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Infância, de Graciliano Ramos


Publicado em 1945, Infância é uma autobiografia de Graciliano Ramos que prova ser possível uma obra somar os elementos pessoais com os sociais. Muito do que o autor confessa em suas memórias são problemas que afetaram não só a ele mesmo, mas também o seu meio. Sua dor é também a dor de nosso mundo. Este livro pode ser lido como romance, um conjunto de contos, e como elaboração ficcional de elementos da memória biográfica do autor. Considerando como unidade, contempla um período de amadurecimento da criança exposta como protagonista. Além disso, esse livro lida com elementos que nos fazem entendê-lo como base de todo o universo literário do autor. Nele vemos temáticas que vão povoar suas obras-primas: São Bernardo, Vidas Secas e Angústia.

Em toda a narrativa de Infância, a criança, Graciliano, passa por um processo de aprendizagem e amadurecimento interior, principalmente ao aprender lidar com as perdas e as dores. O momento de descoberta da leitura surge de forma mágica e prazerosa. O livro torna-se um “objeto de desejo” ao ser proibido, pois desperta curiosidade.

No que diz respeito à linguagem, já é lugar-comum da crítica afirmar que Infância é o livro mais bem escrito de quantos realizou Graciliano Ramos, uma vez que aí estariam combinadas a concisão lingüística – marca inconfundível do autor – e um intenso lirismo, dificilmente encontrado em seus demais textos. Sem se esgotar, a luta sôfrega que o escritor sabidamente empreendeu com a língua parece aqui alcançar um ponto de equilíbrio, no qual a palavra flui mais natural (menos torturada), e seu potencial expressivo eleva-se enormemente, alcançando muitas vezes o poético.

Em Infância as fronteiras entre o tecido ficcional e referencial se misturam na tessitura narrativa, pois o sujeito empírico recria o passado e procura dar-lhe sentido. O passado do menino entre os seus familiares, principalmente no convívio como os pais e os irmãos, surge através do resgate da memória do escritor adulto. Ao descrever a insignificância do homem frente às circunstâncias da vida, o narrador apresenta-nos o primeiro contato da criança com as letras, descrevendo a experiência árdua que ela teve com as “malditas letras”; entretanto, o prazer de “decifrá-las só acontece na vida da criança quando o texto se torna “objeto proibido” que seduz e desperta curiosidade e interesse.

Na obra pode-se perceber uma nuance particular da junção ética/estética que promove a obra do autor de Insônia: além de dar visibilidade e voz aos seres marginalizados que habitam seus textos, como ocorre na maior parte de seus romances e, via de regra, é um procedimento associado ao posicionamento político do escritor, aqui Graciliano Ramos parece dar um passo a mais, ao abrir espaço e manifestar simpatia não só pelos oprimidos, mas também por aqueles que, circunstancialmente, oprimem. Perpassa o livro um desejo profundo de compreensão do outro, desejo que luta contra mágoas e preconceitos bastante arraigados. Ainda que o traço crítico do autor se mantenha constante, não o deixando deslizar para uma atitude compassiva para com o que relata, o resultado dessa mistura de denúncia e compreensão é uma obra ambígua, aberta: a um só tempo dura e terna.

O primeiro aspecto que chama a atenção é a descrição de Graciliano como uma criança oprimida e humilhada, pois é um ser fraco diante de adultos, mais fortes. Este é um dos cernes de sua visão de mundo: a opressão. Quem tem poder, naturalmente massacra, sufoca.

Também faz parte do seu escopo a secura das relações humanas. De acordo com a obra em questão, esse defeito já vem do seio da família. Sua mãe era extremamente ríspida, fria, o que se percebe pelos apelidos com os quais se dirigia a Graciliano Ramos: cabra-cega (por causa de uma doença que teve nos olhos que impossibilitava sua visão) e bezerro-encourado (bovino órfão que recebia o couro de um outro, já morto, para que a mãe deste, enganada pelo cheiro, permitisse a amamentação do desprestigiado).

Outro ponto perturbado na relação familiar é seu pai, que se mostra extremamente autoritário, déspota e tirano em muitos momentos. O episódio em que surra o filho por achar que este havia sumido com um cinturão (descobre depois que a acusação era falsa) é dos mais dramáticos. Talvez só perca para o momento em que esse autoritarismo se mistura a abuso de poder e injustiça em cima do mendigo Venta-Romba. Discretamente o narrador procura uma justificativa, como os problemas financeiros do pai, mas o estrago na confiança no ser humano já era irremediável.

