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Capa Biografias
Em 19 de outubro de
1901, a bordo do seu dirigível número 6, Santos Dumont contornou a torre Eiffel
e retornou ao seu ponto de partida, no campo de Saint-Cloud, em menos de 30 minutos.
Demonstrava-se assim a possibilidade de controlar o vôo e de impor a vontade humana
à máquina. Mas foi em 23 de outubro de 1906, em Campo de Bagatelle, em Paris,
quando o 14-Bis voou por mais de 50 metros a uma altura de 2 metros, que Alberto
Santos Dumont garantiu para si um prêmio e um lugar na história. O mineiro voou
depois dos Irmãos Wright, sim, mas os americanos usaram, em 1903, uma catapulta
e um biplano e não conseguiam 'pilotar', apenas planavam.
Nascido em 20 de julho de 1873,
em Palmeira (mais tarde rebatizada com o nome de seu filho mais ilustre), região
da Zona da Mata mineira, passou a infância em Minas Gerais, cercado pelas obras
de Júlio Verne - que lhe deu, literalmente, asas à imaginação - e pelas
narrativas históricas dos primeiros vôos em balões. O sexto de 10 filhos de um
rico empreiteiro e fazendeiro de café chamado Henrique Dumont, desde jovem
desenvolveu o seu lado inventor a partir das muitas e modernas máquinas
utilizadas nos trabalhos com os cafezais. Completando o estudo em bons colégios
de São Paulo, quando a família já morava em Ribeirão Preto, e após formar-se na
Universidade do Rio de Janeiro, o rapaz provinciano, de estatura baixa e corpo
franzino, muda-se para Paris (França) em 1891, aos 18 anos, com o intuito de
desenvolver seus principais projetos. Lá, estudou física, química, mecânica e
eletricidade, e especializou-se em aeronáutica após sua primeira experiência com
balões. Desde jovem, Santos Dumont tinha duas obsessões em mente: a primeira era
voar; a segunda, alcançar a fama.
Em 1898 seu primeiro balão (o
Balão Brasil), voou sobre os céus de Paris. Seu próximo passo foi construir um
veículo voador que fosse dirigível. O inventor acoplou um pequeno motor a
gasolina e voilà , seu invento funcionou. Na tentativa de aprimorar a sua
máquina de voar, sofreu alguns acidentes, chegando a admitir que, em alguns
deles, fora 'salvo por milagre'.
O primeiro grande feito do
brasileiro, que lhe valeu o reconhecimento e os elogios de personalidades como o
inventor Thomas Edison, foi a ousada circunavegação da Torre Eiffel, em 1901,
com seu dirigível nº 06. Era a primeira pessoa a dirigir um veículo aéreo num
percurso previamente determinado - um avanço para a aviação comparável ao
arranque automático, em 1911, para a indústria automobilística, que abriu
caminho para a produção de carros em massa. Pelo feito na Torre Eiffel, recebeu
o prêmio de 100 mil francos do Deutsch de La Meurthe, o maior importador de
petróleo da França, e distribuiu o dinheiro entre seus mecânicos e os
desempregados de Paris. Pelo 14-Bis, em 1903, que o tornou o primeiro homem a
voar com uma máquina autopropulsionada e mais pesada que o ar, recebeu o prêmio
Archdeacon, de 3 mil francos.
Durante 10 anos, Santos Dumont
construiu 20 balões e aeroplanos, voou em todos eles e submeteu-se a todos os
tipos de tensão e de descargas elétricas. Seu último vôo foi com o Demoiselle
(donzela, em francês), o seu avião de nº 20, uma aeronave com motor de 35 HP e
estrutura de bambu, semelhante aos ultraleves de hoje.
No fim de sua vida, Santos
Dumont sofria de duas graves doenças, depressão crônica e esclerose múltipla.
Com a saúde cada vez mais debilitada e vendo o seu invento ser cada vez mais
utilizado como arma de guerra, começou a ter progressivas crises de depressão.
Humanitário e pacifista, testemunhou com grande desgosto a capacidade de
destruição dos aviões durante a Primeira Guerra Mundial. Os aviões, já então
eficientes armas de guerra, tinham criado mitos, como o alemão Manfred Von
Richtofen, o Barão Vermelho, na Primeira Guerra. A consagração dos irmãos Wright
foi outro motivo de contrariedade. À medida em que o século XX intensificava sua
escalada de violência, Santos Dumont se recolhia a seus estudos e aos discursos
pela paz, tornando-se cada vez mais recluso e irascível.
Em 1931, ele volta ao Brasil
para viver em Petrópolis (RJ), em uma pequena casa projetada por ele, a
Encantada, hoje Museu Santos Dumont. No ano seguinte, a morte trágica.
Conta-se que ao saber do emprego de aviões na Revolução Constitucionalista de
1932, foi tomado de forte depressão e, aos 59 anos, no dia 23 de julho, comete
suicídio, se enforcando com uma gravata no Grande Hotel de La Plage, no Guarujá,
litoral paulista. Se sua morte foi motivada pela desilusão com o uso bélico do
avião ou se foi simplesmente conseqüência da terrível doença, nunca se soube com
certeza. No início do século, ele chegara a autorizar que seus balões fossem
usados para fins militares na França, mas com certeza não imaginava o poder de
destruição que seu invento poderia adquirir. Morreu antes de ouvir falar em
nomes como Spitfire, Kamikazes e 'Enola Gay'. Postumamente recebeu o título de
marechal-do-ar e, por decreto, foi proclamado patrono da Força Aérea Brasileira
(1971).
Uma curiosidade é que a
certidão de óbito do inventor ficou desaparecida por cerca de 23 anos. O motivo
da morte foi omitido desde a ditadura de Getúlio Vargas, quando criou-se a
figura-mito do herói nacional. Os governantes acreditavam que um herói suicida
não ficaria bem nos livros de história. Quando foi encontrada, dava como
causa mortis um suposto 'Colapso Cardíaco'.
O homem que conheceu cedo a glória terminaria seus dias mergulhado na loucura
e no desespero. Mas o seu nome permanece cravado na história como um dos grandes
e poucos homens que mudaram definitivamente o curso dos acontecimentos.