Contos de aprendiz, de Carlos Drummond de Andrade

  • Data de publicação

Contos de aprendiz foi publicado em 1951. Foi a estria de Carlos Drummond de Andrade como contista. Nessa época j havia publicado seus livros mais importantes - Alguma Poesia e Sentimento do Mundo - que o consagraram como um dos maiores poetas brasileiros.

A obra reúne 15 contos da maior ternura, incluindo aquele que um exemplo do limite do real com o fantstico: "Flor, telefone, moa". Drummond conta as histrias que acontecem ou podem acontecer, na medida em que o acaso ou outro poder as torna possveis, com o auxlio da imaginao alerta. Drummond gosta de relatar aquilo que parece o mnimo porm est cheio de significado na memria de cada um, como a surpresa e a decepo do primeiro sorvete, ou uma briga de irmos que transforma a penitncia infantil em pecado. Ou seno, a simples troca de palavras entre um homem e uma mulher, no coletivo, em que o olhar perturbado entra com sua carga de sensualidade. E ainda o devaneio da moa que prepara as figuras do prespio, na vspera de Natal, com o pensamento no no que fazia, mas no namorado. Drummond escreve uma prosa limpa, evidentemente com prazer - o prazer de contar sem inteno de brilhar.

O livro remexe em lembranas da infncia do poeta, passando muitas vezes a falsa impresso de um livro de memrias. As histrias reunidas em Contos de aprendiz exercem uma relao franca como mundo, mexendo com os encantos da memria para desencant-los e permitir que eles se mostrem como o que de fato so: mitos.

A poesia de Drummond algo que extrapola o gnero potico, podendo se revelar em qualquer parte, mesmo em contos delicados e de aparncia despretensiosa, mas fortes, como os de Contos de aprendiz.

A trama dos contos oscila entre a descoberta da cidade interiorana, seus cdigos de comportamento, angstias e alegrias, e momentos inusitados na vida atropelada da ento capital do pas. A metrpole enlaa e abraa os seus habitantes, para mais pungente tornar a solido humana. Sobressai-se nestes contos a presena de uma voz amiga. Como diz o prprio contista, " doce ouvir amigos, ainda quando no falam, porque amigo tem o dom de se fazer compreender at sem sinais. At sem olhos".

Em Contos de aprendiz, ao lado da contida, mas intensa expresso de afeto e rejeio ao absurdo do mundo, perspassa um humor irnico em relao diferena entre o que os homens mostram ou parecem ser e o que so, uma das tnicas da viso deste poeta que se definiu como "um gauche na vida". Livro que insere o misticismo e o mito da poesia, mas que remete para uma trama sempre curta, onde poucos personagens acabam, num tempo curto, chegando ao fim de suas problemticas ou deixando-as mdia rs, como, alis, acontece freqentemente.

No cronista, o esprito vido de denncias se ocupa sempre do povo e de seus problemas, dando ao leitor de hoje uma viso sincrnica de tudo quanto ele, na pele de seus concidados, vivenciou e sofreu. A obra drummondiana se mantm atualizada em nossos dias; dela se depreende a viso crtica de um mundo cujas conseqncias repercutem ainda em nossas existncias.

Como j vimos, muitos dos contos se realizam sobre as recordaes dos tempos infantis, estando assim impregnados de suave ondulao emocional, colocando o leitor to prximo de outra realidade, que ele fica pensando que, se houve por ali algum cronista, ele acabou sufocado pelo peso da narrativa ou, como quer o poeta, pelo mau cheiro da memria. H tambm contos de maior flego, como o j citado Flor, telefone, moa e O gerente, que participam de um superior tratamento da matria ficcional. Neles estamos diante de exemplos de perfeio no gnero. Drummond conseguiu imprimir sobre estruturas tradicionais a graa, a diafaneidade, a poesia e o mistrio dos contos modernos, criando uma atmosfera de penumbra em que a linguagem mais sugere que descreve, e em que o leitor se v obrigado a participar da obra para tentar descobrir as suas mais ntimas intenes.