A situação do protagonista é, portanto, de constante opressão. Mesmo quando não se faz de forma explicitamente violenta, realiza-se por meio dos risos e gozações extremamente humilhantes. Até seu processo de alfabetização é angustiante. Nasce aqui o escritor pessimista, amargo, desencantado com o mundo.

No entanto, sua salvação, ou pelo menos válvula de escape, vai-se manifestar na literatura. Acometido pela doença que o fez ficar temporariamente cego e preso em seu quarto, desperta para o encantamento das palavras, analisando-as, namorando-as, principalmente nas cantigas folclóricas entoadas por sua mãe durante os trabalhos domésticos. Um salto maior surge no contato com a enorme biblioteca de Jerônimo Barreto, que permitiu ao garoto ampliar seus horizontes para um mundo diferente da mesquinharia em que havia crescido. E o escritor nasce com o apoio de Mário Venâncio.

Liberto, graças à literatura, distancia-se da infância. Entra no universo dos adultos. Parte para o mundo. Vai torto, desajeitado, mas firme, resoluto. Sua arte de manejar as palavras será sua arma. Por demais eficiente.

O livro é formado por pequenos capítulos, cada um encerrando uma visão fechada sobre um aspecto da vida do pequeno Graciliano: a casa no sertão, a mudança para Buritis, a lojinha do pai, a primeira ida ao colégio, o padre.

A seguir, segue-se um resumo dos capítulos que compõem a obra.

Nuvens
Este capítulo, em meio às nuvens em que está mergulhado o passado mais remoto do narrador, é uma pequena súmula de toda a obra. Flagra-se a personagem descrevendo os pais não como seres humanos, mas como seres ineficientes na afetividade, secos e opressores. A animalização na descrição deles é constante. A literatura, na forma de cantigas folclóricas, é apresentada como elemento capaz de aliviar o cotidiano sufocante da criança Graciliano Ramos. O primeiro contato que o menino teve com as letras aparece neste capítulo. O contato se deu em uma Escola que servira de pouso para a sua família numa viagem que eles fizeram de Alagoas para o sertão pernambucano. O menino, que estava com uma idade entre dois e três anos, tem diante de si a imagem de uma sala de aula com um velho de barbas longas e os meninos que “seguravam folhas de papel e esgoelavam-se: - um b com ab, a: ba, um b com um eb, e: be”. É nesse instante que a criança sai da escuridão e começa a perceber as coisas ao seu redor, por isso ela guarda a imagem da sala de aula e de D. Maria lendo, de forma capenga, um longo romance de quatro volumes. A imagem do professor público que o menino vira quando ainda era bem pequeno não será esquecida, reaparecendo em vários momentos de sua infância.

Manhã
Retomam-se temas do capítulo anterior, ligados à opressão a que é submetido o protagonista. Abre-se especial atenção aos seus avôs, o paterno muito culto e o materno forte, rude, não civilizado. Há destaque para a descrição da natureza do sertão.

Verão
Com a chegada do verão, vem a seca. A Natureza, pois, é descrita como aplacadora, mais um elemento opressor em sua infância, tanto que lhe causa uma sede terrível em certa ocasião. Neste capítulo o pai é apresentado com uma figura explosiva, uma qualidade que o narrador só vai entender muito tempo depois, quando toma consciência das dificuldades econômicas pelas quais o velho passava.

Um Cinturão
Capítulo fortíssimo. O pai, muitas vezes descrito de forma fria como “o homem”, não encontra seu cinturão. Inquire Graciliano, que, assustado, não consegue falar nada. Descarrega sua raiva surrando a criança. “Aliviado”, ao voltar para a rede acaba descobrindo o objeto que tanto procurava. Nota-se que a intenção do agressor é reparar o erro, mas sentimentos devem ter-se misturado, como orgulho, vaidade e medo de perder a autoridade. Talvez um desses elementos, ou todos, justifiquem o fato de o pai hesitar (queria pedir desculpas?) e acabar voltando para a rede e dormir. A conseqüência desse episódio é grave: Graciliano ganha uma desconfiança em relação à justiça dos homens.

Uma Bebedeira
Graciliano e sua família estão fazendo visita. Ganha destaque neste capítulo o incômodo que as roupas de visita provocam na personagem, principalmente os sapatos. Lembra o capítulo “Festa”, de Vidas Secas, do mesmo autor. É relevante também a presença das mulheres da casa visitada, que trarão um bem-estar excessivo, quase erótico, ao menino. Elas é que acabam embebedando-o. O álcool, dominando-o, dá-lhe sensação de poder, fazendo-o ter certas liberdades, desafiando o olhar repressor de sua mãe.

