A Dama das Camélias, de Alexandre Dumas Filho
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O romance passional de Alexandre Dumas Filho, A Dama das Camélias, é
considerado um clássico da dramaturgia mundial. A história caiu
nas graças da platéia, ora mais elitista, ora mais popular, desde
a sua estréia na metade do século XIX. Muitas linguagens apropriaram-se
do texto para representações. O romance original migrou para o teatro,
para a ópera e para o cinema e, daí, filmagem e refilmagens.
A obra tem flashes autobiográficos, e conta os encontros e desencontros de um
amor impossível vivido por Dumas Filho, o talentoso filho ilegítimo de Alexandre
Dumas, célebre pelas aventuras dos Três Mosqueteiros. Dumas Filho soube dramatizar
suas experiências, agregando fabulações do popular à requintada e frívola vida
da elite burguesa, criando um melodrama clássico na história do teatro. Desde
a estréia, A Dama das Camélias ficou num meio termo entre o drama romântico
apresentado na Comédia Francesa para a elite, e os melodramas apresentados para
a massa nos teatros de boulevards.
A tradicional Dama das Camélias conta a história de uma elegante cortesã francesa,
em meados do século XIX, que encanta Paris com sua beleza, suas artimanhas no amor e no
sexo, sua vida luxuosa e perdulária, mantida por ricos progenitores da emergente burguesia
urbana. As mulheres “teúdas e manteúdas” eram a vaidade em vitrine dos senhores
proprietários. A Dama das Camélias e Armand vivem uma grande paixão impossível pela
segregação social da sociedade burguesa classista. O pai de Armand trama a separação e
convence a Dama das Camélias que aquela relação é uma ruína para a família e para o
futuro do filho. A Dama comove-se. Num ato de nobreza incomum, renuncia a Armand e,
resignada com seu infortúnio, fica reconhecida, pela sociedade, como a cortesã mais
honesta, humana, e guardiã da falsa moral burguesa.
Na peça de Dumas, em cinco atos divididos em episódios, a pressão é social: ela
não pode ficar com um homem de família nobre. Essa cortesã é inspirada em uma
mulher real, exercendo até hoje um fascínio em todo o mundo. No fundo, é um livro
moral, apesar da temática ousada ainda hoje. A personagem não tem máscaras. Vive
à custa de homens. Mas é transformada pelo amor.
Com um sentimento verdadeiro, encontra forças interiores para
se redimir como pessoa. A discussão moral e ética do livro é, enfim, resumida
pelo sentimento do autor, que norteia todo o romance: se Jesus perdoou Maria
Madalena, por que não podemos perdoar as mulheres como elas?
O narrador do romance é o confidente de Armand Duval, que o
conhece quando Marguerite já está morta. Esse narrador cede a palavra a diversos
outros personagens, que se incumbem de reconstruir o passado dos amantes. A
narrativa é composta não linearmente pelos sucessivos relatos de Armand, pela
reprodução das cartas escritas pelo casal e pela apresentação do diário dos
últimos dias da cortesã, finalizado por sua amiga Julie Duprat.
Existe uma ironia velada na história, parcialmente autobiográfica, que pode ter
sua origem na mágoa do autor: Dumas Filho (Armand, na peça) é na vida real bastardo,
seu senso de justiça social, sua necessidade de proteger e salvar a Dama das Camélias
remete às suas relações paternais/maternais conflituosas. Por outro lado, na relação
amorosa de Armand, pode-se caracterizar um tipo especial de escolha de objeto
feita pelos homens: o “amor à prostituta”, que pode variar “dentro de limites
substanciais, do leve murmúrio de escândalo a respeito de uma mulher casada que
não seja avessa a namoricos, até o modo de vida francamente promíscuo de uma cocotte
ou uma profissional na arte do amor”.
O mito central de A Dama das Camélias “não é o amor, é o reconhecimento: a Dama,
Marguerite, ama para ser reconhecida e, a esse título a paixão provém inteiramente
de outrem”. As encenações, os conflitos, os equívocos e as vilanias que popularizaram
a Dama não são de ordem psicológica, são, sim, sintomas do corpo social, são duas
paixões de zonas diferentes da sociedade. O amor de Armand é o tipo de amor burguês,
segregativo, apropriativo. O amor da Dama é o postulado de ser reconhecida, que
culmina quando renuncia a ele, ou “assassina a paixão de Armand”, para eternamente
ter o reconhecimento do mundo dos senhores.