Quanto sua concepo de conto, ela aparece quase sempre indiretamente: tem de ser depreendida e compreendida pelo leitor. Em Contos de aprendiz h uma pequena nota (que no aparece na sexta edio da Aguilar) em que se diz que a coisa que mais o fascinava (Drummond) nas histrias ouvidas quando criana, no era o enredo, o desfecho, a moralidade; e sim um aspecto particular da narrativa, a resposta de um personagem, o mistrio de um incidente, a cor de um chapu...

Contos escolhidos:

1. PRESPIO

Dasdores (assim se chamavam as moas daquele tempo) sentia-se dividida entre a Missa do Galo e o prespio. Se fosse igreja, o prespio no ficaria armado antes de meia-noite e, se se dedicasse ao segundo, no veria o namorado.

difcil ver namorado na rua, pois moa no deve sair de casa, salvo para rezar ou visitar parentes. Festas so raras. O cinema ainda no foi inventado, ou, se o foi, no chegou a esta nossa cidade, que antes uma fazenda crescida. Cabras passeiam nas ruas, um cincerro tilinta: a tropa. E vivas espiam de janelas, que se diriam jaulas.

Dasdores e suas numerosas obrigaes: cuidar dos irmos, velar pelos doces de calda, pelas conservas, manejar agulha e bilro, escrever as cartas de todos. Os pais exigem-lhe o mximo, no porque a casa seja pobre, mas porque o primeiro mandamento da educao feminina : trabalhars dia e noite. Se no trabalhar sempre, se no ocupar todos os minutos, quem sabe de que ser capaz a mulher? Quem pode vigiar sonhos de moa? Eles so confusos e perigosos. Portanto, impedir que se formem. A total ocupao varre o esprito. Dasdores nunca tem tempo para nada. Seu nome, alegre fora de repetido, ressoa pela casa toda. "Dasdores, as dlias j foram regadas hoje?" "Voc viu, Dasdores, quem deixou o diabo desse gato furtar a carne?" "Ah, Dasdores, meu bem, prega esse boto para sua mezinha. Dasdores multiplica-se, corre, delibera e providencia mil coisas. Mas um engano supor que se deixou aprisionar por obrigaes enfadonhas. Em seu corao ela voa para o sobrado da outra rua, em que, fumando ou alisando o cabelo com brilhantina, est Abelardo.

Das mil maneiras de amar, pais, a secreta a mais ardilosa, e eis a que ocorre na espcie. Dasdores sente-se livre em meio s tarefas, e at mesmo extrai delas algum prazer. (Dir-se-ia que as mulheres foram feitas para o trabalho... Alguma coisa mais do que resignao sustenta as donas-de-casa.) Dasdores sabe combinar o movimento dos braos com a atividade interior uma conspiradora e sempre acha folga para pensar em Abelardo. Esta vspera de Natal, porm, veio encontr-la completamente desprevenida. O prespio est por armar, a noite caminha, lenta como costuma faz-lo no interior, mas Dasdores ntima do relgio grande da sala de jantar, que no perdoa, e mesmo no mais calmo povoado o tempo d um salto repentino, desafia o incauto: "Agarra-me!" Sucede que ningum mais, salvo esta moa, pode dispor o prespio, arte comunicada por uma tia j morta. E s Dasdores conhece o lugar de cada pea, determinado h quase dois mil anos, porque cada bicho, cada musgo tem seu papel no nascimento do Menino, e ai do prespio que cede a novidades.

As caixas esto depositadas no cho ou sobre a mesa, e desembrulh-las a primeira satisfao entre as que esto infusas na prtica ritual da armao do prespio. Todos os irmos querem colaborar, mas antes atrapalham, e Dasdores prefere ver-se morta a ceder-lhes a responsabilidade plena da direo. Jamais lhes ser dado tocar, por exemplo, no Menino Jesus, na Virgem e em So Jos. Nos pastores, sim, e nas grutas subsidirias. O melhor seria que no amolassem, e Dasdores passaria o dia inteiro compondo sozinha a paisagem de gua e pedras, relva, ces e pinheiros, que h de circundar a manjedoura. Nem todos os animais esto perfeitos; este carneirinho tem uma perna quebrada, que se poderia consertar, mas parece a Dasdores que, assim mutilado e dolorido, o Menino deve querer-lhe mais. Os camelos, bastante midos, no guardam proporo com os cameleiros que os tangem; mas so presente da tia morta, e participam da natureza dos animais domsticos, a qual por sua vez participa obscuramente da natureza da famlia. Atravs de um sentimento nebuloso, afigura-se-lhe que tudo uma coisa s, e no h limites para o humano. Dasdores passa os dedos, com ternura, pelos camelinhos; sente neles a macieza da mo de Abelardo.