Chegada à Vila
A família de Graciliano larga o campo e se desloca para a vila, descrita como um mundo estranho para o menino. Fica abismado com o ajuntamento de casas, pela falta de espaço e mais ainda quando vê um sobrado, ou, no seu entender, uma casa em cima da outra.

A Vila
Continua a descrição abismada que faz das pessoas e do modo de vida da vila.

Vida Nova
Na Vila, o pai do narrador torna-se comerciante, o que o mergulhará em várias dificuldades. É neste capítulo que o protagonista fala de seu medo de fantasmas, o que o faz dormir num colchãozinho na sala. Dedica-se, nas madrugadas, a prestar atenção ao ruídos dos sapos, que, em sua linguagem, falariam das mesmas opressões que o menino vivencia em sua tosca infância.

Padre João Inácio
Este capítulo dedica-se à descrição do Padre João Inácio, extremamente rude com seus fiéis. No entanto, mostrou-se extremamente dedicado a doentes graves. Torna-se personagem dura, mas admirável. Dessa forma, Graciliano acaba aprendendo que certas pessoas têm em sua rispidez apenas uma casca que envolve um caráter humano.

O Fim do Mundo
Outro capítulo que nos surpreende apresentando uma personagem grosseira mostrando um lado humano. Dessa vez é a mãe do protagonista, que, após ler um texto religioso sobre o fim do mundo, mergulha em um desespero imenso. Abraça-se ao filho e desmancha-se em choro. Incrível é notar como pessoas tão massacradas têm, ainda assim, um apego à existência e ao mundo injusto em que vivem. Neste capítulo a mãe de Graciliano, que era “grande e temerosa”, ficará em estado de choque, demonstrando para o filho uma imensa fraqueza diante de um texto que lia. A mãe, que lia periodicamente um romance de quatro volumes, procura substituir as aventuras romanescas pelos folhetos salesianos que eram distribuídos pelos correios. É nesse entretenimento cotidiano da leitura religiosa que a leitora se depara com algo inusitado, o menino que tudo observava relata a seguinte cena:

Purificando-se nessa boa fonte, minha mãe às vezes necessitava expansão: transmitia-me arroubos e sustos. Uma tarde, reunindo sílabas penosamente, na gemedeira habitual, teve um sobressalto, chegou o rosto no papel. Releu a passagem – e os beiços finos contraíram-se, os olhos abotoados cravaram-se no espelho de cristal. Certamente se inteirava de um sucesso mau e recusava aceitá-lo. (...) A pobre mulher desesperava em silêncio. Apertava as mãos ossudas, inofensivas; o peito magro subia e descia; limitando a mancha vermelha da testa, uma veia engrossava. (...) Afinal minha mãe rebentou em soluços altos, num choro desabalado. Agarrou-me, abraçou-me violentamente, molhou-me de lágrimas. Tentei livrar-me das carícias ásperas. Por que não se aquietava, não me deixava em paz?
A exaltação diminuiu, o pranto correu manso, estancou, e uma vozinha triste confessou-me, entre longos suspiros, que o mundo ia acabar. Estremeci e pedi explicações. Ia acabar. Estava escrito nos desígnios da Providência, trazido regularmente pelo correio”.

Diante dessa situação, a criança duvida do fim do mundo e faz as suas reflexões, o narrador explicita sobre o fato o seguinte parecer: “Não percebendo o mistério das letras, achava difícil que elas se combinassem para narrar a infeliz notícia. Provavelmente minha mãe se tinha equivocado, supondo ver na folha desastres imaginários”5, e , não concordando com tamanho disparate anuncia que era “conversa: o mundo não ia acabar”, a mãe estranha a rebeldia do menino ao afirmar que: “os doutores conheciam as trapalhadas do céu e adivinhavam as conseqüências delas”.

O Inferno
Aqui se revela o ingrediente que serviu de base para o capítulo “Inferno”, de Vidas Secas. Graciliano pergunta à mãe o que é o Inferno. Ao ouvir a explicação dela, faz questionamentos baseados na lógica e na curiosidade. Se os diabos agüentavam o fogo do Inferno e se as pessoas condenadas passavam a eternidade ardendo lá, então, no seu entender infantil, elas transformavam-se em demônios. Além disso, pergunta se a mãe já havia estado no Inferno. Diante da negativa, pergunta então como ela sabia as características do Profundo. Ela responde, então, que se baseava no que haviam dito os padres, homens de muito estudo. A mesma indagação: eles estiveram lá? Diante de mais uma negação, o garoto mostra-se incrédulo diante da existência do Inferno, o que lhe vale uma surra de chinelo. Apanha porque questiona, o que pode ser entendido por desrespeito. Apanha porque a força é o último argumento – falho, por sinal – quando todos os outros não funcionam.

