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A falsa Guerra do Futebol


A FALSA GUERRA DO FUTEBOL


Jogo de futebol foi usado para incitar a violência entre
Honduras e El Salvador em 1969
Já se passaram exatos 40 anos do conflito entre Honduras e El Salvador, que é conhecido como a "Guerra do Futebol". Foi assim que a disputa de El Salvador por parte do território hondurenho ficou registrada internacionalmente, pois, pela ótica estereotipada da mídia: as 'duas republiquetas bananeiras' desentenderam-se por culpa de jogos classificatórios para a Copa do Mundo de 1970, no México.

As verdadeiras razões para o embate entre os dois países foram de ordem econômica e política. Na década de 60, a população em El Salvador aumentou consideravelmente, enquanto que as terras disponíveis para o trabalho eram cada vez mais escassas. As reivindicações camponesas eram frequentemente reprimidas com violência pelo governo. Houve então um processo de fuga em massa de salvadorenhos para Honduras, onde se instalaram e começaram a trabalhar principalmente nas plantações de banana. Estas eram dominadas por empresas dos EUA, que viram com bons olhos a utilização da nova mão-de-obra barata.

Nas questões culturais, linguísticas e étnicas nunca houve muitas diferenças entre os dois países. Não fosse pela divisão territorial e política, seria difícil distinguir as populações. Ou seja, a rivalidade nunca foi algo forte entre os dois povos. Além das questões econômicas, as rixas começaram a ser formadas por interesses políticos. Em 1962, uma lei agrária em Honduras estabelecia que somente naturais do país poderiam usufruir de terras estatais. Quem não pudesse comprovar essa nacionalidade seria expulso do país. Em outubro de 63, um golpe de Estado (bem comum no país, vide o caso atual em que militares liderados por Roberto Micheletti depuseram o presidente Manuel Zelaya) derrubou o presidente Villeda Morales. Instalou-se uma ditadura militar com o coronel Osvaldo López Arellano no comando. A crise econômica e a corrupção aumentaram e os salvadorenhos foram escolhidos como bode expiatório. Foram intensificados os processos de expulsão dos vizinhos estrangeiros na base da violência, incluindo assassinatos. À frente dessa repressão, a Mancha Brava (braço armado do governo), a polícia secreta e o Exército.

Duelo extrapola as quatro linhas


População de El Salvador se mobiliza para o conflito armado
contra os vizinhos hondurenhos
Em meio a tantas tensões políticas e sociais, as seleções de futebol de Honduras e El Salvador se encontraram nas semifinais das Eliminatórias para a Copa de 70. Apenas o campeão da Concacaf garantiria uma vaga no Mundial do ano seguinte. O México, que não costumava dar chance para os rivais no continente, já estava garantido por ser o anfitrião da Copa. Na outra semifinal, Haiti e Estados Unidos duelavam. O primeiro encontro entre hondurenhos e salvadorenhos aconteceu no dia 8 de março de 69, em Tegucigalpa, capital de Honduras. A atmosfera era de guerra. Os jogadores de El Salvador passaram uma noite turbulenta no hotel em que se hospedaram. Do lado de fora, torcedores rivais atiraram pedras nas janelas dos quartos, fizeram muito barulho batendo em tambores e tonéis vazios, além das tradicionais explosões de foguetes.

No dia seguinte, a equipe exausta foi derrotada por 1 a 0. Enquanto isso, em El Salvador, uma jovem fanática de 18 anos assistia à partida pela televisão. Quando Roberto Cardona fez o gol que selou a derrota salvadorenha, Amélia Bolanios pegou o revólver de seu pai e suicidou-se com um tiro no coração. O acontecimento foi superdimensionado pela mídia local, acirrando o ódio pelo vizinho. Construíram a imagem de uma mártir. O enterro foi transmitido pela televisão local e acompanhado por uma multidão. No cortejo, a presença de um destacamento militar, do presidente do país e dos onze jogadores salvadorenhos derrotados em solo rival.

No jogo de volta, no dia 15 do mesmo mês, hondurenhos foram recepcionados com um ódio mortal. Na noite anterior ao jogo, torcedores quebraram todas as janelas do hotel em que estavam os jogadores de Honduras. Atiraram, além de pedras, toneladas de ovos podres, panos fedorentos e ratos mortos. A delegação foi obrigada a ir para o estádio em carros blindados. Nas arquibancadas, as pessoas erguiam fotos da mártir Amélia Bolanios. Enquanto vaiavam o hino nacional de Honduras, os salvadorenhos assistiam extasiados à bandeira do outro país ser queimada. No mastro, ao invés do símbolo nacional do país, foi içado um pano velho e sujo. O placar de 3 a 0 para os anfitriões foi "comemorado" até pelos derrotados, que temeram por suas vidas em caso de resultado diferente. Nas ruas, 150 carros de hondurenhos foram queimados, dois torcedores morreram, dezenas de pessoas foram levadas aos hospitais. Poucas horas depois, a fronteira entre os países foi fechada.


GUERRA DO FUTEBOL. Soldados hondurenhos
em 1969: vaga na Copa levou ao conflito bizarro
Uma terceira partida teve de ser realizada para desempatar o duelo. Foi escolhido um local neutro. No dia 27 de junho, com esquema reforçado de segurança, as equipes jogaram no México. El Salvador garantiu a vaga na final com uma vitória por 3 a 2 sobre Honduras. Mas desde então, o futebol já deixara de ser o centro das atenções nos dois países. Os primeiros dias de julho de 1969 foram marcados por diversos incidentes na fronteira e a tensão foi crescendo até que, no dia 14 de julho, forças armadas de El Salvador invadiram Honduras. Começava uma sangrenta batalha que teve duração de 100 horas e só foi interrompida por ação da OEA (Organização dos Estados Americanos). Saldo final: 6 mil pessoas foram mortas, 12 mil ficaram gravemente feridas e 150 mil perderam suas propriedades.

Créditos: G1

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