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Brasil – 56 anos do suicídio de Getúlio Vargas

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No dia 24 de agosto de 1954, entre 8h25 e 8h40 da manhã, o
presidente da República, Getúlio
Vargas
, se suicidou com um tiro no
coração. Deixou uma carta-testamento dirigida ao
povo brasileiro. Em um dos trechos dessa carta, ele diz:
Voltei ao governo nos braços do povo. A
campanha subterrânea dos grupos internacionais aliou-se
à dos grupos nacionais revoltados contra o regime de
garantia do trabalho. A lei de lucros extraordinários foi
detida no Congresso. Contra a justiça da revisão
do salário mínimo se desencadearam os
ódios. Quis criar a liberdade nacional na
potencialização das nossas riquezas
através da Petrobrás e, mal começa
esta a funcionar, a onda de agitação se avoluma.
A Eletrobrás foi obstaculada até o desespero.
Não querem que o povo seja independente (…
)

Vejamos o que aconteceu para que Vargas se suicidasse. E
entender o significado da carta que ele deixou.

A crise na imprensa

Vargas ao poder, em 1951, provocou uma
reação contrária de muitas pessoas,
que tentaram inclusive impedir a sua posse. Isso, em grande parte,
estava ligado ao fato de ele ter governado durante o período
do Estado Novo como o ditador que suprimiu as liberdades
democráticas, impôs censura rigorosa à
imprensa, pôs os adversários do regime na cadeia.

Havia ainda outro aspecto da sua forma de governar que
não era muito bem aceito pela
oposição: ele se dirigia diretamente ao povo,
fazia grandes comícios em que prometia melhorar a
situação dos trabalhadores, em vez de utilizar
instituições como partidos políticos,
sindicatos, associações. Ele não
estimulava o fortalecimento dessas instituições.

Como está dito na carta-testamento, Vargas voltou
em 1951 como presidente eleito pelo povo e com as
instituições democráticas em pleno
funcionamento. Mas os antigetulistas não acreditavam que ele
fosse respeitar as regras democráticas. Entre os maiores
adversários civis do governo estava a UDN, que formou

um bloco oposicionista junto com o Partido Libertador (PL), o Partido
Republicano (PR) e o Partido Democrata Cristão (PDC).

Os jornais de maior prestígio também
não apoiavam o governo. O principal líder e
porta-voz da oposição era o jornalista Carlos
Lacerda, diretor do jornal Tribuna da Imprensa. Lacerda se destacou por
suas posições radicais e por ter uma grande
capacidade verbal. Seus discursos eram inflamados, tinham um tom
emocional e causavam forte impressão.

A política de desenvolvimento do governo Vargas
provocava muitos conflitos dentro da própria equipe de
governo. De um lado estava a Assessoria Econômica, com uma
posição mais nacionalista. De outro lado, o grupo
do ministro da Fazenda, Horácio Lafer, e do ministro da
Relações Exteriores, João Neves da
Fontoura, favorável a uma maior
participação do capital estrangeiro na nossa
economia.

Além disso, Vargas teve de enfrentar outras
dificuldades. Uma delas foi o aumento da
inflação. Quando ele assumiu o governo, em
janeiro de 1951, a taxa anual de inflação era de
12,34%. Mas, em 1954, chegou a 25,86% – o que, para a época,
era muito.

A explicação para esse aumento estava
no fato de que, para industrializar o país, era
necessário fazer muitas compras de máquinas e
matérias-primas no exterior, ou seja, aumentar as
importações.

Nessa época houve também um grande
aumento dos preços no mercado internacional, devido
à Guerra da Coréia. O conflito entre a
Coréia do Norte e a Coréia do Sul durante os anos
de 1950 e 1953 foi o ponto culminante da chamada Guerra Fria. A China
apoiou a invasão da Coréia do Norte à
Coréia do Sul, e os Estados Unidos apoiaram a
Coréia do Sul. O conflito termina em 1953 com o
reconhecimento das duas Coréias pelos Estados Unidos e pela
União Soviética.

O Brasil tinha de pagar mais caro pelos produtos que comprava
no estrangeiro. Dos produtos que exportávamos, o
único que permitia o equilíbrio das nossas contas
externas era o café. O algodão, que figurava como
segundo produto de exportação brasileiro, teve
uma queda enorme de preços no mercado internacional.
Além disso tudo, o Brasil também se endividou
internamente.