O Moleque José
Descrição de um garoto que trabalhava para o pai do protagonista. Mais pobre, revela, no entanto, superioridade em relação ao narrador, pois tem mais experiência de vida e maior conhecimento de mundo. O capítulo encerra-se com o relato de um episódio em que o pai resolve descarregar sua raiva castigando José. Graciliano, num misto de burrice e sadismo, sentimentos disfarçados na vontade de ajudar na punição, resolve ferir o pé da vítima. O pai, diante de ato tão vergonhoso, pára de bater em José e transfere sua fúria para o filho.

Um Incêndio
Outro capítulo em que aparece o raciocínio lógico contra o religioso. Guiado pelo moleque José, Graciliano vai ver um incêndio que destruiu a moradia de gente pobre. É quando se depara com algo asqueroso: um cadáver carbonizado. Era de uma mulher que havia entrado em sua casa em chamas para salvar um quadro de Nossa Senhora. Não entende como a santa havia permitido que tal acontecesse. Não aceita nem mesmo a alegação de que deveriam ser os desígnios divinos, ou então que agora a vítima estava salva, no Paraíso. Termina a narrativa amaldiçoando a divindade e o moleque José por terem feito provocado tanto mal-estar nele diante de uma cena tão escabrosa.

José da Luz
Autoridade policial da vila, José da Luz proporciona uma excelente experiência para o protagonista. O medo que sente dele transforma-se em amizade, pois é alguém que tem tempo e disposição para conversar com Graciliano, sem intenção de massacre ou humilhação. É, pois, quem o aproxima da espécie humana.

Leitura
O pai de Graciliano convence-o (numa forma que o deixa desconfiado, pois usa um discurso manso) a se alfabetizar, alegando que isso iria permitir com que tomasse posse de uma arma poderosíssima. Num primeiro instante, o narrador mostra-se incrédulo. Mas a descrença é rapidamente substituída pela angústia, pois a aprendizagem é feita de forma dolorosa, violenta e sufocante, pois não respeita o ritmo e o universo cultural do menino. Mas é apenas o início de uma longa agonia. Encontramos aqui a representação da experiência vivida pelo menino que passa pelo processo da alfabetização de forma dolorosa. O menino narra com clareza o seguinte acontecimento:

Demorei a atenção nuns cadernos de capa enfeitada por três faixas verticais, borrões, nódoas cobertas de riscos semelhantes aos dos jornais e dos livros. Tive a idéia infeliz de abrir um desses folhetos, percorri as páginas amarelas, de papel ordinário. Meu pai tentou avivar-me a curiosidade valorizando com energia as linhas mal impressas, falhadas, antipáticas. Afirmou que as pessoas familiarizadas com elas dispunham de armas terríveis. Isto me pareceu absurdo: os traços insignificantes não tinham feição perigosa de armas. Ouvi os louvores, incrédulo.
Aí meu pai me perguntou se eu não desejava inteirar-me daquelas maravilhas, tornar-me um sujeito sabido como Padre João Inácio e o advogado Bento Américo. Respondi que não. Padre João Inácio me fazia medo, e o advogado Bento Américo, notável na opinião do júri, residia longe da vila e não me interessava. Meu pai insistiu em considerar esses dois homens como padrões e relacionou-os com as cartilhas da prateleira. Largou pela segunda vez a interrogação pérfida. Não me sentia propenso a adivinhar os sinais pretos do papel amarelo?

O pai, como mostra o episódio, tenta despertar a curiosidade do menino para “as linhas mal impressas, falhadas, antipáticas”. O narrador não deixa de colocar em destaque que desconfiava da “liberdade” concedida pelo pai, principalmente por se tratar de uma pessoa “terrivelmente poderosa”, pois no ambiente familiar não existia o diálogo e liberdade para escolhas, prevalecendo sempre o autoritarismo patriarcal. O menino já sabia que coisa boa não viria daquilo.

Escola
A agonia de Graciliano aumenta na escola, onde continuará seu problemático processo de alfabetização. Há aqui, assim como nos capítulos seguintes, uma crítica moderníssima ao sistema educacional: como ensinar eficientemente, se o que é apresentado aos alunos está muito distante da realidade deles. Esse elemento fica claramente representado na forma “ter-te-ão”, pedra que aparece no caminho do protagonista. Fica pasmo diante de uma palavra que não tem noção do que seja. O mais absurdo é que nem sua professora sabe do que se trata.

