em voz
alta; sentavam todos à sua volta para ouvi-las.

Segundo informações de Alencar, foi com essa leitura continua
e repetida de novelas e romances que primeiro imprimiu em meu espírito
a tendência para essa forma literária que é entre todas
a de minha predileção.

Ele ainda diz: não me animo a resolver esta questão psicológica,
mas creio que ninguém contestará a influência das primeiras
impressões. Já vi atribuir o gênio Mozart e sua precoce
revelação à circunstância de ter ele sido acalentado
no berço e criado com música.

Alencar reafirma que foi assim que um dia vi pela primeira vez o volume
das obras completas de Balzac, nessa edição em folha que os tipógrafos
da Bélgica vulgarizaram pôr preço módico. Gastei
oito dias com a Grenadiere, porém um mês depois acabei o volume
de Balzac; e no resto do ano li o que então havia de Alexandre Dumas
e Alfredo Vigny, além de muito de Chateaubriand e Victor Hugo.

Sobre Lucíola, ele diz: em 1862 escrevi Lucíola, que editei
por minha conta e com o maior sigilo. Talvez não me animasse a esse cometimento,
se a venda da segunda e terceira edição ao Sr. Garnier, não
me alentasse a confiança, provendo-se de recursos para os gastos da impressão.
O aparecimento de meu novo livro fez-se com a etiqueta, ainda hoje em voga,
dos anúncios e remessa de exemplares à redação dos
jornais. Entretanto toda a impressão diária resumiu-se nesta noticia
de um laconismo esmagador, publicada pelo Correio Mercantil. Uma folha de caricaturas
trouxe algumas linhas pondo ao romance tachas de francesia.

Lucíola e algumas idéias do romantismo na literatura

No caso brasileiro, o Romantismo não veio fecundar um romance porventura
existente, veio criar o romance. Ganhando emancipação literária
ao aderir às idéias românticas, cunhado na mesma filosofia
política dos movimentos revolucionários europeus.

Segundo Afrânio Coutinho, os poetas mineiros já haviam iniciado
a preparação do terreno para a mudança de rumo, e Magalhães,
em 1836, descobrira em Paris o Romantismo, ali já decadente, apontando-o
como o caminho que deveríamos eleger. Num como noutro caso, o espírito
nacional estava trabalhado pelos acontecimentos que abalaram e destruíram
o regime colonial, e terminaram por fazer do Brasil um império, uma nação
livre a tomar consciência de sua destinação histórica.
E isso equivale a dizer que estávamos trabalhados pela atmosfera da reivindicação,
de revolta e de anseio de liberdade, na qual crescera e vingara o Romantismo
europeu. Esse fato foi perfeitamente sentido e aceito no plano político,
mas não foi realizado no plano literário senão tardiamente,
quando os nossos escritores, amadurecidas as idéias que nos vinham da
França, compreendem o sentido e a significação do Romantismo
e o realizaram em suas obras, particularizando-o nacionalmente.

José de Alencar, nessa terceira fase, pretendia flagrar a vida nacional
em seu processo, captando o que nela se contivesse de mais característico
e representativo, antes que o espírito de imitação, trabalhando
pelo exemplo de civilizações mais desenvolvidas, deturpasse. Como
também pretendia fixar o conflito do espírito nacional incipiente
em face das influências estrangeiras.

Segundo dados de pesquisa, as heroínas de Alencar protestam contra o
casamento por conveniência, fruto de uma sociedade autoritária,
incompreensiva, da qual era necessário fugir, evadir-se em busca do mundo
íntimo que cada romântico deve levar em si mesmo. Possível
inspiração em Balzac, Sthendal e Flaubert para a intriga do romance,
começando uma intriga no final de um capítulo e terminando-a no
inicio do próximo: o folhetim, aprimorado por Alencar.

Outro aspecto a ser mencionado é o da redenção da mulher
perdida, a purificação de sua alma e de seu corpo pelo sentimento
do amor, subtema largamente difundido no Romantismo europeu. No Brasil, os exemplos
de Marion Delorme ou da Dama das Camélias, não são muitos,
mas existem. E o melhor deles é Lucíola, de Alencar, cuja arquitetura
sofreu visível influência do romance de Dumas, aliás, leitura
predileta da protagonista da história. A idéia da purificação,
nesse livro, encontra sua melhor expressão na cena em que Lúcia,
resistindo ao primeiro impulso do amante, prepara-se para entregar-lhe aquilo
que resguardara dos homens aos quais vendera prazer: seu amor de corpo e alma.
Alencar configura a purificação com detalhes significativos, inclusive
com um simbolismo de cor que é freqüente em sua obra.