Algum bate palmas na escada; de casa! amigas que vm combinar a hora de ir para a igreja. Entram e acham o prespio desarranjado, na sala em desordem. Esta visita come mais tempo, matria preciosa ("Agarra-me! Agarra-me!"). Quando algum dispe apenas de uns poucos minutos para fazer algo de muito importante e que exige no somente largo espao de tempo mas tambm uma calma dominadora algo de muito importante e que no pode absolutamente ser adiado - se esse algum nervoso, sua vontade se concentra, numa excitao aguda, e o trabalho comea a surgir, perfeito, de circunstncias adversas. Dasdores no pertence a essa raa torturada e criadora; figura no ramo tambm delicado, mas impotente, dos fantasistas. Vo-se as amigas, para voltar duas horas depois, e Dasdores, interrogando o relgio, nele v apenas o rosto de Abelardo, como tambm percebe esse rosto de bigode, e a cabeleira lustrosa, e os olhos acesos, dissimulados nas ramagens do papel da parede, e um pouco por toda parte.

A mo continua tocando maquinalmente nas figuras do prespio dispondo-as onde convm. Nada far com que erre; do passado a tia repete sua lio profunda. Entretanto, o prazer de distribuir as figuras, de fixar a estrela, de espalhar no lago de vidro os patinhos de celulide, est alterado, ou subtra-se. Dasdores no o saboreia por inteiro. Ou nele se insinuou o prazer da missa? Ou o medo de que o primeiro, prolongando-se, viesse a impedir o segundo? Ou um sentimento de culpa, ao misturar o sagrado ao profano, dando, talvez, preferncia a este ltimo, pois no fundo da caminha de palha suas mos acariciavam o Menino, mas o que a pele queria sentir sentia, Deus me perdoe era um calor humano, j sabeis de quem.
Aqui desejaria, porque o mundo cruel e as histrias tambm costumam s-lo, acelerar o ritmo da narrativa, prover Dasdores com os muitos braos de que ela carece para cumprir com sua obrigao, vestir-se violentamente, sair com as amigas depressa, depressa, ir correndo ladeira acima, encontrar a igreja vazia, o adro j quase deserto, e nenhum Abelardo. Mas seria preciso atribuir-lhe, no braos e pernas suplementares, e sim outra natureza, diferente da que lhe coube, e pura placidez. Correi, sfregos, correi ladeira acima, e chegai sempre ou muito tarde ou muito cedo, mas continuai a correr, a matar-vos, sem perspectiva de paz ou conciliao. No assim os serenos, aqueles que, mesmo sensuais, se policiam. O dono desta noite, depois do Menino, o relgio, e este vai mastigando seus minutos, seus cinco minutos, seus quinze minutos. Se nos esquecermos dele, talvez pule meia hora, como um prestidigitador furta um ovo, mas, se nos pusermos a contempl-lo, os nmeros gelam, o ponteiro imobiliza-se, a vida parou rigorosamente. Saber que a vida parou seria reconfortante para Dasdores, que assim lograria folga para localizar condignamente os trs reis na estrada, levantar os muros de Belm. Comea a faz-lo, e o tempo dispara de novo. "Agarra-me! Agarra-me!" Nas cabeas que espiam pela porta entreaberta, no estouvamento dos irmos, que querem se debruar sobre o caminho de areia antes que essa esteja espalhada, na muda interrogao da me, no sentimento de que a vida variada demais para caber em instantes to curtos, no calor que comea a fazer apesar das janelas escancaradas h uma previso de malogro iminente. Pronto, este ano no haver Natal. Nem namorado. E a noite se fundir num largo pranto sobre o travesseiro.