O ensino da cartilha, através de várias punições, provoca na criança medo, deixa marcas profundas no indivíduo que, na maioria das vezes, não consegue superar os seus traumas. O sujeito adulto explicita, através da narrativa, a sua incapacidade de superar os traumas da infância ao admitir que sentia dificuldade em lidar com as duas letras: t, d e com qualquer tipo de atitude que denotasse violência.

D. Maria
Capítulo dedicado à descrição da primeira professora de Graciliano, mulher limitada em seus conhecimentos, mas que, com seu jeito meigo, atencioso e compreensivo, perdoando os erros dos alunos, acaba tornando-se um oásis no difícil processo de aprendizagem do protagonista.

O Barão de Macaúbas
Vencida, a muito custo, a primeira fase de alfabetização, Graciliano passa para um novo estágio, em que tem de mexer com um livro de leitura do Barão de Macaúbas. Este capítulo contém fortes críticas à ineficiência e inadequação dos métodos de ensino. Há também um saboroso ataque à literatura em voga, dotada de uma linguagem rebuscada, como um cipoal no qual o leitor-menino acabava se enroscando e sofrendo cada vez mais. É impagável o seguinte trecho, excelente resumo do que está sendo exposto: “e a mosca usava adjetivos colhidos no dicionário” (é sabido que o estilo de Graciliano Ramos é extremamente enxuto, seco, econômico. Dessa forma, o rebuscamento de linguagem de suas primeiras leituras é o extremo oposto do seu fazer literário. É também interessante lembrar que o estilo a que se dirige a crítica provavelmente deve ter sido influenciado pela escola literária que fazia sucesso na passagem dos séculos XIX para o XX, momento em que o autor estava no colégio: Parnasianismo).

Meu Avô
Este capítulo apresenta o avô da personagem dedicando-se a ajudar na alfabetização de Graciliano. No entanto, realiza seu trabalho de uma forma toda torta, pois sua rispidez traumatiza mais ainda a criança. Aliás, torta é a relação entre os dois, pois mistura elementos díspares. Sua rispidez é a maneira de ser afetivo. Seu incentivo à leitura vai por um processo desincentivador.

Cegueira
Momento doloroso na vida de Graciliano. Acometido por uma doença que inchava seus olhos, inflamando-os, ficava impossibilitado de enxergar. Cego, mergulhado em dores terríveis, acaba por ficar preso a seu quarto. Introspectivo, recorda o apelido com o qual era chamado até por sua própria mãe: cabra-cega. Não fica irritado com o nome em si, mas com o que essa palavra fazia lembra, pois era usada em uma trova infantil que terminava com obscenidade. E ao recordar essa alcunha, lembrava a outra que sua mãe usava (é incrível a sinceridade ríspida com que a mãe de Graciliano se dirigia a ele. Mas isso não se restringia aos apelidos. Não escondia a impaciência e, muitas vezes, asco com relação à doença do filho), bezerro-encourado, pois as roupas que o menino usavam não tinham caimento perfeito nele, ficando sempre folgadas. Mais uma vez, fica chateado com as conotações, pois tal bezerro era empurrado para a vaca. Estabelecia-se, pois, referência ao fato de Graciliano não ser aceito por sua mãe, de ser um enjeitado. Seu alívio surge quando, no clímax do desamparo em meio à escuridão da cegueira, desperta, graças às cantigas folclóricas que ouve de sua mãe durante as lidas domésticas, uma atenção e uma paixão pelas palavras. Começa a nascer o escritor.

Chico Brabo
Mais aprendizados o protagonista vai ter em relação ao caráter humano, dessa vez proporcionados por um seu vizinho, Chico Brabo. Socialmente, na rua, era uma pessoa de extrema amabilidade. No entanto, uma outra personalidade era revelada quando essa gentil personagem se fechava em sua casa. Na escuridão de sua cegueira, Graciliano de forma angustiada podia ouvir os gritos de Chico Brabo e, muitas vezes, a surra que dava no seu empregado, um garoto chamado João. Além disso, chama a atenção a estranha relação que se estabelecia entre opressor e oprimido, como se um fosse necessário ao outro. Havia o conflito, as pancadas surdas e depois tudo voltava ao normal, como se nada tivesse acontecido – Chico amável, João brincalhão.

José Leonardo
Descrição de uma personagem que se destoa da galeria apresentada até aqui. Basta lembrar que é comparada a um relógio, pois é justo, calmo, equilibrado, limpo. É um ser que até poderia ser considerado progressista em relação aos demais.