O Banco do Brasil foi muito generoso, nesse
período, com os empresários nacionais. Financiou
a instalação, a expansão e a
modernização de muitas indústrias.

Conclusão: o Estado aumentou muito os seus gastos –
e, quando o Estado gasta mais do que arrecada, vem a
inflação. Com o aumento da
inflação, aumentou o custo de vida: os
salários perderam valor, e os trabalhadores e os sindicatos
começaram a pedir reajustes salariais.

Vargas e a imagem do “bom velhinho”

Em janeiro de 1953, irrompeu no Rio de Janeiro a primeira de
uma série de greves de trabalhadores: foi a dos
têxteis, pedindo um aumento salarial de 60%. Em
março foi a vez dos operários paulistas, que
decretaram uma greve geral. Os empresários acusavam Vargas
de responsável pela série de greves que
começavam a eclodir. Diziam que ele utilizava o PTB para
insuflar essas greves. Seu objetivo seria estabelecer um clima de
desordem no país e, com isso, favorecer um golpe

para continuar no poder.

Para solucionar as dificuldades econômicas e os
problemas sociais e diminuir a pressão que lhe faziam a
oposição e a imprensa, ainda em 1953 Vargas
resolveu mudar o seu ministério. Para ser ministro do
Trabalho, convidou João Goulart – um jovem
político gaúcho, do PTB, que tinha boas
relações com os líderes sindicais.
Para o Ministério da Fazenda, convidou seu amigo Osvaldo
Aranha, que se dedicou ao combate da inflação.

Mas a escolha de Goulart foi a que trouxe os maiores
problemas. Provocou descontentamento entre os opositores,
principalmente entre os políticos da UDN e os militares
antinacionalistas. A imprensa começou a divulgar que essa
escolha tinha outras intenções. Uma delas seria
formar, no Brasil, uma “república
sindicalista”. Essa
“república” seria um governo no qual os
sindicatos de trabalhadores teriam grande poder. Dizia-se na
época que Vargas estava tentando fazer uma
aliança com o presidente da Argentina, Juan Domingo
Perón, para estabelecer aqui um regime sindicalista sob seu
controle. Com isso, os antigetulistas queriam dizer que Vargas estava
tramando derrubar o regime democrático.

Sempre a desconfiança, o medo de que ele repetisse
o golpe de 1937. Ou seja, o passado de Vargas o condenava. E os
udenistas conspiravam para afastá-lo do governo.

EM TEMPO

Para solucionar as dificuldades econômicas e os problemas
sociais e diminuir a pressão que lhe faziam a
oposição e a imprensa, ainda em 1953 Vargas
resolveu mudar o seu ministério.

Para ser ministro do Trabalho, convidou João Goulart – um
jovem político gaúcho, do PTB, que tinha boas
relações com os líderes sindicais.
Para o Ministério da Fazenda, convidou seu amigo Osvaldo
Aranha, que se dedicou ao combate da inflação.

Mas a escolha de Goulart foi a que trouxe os maiores problemas.
Provocou descontentamento entre os opositores, principalmente entre os
políticos da UDN e os militares antinacionalistas. A
imprensa começou a divulgar que essa escolha tinha outras
intenções. Uma delas seria formar, no Brasil, uma
“república sindicalista”.

Essa “república” seria um governo no
qual os sindicatos de trabalhadores teriam grande poder. Dizia-se na
época que Vargas estava tentando fazer uma
aliança com o presidente da Argentina, Juan Domingo
Perón, para estabelecer aqui um regime sindicalista sob seu
controle. Com isso, os antigetulistas queriam dizer que Vargas estava
tramando derrubar o regime democrático.

Sempre a desconfiança, o medo de que ele repetisse o golpe
de 1937. Ou seja, o passado de Vargas o condenava. E os udenistas
conspiravam para afastá-lo do governo.

Havia, assim, um descontentamento no meio militar, sobretudo
entre os oficiais anticomunistas e antipopulistas que não
aceitavam a forma de governar de Vargas. Com todas essas
críticas, João Goulart pediu demissão
do Ministério do Trabalho, saindo com uma imagem de
político que queria favorecer os trabalhadores.

Vargas busca uma saída

Diante de uma oposição cada vez mais
bem organizada e mais agressiva, Vargas achou que a saída
era ter uma postura mais nacionalista e mais popular.