Amor em Vermelho: aspectos comparativos entre Lucíola e Satine


Nicol Kidman, no papel de Satine,
no musical “Moulin Rouge”

Satine é a personagem principal do musical Moulin
Rouge – Amor em Vermelho
, história de amor que se passa
em 1899 e gira em torno de um jovem poeta, Christian, que desafia a autoridade
do pai ao se mudar para Montmartre, em Paris, considerado um lugar amoral, boêmio
e onde todos são viciados em absinto. Lá, ele é acolhido
por Toulouse-Lautrec e seus amigos, cujas vidas são centradas em Moulin
Rouge, um salão de dança, um clube noturno e um bordel (mas cheio
de glamour) de sexo, drogas, eletricidade e – o que é ainda mais chocante
– de cancan. É então que Christian se apaixona pela mais bela cortesã
do Moulin Rouge, Satine.

Algumas cenas do filme são retratos claros dos melhores momentos de
A Dama das Camélias e Lucíola. As heroínas
literárias (Lucia e Marguerite) e cinematográfica (Satine) são
portadoras o ideal de mulher pregressa dentro do romantismo, que vai precisar
pagar os ditos “pecados da carne” com a vida. É a redenção
romântica, momento em que se eleva à alma em detrimento da carne.


O Moulin Rouge, em Paris, França

O Moulin Rouge (que em francês significa Moinho Vermelho) é um cabaret
tradicional, construído no ano de 1889 por Josep Oller, que já era
proprietário anteriormente do Paris Olympia. Situado na zona de Pigalle
no Boulevard de Clichy, ao pé de Montmartre, em Paris, França. É
famoso pela inclusão no terraço do seu edifício de um grande
moinho vermelho. O Moulin Rouge é um símbolo emblemático
da noite parisiense, e tem uma rica história ligada à boemia da
cidade.

Desde há mais de cem anos que o Moulin Rouge é lugar de “visita
obrigatória” para muitos turistas, oferecendo na atualidade uma
grande variedade de espectáculos para todos aqueles que querem evocar
o ambiente boémio da Belle Époque e que ainda está presente
no interior da sala de espectáculos. Não obstante, o estilo e
o nome do Moulin Rouge de Paris foram imitados por muitos clubes de variedades
e salas de espectáculos em todo o mundo.

Lucíola também já foi adaptado aqui no Brasil,
duas vezes. Uma pérola do cinema nacional, relegada ao ostracismo, Lucíola
é uma versão cinematográfica do romance de José
de Alencar. Como se sabe, Lucíola narra a história da
cortesã do Império. Considerada como transgressora, vai precisar
pagar os seus “pecados” com a vida, numa trama que segue à
risca as idéias difundidas pelo movimento romântico na literatura
mundial. Há a ambientação em tons vermelhos, seguindo todos
os recursos estéticos utilizados no romance alencariano, de forma bastante
sinestésica, que nesta versão cinematográfica, ganha mais
força. Rosana Ghessa, atriz ítalo-brasileira é quem faz
o papel de Lucíola, num filme onde os diálogos e atuações
são extremamente artificiais, apresentando atores mais próximos
da leitura dramática teatral do que exercitando uma atividade de cunho
cinematográfico.


Leonardo Campos (apresentador) e Isabel Rabelo
(Lucíola) em apresentação no Instituto de Letras
da UFBA. A apresentação consistia em comparar
Lucíola (romance) a Satine (Moulin Rouge), num
trabalho apresentado em 2008 para o panorama
do Cânone literário
brasileiro.

Há frases retiradas do romance que soam de forma bastante lírica
no filme. Uma delas é “essas borboletas são como todas
as outras: voam. Quando voam, é difícil apanhá-las
”.
Apesar de toda sagacidade, Lucíola ainda apresenta traços da mulher
romântica, submissa aos caprichos do homem machista e que age de forma
impensada, característica similar ao personagem Armand, do clássico
A Dama das Camélias, de Alexandre Dumas Filho. Tal enredo vai
permear a narrativa de Lucíola, filme e livro, sendo citado
em momentos chave da trama. Paulo não aceita que sua mulher, a agora
regenerada Lúcia, tenha acesso a transgressora Marguerite.

Outras passagens do livro também estão adaptadas no filme: a
morte de Lúcia, a cena do banquete, as comparações de Lúcia
com obras de arte, por parte de Paulo. A direção ficou por conta
de Alfredo Sternheim, que também exercitou a função de
roteirista brasileiro de cinema, além de jornalista e escritor. Como
curiosidade, no início da carreira, foi assistente de diretores consagrados,
como Walter Hugo Khouri. A produção é de 1975.

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