Minha Irmã Natural
Este capítulo serve para amesquinhar o caráter do pai de Graciliano. Em primeiro lugar, o velho sente-se diminuído por ter espalhado poucos filhos no mundo, limitado que era por sua condição econômica. Era como se o seu papel de macho fosse reduzido. E dentro desses poucos relacionamentos anteriores ao casamento havia nascido a irmã natural do autor, sempre tratada de forma distante e respeitosa pelos demais familiares. Até o momento em que a menina iniciou namoro. Ganha ferrenha oposição do pai, mas está apaixonada. Foge de casa para se unir ao seu amor. O narrador deixa subentendida a idéia de que fora a saída de que o pai mais tinha gostado, pois poupava-o das despesas matrimoniais.

Antônio Vale
Este capítulo tematiza as dificuldades que o pai do protagonista tem em relação ao comércio, pois algumas mercadorias não vendem muito, outras estão micadas, além de haver o problema dos clientes caloteiros. Destaque é dado a Antônio Vale, homem com fama de não pagar suas dívidas, mas com quem o pai do narrador estabelece negócio. Diante do atraso do pagamento, o comerciante mergulha na agonia, maldizendo o sujeito com quem estabeleceu transação. A situação piora quando tem conhecimento de que o homem está para partir. Mas ocorre um anticlímax humilhante: Antônio Vale surge apenas para cumprir a sua palavra e pagar seus débitos.

Mudança
Diante da enorme dificuldade financeira, o pai do narrador desiste de ser comerciante, abandona a vila e volta para Viçosa, tentar ser novamente agricultor.

Adelaide
Graciliano volta à escola, agora de D. Maria do O, personagem que, assim como sua família, servirá para o narrador descarregar um surpreendente racismo. É neste capítulo que se apresenta a prima Adelaide. Quase órfã, pois fora “abandonada” por sua família à instituição educacional, é humilhada pela professora e suas parentas, que jogam a menina em serviços domésticos, sem nem mesmo levarem em conta as amplas e fartas contribuições que os pais da garota dedicam ao colégio.

Um Enterro
Graciliano, na ocasião do enterro de um coleguinha, visita pela primeira vez um cemitério. Tudo para ele e seus companheiros é motivo de festa. Esquecem até que aquele ambiente povoava as histórias de assombração. Talvez isso se explique por essas narrativas passarem-se à noite, enquanto eles o adentravam durante o dia. No entanto, uma mudança drástica se processa. O narrador afasta-se do grupo e pára num lugar em que eram depositados ossos. É uma experiência terrível, pois acaba se tocando do futuro de todo ser humano. Desperta-se na personagem um pesado sentimento niilista.

Um Novo Professor
Graciliano muda de novo de escola. E mais uma vez derrama racismo, só que agora discreto. Seu novo professor é um mulato caracterizado como “pachola” e dotado de trejeitos afeminados. Gasta horas diante de um espelho, numa crise de vaidade terrível. Se está contente com seu cabelo, que temporariamente se mostra domado, tem um desempenho paciente como professor. Mas quando não está contente com as melenas ou com o tom da pele, torna-se extremamente rígido. No entanto, o elemento mais ácido está no irmão do professor, que um dia surgiu num desabafo, aparentemente para as paredes, de que tinha um lugar na sociedade. Provavelmente fora desrespeitado. Fica nas entrelinhas a idéia de que ele, o irmão, assim como Maria do O, eram personagens que lutavam por um espaço num meio preconceituoso, que empurrava os negros para a miséria e a marginalização.

Um Intervalo
Este capítulo é de fato um “intermezzo”. Graciliano realiza uma tentativa eclesiástica, servindo de coroinha. Mas seu desempenho é um desastre, o que o afasta dessas atividades. No entanto, ganha amizade com as mulheres ligadas a esse meio, o que gera um certo alívio a seu cotidiano tão massacrante.