Mas Dasdores continua, calma e preocupada, cismarenta e repartida, juntando na imaginao os dois deuses, colocando os pastores na posio devida e peculiar adorao, decifrando os olhos de Abelardo, as mos de Abelardo, o mistrio prestigioso do ser de Abelardo, a aurola que os caminhantes descobriram em torno dos cabelos macios de Abelardo, a pele morena de Jesus, e aquele cigarro quem botou! ardendo na areia do prespio, e que Abelardo fumava na outra rua.

2. UM ESCRITOR NASCE E MORRE

I

Nasci numa tarde de julho, na pequena cidade onde havia uma cadeia, uma igreja e uma escola bem prximas, umas das outras, e que se chamava Turmalinas. A cadeia era velha, descascada na parede dos fundos, Deus sabe como os presos l dentro viviam e comiam, mas exercia sobre ns uma fascinao inelutvel (era o lugar onde se fabricavam gaiolas, vassouras, flores de papel, bonecos de pau). A igreja tambm era velha, porm no tinha o mesmo prestgio. E a escola, nova de quatro ou cinco anos, era o lugar menos estimado de todos. Foi a que nasci: Nasci na sala do 3 ano, sendo professora D. Emerenciana Barbosa, que Deus tenha. At ento, era analfabeto e despretensioso. Lembro-me: nesse dia de julho, o sol que descia da serra era bravo e parado. A aula era de geografia, e a professora traava no quadro-negro nomes de pases distantes. As cidades vinham surgindo na ponte dos nomes, e Paris era uma torre ao lado de uma ponte e de um rio, a Inglaterra no se enxergava bem no nevoeiro, um esquim, um condor surgiam misteriosamente, trazendo pases inteiros. Ento, nasci. De repente nasci, isto , senti necessidade de escrever. Nunca pensara no que podia sair do papel e do lpis, a no ser bonecos sem pescoo, com cinco riscos representando as mos. Nesse momento, porm, minha mo avanou para a carteira procura de um objeto, achou-o, apertou-o irresistivelmente, escreveu alguma coisa parecida com a narrao de uma viagem de Turmalinas ao Plo Norte.

talvez a mais curta narrao no gnero. Dez linhas, inclusive o naufrgio e a visita ao vulco. Eu escrevia com o rosto ardendo, e a mo veloz tropeando sobre complicaes ortogrficas, mas passava adiante. Isso durou talvez um quarto de hora, e valeu-me a interpelao de D. Emerenciana :

Juquita, que que voc est fazendo?

0 rosto ficou mais quente, no respondi. Ela insistiu:

Me d esse papel a. . . Me d aqui.

Eu relutava, mas seus culos eram imperiosos. Sucumbido, levantei-me, o brao duro segurando a ponta do papel, a classe toda olhando para mim, gozando j o espetculo da humilhao. D. Emerenciana passou os culos pelo papel e, com assombro para mim, declarou classe:

Vocs esto rindo do Juquita. No faam isso. Ele fez uma descrio muito chique, mostrou que est aproveitando bem as aulas.

Uma pausa, e rematou:

Continue, Juquita. Voc ainda ser um grande escritor.

A maioria, na sala, no avaliava o que fosse um grande escritor. eu prprio no avaliava. Mas sabia que no Rio de Janeiro havia um homem pequenininho, de cabea enorme, que fazia discursos muito compridos e era inteligentssimo. Devia ser, com certeza, um grande escritor, e em meus nove anos achei que a professora me comparava a Rui Barbosa.

A viagem ao Plo foi cuidadosamente destacada do caderno onde se esboara, e conduzida em triunfo para casa. Minha me, naturalmente inclinada sobrestimao de meus talentos, julgou-me predestinado. Meu pai, homem simples, de bom-senso integral, abriu uma exceo para escutar os vagidos do escritorzinho. Ganhei uma assinatura do Tico-Tico, presente rgio naqueles tempos naquelas brenhas, e passei a escrever contos, dramas, romances, poesias e uma histria da guerra do Paraguai, abandonada no primeiro capitulo para. alvio do Marechal Lopez.