No dia 1º de maio de 1954, assinou um decreto
aumentando afinal o salário mínimo em 100%.
Vargas se refere a esse fato na carta-testamento, dizendo que o aumento
desencadeou ódios. É verdade que esse sentimento
existia, tanto da parte dos militares como dos políticos e
empresários, que passaram a se organizar para tirar Vargas
do governo. E as posições nacionalistas do
presidente também provocavam a desconfiança dos
capitais e das empresas estrangeiras.

Por outro lado, Vargas não conseguia convencer os
nacionalistas das suas intenções. A sua forma de
agir, tentando sempre conciliar, fazendo concessões aos
adversários, trazia desconfianças para os seus
próprios aliados.

Os jornais de maior circulação no Rio
de Janeiro – como O Globo, Correio da
Manhã
, Diário de
Notícias
, Diário Carioca
e O Jornal – e em São Paulo – como O
Estado de S. Paulo
e a Folha da Manhã
– não davam notícias sobre as
realizações do governo: só
apresentavam críticas e aspectos negativos. Vargas procurou
solucionar essa dificuldade de comunicação com o
público ajudando na criação do jornal Última
Hora
. O Banco do Brasil fez empréstimos
vantajosos para o seu proprietário, o jornalista Samuel
Wainer, que era amigo de Vargas. Era um jornal popular muito bem feito.
Em pouco tempo, alcançou grande número de
leitores. Os outros jornais desconfiaram que Wainer recebera ajuda do
governo e começaram a buscar provas para incriminar Vargas.
Mas não conseguiram.

Vargas sofria cada vez mais acusações
de estar favorecendo os amigos, de que seu governo cometia muitos
erros, de que havia muita corrupção. Carlos
Lacerda fazia grandes discursos, nos quais atacava de maneira agressiva
a figura de Vargas. A Tribuna da Imprensa era o mais violento dos
jornais contra Getúlio. Nesse ambiente de
paixões, em 5 de agosto de 1954, ocorreu o chamado atentado
da Toneleros.

EM TEMPO

Você sabe o que foi o atentado da Toneleros?

O jornalista Carlos Lacerda foi alvo de uma tentativa de assassinato:
ao chegar em casa, na rua Toneleros, em Copacabana, no Rio de Janeiro,
um desconhecido atirou contra ele. Mas foi um amigo do jornalista – o
major da Aeronáutica Rubem Florentino Vaz – quem foi
atingido e morreu. Lacerda foi ferido no pé.

A oposição atribuiu a responsabilidade
por esse atentado ao governo Vargas. Foi instalada uma
comissão de inquérito que rapidamente chegou
à identificação dos culpados. O
responsável direto era o chefe da guarda pessoal de Vargas
no palácio do Catete, Gregório Fortunato.

A partir daí, os acontecimentos se precipitaram.
Vargas procurou demonstrar que não tinha conhecimento
prévio desse atentado, e que tudo faria para esclarecer a
situação e punir os responsáveis. Mas
os políticos – principalmente da UDN – e os militares
passaram a exigir a sua renúncia ao governo. Foi sobre
Vargas que recaíram todas as responsabilidades pelos males
que afligiam o país. Foi na sua pessoa que se concentraram
todas as críticas e todos os ódios, tanto dos
políticos, dos militares como dos empresários.

Vargas e Gregório Fortunato
(atrás, de chapéu)

“Saio da vida para entrar na história”

As pressões para deixar o Palácio do
Catete levaram Vargas ao suicídio, no dia 24 de agosto de
1954. O suicídio teve enorme impacto na
população e provocou forte
reação popular. A carta-testamento, encontrada na
mesa de cabeceira do presidente morto, foi lida e divulgada pela
Rádio Nacional, chegando rapidamente a todos os recantos do
Brasil.

Nessa carta, da qual você já conhece um
trecho, Vargas se apresentava como o grande defensor da classe
trabalhadora e como o político que tudo fizera para tornar o
Brasil um país desenvolvido. Apresentava-se
também como vítima de grupos nacionais e
estrangeiros que não aceitavam que os trabalhadores tivessem
garantidos os seus direitos sociais. Esses grupos, dizia o presidente,
faziam tudo para impedir que o Brasil se tornasse independente
economicamente.

Vargas, mais uma vez, explorava a figura do “pai
dos pobres”, daquele que concedera aos trabalhadores os seus
direitos. Com a carta-testamento, deixou uma imagem de
herói, daquele que lutou pelo bem do país mas que
teve de se sacrificar, porque perdeu a batalha final.