Os Astrônomos
Num rasgo de bondade, o pai de Graciliano começou a acompanhá-lo na leitura de um livro. O menino fazia essa tarefa aos tropeços, mas tinha um apoio, algo de que acabou gostando. Mas a generosidade era apenas fase. De cabeça quente com os negócios, não mais se interessou no brinquedo do menino, deixando-o frustrado. Pede a ajuda, pouco depois, a sua parenta Emília, que questiona por que não fazia a tarefa sozinho. Incentiva-o, pois, nesse desafio, dizendo que a leitura era uma coisa maravilhosa. Usa até uma metáfora que o garoto acha exagerada: os astrônomos são capazes de ler maravilhas no céu. Mesmo discordando da imagem (a figura de linguagem estava muito acima da capacidade intelectual do protagonista), entrega-se à tarefa, que se vai revelando suadamente prazerosa. Mas, ao contrário dos astrônomos, vai-se dedicar a textos em que consiga se identificar, como atesta o final do capítulo: Os astrônomos eram formidáveis. Eu, pobre de mim, não desvendaria os segredos do céu. Preso à terra, sensibilizar-me-ia com histórias tristes, em que há homens perseguidos, mulheres e crianças abandonadas, escuridão e animais ferozes.

Samuel Smiles
Mais um passo importantíssimo. Graciliano tem agora um novo professor, homem que demonstra autoridade por ter domínio de conhecimento. Tanto que corrige a leitura do protagonista quando lê a palavra “Smiles”. Apesar de “smailes” ir contra todo o conjunto de valores do menino, a segurança, a firmeza da retificação foi argumento eficiente. Tanto que quando lê essa palavra diante dos trabalhadores do seu pai, não se importa mais com as risadas deles. Antes o afetavam. Agora, tem a convicção do conhecimento, da sabedoria. Eles é que estavam errados, nas trevas da ignorância. Está protegido.

O Menino da Mata e o seu Cão Piloto
O menino supera as dificuldades e vê na leitura um prazer. Graciliano dedica-se à leitura de um livro, “O Menino da Mata e o seu Cão Piloto”, apesar da crítica depreciativa de Emília, que se baseou apenas no fato de o autor da obra ser protestante. Por um instante o narrador balança em seu desejo de conhecer a obra, mas no fundo sente não haver lógica em tal critério. Dedica-se ao volume, mas sai frustrado, pois as personagens morrem. Não houve compensação da dor da vida que levava. Pelo contrário, ocorreu aguçamento. Por isso chora.

A leitura do livro é impulsionada pela terrível proibição, relativa à brochura de capa amarela, o objeto proibido desperta curiosidade na criança que resolve decifrar os enigmas do livro amarelo com a ajuda dos dicionários. O narrador descreve a descoberta e o prazer que a leitura provoca: Arranjava-me lentamente, procurando as definições de quase todas as palavras, como quem decifra uma língua desconhecida. O trabalho era penoso, mas a história me prendia, talvez por tratar de uma criança abandonada. Sempre tive inclinação para as crianças abandonadas. A leitura, que se transformou em um exercício de prazer e de descoberta, é ameaçada pela culpa e pelas proibições da prima Emília, que apontava o folheto como obra de protestantes e sugestão do diabo.

Fernando
Este capítulo apresenta uma personagem protegida do coronelismo que existia na região: Fernando. Por causa disso, dedica-se a inúmeras maldades e crimes, até mesmo abusando sexualmente de várias mulheres. Um tipo que, já no aspecto físico, dava medo nas pessoas, com o "olho duro", a "voz áspera", grosseirão, "o ar de insuficiência e impostura", os modos, e tantas outras coisas negativas que deixaram uma das recordações mais desagradáveis em Graciliano. Sim, não sorria. Mas além do aspecto físico, Fernando era um homem mau. Valendo-se do parentesco com o manda-chuva do lugar, fazia as piores maldades, entre elas a de desvirginar moças humildes que depois se prostituíam. Na percepção do menino Graciliano, não havia mais ninguém tão mau no mundo. E quando leu em um "dicionário encarnado" que Nero tinha sido o maior dos monstros, duvidou: maior do que Fernando? Mas Nero nunca lhe havia feito mal, ao contrário de Fernando, que o atormentava. Torna-se, aos olhos do narrador, o monstro, o vilão. Mas é alguém que vai proporcionar ao garoto mais uma experiência sobre o caráter humano. Houve um momento em que haviam desmontado um caixote. O vilão acaba dando uma bronca nos trabalhadores, porque estes haviam deixado várias tábuas no chão e uma delas podia, com seus pregos expostos, ferir o pé de uma criança desavisada.