II

Escrevi. Escrevi. Deixei Turmalinas. No internato, fui redator da Aurora Ginasial, onde um padre introduziu criminosamente, em minha descrio da primavera, a expresso "tmidas cecns", que me indignou. C fora, revistas literrias passaram a abrigar-me com assiduidade. Em uma delas meu retrato apareceu, com adjetivos. No me pagavam nada, nem eu podia admitir que literatura se vendesse ou se comprasse. Quantas vezes meu corao bateu quando os dedos folheavam, trmulos, o nmero de sbado, ainda cheirando a tinta de impresso! Publicou... No publicou... E sempre a descoberta do meu trabalho, ainda em plena rua, despertava a sensao incmoda do homem que foi encontrado nu e no teve tempo de cobrir as partes pudendas. Eu escondia meu crime, orgulhoso de t-lo cometido, fazendo da literatura um segredo de masturbao. Havia semanas em que o Fon-Fon!, o Para Todos, a Careta e a Revista da Semana publicavam simultaneamente trabalhos de minha humilde lavra, todos ou quase todos poemas em prosa, em que me especializara. Nem sempre havia numerrio suficiente para adquirir todas as revistas, e ento o copo de leite quente, com po e manteiga, noite, antes de ir para a penso, sacrificava-se com galanteria s belas-letras.

Escrevi muito, no me pejo de confess-lo. Em Turmalinas, gozei de evidente notoriedade, a que faltou, entretanto, para durao, certo trabalho de jardinagem. verdade que Turmalinas me compreendia pouco, e eu a compreendia menos. Meus requintes espasmdicos eram um pouco estranhos a uma terra em que a hematita calava as ruas, dando s almas uma rigidez triste. Entretanto, meu nome em letra de frma comovia a pequena cidade, e dava-lhe esperana de que o meu talento viesse a resgatar o melanclico abandono em que, anos a fio, ela se arrastava, com o progresso a 50 quilmetros de distncia e cabritos pastando na rua.

No houve resgate, e a cidade esqueceu-me. Nunca mais voltei l. De l ningum me escreveu, pedindo para fazer uma pgina sobre o Pico do Amor ou a Fonte das Sempre-Vivas. Meus parentes espalharam-se ou morreram. 0 escritor tornou-se urbano.

III

Publiquei trs livros, que foram extremamente louvados por meus companheiros de gerao e de penso, e que os crticos acadmicos olharam com desprezo. Dois volumes de contos e um de poemas. Distribu as edies entre jornais, amigos, pessoas que me pediram, e mulheres a quem eu desejava impressionar.

Sobretudo entre as ltimas. Minha ttica, de resto bem simples, consistia em jamais pronunciar ou sugerir a palavra literatura. Eu no era um literato que se anunciava, mas um homem que, no fundo, sofria por saber-se literato. Minha literatura assumia feio estranha, com alguma coisa de nativo e contrariado na origem, mas vegetando no obstante.

O senhor escreve coisas lindssimas, eu sei...

Calnia de meus inimigos. Infelizmente, impossvel viver sem fazer inimigos. Eles que espalham isso, no acredite...

Meu sorriso ambguo, de dentes no suficientemente ntegros (ganhei fama de irnico por causa do sorriso envergonhado) sublinhava a inteno discreta da negativa.

O sujeito afastava-se, impressionado. Muitas reputaes nacionais no se estabelecem de outro modo. Eu escrevia.

IV

Escrevia realmente para que, escrevia por qu? Autor, tipgrafo e pblico no saberiam responder. Eu no tinha projetos. No tinha esperanas. A forma redonda ou quadrada do mundo me era indiferente. A maior ou menor gordura dos homens, sua maior ou menor fome no me preocupavam. Sabia que os homens existem, que viver no fcil, que para mim prprio viver no era fcil, e nada disso contaminava meus escritos. Dessa incontaminao brotara, mesmo, certa vaidade. "Artista puro", murmurava dentro de mim a vozinha orgulhosa. "No traia o esprito", acrescentava outra voz interior (borborigmo, talvez). Como o esprito no protestasse, eu me atribua essa dignidade exemplar, feita de gratuidade absoluta. E escrevia. Rente a meu ombro, outros rapazes faziam o mesmo. E no queramos nada, no espervamos nada. ramos muito felizes, embora no soubssemos, como acontece geralmente.