Vejamos o que dizia Vargas em outros trechos dessa carta:

Nada
mais vos posso dar a não ser meu sangue. Se as aves de
rapina querem o sangue de alguém, querem continuar sugando o
povo brasileiro, eu ofereço em holocausto a minha vida.
Escolho este meio de estar sempre convosco. Quando vos humilharem,
sentireis minha alma sofrendo ao vosso lado. Quando a fome bater
à vossa porta, sentireis em vosso peito a energia para a
luta por vós e vossos filhos. Quando vos vilipendiarem,
sentireis no pensamento a força para a
reação. Meu sacrifício vos
manterá unidos e meu nome será a vossa bandeira
de luta. Cada gota de meu sangue será uma chama imortal na
vossa consciência e manterá a
vibração sagrada para a resistência. Ao
ódio respondo com perdão. E aos que pensam que me
derrotaram respondo com a minha vitória. Era escravo do povo
e hoje me liberto para a vida eterna. Mas esse povo de quem fui escravo
não mais será escravo de ninguém. Meu
sacrifício ficará sempre em sua alma e meu sangue
será o preço do seu resgate. Lutei contra a
espoliação do Brasil. Tenho lutado de peito
aberto. O ódio, as infâmias, a calúnia
não abateram o meu ânimo. Eu vos dei a minha vida.
Agora vos ofereço a minha morte. Nada receio. Serenamente
dou o primeiro passo no caminho da eternidade e saio da vida para
entrar na história.

Podemos imaginar que sentimentos essa carta despertou na
população. Ao tomar conhecimento do
suicídio e dessa mensagem, o povo foi para as ruas chorar a
morte do seu líder e se vingar dos seus opositores, daqueles
que foram identificados como os responsáveis pela sua morte.

No Rio de Janeiro, uma multidão foi para o
palácio do Catete para prestar a última homenagem
ao presidente. No centro da cidade, grupos se formaram para apedrejar e
incendiar os jornais de oposição. Foram feitas
tentativas de apedrejar a embaixada americana e empresas estrangeiras.

Em São Paulo, milhares de operários
entraram em greve de protesto e se manifestaram contra os opositores de
Vargas. Em Porto Alegre, foram queimados os jornais anti-Vargas e foram
atacadas as sedes da UDN e do Partido Libertador. Em Belo Horizonte e
Recife, a população também foi para as
ruas se manifestar contra os opositores do presidente morto.

A emoção, a tristeza e o desespero
popular foram tão fortes que atemorizaram e desconcertaram
os antivarguistas, que esperavam, com o afastamento de Vargas, liquidar
o getulismo.

A Era
Vargas
, na verdade, não terminou em 1954. Sob
muitos aspectos, ela sobrevive até hoje, como nós
já vimos. A forma como Getúlio decidiu sair da vida para entrar na história permitiu a
sobrevivência
da democracia até 1964. Permitiu também a
continuidade da sua política desenvolvimentista com
Juscelino Kubitschek.

A carta-testamento, como ele queria, transformou-se em
bandeira de luta para o PTB e para todos os getulistas. Vargas
é um dos raros personagens da nossa história que
ficaram na memória popular. Muitas são as
razões que podem explicar esse fenômeno. Uma delas
é o fato de ele ter permanecido longo tempo no
cenário político. Governou o Brasil durante quase
19 anos. Uma segunda razão foi o fato de que com ele, e por
meio do seu governo, o Brasil entrou na era da
industrialização, deixou de ser um
país agrícola.

Mas é preciso também levar em
consideração as suas
relações com o povo, com os trabalhadores
urbanos, a forma como ele se dirigia às massas, e,
principalmente, a implantação da
legislação trabalhista entre nós, nas
décadas de 1930 e 1940. Nessa época, ainda era
difícil, para as elites brasileiras, a
aceitação dos direitos sociais como algo
fundamental nas sociedades modernas. O suicídio foi outro
elemento que, sem dúvida, contribuiu para a
permanência tão forte da imagem de Vargas no seio
da população. Esse gesto, junto com a
carta-testamento, transmitiu a imagem do sacrifício, do
homem que deu a vida pelo bem do Brasil e pelo povo brasileiro.

Saiba
mais sobre a Era Vargas

Créditos: Ciência à
mão
– Universidade de São Paulo

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