Jerônimo Barreto
Graciliano havia esgotado seu diminuto universo de leituras. Como aumentá-lo? É aconselhado a pedir ajuda a Jerônimo Barreto, dono de uma vasta biblioteca. É tocante a humildade com que, com estranha desenvoltura, o menino faz seu pedido. É tocante também o cuidado que tem com o livro (o primeiro volume fora O Guarani, de José de Alencar), embrulhando a capa em papel, tomando cuidado até para não amassar as páginas. E o resultado também é tocante: o universo cultural do garoto vai ser imensamente ampliado. Tanto que leva vantagem na escola. Sempre tinha notas mais baixas nas provas, pelas já conhecidas dificuldades em relação ao estudo, enquanto os outros alunos se destacavam. No entanto, esses decoravam informações que após a prova eram esquecidas. Um dia, o professor aplicou uma prova surpresa e o pouco que Graciliano conhecia tornou-se muito em relação aos outros alunos. Poderia ser um conhecimento que não se encaixava integralmente ao currículo, mas era algo que impunha respeito. O protagonista já estava, pois, derrubando seus obstáculos, graças à leitura.

Venta-Romba
Este capítulo é irmão de “Um Cinturão”. Nele, ficamos sabendo que o pai de Graciliano Ramos havia sido escolhido para juiz substituto. Torna-se, portanto, uma autoridade. Em certo dia, um mendigo, Venta-Romba, entra inadvertidamente na casa do protagonista, chega até a sala para pedir esmola. Causa tumulto. A mãe rispidamente pede para que ele se retire. O pobre fica atrapalhado, sem reação, estático. Foi pior, pois aquilo foi interpretado como uma afronta. Imediatamente chega o pai, com um soldado, determinando a prisão do invasor. A pífia figura apenas pergunta o porquê de o doutor estar fazendo aquilo, o porquê de estar sendo preso. Mal-estar. Mas não havia como voltar atrás. Tinha que se demonstrar autoridade. E o coitado foi levado para a prisão. A partir desse episódio, aumentou a desconfiança do protagonista nas autoridades e na justiça. E também foi a partir daí que se tornou um filho desafiador e desrespeitador.

Mário Venâncio
Outro passo importantíssimo para a libertação de Graciliano. Graças à influência de Mário Venâncio, entra para uma sociedade teatral. Cria-se uma escola dramática. Além disso, faz parte de um jornal literário, o Dilúculo. Esse termo, que significa “alvorada”, lembra as palavras-jóias do Parnasianismo. E de fato a linguagem dos demais redatores é por demais rebuscada, decepcionando o narrador. Era o que estava na moda na época, o que o fazia sentir vergonha de não gostar dela, muito menos dos textos e dos temas várias vezes abordados. Mas intui que está com a razão. Traz imbuídas as mudanças modernistas. Nasce, aqui, o escritor.

Seu Ramiro
Como juiz substituto, o pai de Graciliano sente-se na obrigação de hospedar constantemente pessoas. Uma delas, no seu raciocínio pragmático, poderia trazer-lhe dividendos políticos e econômicos. É por causa disso que acaba conhecendo Seu Ribeiro, homem que inspirava autoridade e que viera para implantar uma sede maçônica em Viçosa. Até o pai embarca nessa empreitada. Mas decepciona-se, muito provavelmente porque o sujeito desaparecera, devendo ao comerciante uma considerável soma em dinheiro.

A Criança Infeliz
Este capítulo conta a apresentação de uma personagem que consegue ser mais desgraçada que o narrador. Ninguém lhe tem respeito, nem mesmo sua família. Seu pai o espancava constantemente, sob a alegação de que não prestava. Na escola, era isolado e quem se aproximava dele era execrado. Até o professor se dirigia a ele de maneira claramente ofensiva. O motivo para tamanha aversão não fica claro. Apenas algo fica no ar, quando se diz que os garotos mais velhos é que se comunicavam com ele e por meio de um código secreto. E, como produto de todo esse meio massacrante, acaba por se tornar um bandido da pior espécie e dono da várias mulheres. É na casa de uma delas que termina por ser assassinado pelos seus inimigos.

Laura
Laura é o nome da famosíssima musa de Petrarca, o que cria toda a imagem da mulher como um ser puro e sublime. Coincidência ou não, esse é o nome da paixão que Graciliano vai ter na escola. E ela marca as mudanças que o próprio protagonista sente em seu corpo. Esta crescendo. O ponto mais interessante é sua iniciação sexual, meio atrapalhada, com Otília. Deixa de lado aquela idealização provocada pela figura de Laura. Tanto que o livro O Cortiço, que tinha escondido por detrás de sua prateleira, depois de conhecido os caminhos da carne, é retirado de sua reclusão e posto à frente. Já não está mais na infância.

Créditos parciais: Ilca Vieira de Oliveira, Dra. Literatura Comparada (UFMG) e professora de Teoria da Literatura e Literaturas de Língua Portuguesa no Departamento de Letras da Universidade Estadual de Montes Claros.

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