O meu, o nosso individualismo fundamental proibia-nos o aconchego das igrejinhas. ramos ferozmente solitrios. Em cada Estado do Brasil, uma academia de letras reunia os gregrios, distribua louros inofensivos. Esses louros repugnavam-me, e os acadmicos, geralmente pessoas sem complexidade, eram a meus olhos monstros de intolerncia, inveja, malcia e incompreenso, intensamente misturadas. O fato de terem quase todos mais de 45 anos apenas adoava esse sentimento de repulsa, para introduzir nele um gro de piedade triste. Em verdade, ter mais de 45 anos era no somente absurdo como prova de extrema infelicidade. At certo ponto, os acadmicos mereciam simpatia. Como os dromedrios, animais estranhos que no podem ser responsabilizados pelo gnero de vida que lhes impe o vcio de nascena.

Fugindo aos mais velhos, seria natural que nos ligssemos uns aos outros, os de 20 a 25 anos. Cultivvamos mais ou menos os mesmos preconceitos. As mesmas fobias em cada um de ns. Desgraadamente, elas nos impunham o cauteloso afastamento recproco, e nossas conversas de bar, noite afora, tinham traos de ferocidade e autoflagelao. Entretanto...

Licurgo, que compusera comigo o "Poema do Cubo de ter", descobriu certa noite o tomismo, e eu o expulsei de minha convivncia. Mas, sua voz, continuou pregando os novos tempos, perturbando almas sedentas de verdade e metafsica.

Aleixanor, tendo comprado num sebo as Cartas aos Operrios Americanos, de Lenine, e comeando a colaborar no Grito Proletrio, sofreu de minha parte uma campanha de descrdito intelectual. Voltou-se para a ao poltica, fundou sindicatos, escreveu e distribuiu manifestos, e desfrutou de certa notoriedade at o golpe de 35, quando emudeceu.

A poetisa Laura Brioche fundou um Clube de Psicanlise, que procurei desmoralizar na primeira reunio, introduzindo sub-repticiamente entre os scios, antes da votao dos estatutos, volumosa quantidade de usque, genebra e gim. A sesso dissolveu-se em lcool, mas restaram aqui e ali grupos de bem-aventurados que se entretinham na interpretao onrica e confrontavam gravemente seus respectivos complexos, recalques e ambivalncias.

Fundaram-se sucessivamente, a Associao dos Amigos dos Livros de Histria, a Academia dos Gramticos de Ouro Preto, um Curso de Alimentao Racional, a Sociedade de Aculturao rio-Africana, o Grupo Deus-Ptria-Justia-Ensino Profissional, o Clube Esperantista Limitado, o Instituto de Gentica.

Todos, em redor de mim, se iam afirmando, fixando.

Todos optavam. Nos jornais, passavam do suplemento de domingo pgina editorial. Alguns recebiam manifestaes de apreo, outros eram chamados a trabalhar em gabinetes de secretrios de Estado. Vrios compraram lotes, comearam a edificar. Um deles, extraordinrio, conquistou um cartrio. A florao de filhos, vitoriosos em concursos de puericultura, afirmava o rumo seguro de minha gerao.

Eu perseguia o mito literrio, implacavelmente, mas, sem f. Nunca meus poemas foram mais belos, meus contos e crnicas mais fascinantes do que nesse tempo de crescente solido. Solido, solido... Era s o que havia em torno a mim, dentro em mim. Era como se eu morasse numa cidade que, pouco a pouco, fosse ficando deserta. Algum tempo mais, no haveria ningum para dirigir os sinais luminosos nas esquinas, dar corda aos relgios, velocidade aos bondes, carne, po e fruta s casas. De resto, para que bondes, relgios?... J no havia ningum, todos se haviam mudado para as cidades em frente, ao norte, ao sul, e eu passeava lugubremente minha solido nas ruas que ressoavam a meu passo, ruas que outrora me eram familiares, e agora pareciam escurecer, mudar de forma, de cheiro: de tal modo estavam ligadas a uma poca, uma gerao, um estado de esprito que se decompunham... Tudo ia escurecendo... escurecendo... Mas eu andava, eu continuava, eu no queria acreditar...

Risquei um fsforo, j sob a escurido absoluta, e na lmpada que minhas mos em concha formavam, percebi que tinha feito 30 anos. Ento morri. Dou minha palavra de honra que morri, estou morto, bem morto.

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